Discurso do Rio Cefiso

arc(Na Instalação da Academia de Letras de Itabuna)

Aramis Ribeiro Costa

Senhores Fundadores da Academia de Letras de Itabuna:

Precisaríamos ir muito longe, uma excursão no espaço e no tempo, para encontrarmos as vertentes históricas desta solenidade que nos reúne para a fundação de uma nova academia de letras. Teríamos, antes de tudo, de percorrer vagarosamente os jardins que abrigavam o túmulo do herói ático Academo, às margens do Rio Cefiso, próximo de Atenas, nos quais Platão dialogava com seus peripatéticos discípulos, a perquirir questões do saber, nas tardes ensolaradas da Grécia esplêndida. E depois, quase quatro séculos atrás, transportando-nos de um momento luminoso da humanidade a outro, visitar a academia de Richelieu, nos tempos gloriosos da França de Luís XIII.

Não era a primeira academia dos tempos modernos. O poderoso cardeal e primeiro-ministro, com sua Académie Française, praticamente dava continuidade a duas outras, ambas criadas em Paris: a Académie de Poésie et de Musique, em 1570, e a Académie du Palais, em 1576, esta última para cuidar da língua e da literatura francesas. E houvera também, na Itália, entre 1582 e 1583, certa Accademia della Crusca, instituída por cinco florentinos para proteger e purificar o idioma italiano. Mas a iniciativa do Cardeal de Richelieu em 1635 seria tão importante e tão prestigiosa que passaria a inspirar as demais academias de letras, sempre com o objetivo de cultuar a língua e a literatura, além de definir o vocabulário.

Só após essas duas visitas, à Grécia de Platão e à França de Richelieu, é que voltaríamos ao Brasil, onde a inspiração da Académie Française foi decisiva para o sodalício que Machado, o admirável Bruxo do Cosme Velho, fundaria com seus ilustres pares no ofício de escrever e amar a cultura.

Era no apagar das luzes do século XIX, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, porém capital da República e referência cultural da nação brasileira. Fundada em 1897, quando a humanidade jamais poderia vislumbrar, nem mesmo com a exorbitante imaginação de um Jules Verne, os maravilhosos avanços da ciência e da tecnologia do século seguinte, a Academia Brasileira de Letras, longe de apagar-se no obsoletismo e no desprestígio, cresceu em importância e consideração, a ponto de tornar-se um objetivo glorioso dos que aspiram à imortalidade literária no Brasil.

Como na França a Académie Française, entretanto, não foi a ilustre Academia Brasileira a primeira a ser instituída em nosso país. Esse privilégio coube à Bahia. Chamou-se Academia Brasílica dos Esquecidos, e foi fundada em Salvador, em 7 de março de 1724, reunindo quarenta e quatro poetas e prosadores, uma iniciativa do vice-rei dom Vasco Fernandes César de Meneses, Conde de Sabugosa. A esta se seguiram a Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, em 1736, e a Academia dos Renascidos, outra vez em Salvador, em 1759, agora com quarenta acadêmicos, no modelo da Académie Française. Todas de vida curta. Como de vida curta, curtíssima, foi certa Academia Baiana de Letras, agremiação literária formada por vinte e cinco jovens escritores em nosso estado, pouco antes da fundação da Academia de Letras da Bahia.

A data de fundação da Academia de Letras da Bahia, 7 de março de 1917, não foi um acaso, porém propositadamente escolhida para lembrar a Academia Brasílica dos Esquecidos. Isso levou o quase perpétuo presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, que via na concordância das datas de fundação um propósito de continuidade, a nos recomendar que inscrevêssemos no brasão de nosso sodalício: “Primeira Academia de Letras do Brasil”. Não o fizemos, não o faríamos, preferindo a recomendação histórica e altamente louvável de nossos fundadores: “Servir à Pátria honrando as Letras”. E não fazemos mal, quando também honramos a Pátria, servindo às letras.

