Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia

 

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

Ao abordar o tema Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia, esclareço desde já que se trata no presente caso da introdução a um estudo mais amplo que pretendo realizar, enfocando as diversas vertentes da ficção deste autor: a dos contos ambientados no agreste baiano, dos quais o conto Sol é um dos melhores exemplos; a de ambientação urbana, de tons líricos e humorísticos, enfocando a classe média baixa, dentre os quais se destacam dois contos primorosos, Cena doméstica em véspera de Natal e A derrota ou sorte grande no Natal, este último uma refinadíssima peça de humor e ironia; a do misticismo afro-baiano, na qual a novela O leque de Oxum é principal referência; a de contos mais psicológicos, como Antes do segundo marcado, O cavalo e a rosa e Confissão (este com ecos do conto fantástico de Poe, Hoffmann e Maupassant); e, finalmente, a dos contos de tradição marítima, muito menos presente em nossa ficção do que seria de se esperar, considerando-se a extensão da nossa costa, da qual Vasconcelos, ao lado de Xavier Marques e Garbogini Quaglia, entre outros escassos nomes, é um dos poucos representantes.

Nesta breve comunicação, permanecerei no limite desta última vertente, tomando como exemplo um texto vigoroso, conto da maturidade do autor, Cação de areia, do livro homônimo, editado em 1986 pela GRD, de Gumercindo Rocha Dórea.

Carlos Vasconcelos Maia, nascido em Santa Inês, Bahia, a 20 de março de 1923, e falecido em Salvador a 14 de julho de 1988, integrou a conhecida geração de autores da revista Caderno da Bahia, que consolidou o Modernismo em nosso Estado, entre a segunda metade dos anos 40 e o início dos anos 50. O surgimento, em 1948, dessa revista, editada por Darwin Brandão, Cláudio Tuiuti Tavares, Wilson Rocha e pelo próprio Vasconcelos, teve importância capital nesse processo. Ele foi o grande contista desta geração.

Como era a Bahia de Vasconcelos Maia, e de que forma ela aparece, ou seria melhor dizer, transparece, nos seus contos? Era, sem dúvida, uma Bahia bem mais próxima da soterópolis parnasiana do início do século 20, do que da Bahia pós-moderna do início do século 21. Na capital, apesar da modernização em curso, acentuada a partir dos anos 50, no governo de Octávio Mangabeira, ainda persistia o espaço edênico das chácaras e dos quintais; das ruas tortuosas cortadas por bondes sonolentos. No interior do estado, estava-se no apagar das luzes (melhor seria dizer, das fogueiras) do coronelismo arcaico, representado, até duas décadas antes, por um Horácio de Mattos, mas pouco havia se modificado, em termos essenciais, em relação ao tempo do Brasil Colônia. Estas duas faces do território baiano – o sertão e o litoral – não passariam imunes à prosa vigorosa, crítica, transformadora e efetivamente moderna de Vasconcelos Maia. Mas, veja que já falamos de uma estética bastante diversa do regionalismo pitoresco de outros insignes escritores baianos: Xavier Marques, retratista lírico e idílico do litoral baiano; ou Afrânio Peixoto, de espírito cientificista, voltado para as paisagens sertanejas do sertão baiano, mais especificamente das lavras diamantinas. Longe da prosa castiça e rebuscada do primeiro, e da inócua psicologia do segundo, Vasconcelos nos fez ver as paisagens do nosso estado através de uma prosa descritiva perfeitamente ajustada à ação e ao movimento interior dos seus personagens. Se há algo de pitoresco em alguns de seus textos, com a utilização da chamada cor local, esse algo é parte de um todo orgânico, e nunca um mero ornamento.

