Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia

 

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

Ao abordar o tema Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia, esclareço desde já que se trata no presente caso da introdução a um estudo mais amplo que pretendo realizar, enfocando as diversas vertentes da ficção deste autor: a dos contos ambientados no agreste baiano, dos quais o conto Sol é um dos melhores exemplos; a de ambientação urbana, de tons líricos e humorísticos, enfocando a classe média baixa, dentre os quais se destacam dois contos primorosos, Cena doméstica em véspera de Natal e A derrota ou sorte grande no Natal, este último uma refinadíssima peça de humor e ironia; a do misticismo afro-baiano, na qual a novela O leque de Oxum é principal referência; a de contos mais psicológicos, como Antes do segundo marcado, O cavalo e a rosa e Confissão (este com ecos do conto fantástico de Poe, Hoffmann e Maupassant); e, finalmente, a dos contos de tradição marítima, muito menos presente em nossa ficção do que seria de se esperar, considerando-se a extensão da nossa costa, da qual Vasconcelos, ao lado de Xavier Marques e Garbogini Quaglia, entre outros escassos nomes, é um dos poucos representantes.

Nesta breve comunicação, permanecerei no limite desta última vertente, tomando como exemplo um texto vigoroso, conto da maturidade do autor, Cação de areia, do livro homônimo, editado em 1986 pela GRD, de Gumercindo Rocha Dórea.

Carlos Vasconcelos Maia, nascido em Santa Inês, Bahia, a 20 de março de 1923, e falecido em Salvador a 14 de julho de 1988, integrou a conhecida geração de autores da revista Caderno da Bahia, que consolidou o Modernismo em nosso Estado, entre a segunda metade dos anos 40 e o início dos anos 50. O surgimento, em 1948, dessa revista, editada por Darwin Brandão, Cláudio Tuiuti Tavares, Wilson Rocha e pelo próprio Vasconcelos, teve importância capital nesse processo. Ele foi o grande contista desta geração.

Como era a Bahia de Vasconcelos Maia, e de que forma ela aparece, ou seria melhor dizer, transparece, nos seus contos? Era, sem dúvida, uma Bahia bem mais próxima da soterópolis parnasiana do início do século 20, do que da Bahia pós-moderna do início do século 21. Na capital, apesar da modernização em curso, acentuada a partir dos anos 50, no governo de Octávio Mangabeira, ainda persistia o espaço edênico das chácaras e dos quintais; das ruas tortuosas cortadas por bondes sonolentos. No interior do estado, estava-se no apagar das luzes (melhor seria dizer, das fogueiras) do coronelismo arcaico, representado, até duas décadas antes, por um Horácio de Mattos, mas pouco havia se modificado, em termos essenciais, em relação ao tempo do Brasil Colônia. Estas duas faces do território baiano – o sertão e o litoral – não passariam imunes à prosa vigorosa, crítica, transformadora e efetivamente moderna de Vasconcelos Maia. Mas, veja que já falamos de uma estética bastante diversa do regionalismo pitoresco de outros insignes escritores baianos: Xavier Marques, retratista lírico e idílico do litoral baiano; ou Afrânio Peixoto, de espírito cientificista, voltado para as paisagens sertanejas do sertão baiano, mais especificamente das lavras diamantinas. Longe da prosa castiça e rebuscada do primeiro, e da inócua psicologia do segundo, Vasconcelos nos fez ver as paisagens do nosso estado através de uma prosa descritiva perfeitamente ajustada à ação e ao movimento interior dos seus personagens. Se há algo de pitoresco em alguns de seus textos, com a utilização da chamada cor local, esse algo é parte de um todo orgânico, e nunca um mero ornamento.

É esta adequação de tempo e espaço interiores e exteriores, associada a uma linguagem enxuta, precisa, dinâmica e vigorosa, na qual se fixa um determinado espírito de época, uma das características que faz de Vasconcelos um escritor moderno. Assim, se por um lado pode-se reconstruir, no imaginário do leitor, com surpreendentes minúcias, paisagens, ambientes e costumes de uma Bahia dos anos 40 a 70, em acelerado processo de transição, por outro é possível identificar os momentos em que a imaginação criadora do ficcionista imprime, a essas mesmas paisagens, ambientes e costumes uma transfiguração que a projeta num território psicológico, introspectivo: o território da criação artística. Isto ocorre, de forma dramática, no que o escritor Guido Guerra, que editou, em 2000, uma seleção de contos daquele autor, sob o título Sol, terra, mar, classifica como “talvez o texto mais denso de sua maturidade”, o conto Cação de areia. (Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000. 249 p.) A coletânea reúne 13 contos selecionados por Guido Guerra (1943-2006).

Neste texto, exemplar da literatura marítima, à qual o nome do autor é sempre associado, conta-se a saga de dois pescadores: do narrador da história e do seu amigo de infância, João, que partem entre as paradisíacas ilhas, enseadas e promontórios da Baía de Todos os Santos, com o objetivo de pescar cações numa remota laguna, localizada numa praia de areia entre penhascos, “a cinco milhas mais ou menos da Ilha da Saudade”. Seria, talvez, uma pescaria como outra qualquer se pouco antes de partirem do porto, na Cidade Baixa, não conhecessem e incluíssem em seu périplo duas jovens, hippies, que vagavam famintas e disponíveis, “como cachorro sem dono”, pela Península Itapagipana.

No conto, que inclui descrições minuciosas das embarcações, dos procedimentos náuticos, das refeições dos personagens, dos movimentos do oceano e das marés, da vegetação de restinga, dos ventos e tempestades, dos tipos humanos que vão encontrando ao caminho e de cenas carregadas de um erotismo puramente instintivo, quase selvagem, o escritor leva, passo a passo, os quatro personagens, numa tensão crescente, ao clímax, na laguna, onde o leitor se surpreende, no limite do realismo cru do narrador, agora não mais num espaço real – melhor dizendo: não mais na ilusão de mímesis, no sentido Aristotélico, de imitação da natureza – e sim de uma semiosis, na qual o significante, antes ocultado habilmente, para melhor ênfase na ilusão de uma pretensa objetividade, possibilita ao leitor atento perceber que o cenário geográfico é como sempre foi um espaço imaginário, eterno e atemporal, no qual o homem confronta-se, apenas e unicamente, consigo próprio, com sua hybris, com as potências do seu instinto e do seu inconsciente. De repente, percebemos que a literatura de Vasconcelos Maia já não está falando do mundo, mas da própria literatura, da linguagem, do mundo no sujeito, pelo sujeito.

Cação de areia é uma narrativa clássica, épica, que traz no seu tecido narrativo uma ambiguidade. Ambiguidade esta que, entretanto, pode passar despercebida sob a aparência de uma simples aventura marítima. Mas, ao fechar-se o círculo desse estranho périplo, diferentemente da forma exata do texto, que se fecha sem qualquer sobra, permanece, no saldo da experiência vivida de seus personagens, estranhas lacunas: o narrador, movido por instintos e sensações, assaltado por sonhos recorrentes e perturbadores, às vezes violento e brutal, não retira, de sua experiência, qualquer sentido, senão o de, ao final de tudo, preservar o que unicamente lhe interessa: a sua vida rústica, ao sabor do sol, dos ventos e das marés, e a sua amizade com João, sua ética primitiva sustentada pelo trato “de nenhum se meter na vida do outro, principalmente quando tem uma mulher de permeio”.

