Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia

 

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

Ao abordar o tema Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia, esclareço desde já que se trata no presente caso da introdução a um estudo mais amplo que pretendo realizar, enfocando as diversas vertentes da ficção deste autor: a dos contos ambientados no agreste baiano, dos quais o conto Sol é um dos melhores exemplos; a de ambientação urbana, de tons líricos e humorísticos, enfocando a classe média baixa, dentre os quais se destacam dois contos primorosos, Cena doméstica em véspera de Natal e A derrota ou sorte grande no Natal, este último uma refinadíssima peça de humor e ironia; a do misticismo afro-baiano, na qual a novela O leque de Oxum é principal referência; a de contos mais psicológicos, como Antes do segundo marcado, O cavalo e a rosa e Confissão (este com ecos do conto fantástico de Poe, Hoffmann e Maupassant); e, finalmente, a dos contos de tradição marítima, muito menos presente em nossa ficção do que seria de se esperar, considerando-se a extensão da nossa costa, da qual Vasconcelos, ao lado de Xavier Marques e Garbogini Quaglia, entre outros escassos nomes, é um dos poucos representantes.

Nesta breve comunicação, permanecerei no limite desta última vertente, tomando como exemplo um texto vigoroso, conto da maturidade do autor, Cação de areia, do livro homônimo, editado em 1986 pela GRD, de Gumercindo Rocha Dórea.

Carlos Vasconcelos Maia, nascido em Santa Inês, Bahia, a 20 de março de 1923, e falecido em Salvador a 14 de julho de 1988, integrou a conhecida geração de autores da revista Caderno da Bahia, que consolidou o Modernismo em nosso Estado, entre a segunda metade dos anos 40 e o início dos anos 50. O surgimento, em 1948, dessa revista, editada por Darwin Brandão, Cláudio Tuiuti Tavares, Wilson Rocha e pelo próprio Vasconcelos, teve importância capital nesse processo. Ele foi o grande contista desta geração.

Como era a Bahia de Vasconcelos Maia, e de que forma ela aparece, ou seria melhor dizer, transparece, nos seus contos? Era, sem dúvida, uma Bahia bem mais próxima da soterópolis parnasiana do início do século 20, do que da Bahia pós-moderna do início do século 21. Na capital, apesar da modernização em curso, acentuada a partir dos anos 50, no governo de Octávio Mangabeira, ainda persistia o espaço edênico das chácaras e dos quintais; das ruas tortuosas cortadas por bondes sonolentos. No interior do estado, estava-se no apagar das luzes (melhor seria dizer, das fogueiras) do coronelismo arcaico, representado, até duas décadas antes, por um Horácio de Mattos, mas pouco havia se modificado, em termos essenciais, em relação ao tempo do Brasil Colônia. Estas duas faces do território baiano – o sertão e o litoral – não passariam imunes à prosa vigorosa, crítica, transformadora e efetivamente moderna de Vasconcelos Maia. Mas, veja que já falamos de uma estética bastante diversa do regionalismo pitoresco de outros insignes escritores baianos: Xavier Marques, retratista lírico e idílico do litoral baiano; ou Afrânio Peixoto, de espírito cientificista, voltado para as paisagens sertanejas do sertão baiano, mais especificamente das lavras diamantinas. Longe da prosa castiça e rebuscada do primeiro, e da inócua psicologia do segundo, Vasconcelos nos fez ver as paisagens do nosso estado através de uma prosa descritiva perfeitamente ajustada à ação e ao movimento interior dos seus personagens. Se há algo de pitoresco em alguns de seus textos, com a utilização da chamada cor local, esse algo é parte de um todo orgânico, e nunca um mero ornamento.

É esta adequação de tempo e espaço interiores e exteriores, associada a uma linguagem enxuta, precisa, dinâmica e vigorosa, na qual se fixa um determinado espírito de época, uma das características que faz de Vasconcelos um escritor moderno. Assim, se por um lado pode-se reconstruir, no imaginário do leitor, com surpreendentes minúcias, paisagens, ambientes e costumes de uma Bahia dos anos 40 a 70, em acelerado processo de transição, por outro é possível identificar os momentos em que a imaginação criadora do ficcionista imprime, a essas mesmas paisagens, ambientes e costumes uma transfiguração que a projeta num território psicológico, introspectivo: o território da criação artística. Isto ocorre, de forma dramática, no que o escritor Guido Guerra, que editou, em 2000, uma seleção de contos daquele autor, sob o título Sol, terra, mar, classifica como “talvez o texto mais denso de sua maturidade”, o conto Cação de areia. (Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000. 249 p.) A coletânea reúne 13 contos selecionados por Guido Guerra (1943-2006).