É esta adequação de tempo e espaço interiores e exteriores, associada a uma linguagem enxuta, precisa, dinâmica e vigorosa, na qual se fixa um determinado espírito de época, uma das características que faz de Vasconcelos um escritor moderno. Assim, se por um lado pode-se reconstruir, no imaginário do leitor, com surpreendentes minúcias, paisagens, ambientes e costumes de uma Bahia dos anos 40 a 70, em acelerado processo de transição, por outro é possível identificar os momentos em que a imaginação criadora do ficcionista imprime, a essas mesmas paisagens, ambientes e costumes uma transfiguração que a projeta num território psicológico, introspectivo: o território da criação artística. Isto ocorre, de forma dramática, no que o escritor Guido Guerra, que editou, em 2000, uma seleção de contos daquele autor, sob o título Sol, terra, mar, classifica como “talvez o texto mais denso de sua maturidade”, o conto Cação de areia. (Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000. 249 p.) A coletânea reúne 13 contos selecionados por Guido Guerra (1943-2006).

Neste texto, exemplar da literatura marítima, à qual o nome do autor é sempre associado, conta-se a saga de dois pescadores: do narrador da história e do seu amigo de infância, João, que partem entre as paradisíacas ilhas, enseadas e promontórios da Baía de Todos os Santos, com o objetivo de pescar cações numa remota laguna, localizada numa praia de areia entre penhascos, “a cinco milhas mais ou menos da Ilha da Saudade”. Seria, talvez, uma pescaria como outra qualquer se pouco antes de partirem do porto, na Cidade Baixa, não conhecessem e incluíssem em seu périplo duas jovens, hippies, que vagavam famintas e disponíveis, “como cachorro sem dono”, pela Península Itapagipana.

No conto, que inclui descrições minuciosas das embarcações, dos procedimentos náuticos, das refeições dos personagens, dos movimentos do oceano e das marés, da vegetação de restinga, dos ventos e tempestades, dos tipos humanos que vão encontrando ao caminho e de cenas carregadas de um erotismo puramente instintivo, quase selvagem, o escritor leva, passo a passo, os quatro personagens, numa tensão crescente, ao clímax, na laguna, onde o leitor se surpreende, no limite do realismo cru do narrador, agora não mais num espaço real – melhor dizendo: não mais na ilusão de mímesis, no sentido Aristotélico, de imitação da natureza – e sim de uma semiosis, na qual o significante, antes ocultado habilmente, para melhor ênfase na ilusão de uma pretensa objetividade, possibilita ao leitor atento perceber que o cenário geográfico é como sempre foi um espaço imaginário, eterno e atemporal, no qual o homem confronta-se, apenas e unicamente, consigo próprio, com sua hybris, com as potências do seu instinto e do seu inconsciente. De repente, percebemos que a literatura de Vasconcelos Maia já não está falando do mundo, mas da própria literatura, da linguagem, do mundo no sujeito, pelo sujeito.

Cação de areia é uma narrativa clássica, épica, que traz no seu tecido narrativo uma ambiguidade. Ambiguidade esta que, entretanto, pode passar despercebida sob a aparência de uma simples aventura marítima. Mas, ao fechar-se o círculo desse estranho périplo, diferentemente da forma exata do texto, que se fecha sem qualquer sobra, permanece, no saldo da experiência vivida de seus personagens, estranhas lacunas: o narrador, movido por instintos e sensações, assaltado por sonhos recorrentes e perturbadores, às vezes violento e brutal, não retira, de sua experiência, qualquer sentido, senão o de, ao final de tudo, preservar o que unicamente lhe interessa: a sua vida rústica, ao sabor do sol, dos ventos e das marés, e a sua amizade com João, sua ética primitiva sustentada pelo trato “de nenhum se meter na vida do outro, principalmente quando tem uma mulher de permeio”.

João, guia da jornada (é ele quem conhece o lugar onde os cações reproduzem suas crias), mas destituído da voz que narra, que impõe a sua versão dos fatos, calado, prático, é, no entanto, diferentemente do seu companheiro de aventuras, sensível no trato com as mulheres, ao ponto de merecer a seguinte observação do narrador:

 

Ele tem sua maneira de tratar as amantes. Tenho a minha. Ele trata mulher como coisa fina, boneca de louça; isca de sardinha, leme de saveiro. Eu sou ao contrário. Gosto de bater, humilhar, aperrear, até seviciar. Achei que João, sem ser chamado, estava quebrando o nosso trato. Por outro lado, a birra daquela fulana já estava me chateando. Pensei: se João está quebrando um trato, vai me quebrar um galho. (GUERRA, 2000, p. 139)