João, guia da jornada (é ele quem conhece o lugar onde os cações reproduzem suas crias), mas destituído da voz que narra, que impõe a sua versão dos fatos, calado, prático, é, no entanto, diferentemente do seu companheiro de aventuras, sensível no trato com as mulheres, ao ponto de merecer a seguinte observação do narrador:

 

Ele tem sua maneira de tratar as amantes. Tenho a minha. Ele trata mulher como coisa fina, boneca de louça; isca de sardinha, leme de saveiro. Eu sou ao contrário. Gosto de bater, humilhar, aperrear, até seviciar. Achei que João, sem ser chamado, estava quebrando o nosso trato. Por outro lado, a birra daquela fulana já estava me chateando. Pensei: se João está quebrando um trato, vai me quebrar um galho. (GUERRA, 2000, p. 139)

Dele pouco se sabe a respeito do que representou a experiência de ir até a laguna, e, após ver frustrada sua expectativa de uma pesca farta, vingar-se de um cação que encalha no areal, matando-o, com o narrador, a golpes de arpão e de porrete. A cena, brutal, é assim descrita (citamos apenas um pequeno trecho):

 […] Cautelosamente, por caminhos opostos, nos aproximamos do cação ferido, porretes erguidos. A fera sentiu nossa aproximação. Mas não tinha forças para reagir. A maré estava completamente baixa e ele praticamente encalhado na areia. Sem dó nem piedade, ferozmente, baixamos os porretes em sua grande cabeça. À agressão, o cação fez a última tentativa de luta. Abriu a bocarra e mordeu infrutiferamente o espaço. Então, friamente, acabamos de esmigalhar sua cabeçorra com golpes frenéticos.  (GUERRA, 2000, p. 135)

 

A cena, testemunhada pelas duas mulheres que os acompanhavam até o ponto central do drama, representava um ato criminoso e revelava a bestialidade dos dois homens – mas para ser assim compreendida, foi necessário que uma delas o dissesse:

Apesar do sol que haviam tomado, estavam pálidas, as gargantas contraídas, os músculos do corpo tensos. E nos olhavam de maneira insólita. Pensei que estavam tomadas de admiração e respeito.

― Não foi brincadeira, hein? – falei. – Falei por falar.

Não sei porque diabo achei que tinha que falar. Talvez se tivesse ficado calado não teria acontecido o que aconteceu. A fulana de João, como de costume, nada respondeu. Mas a faladeira me olhou dentro dos olhos e, com uma voz que não parecia a dela, disse assim:

― Isso foi assassinato.

Estava agitado da luta e senti aquelas palavras rudes como um golpe muito duro. Virei-me para João. Estava medonho, coberto de sangue da cabeça aos pés. Nossos olhares se encontraram sem se enganar. Baixamos ambos, ao mesmo tempo, a vista. Era como se nos repugnasse de repente a presença um do outro. Aquilo tinha sido de fato, assassinato. Sabíamos disso, desde que decidíramos matar a fêmea. Sabíamos que o cação não tinha a menor possibilidade de defesa. (GUERRA, 2000, p. 136)

 

Seviciada pelo narrador, defendida e cuidada por João, a mulher criara, com suas palavras e seu olhar acusador, uma fenda ética entre os dois homens. Não esperávamos que alguém viesse nos dizer a verdade na cara, diz o narrador: “E logo quem! Uma merdinha de gente, uma putinha de beira de cais”. Mas a fenda é passageira, como passageiras são as duas mulheres naquela embarcação. Ou, pelo menos, assim parece – embora nada possamos dizer a esse respeito. Aos poucos, a rotina dos homens se recompõe, e ao final da viagem, assim que o saveiro toca na enseada dos Tainheiros, as duas mulheres pulam para o toco da ponte e desaparecem, “como duas calungas debaixo do temporal”. Mas, exercendo a minha liberdade de leitor, ouso afirmar que o mundo dos pescadores nunca mais será o mesmo.

Não deixa de causar certa estranheza que todo o aparato de descrições, de referências a uma rica toponímia, de fartas descrições de ilhas, praias, repastos, tipos humanos e tudo o mais que acentue os caracteres ditos regionalistas do conto de Vasconcelos Maia não impeçam, ou, ao contrário, até acentuem o deslocamento sutil que ocorre, do espaço geográfico para o psicológico, ou diria até mesmo mitológico, na narrativa do autor. É verdade que lá está toda uma paisagem familiar, afetiva, ao ponto de quase podermos sentir o cheiro do peixe assado na brasa, enrolado na folha de bananeira; o frio da brisa noturna, o medo das tempestades, o cheiro do sargaço, o calor intenso do sol dardejante. Mas, se alguma Bahia está ali representada, é e será, desde sempre, aquela que, tal como as cidades imaginárias de Macondo ou de Comala, só existe, efetivamente, na sua ou na minha subjetividade. Na do autor e do leitor. E, ao final das contas, é só esta que importa.

REFERÊNCIAS

GUERRA, Guido. Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000.

Encontros Literários da ALB #8

Desta feita o evento Encontros Literários contou com a presença do acadêmico, poeta e escritor Fernando da Rocha Peres, a escritora e jornalista Kátia Borges e foi moderado pelo acadêmico e escritor Aleilton Fonseca. Ainda foi comentado pelo professor Francisco Lima e o jornalista Nilson Galvão.

Fernando da Rocha Peres responde sobre a paixão pela Ibéria

Escritora Kátia Borges

Cruz Rios, jornalista por vocação

ebEdivaldo Boaventura

A dedicação à memória de Joaquim Alves da Cruz Rios conduziu sua mulher, Regina, a reunir papéis para uma publicação póstuma, intitulada: “Cruz Rios, Jornalista por vocação.”
Para tanto, solicitou-me que a ajudasse a pôr ordem na documentação reunida. Assim procedendo, Regina deu continuidade às publicações anteriores que integraram artigos e crônicas. Cruz Rios, jornalista por vocação, não deixa de ser a continuidade de Retalhos de jornal, publicado em 1998, com apresentação de Jorge Calmon, e de Canto de página, dado à estampa em 2002, prefaciado por Josaphat Marinho.

Aceitei a solicitação e, juntos, selecionamos as matérias. A convivência diária com ele por mais de oito anos me permitiu não somente conhecê-lo, mas admirar a pena do companheiro na direção do jornal de Simões Filho. Coordenando a publicação, procedi como fizera anteriormente quando do falecimento de Pedro Calmon e de Luiz Viana Filho e, por ocasião dos cinqüenta anos da Universidade Federal da Bahia. Com essa experiência de juntar e ordenar material, fiz o mesmo com a documentação de e sobre Rios.