Neste texto, exemplar da literatura marítima, à qual o nome do autor é sempre associado, conta-se a saga de dois pescadores: do narrador da história e do seu amigo de infância, João, que partem entre as paradisíacas ilhas, enseadas e promontórios da Baía de Todos os Santos, com o objetivo de pescar cações numa remota laguna, localizada numa praia de areia entre penhascos, “a cinco milhas mais ou menos da Ilha da Saudade”. Seria, talvez, uma pescaria como outra qualquer se pouco antes de partirem do porto, na Cidade Baixa, não conhecessem e incluíssem em seu périplo duas jovens, hippies, que vagavam famintas e disponíveis, “como cachorro sem dono”, pela Península Itapagipana.

No conto, que inclui descrições minuciosas das embarcações, dos procedimentos náuticos, das refeições dos personagens, dos movimentos do oceano e das marés, da vegetação de restinga, dos ventos e tempestades, dos tipos humanos que vão encontrando ao caminho e de cenas carregadas de um erotismo puramente instintivo, quase selvagem, o escritor leva, passo a passo, os quatro personagens, numa tensão crescente, ao clímax, na laguna, onde o leitor se surpreende, no limite do realismo cru do narrador, agora não mais num espaço real – melhor dizendo: não mais na ilusão de mímesis, no sentido Aristotélico, de imitação da natureza – e sim de uma semiosis, na qual o significante, antes ocultado habilmente, para melhor ênfase na ilusão de uma pretensa objetividade, possibilita ao leitor atento perceber que o cenário geográfico é como sempre foi um espaço imaginário, eterno e atemporal, no qual o homem confronta-se, apenas e unicamente, consigo próprio, com sua hybris, com as potências do seu instinto e do seu inconsciente. De repente, percebemos que a literatura de Vasconcelos Maia já não está falando do mundo, mas da própria literatura, da linguagem, do mundo no sujeito, pelo sujeito.

Cação de areia é uma narrativa clássica, épica, que traz no seu tecido narrativo uma ambiguidade. Ambiguidade esta que, entretanto, pode passar despercebida sob a aparência de uma simples aventura marítima. Mas, ao fechar-se o círculo desse estranho périplo, diferentemente da forma exata do texto, que se fecha sem qualquer sobra, permanece, no saldo da experiência vivida de seus personagens, estranhas lacunas: o narrador, movido por instintos e sensações, assaltado por sonhos recorrentes e perturbadores, às vezes violento e brutal, não retira, de sua experiência, qualquer sentido, senão o de, ao final de tudo, preservar o que unicamente lhe interessa: a sua vida rústica, ao sabor do sol, dos ventos e das marés, e a sua amizade com João, sua ética primitiva sustentada pelo trato “de nenhum se meter na vida do outro, principalmente quando tem uma mulher de permeio”.

João, guia da jornada (é ele quem conhece o lugar onde os cações reproduzem suas crias), mas destituído da voz que narra, que impõe a sua versão dos fatos, calado, prático, é, no entanto, diferentemente do seu companheiro de aventuras, sensível no trato com as mulheres, ao ponto de merecer a seguinte observação do narrador:

 

Ele tem sua maneira de tratar as amantes. Tenho a minha. Ele trata mulher como coisa fina, boneca de louça; isca de sardinha, leme de saveiro. Eu sou ao contrário. Gosto de bater, humilhar, aperrear, até seviciar. Achei que João, sem ser chamado, estava quebrando o nosso trato. Por outro lado, a birra daquela fulana já estava me chateando. Pensei: se João está quebrando um trato, vai me quebrar um galho. (GUERRA, 2000, p. 139)

Dele pouco se sabe a respeito do que representou a experiência de ir até a laguna, e, após ver frustrada sua expectativa de uma pesca farta, vingar-se de um cação que encalha no areal, matando-o, com o narrador, a golpes de arpão e de porrete. A cena, brutal, é assim descrita (citamos apenas um pequeno trecho):

