O Escritor Wilson Lins

arcAramis Ribeiro Costa

A obra publicada de Wilson Lins, mesmo excetuando-se as crônicas que permaneceram esparsas nos jornais, é ampla e diversificada, incluindo coletâneas de crônicas, ensaios, uma novela e seis romances, além de um precioso volume de memórias. Ao chegar a esta Casa, em setembro de 1967, com quarenta e oito anos de idade e uma respeitável experiência de vida, para tomar posse na Cadeira número 38, Wilson trazia uma obra em andamento, porém com o principal realizado, uma obra já definida e consagrada, ao menos no cenário não pouco exigente da literatura baiana. Verdade que seu maior prestígio vinha da militância política. Mas vinha também em grande parte do jornalismo, e não apenas em decorrência do seu destacado papel no combativo O Imparcial, onde ele era, além de filho do proprietário, o redator-chefe, mas também da repercussão das suas crônicas, críticas literárias e artigos assinados.

N’O Imparcial escreve crônicas diárias políticas bem-humoradas com o pseudônimo Quincas Borba, e rodapés semanais de crítica literária com o próprio nome. A partir de 1951, já no Diário de Notícias, inicia o pseudônimo Rubião Braz que, não sendo o Rubião de Quincas Borba nem o Braz Cubas das Memórias póstumas, trazia algo da aguda observação e da fina ironia machadianas, conquistando de imediato um público cativo. Foi o prestígio de Rubião Braz que o levou, em 1952, do Diário de Notícias ao Diário da Bahia e depois para A Tarde, onde, mais adiante, foi também o editor da página literária semanal, aos sábados. Exercidas em três jornais sucessivos ao longo de oito anos, de 51 a 59, essas crônicas do cotidiano, irônicas, mordazes, bem-humoradas, mas sobretudo inteligentes, tinham como alvo principal a política e os políticos, atirando, como uma implacável metralhadora giratória, rajadas certeiras, que atingiam seus objetivos com a irreverência e o riso no lugar do chumbo e da pólvora. Uma pequena amostra das crônicas de Rubião Braz pode ser encontrada na coletânea Os outros, editada em 1955 pela Empresa Gráfica da Bahia.

A vertente do ensaio, gênero dos afetos, das admirações e das afinidades, mas também do espírito especulador e investigativo, acompanhou-o ao longo de toda a vida. 12 ensaios de Nietzsche, de 1945, A infância do mundo, de 46, e Tempos escatológicos, de 1959, registram seu entusiasmo pelas idéias do filósofo alemão, suas descrenças, suas inquietações e, finalmente, sua volta definitiva à crença religiosa. São reflexões centradas em questões políticas, existenciais e transcendentais, quase sempre insolúveis, mas necessárias e instigantes, que nos apresentam, ainda hoje, uma surpreendente vocação do autor para a filosofia.

Já em O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de 1952, com mais duas edições posteriores, em 60 e 83, o enfoque é a região ribeirinha da sua infância, hoje inteiramente submersa nas águas sem memória da Represa de Sobradinho. O filósofo cede lugar ao historiador, ao antropólogo, ao sociólogo, ao folclorista, enfim, ao estudioso da sociedade, na investigação e no registro criteriosos da sua gênese, da sua política, da sua economia, dos seus costumes, das suas artes populares, das suas peculiaridades. Mais do que um simples estudo, mais do que um livro de leitura agradável, o ensaio sobre o Vale do Médio São Francisco é um documento, a fazer parte obrigatória da galeria das obras fundamentais, que estudam e explicam as diversas regiões da Bahia.

Otávio Mangabeira e sua circunstância, volume editado pelo Conselho Estadual de Cultura no ano de 1986, em comemoração ao centenário de nascimento de Otávio Mangabeira, é uma seleta de homenagem, que bem poderia, por suas análises e percepções, mas também pela intenção do conjunto, ser considerada igualmente um ensaio. Cronista e memorialista, com o domínio narrativo dos dois gêneros, tendo acompanhado, por muitos anos, de longe e de perto, o carismático governador, senador e tribuno baiano, tanto em sua trajetória política quanto em sua vida particular, Wilson reúne, nesse livro, páginas diversas no tempo e nas circunstâncias, mas que se tornam harmônicas no tema e na forma encantadora de escrever. O resultado dessa coletânea é um depoimento também fundamental para o conhecimento de Otávio Mangabeira, que foi, ao que parece, sua maior admiração política, depois da figura quase lendária e mítica do pai coronel.