Como uma poliantéia, os textos de certa maneira enaltecem a personalidade do homenageado. De posse dos papéis coletados, distribuí o material em quatro partes. Em primeiro lugar, destaquei Cruz Rios e o jornal A TARDE. É um pouco da história do relacionamento de Rios com o seu periódico. Começa pela entrevista concedida ao repórter investigativo Marconi de Souza. Rios confessa: “Sou jornalista por vocação”. Declaração enfática que titula a publicação, escolhida com Sérgio Fujiwara, autor da capa. Nesse relacionamento, privilegiei o depoimento de Jorge Calmon que trabalhou junto com Rios por mais de meio século em A TARDE. As relações entre o profissional e o periódico tipificam a identificação do homem de imprensa. Dessa maneira, integrei os seus dados biográficos ao currículo. Pela convivência diuturna com Rios, pude sentir de perto a sua identidade com o periódico, no qual realizou toda uma larga trajetória nos quase 66 anos ininterruptos de trabalho na mesma corporação. A sua carreira jornalística dá o tom característico de uma vida útil, privilegiando uma existência. Rios viveu a sua vocacionada inclinação para a imprensa matizando-a com o contínuo e imperturbável humor. A dedicação de Rios ao jornal foi tão marcante que desejava morrer na sua carteira de trabalho.

A documentação revelou momentos significativos na vida do jornalista como seu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Não faz muito tempo, foi eleito por indicação do mestre José Silveira para suceder ao poeta Ivan Americano da Costa, na cadeira número 20, patrocinada pelo enorme Teixeira de Freitas. A eleição consagrou o homem de imprensa. A sua posse, em 5 de maio de 1999, aos 80 anos, um momento solar em sua vida, foi coroada com a facúndia de Josaphat Marinho. Uma bela e luminosa posse que encheu o solar Góes Calmon de familiares, amigos e companheiros. O discurso de recipiendário acompanhado da saudação e do referencial de suas publicações constituem a segunda parte dessa coletânea.

Os papéis assinalam balizas na trajetória do jornalista e político, como os 50 anos de jornal festejados na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) pelo seu amigo Orlando Moscoso. Um marco da sua caminhada foram os 60 anos em A TARDE, comemorados com a medalha Ranulfo Oliveira da Associação Baiana de Imprensa, bem assim muitas outras distinções recebidas. Pronunciamentos e registros dessas passagens integram a terceira parte: reconhecimento da carreira. Finalmente, recordando o jornalista é o derradeiro conjunto integrador das expressões de sentimentos de pesar da imprensa, dos poderes públicos, dos amigos, autoridades, instituições, enfim da comunidade baiana à qual ele serviu. Coube-me expressar a saudade na Academia de Letras da Bahia, em 20 de maio de 2004. Conclui esta coletânea o artigo de Cruz Rios sobre seu mestre e ídolo, Simões Filho.

Para a confecção desta obra, a colaboração de todos de A TARDE foi significativa, dos seus dirigentes Sylvio Simões, Renato Simões Filho e Ranulfo Bocayúva aos companheiros de redação como Chico Neto, Sérgio Fujiwara. O livro fluiu das reportagens e das fotos de A TARDE. É uma homenagem que assinala o primeiro ano do seu falecimento. A publicação é uma manifestação que ajuda a retratar o profissional da imprensa. Uma homenagem ao seu trabalho.

Robin Hood versus cultura na Bahia

cnsConsuelo Novais Sampaio

Enganam-se os que pensam não existir comprovação da existência de Robin Hood. O mito foi criado através dos séculos, baseado num personagem histórico.

Não se confirmou ainda se ele viveu suas aventuras na floresta de Sherwood, condado de Nottingham, na de Wakefield, ou na de Yorkshire. O Robin Hood real surgiu de pesquisas realizadas por paleontólogos, arquivistas e historiadores. O seu nome está gravado em sítios históricos, abadias e conventos, em tempos diferentes, sugerindo que outros bandoleiros (heróis?) usaram a alcunha que o identificava, para honrá-lo, e também valorizarem-se. Ele foi identificado num registro cronológico que lista os “fora da lei”, desde o século XII. O seu nome aparece entre os anos de 1227 e 1229.

No século XIII e seguintes, foram encontrados outros Robin Hoods. O de 1299 e seguintes foram descartados por se dedicarem a “furtos comuns”, que não se ajustavam aos poemas épicos, gestas e baladas medievais. O cruel xerife também foi real e perseguiu Robin Hood desesperadamente, através das florestas.

Os documentos na Inglaterra remontam a A.C., quando da ocupação celta, viking, romana etc. Ela foi bombardeada durante a 2ª Guerra, mas preservou seus documentos e estimula as reconstruções históricas. De igual modo, a história humana está sendo preservada pelos mórmons no fantástico arquivo que construíram nas montanhas Rochosas.

Não existe cultura sem memória, nem consciência de nação e de cidadão sem o conhecimento histórico. Não é à toa que na Disneylândia, CA, antes de entrar no fantástico mundo de diversões, você passa por um salão-museu dedicado a Abraão Lincoln, onde conhece a sua história; em seguida, um cine-teatro exibe filme sobre a guerra de independência dos USA. Causa inveja ver os cidadãos americanos saírem da sala orgulhosos, peito estufado. Não vou me alongar.

O leitor sabe que as nações, para serem nações, preservam suas histórias.

No ar uma pergunta: E nós? Como está a nossa cultura? O que se tem feito parece tão instável, circunstancial, inconsistente! Tem-se a sensação de desprezo por nossos bens históricos. Os jornais estão fartos de registrar; os responsáveis pelas instituições culturais e históricas, cansados de reclamar, pedir providências.

No dia 16, A TARDE mostrou a situação em Salvador. Documentos do século XVII deteriorados.

Não existe projeto sequer para digitalizálos. Os jornais? Esfacelados, pulverizados, embora não tenhamos sido bombardeados! A TARDE tomou a iniciativa de digitalizar a sua coleção, desde o ano de 1912.

O que impede o Estado de fazer o mesmo? Como aceitar que, para ter acesso às Mensagens governamentais, séc. XIX, tenhamos de buscá-las na Universidade de Chicago? É constrangedor, e mesmo vergonhoso.

Parca alocação de recursos financeiros? Interesses políticos imediatistas? Para publicar as cartas do governador Octávio Mangabeira no exílio, e elaborar o Dicionário BiográficoHistórico da Bahia, o Centro de Memória da Bahia (CMB) da Fundação Pedro Calmon (FPC) teve de recorrer à bancada baiana na Câmara Federal. Sensíveis à preservação cultural e histórica da Bahia, os deputados Lidice da Mata, Jutahy Magalhães Jr., João Almeida, José Rocha, Emiliano José, Felix Mendonça e Jorge Khoury fizeram dotações individuais. Logo liberadas, esses projetos serão realizados.

Além do CMB, a FPC teve outra pedra fundamental, quando criada em 1986: o Memorial dos Governadores. Então situado no Palácio Rio Branco, prestou grande benefício à conscientização da nossa população. Visitantes, escolas e turistas, monitorizados, recebiam explicações sobre a República na Bahia, ao passarem pelas vitrines com objetos pessoais e documentos dos diversos governadores.