 […] Cautelosamente, por caminhos opostos, nos aproximamos do cação ferido, porretes erguidos. A fera sentiu nossa aproximação. Mas não tinha forças para reagir. A maré estava completamente baixa e ele praticamente encalhado na areia. Sem dó nem piedade, ferozmente, baixamos os porretes em sua grande cabeça. À agressão, o cação fez a última tentativa de luta. Abriu a bocarra e mordeu infrutiferamente o espaço. Então, friamente, acabamos de esmigalhar sua cabeçorra com golpes frenéticos.  (GUERRA, 2000, p. 135)

 

A cena, testemunhada pelas duas mulheres que os acompanhavam até o ponto central do drama, representava um ato criminoso e revelava a bestialidade dos dois homens – mas para ser assim compreendida, foi necessário que uma delas o dissesse:

Apesar do sol que haviam tomado, estavam pálidas, as gargantas contraídas, os músculos do corpo tensos. E nos olhavam de maneira insólita. Pensei que estavam tomadas de admiração e respeito.

― Não foi brincadeira, hein? – falei. – Falei por falar.

Não sei porque diabo achei que tinha que falar. Talvez se tivesse ficado calado não teria acontecido o que aconteceu. A fulana de João, como de costume, nada respondeu. Mas a faladeira me olhou dentro dos olhos e, com uma voz que não parecia a dela, disse assim:

― Isso foi assassinato.

Estava agitado da luta e senti aquelas palavras rudes como um golpe muito duro. Virei-me para João. Estava medonho, coberto de sangue da cabeça aos pés. Nossos olhares se encontraram sem se enganar. Baixamos ambos, ao mesmo tempo, a vista. Era como se nos repugnasse de repente a presença um do outro. Aquilo tinha sido de fato, assassinato. Sabíamos disso, desde que decidíramos matar a fêmea. Sabíamos que o cação não tinha a menor possibilidade de defesa. (GUERRA, 2000, p. 136)

 

Seviciada pelo narrador, defendida e cuidada por João, a mulher criara, com suas palavras e seu olhar acusador, uma fenda ética entre os dois homens. Não esperávamos que alguém viesse nos dizer a verdade na cara, diz o narrador: “E logo quem! Uma merdinha de gente, uma putinha de beira de cais”. Mas a fenda é passageira, como passageiras são as duas mulheres naquela embarcação. Ou, pelo menos, assim parece – embora nada possamos dizer a esse respeito. Aos poucos, a rotina dos homens se recompõe, e ao final da viagem, assim que o saveiro toca na enseada dos Tainheiros, as duas mulheres pulam para o toco da ponte e desaparecem, “como duas calungas debaixo do temporal”. Mas, exercendo a minha liberdade de leitor, ouso afirmar que o mundo dos pescadores nunca mais será o mesmo.

Não deixa de causar certa estranheza que todo o aparato de descrições, de referências a uma rica toponímia, de fartas descrições de ilhas, praias, repastos, tipos humanos e tudo o mais que acentue os caracteres ditos regionalistas do conto de Vasconcelos Maia não impeçam, ou, ao contrário, até acentuem o deslocamento sutil que ocorre, do espaço geográfico para o psicológico, ou diria até mesmo mitológico, na narrativa do autor. É verdade que lá está toda uma paisagem familiar, afetiva, ao ponto de quase podermos sentir o cheiro do peixe assado na brasa, enrolado na folha de bananeira; o frio da brisa noturna, o medo das tempestades, o cheiro do sargaço, o calor intenso do sol dardejante. Mas, se alguma Bahia está ali representada, é e será, desde sempre, aquela que, tal como as cidades imaginárias de Macondo ou de Comala, só existe, efetivamente, na sua ou na minha subjetividade. Na do autor e do leitor. E, ao final das contas, é só esta que importa.

REFERÊNCIAS

GUERRA, Guido. Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000.

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Encontros Literários da ALB #8

Desta feita o evento Encontros Literários contou com a presença do acadêmico, poeta e escritor Fernando da Rocha Peres, a escritora e jornalista Kátia Borges e foi moderado pelo acadêmico e escritor Aleilton Fonseca. Ainda foi comentado pelo professor Francisco Lima e o jornalista Nilson Galvão.

