Mulher na fonte

hpHélio Pólvora

Eu estava nesses pensamentos, esfregando roupa, quando ouvi o chão ressoar. Um rumor distante de passos, que identifiquei mesmo não sendo índia, mas quem nasce e se cria no Vale traz no sangue o sexto sentido de seus antepassados índios. Vinha alguém pelo caminho — caminho seco, de terra bem socada, onde pisadas fortes de homem reboavam. E então, antes que ele entrasse no meu ermo, aquele ermo mais íntimo que me envolvia, eu, sem mudar de atitude corporal, me dissimulei toda. Estava sentada na tábua de bater roupa, que mergulhava na água azulada da fonte, sobre as pernas dobradas, e inclinava o busto pra frente, naquele movimento de idas e vindas que fazem as lavadeiras ao esfregar e enxaguar. O movimento prosseguiu sem interrupção, as pernas pararam de doer, nenhum músculo mexeu na tentativa de acomodar melhor o corpo ou dar-lhe aparência mais apetecível. Só mesmo o ermo, apenas o ermo, que tudo sabe e tudo vê e tudo inventa, foi capaz de perceber o rápido movimento da mão direita — e num segundo a saia que revelava metade das coxas estava baixada e entalada entre as pernas, de forma a nada mostrar além dos joelhos.

Esse gesto de entalar a saia entre as coxas é significativo de pudor. A mulher que, vendo-se observada por homens, não o faz, é porque consente em ser abordada e talvez molestada. De modo que, quando o homem, porque era um homem, conforme eu tinha previsto, rompeu o círculo do meu ermo, me encontrou assim, entregue à minha faina de lavadeira e com a saia entalada. Viu-me e se surpreendeu.

Talvez eu fosse nova pra ele, ali. Talvez me visse na fonte pela primeira vez, e parasse, então, pra indagar quem eu seria, de onde viera. E como estava intrigado, e eu lhe oferecia, na minha juventude, uma visão de esplendor no ermo estéril — também ele se pôs a disfarçar. Sabendo que eu o tinha pressentido, mas fingindo ignorar isso, retirou o facão que lhe pendia do cinto largo e, de lâmina refulgindo no ar, se pôs a cortar mato e a podar cacaueiros próximos. Dava a impressão de já estar ali, em meio a uma tarefa, quando eu cheguei com a gamela de roupa. Prosseguia, portanto, no seu trabalho, com toda a naturalidade. Se havia intruso no ermo esse intruso seria eu, não ele — e eu é que deveria me surpreender, caso ele fosse um fauno ou desejasse imitar um fauno. O facão subia e cortava, e entre um golpe e outro o homem me olhava. Estava de chapéu de couro, à semelhança desses que vaqueiros usam, e, na sua faina repentina, se aproximava aos poucos da fonte. Calculei o restante da roupa a enxaguar e concluí que ele estaria próximo quando eu terminasse. Então nos falaríamos. Com certeza ele ia querer falar comigo. São assim os homens, cheios de rodeios, mas de olhos postos na presa.

E, de fato, aconteceu daquela maneira. Chegou o momento em que, sentada e de pernas dobradas, com as dores subindo pelos tendões, eu fui obrigada a me levantar, tendo, no entanto, o cuidado de manter entalada a saia entre as coxas, não fosse ele tirar conclusões erradas. Desprezei o coradouro apontado pela xexelenta e, arrumando a roupa na gamela, que agora tinha o dobro ou o triplo do peso, me preparei pra subir a ladeira.

Foi quando o homem falou.

— Boa-tarde, dona.

— Boa-tarde.

— Quer que ajude?

— Estou habituada.

— Posso levar a gamela com a roupa.

— Eu também.

Parou, surpreso, como que a me estudar.

— Você é nova aqui, pois não?

— É verdade.

— Chegou quando?

— Uns dias atrás.

— E está aonde?

— Na casa do Surdo.

— Ah, sei — ele disse. — Então deve ser a mulher de Jonas.

— Acertou.

E comecei a andar.

O homem ficou indeciso. Cuspiu nas folhas secas, tirou o chapéu e cobriu-se de novo. Depois, avançou atrás de mim, em passadas curtas, na intenção de não me alcançar, deixando entre ele e eu o espaço exigido por enquanto pelo decoro. Ouvi-o murmurar, atrás: “A mulher de Jonas”. E riu. A noite já começava a tombar e Jonas, preocupado, fora ao meu encontro. Descia a ladeira quando nos encontramos.

Tomou-me a gamela e viu o homem a poucos passos.

— O que ele queria? — perguntou.

— Não sei.

— Faltou com o respeito?

— Não.

Entramos calados em casa.

(Trecho do romance Inúteis Luas Obscenas, a sair em 2010)

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Os que podem ver mais alto

refRuy Espinheira Filho

Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura.

Dizia, entre outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma construção. Em outras palavras: ausente o espírito crítico, passa a valer tudo – inclusive as empulhações do nosso tempo, como a promoção da subliteratura, o horror musical, a infâmia generalizada na área das artes plásticas etc. E, dias depois, li um livro que me iluminou particularmente quanto a tais questões: A literatura e os deuses, de Roberto Calasso.

Como escrevi, a falta de crítica (portanto, de uma educação bem fundamentada) impede, entre outras coisas, uma clara visão da cultura e da arte. Ficamos meio cegos, incapazes de perceber seja o que for acima da mediocridade. E aqui entra o livro a que me referi, abordando episódio contado por Apolônio de Rodes sobre os argonautas.

Então eles, os heróis, chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer. Estenderam-se na praia para descansar – e eis que surge o deus Apolo: “Áureos cachos flutuavam, enquanto avançava; na mão esquerda segurava um arco de prata, às costas levava uma aljava; e, sob os seus pés, toda a ilha fremia, e as ondas se agigantavam na praia.” Quando o deus se vai, voando sobre o oceano, os heróis, por sugestão de Orfeu, consagram-lhe a ilha e oferecem-lhe um sacrifício.

Comenta Calasso: “Todos têm a mesma visão, todos sentem idêntico terror, todos colaboram na construção do santuário.

Mas o que ocorre se não existem argonautas, se não existem mais testemunhas de tal experiência?” Os heróis puderam ver Apolo porque tinham seus espíritos preparados para o que está além do terrestre e imediato. Apolo é o patrono das artes, o deus da inspiração, entre outras coisas. Em terra de gente que lê sem ler, que ouve sem ouvir, que vê sem ver, ele costuma permanecer invisível. Como no Brasil, cujos gestores e políticos promovem apenas o entretenimento vazio, relegando ao ostracismo a Educação e as Artes – temerosos de que o eleitor venha a ser um dia capaz de olhares altos e lúcidos como os dos argonautas…