Mulheres e Peixes – Uma homenagem a Xavier Marques

Em evento de homenagem ao imortal Xavier Marques no dia 26/05/2010, a Academia de Letras da Bahia recebeu a visita do Exército Brasileiro (6a. Região Militar) que se apresentou executando o Hino Nacional e também música instrumental – Memória a Xavier Marques – composta pelo neto do imortal, o maestro Celso Xavier Marques.

A parceria do evento foi realizada com a Fundação Pedro Calmon sob o Seminário Novas Letras. As palestrantes foram as professoras Gal Meirelles, Rosana Patrício e Denise Gomes Dias.

Durante a ocasião foi lançado o livro Jana e Joel de Xavier Marques da Fundação Pedro Calmon e UEFS Editora. O evento ainda contou com o apoio da Secretaria de Cultura do Governo da Bahia.

Mulheres e Peixes - Uma homenagem a Xavier Marques

Salvador, Jorge Amado, Myriam Fraga,…, no Jornal Hoje

Na edição deste sábado, 22/05/2010, o Jornal Hoje (Rede Globo) mostrou a Salvador que inspirou o escritor e acadêmico da ALB Jorge Amado. Ao final a escritora e também acadêmica da ALB Myrian Fraga comenta.

A cidade de Salvador inspirou o escritor Jorge Amado em muitas de suas obras. Algumas viraram sucesso também na TV e no cinema. No filme, “A morte de Quincas Berro d´água”, o pelourinho foi um dos principais cenários.

A velha São Salvador ganhou fama internacional em 32 livros publicados por Jorge Amado. A obra do escritor baiano foi editada em 55 países. Virou filme, como “Gabriela cravo e canela”. Nos romances de Jorge Amado, muitos cenários de Salvador foram eternizados. Assista ao vídeo.

Encontros Literários #7

“Encontros Literários na ALB” é uma atividade do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia. Tratam-se de bate-papos com escritores, com leitura e discussão de textos previamente selecionados, objetivando a aproximação do público leitor com autores baianos, no oferecimento de uma visão panorâmica de nossa literatura atual.

Nesta ocasião da sétima edição deste evento sob a coordenação do acadêmico Carlos Ribeiro, apresentaram-se a escritora convidada Álex Leilla e o escritor e acadêmico da ALB Aleilton Fonseca. Os comentários foram de Mirella Márcia e Rosel Soares.

Também foi realizado o pré lançamento do novo livro do acadêmico Aleilton Fonseca. “A mulher dos sonhos e outras histórias de humor” da editora Via Litterarum.

Encontros Literários na ALB #7 from direitodopovo on Vimeo.

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Ventos que chegam e se vão

wfoWaldir Freitas Oliveira

Por que escrever ainda mais sobre o vento? Talvez por estar ele sempre ligado a todos os que, de mais ou menos perto, viveram ou ainda vivem sentindo, em torno de si, a natureza.

Encarcerados, este é o termo, em apartamentos grandes ou pequenos, o homem comum das cidades  dos nossos dias, procura ignorá-lo – dele se protege e chega a considerá-lo um  intruso em seu cotidiano. Incomoda-lhe o barulho que faz, a assobiar quando se esgueira pelas frestas das janelas ou lhes força as vidraças; e tenta impedir-lhe, de todos os jeitos, a entrada em suas casas, casulos de pedra e cal por ele escolhidos como moradas. Não abandona, contudo, a vontade de senti-lo, quando, quase sempre com grande sacrifício, consegue adquirir um refúgio que irá, pomposamente, intitular de “casa de campo” ou “casa de praia”, levado, talvez,  pela saudade que sente do vento, do ar fresco soprando do mar, a revolver-lhe as ondas, de um céu estrelado,  vazio, no entanto,  de estrelas, nas  cidades fartamente iluminadas.