É justamente o que me parece tenham se transformado as modernas academias de letras, a começar pela nossa, a Academia de Letras da Bahia, uma instituição permanentemente a serviço das letras. A velha concepção de uma agremiação fechada, a reunir quase secretamente quarenta idosos acadêmicos, que entre um gole de chá e uma fatia de bolo discutem a chave de um soneto, ficou definitivamente no passado, se é que, em algum lugar e em alguma época, alguma academia de homens de letras tenha se resumido a tão inúteis reuniões. O fato é que, hoje, não se pode conceber uma academia de letras que não seja um núcleo disseminador de cultura, aberto ao público e muitas vezes voltado para esse público.

A Academia de Letras da Bahia possui uma intensa programação cultural, e por que não dizer educativa, que abrange cursos, seminários, colóquios e encontros de literatura, concursos literários, publicações, exposições, palestras, conferências, lançamentos de livros, além das atividades acadêmicas, como sessões ordinárias, reuniões de diretoria, eleições de novos membros, posses, sessões de saudade, comemorações de centenários e outras sessões especiais comemorativas. A nossa biblioteca, cada vez mais especializada no livro baiano, e nosso arquivo, que guarda a memória da instituição e de seus membros, encontram-se permanentemente à disposição dos pesquisadores, além de atuarem em programas educativos e re-socializantes, por meio do sistema de estágios com orientação e fiscalização de nossos funcionários. Nosso site e nossa sala de informática nos colocam na linha de frente na informação da cultura e na pesquisa.

Entendemos que já não cabem, e principalmente não cabem em nossa realidade baiana contemporânea, instituições culturais isoladas, que as iniciativas culturais se fortalecem com as parcerias, e hoje temos, na Academia de Letras da Bahia, parceiros importantes para as nossas realizações, como a Secretaria de Cultura da Bahia, a Fundação Pedro Calmon, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, a Fundação Casa de Jorge Amado, a Universidade Federal da Bahia, a Universidade Estadual da Bahia, a Universidade Estadual de Feira de Santana, a Brasken, a Eletrogóes, e o Goethe Institut.

Então, senhores fundadores da Academia de Letras de Itabuna, o que fazeis nesta noite solene, e esperamos todos que de fato assim seja, é inaugurar não uma agremiação reservada aos seus eleitos, mas instituir, por meio de vosso compromisso acadêmico, um poderoso instrumento de disseminação das letras, da literatura e da cultura em seu sentido mais amplo, a favorecer não apenas a vossa encantadora cidade de Itabuna, mas toda a vossa ampla, bela e fecunda Região do Cacau, a beneficiar a própria Bahia e o próprio Brasil, já tão enriquecidos ambos por vossa preciosíssima literatura.

A vossa academia — se me permitis, a nossa academia, já que me concedeis o privilégio e a honra de me tornar vosso membro correspondente — herda a tradição de uma literatura poderosa, tão poderosa que valeria, ela isolada, por toda uma literatura nacional. Bem mais que pelo poder econômico do cacau, tantas vezes assolado pela devastadora praga da vassoura-de-bruxa, terá sido a força impressionante e a excepcional qualidade da vossa literatura a inspirar Adonias a proclamar estas terras sul-baianas de Nação Grapiúna. Cedesse eu, neste momento, à tentação de citar, um por um, todos os grandes escritores e poetas, mortos e vivos, que nasceram nestas terras cacaueiras do Sul da Bahia, os chamados grapiúnas, e certamente transformaria estas breves palavras de abertura de vossa solenidade, numa interminável proclamação de nomes notáveis. Permiti-me, entretanto, citar apenas quatro dos que partiram e jamais partirão, e que se encontram entre os patronos desta nova academia: o próprio Adonias Filho, Jorge Amado, Sosígenes Costa e Jorge Medauar. Por meio deles, homenageio todos os outros, inclusive e principalmente os que estão vivos e produtivos, a nos surpreender a cada instante com o vigor do seu talento. Permiti também, e eu o reivindico como um favor pessoal, que eu agradeça à minha editora e amiga Maria Luiza Nora, e ao meu amigo e confrade, poeta e escritor Cyro de Mattos, e por extensão a todos vós por vossa generosa concordância, o privilégio do título que esta noite me é concedido.

Ditas estas palavras, só me resta vos desejar que vosso Rio Cachoeira vos inspire, como inspirava o Rio Cefiso a Platão e seus discípulos, e que possais realizar com vossa academia, com nossa academia, todos os altos desígnios que honram a vossa tradição literária.

About these ads

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s