Ainda na vertente do ensaio, outra afinidade-eletiva, como diria Goethe: o epigrama. Musa vingadora — crônicas do epigrama na Bahia, editado em 1999 pela Edufba, trata-se não apenas de uma preciosa coleta do que melhor se tem feito na Bahia, na tantas vezes malvista e malquista especialidade poética. Fosse apenas isso e já teria o seu valor, por resgatar e resguardar do esquecimento uma seara fértil e curiosa, mas de destino efêmero, da nossa cultura e do nosso espírito. Mas, vai além. Ao rastrear o epigrama, de Gregório de Mattos aos epigramistas mais recentes, que tanto incomodaram e divertiram e continuam incomodando e divertindo, mais incomodando do que divertindo os contemporâneos, Wilson Lins segue biografando, historiando, ambientando, esclarecendo, comparando e analisando os epigramistas baianos de todas as épocas e estilos, dos mais finos, inteligentes e sutis aos mais grosseiros, sem esquecer um injusto epigrama feito para ele próprio e seus romances. Realiza, dessa forma, mais um ensaio erudito, de extraordinária importância para os estudiosos da nossa cultura. A exemplo de Alberto de Oliveira, ao elaborar a célebre antologia de sonetos, e de Graciliano, ao organizar uma antologia de contos, não se incluiu entre os cultores do gênero. Mas é sabido que ele próprio foi também um competente e temido epigramista, tendo revezado com o incomparável mestre do epigrama, Lafaiete Spínola, na coluna “O Epigrama do Dia”, que existiu durante dois anos n’O Imparcial.

Finalmente digno de registro, na área da não-ficção, é o seu curioso livro de memórias, Aprendizagem do absurdo — uma casa após a outra, entregue ao público em 1997, graças ao valioso concurso do presidente do Conselho Estadual de Cultura à época, o acadêmico Waldir Freitas Oliveira. São recordações e depoimentos, tecidos e entretecidos a partir de cada residência do autor, resultando, também esse livro, numa fonte importante para a memória baiana do século XX.

Essas obras, até aqui ligeiramente citadas, já fariam a nomeada e o respeito do escritor que hoje recordamos. Particularmente o excelente ensaio sobre o Médio São Francisco. Porém, o maior legado literário de Wilson Lins, aquele que faz dele um dos grandes das nossas letras, creio ser a sua obra de romancista. Há uma unanimidade entre os seus amigos intelectuais mais próximos e mais antigos, entre os quais os já citados Jorge Amado e Jorge Calmon, em considerar esta a sua verdadeira vocação, acima até mesmo da política e do jornalismo. E parece que, de fato, o romance foi o seu maior objetivo, aquele ponto luminoso que perseguimos para justificar a vida, ou, pelo menos, as dificuldades e os desencantos da vida. Nas confissões do seu discurso de posse nesta Casa, vamos encontrá-lo menino de calças curtas e pés descalços, a ouvir com enlevo os relatos dos combates e das valentias dos jagunços do pai, e a recriá-los nas brincadeiras com os pequenos companheiros na beira do rio. Ali, já era o ficcionista, que não escrevia, mas punha a imaginação a funcionar, nas situações de perigo e violência que, mais tarde, seriam os enredos dos seus movimentados romances. Confessadamente mau aluno, por não se interessar pelas matérias formais da escola, deixa-se fascinar pela vasta biblioteca do Ginásio Carneiro Ribeiro, tornando-se leitor apaixonado de romances, devorando um após outro e, não contente com isso, escrevendo a continuação deles, muitas vezes acrescidas de novos personagens, como fez ao volumoso As minas de prata, de Alencar.

O conhecimento de Friedrich Nietzsche, iniciado com a leitura de Assim falava Zaratustra, ampliado no aprofundamento de toda a obra do professor e filósofo alemão, iria desviá-lo por um tempo daquele mundo rude e pragmático da sua infância, impregnando-o de um espírito filosófico e dialético até então inexistente. Mas, não iria desviá-lo da sua vocação de romancista. A prova é que, desse mergulho fundo nas águas densas e fundas de Nietzsche, emerge com o seu primeiro romance, Zaratustra me contou, escrito aos dezessete anos de idade, e que teve, em 39, uma edição de mil exemplares, impressa na Tipografia Naval e patrocinada pelo pai coronel.