Corre o rumor que o Memorial dos Governadores será contextualizado. O que isto significa, não sei. Ouvi dizer que as vitrines desaparecerão. Prefiro não acreditar, porque a era da cibernética não permite o aniquilamento de mais um pedaço da nossa história.

Negligência? Obscurantismo? Que falem os nossos “agentes culturais”.

Antônio Brasileiro toma posse como novo imortal

Antônio Brasileiro é conduzido pelos acadêmicos a assinar o termo de posse.

Logo após discursa sobre a Cadeira 21 e sobre o fato de ter virado personagem de Jorge Amado. Antônio Brasileiro – O Trovador de Feira de Santana.

Ruy Espinheira Filho sauda Antônio Brasileiro

Fotos do Evento

Antônio Brasileiro concede entrevista a TV

A Volta de Anisio Teixeira

ebEdivaldo Boaventura

Com muito senso de oportunidade, a revista Muito festejou os 60 anos da Escola Parque. Quanto mais me detive conscientemente  na educação, mais me aproximei do  pensamento de Anísio Spínola Teixeira, de sua inteligência questionadora e de sua  exemplar  humildade. Era  impressionante não somente a sua capacidade de indagação como também de realização. Dizia Jaime Junqueira Aires que Anísio tinha um braço preso no cérebro.

            Na companhia de  Carmen Teixeira, no Conselho  de Educação, intensifiquei mais ainda a admiração pelas referências constantes às ideias do  irmão.

 Pude sentir de perto a capacidade de questionamento de Anísio  quando falávamos dos dados e dos números  do Plano de Educação da Bahia, na gestão Luiz Navarro de Brito. Muito ao seu modo, destruindo e ao mesmo tempo reconstruindo, ponderou Anísio, muito criticamente, sobre o uso relativo que a estatística deveria ter no ensino. Argumentava que essa disciplina tinha muito mais a ver com a física e outras ciências do que mesmo com a educação. Chegou mesmo a afirmar, polemicamente, que a estatística da escola nada dizia da escola. Para tanto argumentou com a incerteza da natureza, plena como é de curvas, saliências, anfractuosidades, irregularidades, terminando por afirmar que a natureza é sempre meio peluda. Assim se expressava e apontava para extremidade da mesa de reunião, mostrando e gesticulando com os dedos, tentando materializar as irregularidades com as saliências do móvel. Contrastou o corte reto na madeira com as incertezas do comportamento humano. E repetia – a natureza é meio peluda, incerta, para permitir uma regularidade absoluta.

Uma outra afirmativa de que me recordo, igualmente pertinente e irreverente, referia-se ao professor-pesquisador. Foi notável a sua afirmação, primando pelo feitio atitudinal e pela dificuldade de mudança de comportamento docente. Com espressiva ênfase afirmou: para que o professor que ensina regularmente passe a pesquisar seria preciso que houvesse uma mutação na natureza! Sábia e empírica ponderação! De fato a passagem do professor-ensinante para professor-pesquisante, com licença do galicismo, é tremendamente difícil quando não impossível. Em realidade, uma mutação requer muitos anos. Referia-se a Anísio à mudança de novoc hábitos intelectuais, especialmente, à criação de novos comportamentos, atitudes e posturas de investigar. Os programas de mestrado e doutorado confirmaram a assertiva de Anísio.

Indo ao Rio de Janeiro, fui visitá-lo, no seu escritório. Com outros conselheiros de educação, conversamos largamente sobre o que se passava na Bahia. Indagou como  ia o reitor Roberto Santos à frente da Universidade Federal da Bahia. Respondemos que estava às voltas com a implantação da reestruturação e mais com passeatas e protestos dos estudantes, ao tempo em que se  ocupava com a construção das novas instalações,  na Federação. O reitor executava o primeiro acordo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ocupava-se com a implantação das novas unidades acadêmicas, como a Faculdade de Educação. Pois bem, ouvindo tudo e considerando a proliferação  das Faculdades de Educação pelo Brasil a fora, de repente, sem que esperássemos, saiu-se Anísio com essa exclamação: “ É outra loucura nacional.”

Atinente às construções, completou: “ Construir é o que há de mais simples em educação.”  Com esta afirmação, aparentemente  chocante, foi discorrendo, polemizando, contraditando, demolindo e reedificando com a força gigantesca de sua privilegiada inteligência.Como querendo dizer que o difícil é organizar e reorganizar escolas e currículos, formar e habilitar bem os professores.

Naquela oportunidade, apreciação elogiosa fez ao ensino médico  brasileiro, para ele, o único que alcançou padrão internacional. Saímos daquele encontro sobejamente impressionados com o poder de sua argumentação.

Em face de um pedido de apreciação sobre o racionalismo versus o empirismo saxônico, respondeu-me: “ A lógica não é  a de premissas, mas a de problemas, o pensamento é problem-solving ... “

Antônio Brasileiro, imortal e universal

Matéria publicada no Jornal A Tarde (BA) em 05/06/2010

Foto: Jornal A Tarde

Foto: Jornal A Tarde

 

 

 

Contraditório como é toda a modernidade, assim é o poeta Antonio Brasileiro, que no próximo dia 10, toma posse na Academia de Letras da Bahia (ALB). Poeta de muitas faces e homem de muitas artes, apresenta na sua obra poética uma reflexão lírico filosófica acerca de um dos motivos literários mais cantados na literatura ocidental: o desconcerto do mundo.

O poeta explora em sua poesia a tentativa vã de compreender a dinâmica do mundo.

Daí a marca da meta linguagem na obra do autor. Ele sabe que a contribuição do artista para os homens comuns é justamente a sua obra, ainda que incompreendida, ainda que seja um pobre elefante, ainda que seja “inútil a poesia”.

Cosmologia do mundo O poeta se sabe gauche, se sabe deslocado das engrenagens vigentes.

Porém, como não mais habita o Parnaso, ele convive com os outros homens, mas não como os outros homens, as diferenças são divisores de água, ainda que imperceptíveis, como diz nos versos poema Divisor de Águas: “Prezados senhores, somos todos da mesma cepa se vistos de binóculos ./ Mas não somos os mesmos. / Eu, com meus poemas indecifráveis / vós, com vossas gravatas coloridas” (ver destaque).

Brasileiro constrói de forma suave uma espécie de cosmologia do mundo moderno, com gos”. A poesia ergue sua taça.

Antonio Brasileiro Borges, ou simplesmente, Brasileiro. Poeta, prosador, pintor, professor doutor de Teoria da Literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, editor e ensaísta.

Nasceu em 1944, em Rui Barbosa, onde viveu até 1955 quando se transferiu para Salvador.

Desde 1972 vive em Feira de Santana. Terra onde fincou suas raízes e produz seus frutos.

Casado com a artista plástica Nanja, com quem formou o seu rico mosaico, é pai de três filhos e avô do pequeno Guilherme, seu novo amor.

