A Volta de Anisio Teixeira

ebEdivaldo Boaventura

Com muito senso de oportunidade, a revista Muito festejou os 60 anos da Escola Parque. Quanto mais me detive conscientemente  na educação, mais me aproximei do  pensamento de Anísio Spínola Teixeira, de sua inteligência questionadora e de sua  exemplar  humildade. Era  impressionante não somente a sua capacidade de indagação como também de realização. Dizia Jaime Junqueira Aires que Anísio tinha um braço preso no cérebro.

            Na companhia de  Carmen Teixeira, no Conselho  de Educação, intensifiquei mais ainda a admiração pelas referências constantes às ideias do  irmão.

 Pude sentir de perto a capacidade de questionamento de Anísio  quando falávamos dos dados e dos números  do Plano de Educação da Bahia, na gestão Luiz Navarro de Brito. Muito ao seu modo, destruindo e ao mesmo tempo reconstruindo, ponderou Anísio, muito criticamente, sobre o uso relativo que a estatística deveria ter no ensino. Argumentava que essa disciplina tinha muito mais a ver com a física e outras ciências do que mesmo com a educação. Chegou mesmo a afirmar, polemicamente, que a estatística da escola nada dizia da escola. Para tanto argumentou com a incerteza da natureza, plena como é de curvas, saliências, anfractuosidades, irregularidades, terminando por afirmar que a natureza é sempre meio peluda. Assim se expressava e apontava para extremidade da mesa de reunião, mostrando e gesticulando com os dedos, tentando materializar as irregularidades com as saliências do móvel. Contrastou o corte reto na madeira com as incertezas do comportamento humano. E repetia – a natureza é meio peluda, incerta, para permitir uma regularidade absoluta.

Uma outra afirmativa de que me recordo, igualmente pertinente e irreverente, referia-se ao professor-pesquisador. Foi notável a sua afirmação, primando pelo feitio atitudinal e pela dificuldade de mudança de comportamento docente. Com espressiva ênfase afirmou: para que o professor que ensina regularmente passe a pesquisar seria preciso que houvesse uma mutação na natureza! Sábia e empírica ponderação! De fato a passagem do professor-ensinante para professor-pesquisante, com licença do galicismo, é tremendamente difícil quando não impossível. Em realidade, uma mutação requer muitos anos. Referia-se a Anísio à mudança de novoc hábitos intelectuais, especialmente, à criação de novos comportamentos, atitudes e posturas de investigar. Os programas de mestrado e doutorado confirmaram a assertiva de Anísio.

Indo ao Rio de Janeiro, fui visitá-lo, no seu escritório. Com outros conselheiros de educação, conversamos largamente sobre o que se passava na Bahia. Indagou como  ia o reitor Roberto Santos à frente da Universidade Federal da Bahia. Respondemos que estava às voltas com a implantação da reestruturação e mais com passeatas e protestos dos estudantes, ao tempo em que se  ocupava com a construção das novas instalações,  na Federação. O reitor executava o primeiro acordo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ocupava-se com a implantação das novas unidades acadêmicas, como a Faculdade de Educação. Pois bem, ouvindo tudo e considerando a proliferação  das Faculdades de Educação pelo Brasil a fora, de repente, sem que esperássemos, saiu-se Anísio com essa exclamação: “ É outra loucura nacional.”

Atinente às construções, completou: “ Construir é o que há de mais simples em educação.”  Com esta afirmação, aparentemente  chocante, foi discorrendo, polemizando, contraditando, demolindo e reedificando com a força gigantesca de sua privilegiada inteligência.Como querendo dizer que o difícil é organizar e reorganizar escolas e currículos, formar e habilitar bem os professores.

Naquela oportunidade, apreciação elogiosa fez ao ensino médico  brasileiro, para ele, o único que alcançou padrão internacional. Saímos daquele encontro sobejamente impressionados com o poder de sua argumentação.

Em face de um pedido de apreciação sobre o racionalismo versus o empirismo saxônico, respondeu-me: “ A lógica não é  a de premissas, mas a de problemas, o pensamento é problem-solving ... “

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