Eleição de Gláucia Lemos

A nova acadêmica da Academia de Letras da Bahia, Gláucia Lemos, foi eleita em 29 de julho de 2010 para assumir a Cadeira 14 que teve o acadêmico Epaminondas Costa Lima como seu último ocupante.

Gláucia Maria de Lemos, é uma escritora brasileira, nascida em Salvador, Bahia, autora de vários títulos de literatura infanto-juvenil, como a coleção “Marujo Verde”, com quatro volumes publicados, mas também de contos, ensaios, resenhas e romances, alguns dos quais premiados (“O Riso da Raposa”, pela Academia de Letras da Bahia, em 1985, “A Metade da Maçã”, pela Secretaria de Cultura do Recife, em 1988, “As Chamas da Memória” pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro, em 1990 e “Bichos de Conchas”, vencedor do II Prêmio de Literatura da UBE/Scortecci, em 2007). A sua obra publicada é, praticamente na sua totalidade, prosa, exceptuando o livro de poesia infantil “O Cão Azul”. Tem, contudo, disseminada em várias páginas da Internet, alguma poesia da sua autoria.

O mago português e o gato brasileiro

alefAleilton Fonseca

Os descobrimentos portugueses, no século XVI, constituem não só fatos históricos, mas também se tornaram um rico tema literário. Neste particular, dois contos recentes chamam a atenção pela forma como reatualizam o imaginário dos descobrimentos lusitanos. O primeiro é O conto da ilha desconhecida, do português José Saramago, inicialmente publicado na revista Veja, de 24 de dezembro de 1997 e, posteriormente, em livro, pela Companhia das Letras, de São Paulo, em 1998. O segundo é A história do gato, do poeta baiano Antonio Brasileiro, publicado pelas Edições Cordel, de Feira de Santana, em 1997, e, mais tarde, na revista Iararana n. 3, de Salvador, em maio de 2000. Certamente um autor não conhecia o texto do outro, mas ambos têm em comum o tema e a motivação da data histórica, embora com enfoques diferentes em vários aspectos e, apesar disso, guardando aproximações interessantes. De permeio aos dois contos, devemos considerar, como texto conhecido de ambos os escritores, a Carta de Caminha ao Rei D. Manuel (1500), dando conta do achamento do Brasil.

O imaginário dos descobrimentos funde ideia, história e ficção e, como tal, é representado de ângulos diversos, a depender do ponto de vista e do locus cultural do narrador. Considerando a Carta de Caminha como referência comum com a qual dialogam os contos em questão, podem-se estabelecer relações entre estes si e com a carta histórica, discutindo suas aproximações e distanciamentos, como retomada crítica do referido imaginário.

José Saramago escreveu seu conto motivado pela Expo 98 de Lisboa e, na sua primeira divulgação no Brasil, na revista Veja, oferece-o aos brasileiros, como um convite para visitarem a Exposição: Diz ele: “Gostaria que esta minha Ilha Desconhecida fosse igualmente um convite para muitos leitores brasileiros: o de viajarem até à terra portuguesa, o de participarem no que será, sem dúvida, a Grande Festa dos Oceanos. A melhor representação do Brasil será a dos brasileiros. Venham”. (in: Veja)

A Carta de Caminha é uma referência tácita neste cruzamento de sentidos. Com sua retórica persuasiva, a missiva concentra seu relato em dois focos: sinaliza a existência das riquezas que interessariam ao comércio mercantilista e descreve os índios como seres dóceis e propícios à conversão. No corpo do relato, a profusão de imagens plásticas e descrições eloqüentes de um paraíso, manobras estilísticas que constituem as qualidades literárias do documento. O texto de Caminha reflete uma concepção preestabelecida, firmada na mentalidade expansionista portuguesa, que justapunha a visão prática, — ou seja, descobrir territórios, tomar posse deles e explorá-los, subjugando seus habitantes, —  a uma visão idealizada das novas terras, desejadas como verdadeiros mananciais paradisíacos.