Cadeira 21 Na ALB, ele se sentará justamente na cadeira 21, antes ocupada por Jorge Amado e Zélia Gattai, coincidentemente, outro cúmplice casal de artistas. Além de fazendeiro do ar é também fazendeiro da terra, pois, por estranho que pareça, ele é proprietário de uma fazenda no Acre. Epicurista convicto, jogador de tênis, faz caminhadas diárias e sempre reúne os amigos para longas tertúlias.

Aliás, seus amigos são o seu verdadeiro patrimônio, em torno deles, criou o Grupo Hera,um movimento poético dos mais significativos da literatura baiana, a nossa Geração 70, com nomes como Roberval Pereyr, Juraci Dorea e Leni David, fiéis companheiros de caminhada na tarefa de “Recitar um homem perante os outros homens”.

Brasileiro não criou heterônimos, mas pode se orgulhar de ter participado da formação de vários escritores baianos, tanto seus contemporâneos quanto jovens poetas, que circulam em torno de sua influência, uma prova de que sua Hera continua fértil.

Autor de 25 obras, entre elas Caronte (1995), Antologia poética (1996), A história do gato (1997), Dainutilidade da poesia (2002) e Poemas reunidos (2005), é considerado um dos mais importantes poetas da Bahia.

Seu reconhecimento é notório pela crítica especializada.

Sua poesia, hoje, é alvo de estudos de graduação e pós-graduação por todo o País.

Na ocasião de sua eleição,em agosto de 2009, muitos foram os elogios à sua chegada na casa dos imortais baianos: “Ele contribui para a riqueza desta casa”, comentou José Carlos Capinam.

Para Aleilton Fonseca, “a ALB acolhe um dos melhores segmentos da poesia baiana, além de marcar a presença de Feira de Santana, berço de tantos poetas, nessa instituição”.

ALANA FREITAS É DOUTORA EM TEORIAS CRÍTICAS DA LITERATURA

Antônio Brasileiro, imortal e universal

Matéria publicada no Jornal A Tarde (BA) em 05/06/2010

Foto: Jornal A Tarde

Foto: Jornal A Tarde

 

 

 

Contraditório como é toda a modernidade, assim é o poeta Antonio Brasileiro, que no próximo dia 10, toma posse na Academia de Letras da Bahia (ALB). Poeta de muitas faces e homem de muitas artes, apresenta na sua obra poética uma reflexão lírico filosófica acerca de um dos motivos literários mais cantados na literatura ocidental: o desconcerto do mundo.

O poeta explora em sua poesia a tentativa vã de compreender a dinâmica do mundo.

Daí a marca da meta linguagem na obra do autor. Ele sabe que a contribuição do artista para os homens comuns é justamente a sua obra, ainda que incompreendida, ainda que seja um pobre elefante, ainda que seja “inútil a poesia”.

Cosmologia do mundo O poeta se sabe gauche, se sabe deslocado das engrenagens vigentes.

Porém, como não mais habita o Parnaso, ele convive com os outros homens, mas não como os outros homens, as diferenças são divisores de água, ainda que imperceptíveis, como diz nos versos poema Divisor de Águas: “Prezados senhores, somos todos da mesma cepa se vistos de binóculos ./ Mas não somos os mesmos. / Eu, com meus poemas indecifráveis / vós, com vossas gravatas coloridas” (ver destaque).

Brasileiro constrói de forma suave uma espécie de cosmologia do mundo moderno, com gos”. A poesia ergue sua taça.

Antonio Brasileiro Borges, ou simplesmente, Brasileiro. Poeta, prosador, pintor, professor doutor de Teoria da Literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, editor e ensaísta.

Nasceu em 1944, em Rui Barbosa, onde viveu até 1955 quando se transferiu para Salvador.

Desde 1972 vive em Feira de Santana. Terra onde fincou suas raízes e produz seus frutos.

Casado com a artista plástica Nanja, com quem formou o seu rico mosaico, é pai de três filhos e avô do pequeno Guilherme, seu novo amor.

Cadeira 21 Na ALB, ele se sentará justamente na cadeira 21, antes ocupada por Jorge Amado e Zélia Gattai, coincidentemente, outro cúmplice casal de artistas. Além de fazendeiro do ar é também fazendeiro da terra, pois, por estranho que pareça, ele é proprietário de uma fazenda no Acre. Epicurista convicto, jogador de tênis, faz caminhadas diárias e sempre reúne os amigos para longas tertúlias.

Aliás, seus amigos são o seu verdadeiro patrimônio, em torno deles, criou o Grupo Hera,um movimento poético dos mais significativos da literatura baiana, a nossa Geração 70, com nomes como Roberval Pereyr, Juraci Dorea e Leni David, fiéis companheiros de caminhada na tarefa de “Recitar um homem perante os outros homens”.

Brasileiro não criou heterônimos, mas pode se orgulhar de ter participado da formação de vários escritores baianos, tanto seus contemporâneos quanto jovens poetas, que circulam em torno de sua influência, uma prova de que sua Hera continua fértil.

Autor de 25 obras, entre elas Caronte (1995), Antologia poética (1996), A história do gato (1997), Dainutilidade da poesia (2002) e Poemas reunidos (2005), é considerado um dos mais importantes poetas da Bahia.

Seu reconhecimento é notório pela crítica especializada.

Sua poesia, hoje, é alvo de estudos de graduação e pós-graduação por todo o País.

Na ocasião de sua eleição,em agosto de 2009, muitos foram os elogios à sua chegada na casa dos imortais baianos: “Ele contribui para a riqueza desta casa”, comentou José Carlos Capinam.

Para Aleilton Fonseca, “a ALB acolhe um dos melhores segmentos da poesia baiana, além de marcar a presença de Feira de Santana, berço de tantos poetas, nessa instituição”.

ALANA FREITAS É DOUTORA EM TEORIAS CRÍTICAS DA LITERATURA

O Escritor Wilson Lins

arcAramis Ribeiro Costa

A obra publicada de Wilson Lins, mesmo excetuando-se as crônicas que permaneceram esparsas nos jornais, é ampla e diversificada, incluindo coletâneas de crônicas, ensaios, uma novela e seis romances, além de um precioso volume de memórias. Ao chegar a esta Casa, em setembro de 1967, com quarenta e oito anos de idade e uma respeitável experiência de vida, para tomar posse na Cadeira número 38, Wilson trazia uma obra em andamento, porém com o principal realizado, uma obra já definida e consagrada, ao menos no cenário não pouco exigente da literatura baiana. Verdade que seu maior prestígio vinha da militância política. Mas vinha também em grande parte do jornalismo, e não apenas em decorrência do seu destacado papel no combativo O Imparcial, onde ele era, além de filho do proprietário, o redator-chefe, mas também da repercussão das suas crônicas, críticas literárias e artigos assinados.