De íntimo que foi dos homens, em longínquo passado, passou o vento a ser,então,  considerado coisa incômoda,  que perturba o dia-a-dia monótono dos moradores dessas cidades – aglomerações imensas  de prédios que se estendem, metros a fio, ladeando ruas e avenidas, com escassas praças,  em baixo, negras,  cobertas de asfalto,  no alto, brilhantes, com focos de luz  fosforescente  presos nas extremidades de postes altos; ou se empilham,  céu acima, blocos enormes de concreto,  como   espectros sombrios dos quais nem mesmo a arquitetura moderna lhes  consegue  tirar o  ar sombreado, por alguns chamados “torres”, “vilas” ou “mansões”, em tentativa vã de conseguir que lhes seja   restituído o caráter ameno  perdido das antigas moradas.

Os que convivem, porém, com a natureza, convivem com os ventos e os conhecem bem. Sua presença é temida quando chegam, por vezes, de forma inesperada, com fúria desabrida, varando os ares, e tudo destruindo  sobre a  terra ou  o mar; sendo, no entanto, por outros aguardados com extremo carinho, como rescaldo a um  calor que maltrata,  carícia branda, o que lhes dá um ar sagrado; capazes, portanto, de inspirarem  medo ou serem  considerados como um  gesto de amor ou de  afago.

Vento é coisa de Deus, dizem os antigos; assim como o sol, a lua, a chuva; o céu ou o mar. É força que anima ou castiga, acaricia ou maltrata; que chega para dar vida ou conduzir à morte; para fazer o bem ou o mal. Amado e ainda  respeitado pelos homens do mar – os que restaram  dos que estendiam, à sua espera, as velas de seus barcos,  para que fossem   levados  a transpor distâncias incríveis,  lhes permitindo alcançarem  novos mundos, talvez encantados; pelos que  viram, também, seus panos rasgados nos naufrágios, por suas garras afiadas de gigantes, por elas desfeitos como barreiras colocadas à frente dos seus rumos, sem quererem os ventos  se sentir  escravos dos que pretendessem domá-los.

Os dos tempos de antanho imaginaram os ventos como deuses.  Principalmente os gregos, aqueles  que nos legaram quase tudo que hoje sabemos sobre nós mesmos, em um mundo hoje impropriamente chamado de Ocidente –  que veio a ser depois entendido como Europa e América, excluídas, de modo preconceituoso, por ser  consideradas bárbaras, as terras da África. Quanto aos gregos, não os de hoje, mas os de outro tempo, os entenderam, levados por sua imaginação prodigiosa, como estando sob a guarda de um dos deuses nos quais acreditavam – Eolo, que aparece na Odisséia, como o  senhor dos ventos,  e   teria recebido  de Zeus, a incumbência de guardá-los.

Eolo vivia numa ilha flutuante, com seus filhos e filhas.  Mantinha os ventos encarcerados em um antro profundo, dele os libertando somente quando julgasse necessário, sendo por eles obedecido, quando os livrava dos ferros que os aprisionavam; pois fortes como eram, seria preciso que alguém mais forte os dominasse, impedindo-os de causarem danos em suas caminhadas.

Desse modo, com o controle que exercia sobre os ventos, Eolo tinha em suas mãos, os do bom tempo e os das tempestades. Por isso, os outros deuses e os heróis lhe solicitaram, muitas vezes, ajuda, como fez Hera, quando lhe pediu que os ventos impedissem o desembarque nas praias de Tróia,  dos  soldados que chegavam,  comandados por Eneas, em seu socorro; ou quando se dispôs a  atender ao pedido que lhe fez  Ulisses, que o foi visitar em sua ilha da Eólia, para   que os ventos o ajudassem, em sua viagem de volta, a alcançar  Ítaca, sua terra natal. Acontecendo, porém, dessa vez, que lhe havendo Eolo entregue um odre onde estavam trancados todos os ventos,  alertou-o  para o perigo que correria se os libertasse; o que foi feito, no entanto,  de modo imprudente, pela tripulação do seu barco, supondo  estar o odre  a guardar  tesouros, provocando,  com isso, a chegada de uma grande tempestade que  ameaçou  as embarcações com o naufrágio.    

Por nomes diversos eram os ventos então chamados. Em seu conjunto, eram os Anemoi, vindos de cada um dos pontos cardeais, também dos colaterais, e recebiam por isso, nomes particulares:  Boreas era o que vinha do norte, trazendo consigo o frio do inverno; Notos, o que chegava do sul, conduzindo as tormentas do fim do verão; Zéfiro, o do oeste, que vinha acompanhado pelas brisas suaves da primavera; Euros, o do leste, o único não associado, na Teogonia de Hesíodo, a alguma das estações do ano. E quando chegaram os latinos, os Anemoi passaram a ser chamados Venti (ventus);  mas não mudaram seus feitios nem modos de ação.