Dele pouco se sabe a respeito do que representou a experiência de ir até a laguna, e, após ver frustrada sua expectativa de uma pesca farta, vingar-se de um cação que encalha no areal, matando-o, com o narrador, a golpes de arpão e de porrete. A cena, brutal, é assim descrita (citamos apenas um pequeno trecho):

 […] Cautelosamente, por caminhos opostos, nos aproximamos do cação ferido, porretes erguidos. A fera sentiu nossa aproximação. Mas não tinha forças para reagir. A maré estava completamente baixa e ele praticamente encalhado na areia. Sem dó nem piedade, ferozmente, baixamos os porretes em sua grande cabeça. À agressão, o cação fez a última tentativa de luta. Abriu a bocarra e mordeu infrutiferamente o espaço. Então, friamente, acabamos de esmigalhar sua cabeçorra com golpes frenéticos.  (GUERRA, 2000, p. 135)

 

A cena, testemunhada pelas duas mulheres que os acompanhavam até o ponto central do drama, representava um ato criminoso e revelava a bestialidade dos dois homens – mas para ser assim compreendida, foi necessário que uma delas o dissesse:

Apesar do sol que haviam tomado, estavam pálidas, as gargantas contraídas, os músculos do corpo tensos. E nos olhavam de maneira insólita. Pensei que estavam tomadas de admiração e respeito.

― Não foi brincadeira, hein? – falei. – Falei por falar.

Não sei porque diabo achei que tinha que falar. Talvez se tivesse ficado calado não teria acontecido o que aconteceu. A fulana de João, como de costume, nada respondeu. Mas a faladeira me olhou dentro dos olhos e, com uma voz que não parecia a dela, disse assim:

― Isso foi assassinato.

Estava agitado da luta e senti aquelas palavras rudes como um golpe muito duro. Virei-me para João. Estava medonho, coberto de sangue da cabeça aos pés. Nossos olhares se encontraram sem se enganar. Baixamos ambos, ao mesmo tempo, a vista. Era como se nos repugnasse de repente a presença um do outro. Aquilo tinha sido de fato, assassinato. Sabíamos disso, desde que decidíramos matar a fêmea. Sabíamos que o cação não tinha a menor possibilidade de defesa. (GUERRA, 2000, p. 136)

 

Seviciada pelo narrador, defendida e cuidada por João, a mulher criara, com suas palavras e seu olhar acusador, uma fenda ética entre os dois homens. Não esperávamos que alguém viesse nos dizer a verdade na cara, diz o narrador: “E logo quem! Uma merdinha de gente, uma putinha de beira de cais”. Mas a fenda é passageira, como passageiras são as duas mulheres naquela embarcação. Ou, pelo menos, assim parece – embora nada possamos dizer a esse respeito. Aos poucos, a rotina dos homens se recompõe, e ao final da viagem, assim que o saveiro toca na enseada dos Tainheiros, as duas mulheres pulam para o toco da ponte e desaparecem, “como duas calungas debaixo do temporal”. Mas, exercendo a minha liberdade de leitor, ouso afirmar que o mundo dos pescadores nunca mais será o mesmo.

Não deixa de causar certa estranheza que todo o aparato de descrições, de referências a uma rica toponímia, de fartas descrições de ilhas, praias, repastos, tipos humanos e tudo o mais que acentue os caracteres ditos regionalistas do conto de Vasconcelos Maia não impeçam, ou, ao contrário, até acentuem o deslocamento sutil que ocorre, do espaço geográfico para o psicológico, ou diria até mesmo mitológico, na narrativa do autor. É verdade que lá está toda uma paisagem familiar, afetiva, ao ponto de quase podermos sentir o cheiro do peixe assado na brasa, enrolado na folha de bananeira; o frio da brisa noturna, o medo das tempestades, o cheiro do sargaço, o calor intenso do sol dardejante. Mas, se alguma Bahia está ali representada, é e será, desde sempre, aquela que, tal como as cidades imaginárias de Macondo ou de Comala, só existe, efetivamente, na sua ou na minha subjetividade. Na do autor e do leitor. E, ao final das contas, é só esta que importa.

REFERÊNCIAS

GUERRA, Guido. Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s