Fernando da Rocha Peres responde sobre a paixão pela Ibéria

Escritora Kátia Borges

Cruz Rios, jornalista por vocação

ebEdivaldo Boaventura

A dedicação à memória de Joaquim Alves da Cruz Rios conduziu sua mulher, Regina, a reunir papéis para uma publicação póstuma, intitulada: “Cruz Rios, Jornalista por vocação.”
Para tanto, solicitou-me que a ajudasse a pôr ordem na documentação reunida. Assim procedendo, Regina deu continuidade às publicações anteriores que integraram artigos e crônicas. Cruz Rios, jornalista por vocação, não deixa de ser a continuidade de Retalhos de jornal, publicado em 1998, com apresentação de Jorge Calmon, e de Canto de página, dado à estampa em 2002, prefaciado por Josaphat Marinho.

Aceitei a solicitação e, juntos, selecionamos as matérias. A convivência diária com ele por mais de oito anos me permitiu não somente conhecê-lo, mas admirar a pena do companheiro na direção do jornal de Simões Filho. Coordenando a publicação, procedi como fizera anteriormente quando do falecimento de Pedro Calmon e de Luiz Viana Filho e, por ocasião dos cinqüenta anos da Universidade Federal da Bahia. Com essa experiência de juntar e ordenar material, fiz o mesmo com a documentação de e sobre Rios.

Como uma poliantéia, os textos de certa maneira enaltecem a personalidade do homenageado. De posse dos papéis coletados, distribuí o material em quatro partes. Em primeiro lugar, destaquei Cruz Rios e o jornal A TARDE. É um pouco da história do relacionamento de Rios com o seu periódico. Começa pela entrevista concedida ao repórter investigativo Marconi de Souza. Rios confessa: “Sou jornalista por vocação”. Declaração enfática que titula a publicação, escolhida com Sérgio Fujiwara, autor da capa. Nesse relacionamento, privilegiei o depoimento de Jorge Calmon que trabalhou junto com Rios por mais de meio século em A TARDE. As relações entre o profissional e o periódico tipificam a identificação do homem de imprensa. Dessa maneira, integrei os seus dados biográficos ao currículo. Pela convivência diuturna com Rios, pude sentir de perto a sua identidade com o periódico, no qual realizou toda uma larga trajetória nos quase 66 anos ininterruptos de trabalho na mesma corporação. A sua carreira jornalística dá o tom característico de uma vida útil, privilegiando uma existência. Rios viveu a sua vocacionada inclinação para a imprensa matizando-a com o contínuo e imperturbável humor. A dedicação de Rios ao jornal foi tão marcante que desejava morrer na sua carteira de trabalho.

A documentação revelou momentos significativos na vida do jornalista como seu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Não faz muito tempo, foi eleito por indicação do mestre José Silveira para suceder ao poeta Ivan Americano da Costa, na cadeira número 20, patrocinada pelo enorme Teixeira de Freitas. A eleição consagrou o homem de imprensa. A sua posse, em 5 de maio de 1999, aos 80 anos, um momento solar em sua vida, foi coroada com a facúndia de Josaphat Marinho. Uma bela e luminosa posse que encheu o solar Góes Calmon de familiares, amigos e companheiros. O discurso de recipiendário acompanhado da saudação e do referencial de suas publicações constituem a segunda parte dessa coletânea.

Os papéis assinalam balizas na trajetória do jornalista e político, como os 50 anos de jornal festejados na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) pelo seu amigo Orlando Moscoso. Um marco da sua caminhada foram os 60 anos em A TARDE, comemorados com a medalha Ranulfo Oliveira da Associação Baiana de Imprensa, bem assim muitas outras distinções recebidas. Pronunciamentos e registros dessas passagens integram a terceira parte: reconhecimento da carreira. Finalmente, recordando o jornalista é o derradeiro conjunto integrador das expressões de sentimentos de pesar da imprensa, dos poderes públicos, dos amigos, autoridades, instituições, enfim da comunidade baiana à qual ele serviu. Coube-me expressar a saudade na Academia de Letras da Bahia, em 20 de maio de 2004. Conclui esta coletânea o artigo de Cruz Rios sobre seu mestre e ídolo, Simões Filho.

Para a confecção desta obra, a colaboração de todos de A TARDE foi significativa, dos seus dirigentes Sylvio Simões, Renato Simões Filho e Ranulfo Bocayúva aos companheiros de redação como Chico Neto, Sérgio Fujiwara. O livro fluiu das reportagens e das fotos de A TARDE. É uma homenagem que assinala o primeiro ano do seu falecimento. A publicação é uma manifestação que ajuda a retratar o profissional da imprensa. Uma homenagem ao seu trabalho.