N’O Imparcial escreve crônicas diárias políticas bem-humoradas com o pseudônimo Quincas Borba, e rodapés semanais de crítica literária com o próprio nome. A partir de 1951, já no Diário de Notícias, inicia o pseudônimo Rubião Braz que, não sendo o Rubião de Quincas Borba nem o Braz Cubas das Memórias póstumas, trazia algo da aguda observação e da fina ironia machadianas, conquistando de imediato um público cativo. Foi o prestígio de Rubião Braz que o levou, em 1952, do Diário de Notícias ao Diário da Bahia e depois para A Tarde, onde, mais adiante, foi também o editor da página literária semanal, aos sábados. Exercidas em três jornais sucessivos ao longo de oito anos, de 51 a 59, essas crônicas do cotidiano, irônicas, mordazes, bem-humoradas, mas sobretudo inteligentes, tinham como alvo principal a política e os políticos, atirando, como uma implacável metralhadora giratória, rajadas certeiras, que atingiam seus objetivos com a irreverência e o riso no lugar do chumbo e da pólvora. Uma pequena amostra das crônicas de Rubião Braz pode ser encontrada na coletânea Os outros, editada em 1955 pela Empresa Gráfica da Bahia.

A vertente do ensaio, gênero dos afetos, das admirações e das afinidades, mas também do espírito especulador e investigativo, acompanhou-o ao longo de toda a vida. 12 ensaios de Nietzsche, de 1945, A infância do mundo, de 46, e Tempos escatológicos, de 1959, registram seu entusiasmo pelas idéias do filósofo alemão, suas descrenças, suas inquietações e, finalmente, sua volta definitiva à crença religiosa. São reflexões centradas em questões políticas, existenciais e transcendentais, quase sempre insolúveis, mas necessárias e instigantes, que nos apresentam, ainda hoje, uma surpreendente vocação do autor para a filosofia.

Já em O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de 1952, com mais duas edições posteriores, em 60 e 83, o enfoque é a região ribeirinha da sua infância, hoje inteiramente submersa nas águas sem memória da Represa de Sobradinho. O filósofo cede lugar ao historiador, ao antropólogo, ao sociólogo, ao folclorista, enfim, ao estudioso da sociedade, na investigação e no registro criteriosos da sua gênese, da sua política, da sua economia, dos seus costumes, das suas artes populares, das suas peculiaridades. Mais do que um simples estudo, mais do que um livro de leitura agradável, o ensaio sobre o Vale do Médio São Francisco é um documento, a fazer parte obrigatória da galeria das obras fundamentais, que estudam e explicam as diversas regiões da Bahia.

Otávio Mangabeira e sua circunstância, volume editado pelo Conselho Estadual de Cultura no ano de 1986, em comemoração ao centenário de nascimento de Otávio Mangabeira, é uma seleta de homenagem, que bem poderia, por suas análises e percepções, mas também pela intenção do conjunto, ser considerada igualmente um ensaio. Cronista e memorialista, com o domínio narrativo dos dois gêneros, tendo acompanhado, por muitos anos, de longe e de perto, o carismático governador, senador e tribuno baiano, tanto em sua trajetória política quanto em sua vida particular, Wilson reúne, nesse livro, páginas diversas no tempo e nas circunstâncias, mas que se tornam harmônicas no tema e na forma encantadora de escrever. O resultado dessa coletânea é um depoimento também fundamental para o conhecimento de Otávio Mangabeira, que foi, ao que parece, sua maior admiração política, depois da figura quase lendária e mítica do pai coronel.

Ainda na vertente do ensaio, outra afinidade-eletiva, como diria Goethe: o epigrama. Musa vingadora — crônicas do epigrama na Bahia, editado em 1999 pela Edufba, trata-se não apenas de uma preciosa coleta do que melhor se tem feito na Bahia, na tantas vezes malvista e malquista especialidade poética. Fosse apenas isso e já teria o seu valor, por resgatar e resguardar do esquecimento uma seara fértil e curiosa, mas de destino efêmero, da nossa cultura e do nosso espírito. Mas, vai além. Ao rastrear o epigrama, de Gregório de Mattos aos epigramistas mais recentes, que tanto incomodaram e divertiram e continuam incomodando e divertindo, mais incomodando do que divertindo os contemporâneos, Wilson Lins segue biografando, historiando, ambientando, esclarecendo, comparando e analisando os epigramistas baianos de todas as épocas e estilos, dos mais finos, inteligentes e sutis aos mais grosseiros, sem esquecer um injusto epigrama feito para ele próprio e seus romances. Realiza, dessa forma, mais um ensaio erudito, de extraordinária importância para os estudiosos da nossa cultura. A exemplo de Alberto de Oliveira, ao elaborar a célebre antologia de sonetos, e de Graciliano, ao organizar uma antologia de contos, não se incluiu entre os cultores do gênero. Mas é sabido que ele próprio foi também um competente e temido epigramista, tendo revezado com o incomparável mestre do epigrama, Lafaiete Spínola, na coluna “O Epigrama do Dia”, que existiu durante dois anos n’O Imparcial.

Finalmente digno de registro, na área da não-ficção, é o seu curioso livro de memórias, Aprendizagem do absurdo — uma casa após a outra, entregue ao público em 1997, graças ao valioso concurso do presidente do Conselho Estadual de Cultura à época, o acadêmico Waldir Freitas Oliveira. São recordações e depoimentos, tecidos e entretecidos a partir de cada residência do autor, resultando, também esse livro, numa fonte importante para a memória baiana do século XX.

Essas obras, até aqui ligeiramente citadas, já fariam a nomeada e o respeito do escritor que hoje recordamos. Particularmente o excelente ensaio sobre o Médio São Francisco. Porém, o maior legado literário de Wilson Lins, aquele que faz dele um dos grandes das nossas letras, creio ser a sua obra de romancista. Há uma unanimidade entre os seus amigos intelectuais mais próximos e mais antigos, entre os quais os já citados Jorge Amado e Jorge Calmon, em considerar esta a sua verdadeira vocação, acima até mesmo da política e do jornalismo. E parece que, de fato, o romance foi o seu maior objetivo, aquele ponto luminoso que perseguimos para justificar a vida, ou, pelo menos, as dificuldades e os desencantos da vida. Nas confissões do seu discurso de posse nesta Casa, vamos encontrá-lo menino de calças curtas e pés descalços, a ouvir com enlevo os relatos dos combates e das valentias dos jagunços do pai, e a recriá-los nas brincadeiras com os pequenos companheiros na beira do rio. Ali, já era o ficcionista, que não escrevia, mas punha a imaginação a funcionar, nas situações de perigo e violência que, mais tarde, seriam os enredos dos seus movimentados romances. Confessadamente mau aluno, por não se interessar pelas matérias formais da escola, deixa-se fascinar pela vasta biblioteca do Ginásio Carneiro Ribeiro, tornando-se leitor apaixonado de romances, devorando um após outro e, não contente com isso, escrevendo a continuação deles, muitas vezes acrescidas de novos personagens, como fez ao volumoso As minas de prata, de Alencar.

O conhecimento de Friedrich Nietzsche, iniciado com a leitura de Assim falava Zaratustra, ampliado no aprofundamento de toda a obra do professor e filósofo alemão, iria desviá-lo por um tempo daquele mundo rude e pragmático da sua infância, impregnando-o de um espírito filosófico e dialético até então inexistente. Mas, não iria desviá-lo da sua vocação de romancista. A prova é que, desse mergulho fundo nas águas densas e fundas de Nietzsche, emerge com o seu primeiro romance, Zaratustra me contou, escrito aos dezessete anos de idade, e que teve, em 39, uma edição de mil exemplares, impressa na Tipografia Naval e patrocinada pelo pai coronel.