É curioso que um primeiro romance, surrealista e pretensamente filosófico, escrito por um quase menino de dezessete anos de idade e impresso numa tipografia da província, tenha merecido um comentário em jornal, no Sul do País, de um tão renomado crítico literário como foi Alceu Amoroso Lima. Mas isso aconteceu, e essa crítica de Tristão de Ataíde, arrasadora, embora concluísse que o livro tinha todos os defeitos menos a mediocridade, iria determinar o seu comportamento como romancista a partir daí. Nos vinte e cinco anos seguintes, escreveu e destruiu quinze romances e só em 55 publicou uma deliciosa novela de sátira política, Os Segredos do herói cauteloso, satirizando os governos de Otávio Mangabeira, Régis Pacheco e Antônio Balbino — respectivamente Octaviano Manga, Lélis Pereira e Antônio Sabidino —, merecidamente assinada por Rubião Braz. Mas o romance permanecia travado pelo impacto da crítica negativa do doutor Alceu.

Talvez tudo isso fosse necessário, para que o romancista Wilson Lins encontrasse o seu veio definitivo, e pudesse enfrentar com segurança a navegação ficcional de fôlego no grande rio da sua infância, construindo, em cinco romances magníficos, a saga do São Francisco. Essa nova e vigorosa etapa da sua ficção inicia-se em 1964, com Os cabras do coronel, romance editado pela GRD, e logo se desdobra numa trilogia, com O reduto, em 65, e Remanso da valentia, em 67, ambos pela Martins Editora, de São Paulo.

É impressionante e quase inacreditável essa realidade medonha ocorrida fora das capitais, em quase todo o território nacional num certo período da nossa história recente, e que nos chega bem mais através da ficção, particularmente do romance, do que da própria história, embora nos venha também por meio de grandes ensaios, como, na Bahia, o próprio O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros, de Wilson Lins, e Jagunços e heróis, de Walfrido Moraes. Essa realidade detona em todo o Brasil, de Norte a Sul, um romance rico em peripécias, aparentado com as grandes epopéias clássicas, com os romances de cavalaria do século XVIII e até mesmo com os romances de folhetim do século XIX, onde heroísmo e banditismo se confundem, pondo a vida humana com a maior naturalidade na mira impiedosa de um fuzil ou na lâmina traiçoeira de um punhal. Falando especificamente da Bahia, para não me estender demasiadamente nessa homenagem à memória do nosso querido Wilson, a saga épica dos coronéis e dos jagunços, nas guerras, escaramuças, crimes e falcatruas cartoriais e políticas pela conquista da terra e do poder na região, é um dos veios mais poderosos da nossa literatura.

Podemos traçar um mapa baiano desse romance de sociedade patriarcal e feudal que estabelece o binômio coronel-jagunço, ou apenas concentra no jagunço a figura destemida e trágica do herói-bandido, um romance que ganha vulto com Jorge Amado, com Terras do sem fim, São Jorge dos Ilhéus e Tocaia Grande, segue magistral com Adonias Filho e Herberto Sales, com Corpo vivo e Cascalho, e chega, como uma fórmula testada e vitoriosa, a Wilson Lins.

O cacau, o diamante e o gado, fontes de riqueza nas diversas regiões do solo baiano, são motivações econômicas para os grandes interesses que são o poder e o prestígio político dos coronéis, poder e prestígio alicerçados basicamente no poder econômico, mas também na valentia e na fidelidade dos cabras ou jagunços. Nessa estrutura social, econômica, familiar e política imperam a violência, o crime, a crueldade, a arbitrariedade, a exploração da mão de obra em troca de proteção, e uma espantosa impunidade, como se a lei e a justiça simplesmente não existissem, ou existissem apenas ao sabor da conveniência dos coronéis, que acabam detendo o poder absoluto, inclusive de vida e de morte, diante do qual nem os poderes constituídos da república ousam interferir. É o próprio Wilson Lins quem diz, n’Os cabras do coronel:

…a verdade é que todo o sertão estava armado, e não era só na Bahia, mas em todo o Brasil, onde os coronéis mantinham verdadeiros exércitos, que em muitos casos eram mais bem armados e municiados que as polícias estaduais, e, constantemente, eram chamados a ajudar os governos dos Estados e o próprio governo federal a debelar revoluções e levantes militares.

Mais adiante, num dos capítulos d’O reduto, reafirma Wilson:

Naqueles duros tempos, as pequenas vilas e cidades do Vale do São Francisco, isoladas do resto do país, viviam entregues ao arbítrio dos coronéis, que eram os senhores da vida e da morte, especialmente da morte, de quantos ali habitassem. Os governos estaduais não tinham como fazer chegar às suas populações os efeitos da autoridade pública e dos mandamentos da lei. A justiça era distribuída pelos chefes locais, que dominavam os juízes e promotores, que, só em um ou outro caso isolado, reagiam à prepotência dos rudes senhores, e os poucos magistrados que ensaiavam reagir eram quase sempre transferidos, uma vez que os governadores dos estados procuravam de todo modo evitar choques com os governantes virtuais do sertão, cujos aguerridos exércitos mantinham aqueles ermos inteiramente fora do controle de outra autoridade que não fosse a deles.