Robin Hood versus cultura na Bahia

cnsConsuelo Novais Sampaio

Enganam-se os que pensam não existir comprovação da existência de Robin Hood. O mito foi criado através dos séculos, baseado num personagem histórico.

Não se confirmou ainda se ele viveu suas aventuras na floresta de Sherwood, condado de Nottingham, na de Wakefield, ou na de Yorkshire. O Robin Hood real surgiu de pesquisas realizadas por paleontólogos, arquivistas e historiadores. O seu nome está gravado em sítios históricos, abadias e conventos, em tempos diferentes, sugerindo que outros bandoleiros (heróis?) usaram a alcunha que o identificava, para honrá-lo, e também valorizarem-se. Ele foi identificado num registro cronológico que lista os “fora da lei”, desde o século XII. O seu nome aparece entre os anos de 1227 e 1229.

No século XIII e seguintes, foram encontrados outros Robin Hoods. O de 1299 e seguintes foram descartados por se dedicarem a “furtos comuns”, que não se ajustavam aos poemas épicos, gestas e baladas medievais. O cruel xerife também foi real e perseguiu Robin Hood desesperadamente, através das florestas.

Os documentos na Inglaterra remontam a A.C., quando da ocupação celta, viking, romana etc. Ela foi bombardeada durante a 2ª Guerra, mas preservou seus documentos e estimula as reconstruções históricas. De igual modo, a história humana está sendo preservada pelos mórmons no fantástico arquivo que construíram nas montanhas Rochosas.

Não existe cultura sem memória, nem consciência de nação e de cidadão sem o conhecimento histórico. Não é à toa que na Disneylândia, CA, antes de entrar no fantástico mundo de diversões, você passa por um salão-museu dedicado a Abraão Lincoln, onde conhece a sua história; em seguida, um cine-teatro exibe filme sobre a guerra de independência dos USA. Causa inveja ver os cidadãos americanos saírem da sala orgulhosos, peito estufado. Não vou me alongar.

O leitor sabe que as nações, para serem nações, preservam suas histórias.

No ar uma pergunta: E nós? Como está a nossa cultura? O que se tem feito parece tão instável, circunstancial, inconsistente! Tem-se a sensação de desprezo por nossos bens históricos. Os jornais estão fartos de registrar; os responsáveis pelas instituições culturais e históricas, cansados de reclamar, pedir providências.

No dia 16, A TARDE mostrou a situação em Salvador. Documentos do século XVII deteriorados.

Não existe projeto sequer para digitalizálos. Os jornais? Esfacelados, pulverizados, embora não tenhamos sido bombardeados! A TARDE tomou a iniciativa de digitalizar a sua coleção, desde o ano de 1912.

O que impede o Estado de fazer o mesmo? Como aceitar que, para ter acesso às Mensagens governamentais, séc. XIX, tenhamos de buscá-las na Universidade de Chicago? É constrangedor, e mesmo vergonhoso.

Parca alocação de recursos financeiros? Interesses políticos imediatistas? Para publicar as cartas do governador Octávio Mangabeira no exílio, e elaborar o Dicionário BiográficoHistórico da Bahia, o Centro de Memória da Bahia (CMB) da Fundação Pedro Calmon (FPC) teve de recorrer à bancada baiana na Câmara Federal. Sensíveis à preservação cultural e histórica da Bahia, os deputados Lidice da Mata, Jutahy Magalhães Jr., João Almeida, José Rocha, Emiliano José, Felix Mendonça e Jorge Khoury fizeram dotações individuais. Logo liberadas, esses projetos serão realizados.

Além do CMB, a FPC teve outra pedra fundamental, quando criada em 1986: o Memorial dos Governadores. Então situado no Palácio Rio Branco, prestou grande benefício à conscientização da nossa população. Visitantes, escolas e turistas, monitorizados, recebiam explicações sobre a República na Bahia, ao passarem pelas vitrines com objetos pessoais e documentos dos diversos governadores.

Corre o rumor que o Memorial dos Governadores será contextualizado. O que isto significa, não sei. Ouvi dizer que as vitrines desaparecerão. Prefiro não acreditar, porque a era da cibernética não permite o aniquilamento de mais um pedaço da nossa história.