É curioso que um primeiro romance, surrealista e pretensamente filosófico, escrito por um quase menino de dezessete anos de idade e impresso numa tipografia da província, tenha merecido um comentário em jornal, no Sul do País, de um tão renomado crítico literário como foi Alceu Amoroso Lima. Mas isso aconteceu, e essa crítica de Tristão de Ataíde, arrasadora, embora concluísse que o livro tinha todos os defeitos menos a mediocridade, iria determinar o seu comportamento como romancista a partir daí. Nos vinte e cinco anos seguintes, escreveu e destruiu quinze romances e só em 55 publicou uma deliciosa novela de sátira política, Os Segredos do herói cauteloso, satirizando os governos de Otávio Mangabeira, Régis Pacheco e Antônio Balbino — respectivamente Octaviano Manga, Lélis Pereira e Antônio Sabidino —, merecidamente assinada por Rubião Braz. Mas o romance permanecia travado pelo impacto da crítica negativa do doutor Alceu.

Talvez tudo isso fosse necessário, para que o romancista Wilson Lins encontrasse o seu veio definitivo, e pudesse enfrentar com segurança a navegação ficcional de fôlego no grande rio da sua infância, construindo, em cinco romances magníficos, a saga do São Francisco. Essa nova e vigorosa etapa da sua ficção inicia-se em 1964, com Os cabras do coronel, romance editado pela GRD, e logo se desdobra numa trilogia, com O reduto, em 65, e Remanso da valentia, em 67, ambos pela Martins Editora, de São Paulo.

É impressionante e quase inacreditável essa realidade medonha ocorrida fora das capitais, em quase todo o território nacional num certo período da nossa história recente, e que nos chega bem mais através da ficção, particularmente do romance, do que da própria história, embora nos venha também por meio de grandes ensaios, como, na Bahia, o próprio O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de Wilson Lins, e Jagunços e heróis, de Walfrido Moraes. Essa realidade detona em todo o Brasil, de Norte a Sul, um romance rico em peripécias, aparentado com as grandes epopéias clássicas, com os romances de cavalaria do século XVIII e até mesmo com os romances de folhetim do século XIX, onde heroísmo e banditismo se confundem, pondo a vida humana com a maior naturalidade na mira impiedosa de um fuzil ou na lâmina traiçoeira de um punhal. Falando especificamente da Bahia, para não me estender demasiadamente nessa homenagem à memória do nosso querido Wilson, a saga épica dos coronéis e dos jagunços, nas guerras, escaramuças, crimes e falcatruas cartoriais e políticas pela conquista da terra e do poder na região, é um dos veios mais poderosos da nossa literatura.

Podemos traçar um mapa baiano desse romance de sociedade patriarcal e feudal que estabelece o binômio coronel-jagunço, ou apenas concentra no jagunço a figura destemida e trágica do herói-bandido, um romance que ganha vulto com Jorge Amado, com Terras do sem fim, São Jorge dos Ilhéus e Tocaia Grande, segue magistral com Adonias Filho e Herberto Sales, com Corpo vivo e Cascalho, e chega, como uma fórmula testada e vitoriosa, a Wilson Lins.

O cacau, o diamante e o gado, fontes de riqueza nas diversas regiões do solo baiano, são motivações econômicas para os grandes interesses que são o poder e o prestígio político dos coronéis, poder e prestígio alicerçados basicamente no poder econômico, mas também na valentia e na fidelidade dos cabras ou jagunços. Nessa estrutura social, econômica, familiar e política imperam a violência, o crime, a crueldade, a arbitrariedade, a exploração da mão de obra em troca de proteção, e uma espantosa impunidade, como se a lei e a justiça simplesmente não existissem, ou existissem apenas ao sabor da conveniência dos coronéis, que acabam detendo o poder absoluto, inclusive de vida e de morte, diante do qual nem os poderes constituídos da república ousam interferir. É o próprio Wilson Lins quem diz, n’Os cabras do coronel:

…a verdade é que todo o sertão estava armado, e não era só na Bahia, mas em todo o Brasil, onde os coronéis mantinham verdadeiros exércitos, que em muitos casos eram mais bem armados e municiados que as polícias estaduais, e, constantemente, eram chamados a ajudar os governos dos Estados e o próprio governo federal a debelar revoluções e levantes militares.

Mais adiante, num dos capítulos d’O reduto, reafirma Wilson:

Naqueles duros tempos, as pequenas vilas e cidades do Vale do São Francisco, isoladas do resto do país, viviam entregues ao arbítrio dos coronéis, que eram os senhores da vida e da morte, especialmente da morte, de quantos ali habitassem. Os governos estaduais não tinham como fazer chegar às suas populações os efeitos da autoridade pública e dos mandamentos da lei. A justiça era distribuída pelos chefes locais, que dominavam os juízes e promotores, que, só em um ou outro caso isolado, reagiam à prepotência dos rudes senhores, e os poucos magistrados que ensaiavam reagir eram quase sempre transferidos, uma vez que os governadores dos estados procuravam de todo modo evitar choques com os governantes virtuais do sertão, cujos aguerridos exércitos mantinham aqueles ermos inteiramente fora do controle de outra autoridade que não fosse a deles.

Prossegue Wilson, em sua preciosa análise:

As grandes formações de forças de linha não podiam enfrentar com êxito as numerosas tropas de guerrilhas dos donos do agreste, que, operando em pequenos grupos de combate, imobilizavam com facilidade as forças regulares, nas bocainas e nos tabuleiros, razão por que os governos estaduais eram condenados a dividir sua autoridade com os chefes sertanejos. Para fazer face a um coronel que se rebelasse contra a política oficial, os governos dos estados lançavam mão do recurso de armar um coronel contra o outro, sob a promessa de que, uma vez dominado o insurgente, o município por ele dirigido passaria a ser seu. Daí a constância com que municípios vizinhos se engalfinhavam em guerras intermináveis.

Nessas considerações do romancista, encontram-se o cenário e a motivação dos seus romances, auferidos largamente na infância em Pilão Arcado, tendo como herói maior dessa epopéia sertaneja a figura do pai, o coronel Franklin Lins de Albuquerque, e plasmados na maturidade do homem, em pleno domínio da linguagem, da técnica e do estilo do escritor.

Embora formem uma trilogia, os três primeiros romances desse ciclo não se submetem a um título comum, e podem ser lidos separadamente, sem prejuízo do entendimento ou do encanto narrativo do enredo, que se faz por meio de capítulos curtos, de forma linear e concisa, com discretas retrospectivas. A escrita é vazada numa linguagem simples, direta, quase coloquial e fartamente enriquecida de regionalismos, num tom sério e quase rude, que nada lembra o irônico, satírico e bem-humorado Rubião Braz, mas que não deixa escapar, sem um ótimo aproveitamento, a comicidade de determinados tipos e circunstâncias, como o furor sexual de Doninha Calango, a assumida preguiça de Chiquinho Calça-Frouxa ou a divertida relação do coronel Torquato Thebas com a empregada Naninha, que ele desvirgina e que, supremo desaforo, logo em seguida o trai com um sobrinho dele. Resguardado nos bastidores da terceira pessoa onipresente, o autor vai narrando como se narram, na tradição oral da gente do povo, as histórias e os feitos dos heróis e dos bandidos, porém sem prescindir do olhar lúcido e esclarecedor do homem culto, a elucidar, a conferir perspectiva e profundidade às situações narradas, erguendo, dessa maneira, os romances à altura das obras cultas, como amplamente demonstrado nas citações aqui consignadas.