Prossegue Wilson, em sua preciosa análise:

As grandes formações de forças de linha não podiam enfrentar com êxito as numerosas tropas de guerrilhas dos donos do agreste, que, operando em pequenos grupos de combate, imobilizavam com facilidade as forças regulares, nas bocainas e nos tabuleiros, razão por que os governos estaduais eram condenados a dividir sua autoridade com os chefes sertanejos. Para fazer face a um coronel que se rebelasse contra a política oficial, os governos dos estados lançavam mão do recurso de armar um coronel contra o outro, sob a promessa de que, uma vez dominado o insurgente, o município por ele dirigido passaria a ser seu. Daí a constância com que municípios vizinhos se engalfinhavam em guerras intermináveis.

Nessas considerações do romancista, encontram-se o cenário e a motivação dos seus romances, auferidos largamente na infância em Pilão Arcado, tendo como herói maior dessa epopéia sertaneja a figura do pai, o coronel Franklin Lins de Albuquerque, e plasmados na maturidade do homem, em pleno domínio da linguagem, da técnica e do estilo do escritor.

Embora formem uma trilogia, os três primeiros romances desse ciclo não se submetem a um título comum, e podem ser lidos separadamente, sem prejuízo do entendimento ou do encanto narrativo do enredo, que se faz por meio de capítulos curtos, de forma linear e concisa, com discretas retrospectivas. A escrita é vazada numa linguagem simples, direta, quase coloquial e fartamente enriquecida de regionalismos, num tom sério e quase rude, que nada lembra o irônico, satírico e bem-humorado Rubião Braz, mas que não deixa escapar, sem um ótimo aproveitamento, a comicidade de determinados tipos e circunstâncias, como o furor sexual de Doninha Calango, a assumida preguiça de Chiquinho Calça-Frouxa ou a divertida relação do coronel Torquato Thebas com a empregada Naninha, que ele desvirgina e que, supremo desaforo, logo em seguida o trai com um sobrinho dele. Resguardado nos bastidores da terceira pessoa onipresente, o autor vai narrando como se narram, na tradição oral da gente do povo, as histórias e os feitos dos heróis e dos bandidos, porém sem prescindir do olhar lúcido e esclarecedor do homem culto, a elucidar, a conferir perspectiva e profundidade às situações narradas, erguendo, dessa maneira, os romances à altura das obras cultas, como amplamente demonstrado nas citações aqui consignadas.

A trilogia tem início de forma bastante movimentada, com Os cabras do coronel, cujo enredo é basicamente a fuga e a perseguição de Domingos Amarra Couro, um dos homens da prostituta Doninha Calango. Enlouquecido de amor, o cabra decide trair o coronel e abandonar a vida de jagunço, para viver em paz com  a sedutora Doninha. Perseguido implacavelmente pelos ex-companheiros, ferido, maltratado, o jagunço se arrepende e tenta voltar, mas acaba morto. Fuga e perseguição servem de pretexto para a apresentação das desavenças dos coronéis no ambiente violento e rude, onde o combate e a morte são o cotidiano dos cabras, e onde a figura do coronel de Pilão Arcado, que outro não é senão o coronel Franklin, é onipresente e onipotente, embora, nesse romance, não apareça diretamente uma única vez, e não tenha nome, sendo apenas denominado de “o Coronel”, ou “o Vermelhão”. Também aí se encontra a gênese da Vila de Santo Antônio de Pilão Arcado, o “velho burgo nascido de uma feitoria colonial’, “plantado na encosta de um morro de brancas pedras soltas”, impondo-se “como um baluarte natural, dominando o vale”, e cujo nome significa “Pilão em Baixo do Arco”, numa referência aos arcos dos guerreiros e ao grande pilão da tribo em que era pisada a mandioca para fazer o cauim. Iniciada de modo truculento e movimentado, a trilogia arrefece o ímpeto no livro seguinte, O reduto.