Negligência? Obscurantismo? Que falem os nossos “agentes culturais”.

Antônio Brasileiro toma posse como novo imortal

Antônio Brasileiro é conduzido pelos acadêmicos a assinar o termo de posse.

Logo após discursa sobre a Cadeira 21 e sobre o fato de ter virado personagem de Jorge Amado. Antônio Brasileiro – O Trovador de Feira de Santana.

Ruy Espinheira Filho sauda Antônio Brasileiro

Fotos do Evento

Antônio Brasileiro concede entrevista a TV

A Volta de Anisio Teixeira

ebEdivaldo Boaventura

Com muito senso de oportunidade, a revista Muito festejou os 60 anos da Escola Parque. Quanto mais me detive conscientemente  na educação, mais me aproximei do  pensamento de Anísio Spínola Teixeira, de sua inteligência questionadora e de sua  exemplar  humildade. Era  impressionante não somente a sua capacidade de indagação como também de realização. Dizia Jaime Junqueira Aires que Anísio tinha um braço preso no cérebro.

            Na companhia de  Carmen Teixeira, no Conselho  de Educação, intensifiquei mais ainda a admiração pelas referências constantes às ideias do  irmão.

 Pude sentir de perto a capacidade de questionamento de Anísio  quando falávamos dos dados e dos números  do Plano de Educação da Bahia, na gestão Luiz Navarro de Brito. Muito ao seu modo, destruindo e ao mesmo tempo reconstruindo, ponderou Anísio, muito criticamente, sobre o uso relativo que a estatística deveria ter no ensino. Argumentava que essa disciplina tinha muito mais a ver com a física e outras ciências do que mesmo com a educação. Chegou mesmo a afirmar, polemicamente, que a estatística da escola nada dizia da escola. Para tanto argumentou com a incerteza da natureza, plena como é de curvas, saliências, anfractuosidades, irregularidades, terminando por afirmar que a natureza é sempre meio peluda. Assim se expressava e apontava para extremidade da mesa de reunião, mostrando e gesticulando com os dedos, tentando materializar as irregularidades com as saliências do móvel. Contrastou o corte reto na madeira com as incertezas do comportamento humano. E repetia – a natureza é meio peluda, incerta, para permitir uma regularidade absoluta.

Uma outra afirmativa de que me recordo, igualmente pertinente e irreverente, referia-se ao professor-pesquisador. Foi notável a sua afirmação, primando pelo feitio atitudinal e pela dificuldade de mudança de comportamento docente. Com espressiva ênfase afirmou: para que o professor que ensina regularmente passe a pesquisar seria preciso que houvesse uma mutação na natureza! Sábia e empírica ponderação! De fato a passagem do professor-ensinante para professor-pesquisante, com licença do galicismo, é tremendamente difícil quando não impossível. Em realidade, uma mutação requer muitos anos. Referia-se a Anísio à mudança de novoc hábitos intelectuais, especialmente, à criação de novos comportamentos, atitudes e posturas de investigar. Os programas de mestrado e doutorado confirmaram a assertiva de Anísio.

Indo ao Rio de Janeiro, fui visitá-lo, no seu escritório. Com outros conselheiros de educação, conversamos largamente sobre o que se passava na Bahia. Indagou como  ia o reitor Roberto Santos à frente da Universidade Federal da Bahia. Respondemos que estava às voltas com a implantação da reestruturação e mais com passeatas e protestos dos estudantes, ao tempo em que se  ocupava com a construção das novas instalações,  na Federação. O reitor executava o primeiro acordo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ocupava-se com a implantação das novas unidades acadêmicas, como a Faculdade de Educação. Pois bem, ouvindo tudo e considerando a proliferação  das Faculdades de Educação pelo Brasil a fora, de repente, sem que esperássemos, saiu-se Anísio com essa exclamação: “ É outra loucura nacional.”

Atinente às construções, completou: “ Construir é o que há de mais simples em educação.”  Com esta afirmação, aparentemente  chocante, foi discorrendo, polemizando, contraditando, demolindo e reedificando com a força gigantesca de sua privilegiada inteligência.Como querendo dizer que o difícil é organizar e reorganizar escolas e currículos, formar e habilitar bem os professores.