Em vários pontos das obras dos escritores gregos e romanos, os ventos aparecem. Foram citados por Homero e Hesíodo, este registrando, dos quatro mais importantes, por ele considerados benéficos, a presença de Tífon  ou Tifeu,  por ele apontado como um vento destrutivo, mas que não era,  propriamente,  um vento, mas um monstro, um ser intermediário entre um homem e uma fera, filho de Hera, que possuía um corpo alado e olhos que lançavam chamas, sendo  capaz de desencadear tempestades;  também  por Aristóteles; e, a seguir, também  por Ovídio e Filóstrato, Aristófanes  e Virgílio, em suas obras literárias.

Andronicus, de Ciros, natural da Macedônia, construiu, em Atenas, na primeira metade do século I a.C., o edifício que ficou conhecido como “a Torre dos Ventos”, e resiste, ainda hoje, ao desgaste do tempo. Possuindo cerca de 12m. de altura, construída em mármore branco pentélico, tendo forma octogonal, erguida sobre uma  base com  três degraus,  apresenta gravadas em relevo sobre a  frisa que no alto a contorna,  em  cada uma de suas oito faces, as figuras dos oito principais ventos, identificados por seus nomes e atributos – Boreas, o vento do norte, Kaikias, o do nordeste, Apeliotes, o do leste, Euros, o do sudeste, Notos, o do sul, Lips, o do sudoeste, Zefiros, o do oeste e Skiron, o do noroeste (o mesmo Siroco, que sopra da África) .

Todas essas figuras trazem asas nos ombros e ostentam em suas vestes e rostos, os atributos de cada um deles. Boreas aparece coberto por um manto pesado, mostrando-se prestes a soprar atravessando uma  longa  concha  encaracolada; Kaikias traz  um cesto cheio com  pequenos objetos redondos; Apeliotes surge como um jovem coberto por espécie de cesto cm  frutos e grãos; Euros, como um ancião, fortemente agasalhado,  assim  protegido contra os elementos; Notus  derrama  de um vaso que conduz, chuvas copiosas; Lips aparece como um rapaz  a empurrar pela popa, uma embarcação, parecendo anunciar com esse gesto, a esperança da chegada de bons ventos para a navegação;  Zefiros surge  também como um jovem,  carregando flores, e, finalmente, Skiros como um homem com  longas barbas,  trazendo  nos braços, um vaso cheio de cinzas e carvões.

Em tempos passados possuiu essa “torre dos ventos”, em seu interior, um relógio de água (clepsidra), movido pela água que descia da Acrópole, e ao centro do seu teto,  em  formato cônico, a figura móvel de     Tritão, em bronze,  a indicar, ao apontar, a cada momento, com uma longa vara, para um certo ponto,  a direção  em que   estava o  vento a soprar.

O hábito de serem, então, os ventos representados por figuras humanas com asas nos ombros deverá ter inspirado Ovídio, quando  em suas Metamorfoses, descreveu Notus, o vento do Sul,  como alguém que possuía – “longas, as penas mádidas, envolta // em  densa escuridão, a atroz carranca (…) barbas com pejadas nuvens”, “a melena encanecida” a gotejar,  com  névoas pousadas na “cabeça horrenda”, com as asas e o peito orvalhando os céus.

 

Madidis  Notus evolat alis,

terribilem picea tectus caligine vultum:

barba gravis nimbis, canis fluit unda capillis;

fronte sedent nebulae, rorant pennaque sinusque.

 

(Metamorphosis, I, 265-267).

 

De todos esses ventos, o que melhor conservou a identidade, foi Zefiro, o vento do oeste, cujo nome sobreviveu graças à sua aceitação como símbolo amoroso, pelos autores românticos dos séculos posteriores, por suas características de aragem, vento suave e brando, sem aspectos trágicos.  