Se o ritmo da ação diminui, reduzindo também a violência, à semelhança de São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado, após a violência e a movimentação de Terras do sem fim, esse segundo romance da trilogia cresce em linguagem, em elaboração, em qualidade literária. O “reduto”, que é Pilão Arcado, espera o coronel que partiu para a luta armada, e que já não é chamado apenas de “o Coronel” ou “o Vermelhão”, como ocorre no romance anterior, mas de “coronel Franco”. Agora, ele aparece em cenas muito rápidas, bastando isso para manter a sua presença forte no desenrolar dos acontecimentos. Encarregado pelo governo federal de perseguir a Coluna Prestes, o coronel Franco cobre-se de glória na guerra, como um rei Artur nas Cruzadas, enquanto comanda o seu povo à distância por meio de dona Bonina, recriação ficcional de dona Sofia, a mãe de Wilson. Há uma espécie de trégua na guerra interminável entre os coronéis vizinhos, particularmente com o maior inimigo do coronel Franco, o coronel Torquato Thebas, de Remanso. Vemos a gênese do poder do coronel Franco e o início das inimizades entre ele e os demais coronéis. Vemos também, com riqueza de pormenores, a própria vida ribeirinha do São Francisco, com seus tipos, seus costumes, suas toadas e cantigas, sua forma peculiar de viver e sobreviver. O reduto ilustra e completa, com o calor e o atrativo da ficção, todo o exposto no ensaio d’O Médio São Francisco, uma sociedade de pastores e guerreiros.

Na linha previsível dos acontecimentos, a volta do coronel Franco a Pilão Arcado reaviva as antigas desavenças entre os coronéis, particularmente entre ele e Torquato Thebas, e o confronto final se faz inevitável em Remanso da valentia, a terceira parte dessa trilogia consagradora, recrudescendo a brutalidade, a violência, a crueldade dos combates entre os jagunços. Perpassam os três volumes as figuras engrandecidas dos coronéis, de alguns jagunços, mas também de Doninha Calango e de Pedro Velho, o vidente afilhado da morte. Esse último personagem é o único e discreto matiz fantástico nas cores realistas desses romances, construídos sobre os alicerces da dura verdade sertaneja. Ao conversar com a morte, a sua Dindinha, visível apenas aos seus olhos cansados, e que é descrita como uma velha senhora coberta de trapos, Pedro Velho transcende a realidade da narrativa. Mas, ainda assim, para adentrar na esfera da realidade última e fatal da própria vida.

Deixando o ambiente e os personagens da trilogia, o imaginoso autor desloca a ação romanesca de Pilão Arcado, Remanso e Sento-Sé, praças-fortes de acirrada disputa política, para a cidade-santuário de Bom Jesus da Lapa, com sua Gruta dos Milagres, suas procissões, suas velas votivas, suas beatas, seus doentes, seus pedintes, suas cantorias arrastadas. “Uma atrás da outra, caravanas de devotos” vão “pagar promessas ao crucificado da Gruta”, e “a pequena cidade” é “convertida num agitado formigueiro humano, com os romeiros enchendo a gruta e as ruas, e os negociantes de quinquilharias enchendo os bolsos às custas dos romeiros”. Trata-se também de um cenário marcante da infância de Wilson. Aos seis anos de idade, recuperado de enfermidade grave, fora levado pelos pais em romaria à gruta do Bom Jesus, e ficara impressionado com as “andrajosas multidões de cegos e aleijados, cantando benditos súplices”. Responso das almas, que é esse o romance, editado em 1970, pela Martins, teria também uma edição em Portugal. O principal personagem dessa narrativa de extraordinária velocidade, pontuada igualmente por luta armada, truculência e morte, é Otílio, o menino órfão e pobre transformado em Rotílio, o jagunço valente que se faz bandido e depois coronel. Dessa forma, torna-se uma síntese do binômio mais representativo do sertão épico de Wilson Lins, todo ele marcado pelas figuras simbiônticas do coronel e do jagunço. É também o único romance onde o coronel Franklin é mencionado com o próprio nome.

O último romance, Militão sem remorso, de 1980, pela Editora Record em convênio com INL/MEC, completa o vasto painel ficcional da terra e da gente do São Francisco. Retorna a Pilão Arcado, o reduto familiar, mas recua no tempo, à época do império, quando o velho burgo dos arcos dos guerreiros era dominado pelo caudilho Militão Plácido de França Antunes. História de amor, de adultério e de morte, sempre a morte banhada de sangue a perpassar as tramas, nela desponta a figura forte da fazendeira Otávia, tão volúvel, sedenta de sexo e incapaz de resistir à sedução de um homem, quanto a prostituta Doninha Calango, a extraordinária personagem da trilogia. Militão sem remorso é também um retorno às origens das lutas armadas, na disputa aguerrida das terras e da supremacia política na região.

Essa obra tão rica e variada, em particular os romances do São Francisco, é o grande legado de Wilson Lins. Uma obra para ser reeditada, lida, estudada e propagada para o resto do país, para que venha a ocupar o seu merecido lugar de destaque no cenário da literatura nacional.

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