Naquela oportunidade, apreciação elogiosa fez ao ensino médico  brasileiro, para ele, o único que alcançou padrão internacional. Saímos daquele encontro sobejamente impressionados com o poder de sua argumentação.

Em face de um pedido de apreciação sobre o racionalismo versus o empirismo saxônico, respondeu-me: “ A lógica não é  a de premissas, mas a de problemas, o pensamento é problem-solving ... “

Antônio Brasileiro, imortal e universal

Matéria publicada no Jornal A Tarde (BA) em 05/06/2010

Foto: Jornal A Tarde

Foto: Jornal A Tarde

 

 

 

Contraditório como é toda a modernidade, assim é o poeta Antonio Brasileiro, que no próximo dia 10, toma posse na Academia de Letras da Bahia (ALB). Poeta de muitas faces e homem de muitas artes, apresenta na sua obra poética uma reflexão lírico filosófica acerca de um dos motivos literários mais cantados na literatura ocidental: o desconcerto do mundo.

O poeta explora em sua poesia a tentativa vã de compreender a dinâmica do mundo.

Daí a marca da meta linguagem na obra do autor. Ele sabe que a contribuição do artista para os homens comuns é justamente a sua obra, ainda que incompreendida, ainda que seja um pobre elefante, ainda que seja “inútil a poesia”.

Cosmologia do mundo O poeta se sabe gauche, se sabe deslocado das engrenagens vigentes.

Porém, como não mais habita o Parnaso, ele convive com os outros homens, mas não como os outros homens, as diferenças são divisores de água, ainda que imperceptíveis, como diz nos versos poema Divisor de Águas: “Prezados senhores, somos todos da mesma cepa se vistos de binóculos ./ Mas não somos os mesmos. / Eu, com meus poemas indecifráveis / vós, com vossas gravatas coloridas” (ver destaque).

Brasileiro constrói de forma suave uma espécie de cosmologia do mundo moderno, com gos”. A poesia ergue sua taça.

Antonio Brasileiro Borges, ou simplesmente, Brasileiro. Poeta, prosador, pintor, professor doutor de Teoria da Literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, editor e ensaísta.

Nasceu em 1944, em Rui Barbosa, onde viveu até 1955 quando se transferiu para Salvador.

Desde 1972 vive em Feira de Santana. Terra onde fincou suas raízes e produz seus frutos.

Casado com a artista plástica Nanja, com quem formou o seu rico mosaico, é pai de três filhos e avô do pequeno Guilherme, seu novo amor.

Cadeira 21 Na ALB, ele se sentará justamente na cadeira 21, antes ocupada por Jorge Amado e Zélia Gattai, coincidentemente, outro cúmplice casal de artistas. Além de fazendeiro do ar é também fazendeiro da terra, pois, por estranho que pareça, ele é proprietário de uma fazenda no Acre. Epicurista convicto, jogador de tênis, faz caminhadas diárias e sempre reúne os amigos para longas tertúlias.

Aliás, seus amigos são o seu verdadeiro patrimônio, em torno deles, criou o Grupo Hera,um movimento poético dos mais significativos da literatura baiana, a nossa Geração 70, com nomes como Roberval Pereyr, Juraci Dorea e Leni David, fiéis companheiros de caminhada na tarefa de “Recitar um homem perante os outros homens”.

Brasileiro não criou heterônimos, mas pode se orgulhar de ter participado da formação de vários escritores baianos, tanto seus contemporâneos quanto jovens poetas, que circulam em torno de sua influência, uma prova de que sua Hera continua fértil.

Autor de 25 obras, entre elas Caronte (1995), Antologia poética (1996), A história do gato (1997), Dainutilidade da poesia (2002) e Poemas reunidos (2005), é considerado um dos mais importantes poetas da Bahia.

Seu reconhecimento é notório pela crítica especializada.

Sua poesia, hoje, é alvo de estudos de graduação e pós-graduação por todo o País.

Na ocasião de sua eleição,em agosto de 2009, muitos foram os elogios à sua chegada na casa dos imortais baianos: “Ele contribui para a riqueza desta casa”, comentou José Carlos Capinam.

Para Aleilton Fonseca, “a ALB acolhe um dos melhores segmentos da poesia baiana, além de marcar a presença de Feira de Santana, berço de tantos poetas, nessa instituição”.

ALANA FREITAS É DOUTORA EM TEORIAS CRÍTICAS DA LITERATURA