Os ventos surgem, freqüentemente, como tema, cenário ou mesmo como personagem, a partir da literatura européia do século XIX; incluídos, entre outros, nos “romances do mar”. Victor Hugo, na França, Joseph Conrad, na Ingalaterra, Henry Melville, nos Estados Unidos, souberam bem valorizá-los; e,  ainda na prosa inglesa, Emily Brontë, em Wuthering Heights (Morro dos Ventos Uivantes), tanto quanto  na poesia, Alfred Tennyson, em seu monumental poema In Memoriam, e Shelley, em sua Ode to the West Wind os consagraram  como assunto temático e mesmo como personagem,  ao associarem sua ação, a momentos decisivos na trama dos seus textos  e a seus próprios estados de espírito, ousando Shelley com eles dialogar, pedindo ao “vento do Oeste” que o transporte, como folha morta ou nuvem, e o torne companheiro em suas andanças (O,  lift  me as a wave, a leaf, a cloud! // I fall upon the thorns of life! I bleed! ). E em tempos mais recentes, pelo surpreendente romancista e pensador francês, Michel Tournier, que publicou, em 1979, Le Vent Paraclet, uma autobiografia, na qual faz  alusão direta à presença e ação como vento,  do Espírito Santo.  

Não devemos, porém, esquecer que, antes deles, Camões, em Os Lusíadas, se referiu aos “ventos hórridos de Eolo” (II,105.3); e, ao relacioná-los com os “montes Hiperbóreos”,  sobre os quais afirmou serem o lugar  – “onde sempre sopra Eolo” (III.83); também mencionou as tormentas e opressões “que sempre faz no mar, o irado Eolo” (V.15.6);  e, ainda registrou que  – “ao grande Eolo”,  mandaram os deuses,  em certa ocasião, recado, da parte de Netuno, a fim de soltar “as fúrias dos ventos repugnantes”, para que “não haja no mar mais navegantes” (VI.35.5/8).

Já, no entanto, a partir do século XVII, haviam os ventos encontrado na tradição popular dos povos europeus, um novo guardião que mesmo sem possuir  poderes divinos, teve os da  santidade – Lourenço, diácono  em Roma, transformado em santo pela Igreja de Roma,  após o seu martírio,  em  começos da era cristã. Sobre o seu culto nos países europeus e no Brasil, já escrevemos  várias vezes,  pelo que não voltaremos a ele  referir-nos. Desejo, porém, lembrar, guardar o vento, entre nós, outro mistério – o da crença popular de que os redemoinhos que se formam sobre o chão limpo, forçando a se enrolarem,  girando velozmente sobre si mesmas, folhas secas e poeira, são causados por um ser fantástico  – o saci pererê, que pulando e girando sobre sua única perna, faz com que  eles apareçam. Sem poder  esquecer haver  .Monteiro Lobato permitido  que seu grande  herói infantil – Pedrinho, aprisionasse um saci, enquanto dançava, invisível, num  redemoinho, cobrindo-o com  uma  peneira que possuía suas duas taquaras mais largas,  trançadas,  ao centro,  em forma de cruz. Dessa captura  havendo nascido uma grande  amizade  entre o saci e o menino, tão bela e forte que transformou seu livro – O Saci (São Paulo: Comp. Editora Nacional, 1934), num  autêntico  poema, nos quadros da literatura infantil brasileira.

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Waldir Freitas Oliveira é escritor e pertence à Academia de Letras da Bahia.

 

LEGENDAS

1)      Zéfiro e Flora (1875). Adolphe-William Bouguereau (La Rochelle,1825- id.1905), Paris.

2)      A “Torre dos Ventos”, Agora Romana (Atenas). Andrônico de Khyrros (Sec. I a.C).

3)      Boreas, o vento do Norte. Detalhe da “Torre dos Ventos”

4)      Zéfiro, o vento do Oeste. Detalhe da “Torre dos Ventos”.

5)      Da composição do  célebre quadro de Boticelli – “O nascimento de Venus” (cerca de 1485), participa Zéfiro, que aparece, ao alto,  à esquerda, abraçado pela ninfa Clori, enviando à deusa seu sopro fecundador, fazendo com que balancem para um lado, os seus cabelos, enquanto surge a ninfa, como símbolo do ato físico do amor.