A trilogia tem início de forma bastante movimentada, com Os cabras do coronel, cujo enredo é basicamente a fuga e a perseguição de Domingos Amarra Couro, um dos homens da prostituta Doninha Calango. Enlouquecido de amor, o cabra decide trair o coronel e abandonar a vida de jagunço, para viver em paz com  a sedutora Doninha. Perseguido implacavelmente pelos ex-companheiros, ferido, maltratado, o jagunço se arrepende e tenta voltar, mas acaba morto. Fuga e perseguição servem de pretexto para a apresentação das desavenças dos coronéis no ambiente violento e rude, onde o combate e a morte são o cotidiano dos cabras, e onde a figura do coronel de Pilão Arcado, que outro não é senão o coronel Franklin, é onipresente e onipotente, embora, nesse romance, não apareça diretamente uma única vez, e não tenha nome, sendo apenas denominado de “o Coronel”, ou “o Vermelhão”. Também aí se encontra a gênese da Vila de Santo Antônio de Pilão Arcado, o “velho burgo nascido de uma feitoria colonial’, “plantado na encosta de um morro de brancas pedras soltas”, impondo-se “como um baluarte natural, dominando o vale”, e cujo nome significa “Pilão em Baixo do Arco”, numa referência aos arcos dos guerreiros e ao grande pilão da tribo em que era pisada a mandioca para fazer o cauim. Iniciada de modo truculento e movimentado, a trilogia arrefece o ímpeto no livro seguinte, O reduto.

Se o ritmo da ação diminui, reduzindo também a violência, à semelhança de São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado, após a violência e a movimentação de Terras do sem fim, esse segundo romance da trilogia cresce em linguagem, em elaboração, em qualidade literária. O “reduto”, que é Pilão Arcado, espera o coronel que partiu para a luta armada, e que já não é chamado apenas de “o Coronel” ou “o Vermelhão”, como ocorre no romance anterior, mas de “coronel Franco”. Agora, ele aparece em cenas muito rápidas, bastando isso para manter a sua presença forte no desenrolar dos acontecimentos. Encarregado pelo governo federal de perseguir a Coluna Prestes, o coronel Franco cobre-se de glória na guerra, como um rei Artur nas Cruzadas, enquanto comanda o seu povo à distância por meio de dona Bonina, recriação ficcional de dona Sofia, a mãe de Wilson. Há uma espécie de trégua na guerra interminável entre os coronéis vizinhos, particularmente com o maior inimigo do coronel Franco, o coronel Torquato Thebas, de Remanso. Vemos a gênese do poder do coronel Franco e o início das inimizades entre ele e os demais coronéis. Vemos também, com riqueza de pormenores, a própria vida ribeirinha do São Francisco, com seus tipos, seus costumes, suas toadas e cantigas, sua forma peculiar de viver e sobreviver. O reduto ilustra e completa, com o calor e o atrativo da ficção, todo o exposto no ensaio d’O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros.

Na linha previsível dos acontecimentos, a volta do coronel Franco a Pilão Arcado reaviva as antigas desavenças entre os coronéis, particularmente entre ele e Torquato Thebas, e o confronto final se faz inevitável em Remanso da valentia, a terceira parte dessa trilogia consagradora, recrudescendo a brutalidade, a violência, a crueldade dos combates entre os jagunços. Perpassam os três volumes as figuras engrandecidas dos coronéis, de alguns jagunços, mas também de Doninha Calango e de Pedro Velho, o vidente afilhado da morte. Esse último personagem é o único e discreto matiz fantástico nas cores realistas desses romances, construídos sobre os alicerces da dura verdade sertaneja. Ao conversar com a morte, a sua Dindinha, visível apenas aos seus olhos cansados, e que é descrita como uma velha senhora coberta de trapos, Pedro Velho transcende a realidade da narrativa. Mas, ainda assim, para adentrar na esfera da realidade última e fatal da própria vida.

Deixando o ambiente e os personagens da trilogia, o imaginoso autor desloca a ação romanesca de Pilão Arcado, Remanso e Sento-Sé, praças-fortes de acirrada disputa política, para a cidade-santuário de Bom Jesus da Lapa, com sua Gruta dos Milagres, suas procissões, suas velas votivas, suas beatas, seus doentes, seus pedintes, suas cantorias arrastadas. “Uma atrás da outra, caravanas de devotos” vão “pagar promessas ao crucificado da Gruta”, e “a pequena cidade” é “convertida num agitado formigueiro humano, com os romeiros enchendo a gruta e as ruas, e os negociantes de quinquilharias enchendo os bolsos às custas dos romeiros”. Trata-se também de um cenário marcante da infância de Wilson. Aos seis anos de idade, recuperado de enfermidade grave, fora levado pelos pais em romaria à gruta do Bom Jesus, e ficara impressionado com as “andrajosas multidões de cegos e aleijados, cantando benditos súplices”. Responso das almas, que é esse o romance, editado em 1970, pela Martins, teria também uma edição em Portugal. O principal personagem dessa narrativa de extraordinária velocidade, pontuada igualmente por luta armada, truculência e morte, é Otílio, o menino órfão e pobre transformado em Rotílio, o jagunço valente que se faz bandido e depois coronel. Dessa forma, torna-se uma síntese do binômio mais representativo do sertão épico de Wilson Lins, todo ele marcado pelas figuras simbiônticas do coronel e do jagunço. É também o único romance onde o coronel Franklin é mencionado com o próprio nome.

O último romance, Militão sem remorso, de 1980, pela Editora Record em convênio com INL/MEC, completa o vasto painel ficcional da terra e da gente do São Francisco. Retorna a Pilão Arcado, o reduto familiar, mas recua no tempo, à época do império, quando o velho burgo dos arcos dos guerreiros era dominado pelo caudilho Militão Plácido de França Antunes. História de amor, de adultério e de morte, sempre a morte banhada de sangue a perpassar as tramas, nela desponta a figura forte da fazendeira Otávia, tão volúvel, sedenta de sexo e incapaz de resistir à sedução de um homem, quanto a prostituta Doninha Calango, a extraordinária personagem da trilogia. Militão sem remorso é também um retorno às origens das lutas armadas, na disputa aguerrida das terras e da supremacia política na região.

Essa obra tão rica e variada, em particular os romances do São Francisco, é o grande legado de Wilson Lins. Uma obra para ser reeditada, lida, estudada e propagada para o resto do país, para que venha a ocupar o seu merecido lugar de destaque no cenário da literatura nacional.