Em O conto da ilha desconhecida, José Saramago redimensiona esse imaginário, adensando o sonho e o desejo da viagem, e deslocando os seus aspectos práticos, através da recusa ao seu estatuto institucional. Para tanto, o escritor elege personagens do povo, um homem que queria um barco e a mulher da limpeza do palácio real, como depositários do verdadeiro ideal da viagem e descoberta. No desencontro entre a vontade popular e a postura da Coroa, mostra-se o descontentamento social e a burocracia emperrada das instâncias do poder, simbolizada pelas diversas portas do Palácio, por onde o Rei atendia pouco e recebia muitos obséquios e homenagens. O conto inicia-se: “Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco.” O homem do povo, depois de enfrentar os entraves burocráticos, defronta-se com o próprio Rei, na presença de uma funcionária, a mulher da limpeza. Insiste que quer um barco para ir à procura de uma ilha desconhecida.

Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparte, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas  (Saramago, p. 17-18).

Esse homem do povo é desafiante em várias instâncias: da burocracia, do poder real, do saber cartográfico e histórico estabelecidos. Sua atitude desautoriza a viagem como estratégia de estado, conquista e empresa comercial e a afirma enquanto aspiração essencial, sonho e desejo de conhecimento. A ilha a ser descoberta não pertencerá ao rei.  De fato, vencido pela reiterada petição, o rei libera o barco e homem e a mulher da limpeza preparam a viagem, engajam marinheiros e partem em busca da ilha desconhecida, para, na verdade, empreenderem a busca de si mesmos, pela realização da viagem em si e pela mediação do envolvimento amoroso. Eis, pois, o sentido essencial da ilha procurada:

Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma. (idem,p. 61-62).

O sonho realiza-se no estar no barco, em viagem de autodescoberta, pelo sonho e pela imaginação. Sua necessidade – ou seja a necessidade do povo português – era descobrir-se a si mesmo, para redefinir sua identidade, o que não se resolveu com a política colonial expansionista. O conto de Saramago questiona o ideário dos descobrimentos de dentro de sua cultura, do lugar português. Desse modo, dessacraliza o imaginário prático, através do descentramento do sujeito navegador, um homem do povo em lugar do comandante nobre, numa viagem simbólica de interesse coletivo e não subordinada à Coroa. O percurso narrativo, carregado de afetividade pela valorização da cultura – a viagem em si – destila uma fina ironia no processo que, na acepção de Linda Hutcheon, seria um mecanismo distanciador, uma vez que “a reserva distanciadora pode também ser interpretada como um meio para uma nova perspectiva a partir da qual as coisas podem ser mostradas e, assim, vistas de maneira diferente. (Hutcheon: 2000, p. 79-80) Neste conto, fala a voz do intelectual português, numa reavaliação de sua cultura do passado, em busca de nuances interpretativas novas. Seu discurso abre brechas no registro histórico, para uma dimensão coletiva, simbólica, em torno de uma reflexão em torno da identidade, que perpassa o imaginário português desde Bandarra, Camões, Vieira, Fernando Pessoa e, agora, cabe aos escritores contemporâneos.

O conto de Antonio Brasileiro, A história do gato, tem uma imantação histórica bastante direta. Em estado de sonho, à beira-mar, o narrador empreende uma viagem no tempo e visualiza a chegada das caravelas de Cabral, reinterpretando-a através da consciência de um gato, personagem operatório por excelência. O gato, como personagem que o narrador visualiza e, por vezes, encarna, representa a reação crítica aos invasores. O gato do mato, elemento autóctone marcado pela esperteza e a insubmissão, funciona como voz crítica reinterpretante dos atos e discursos dos personagens registrados pela narrativa oficial, vista agora numa posição invertida, ou seja, a partir do lugar visitado/invadido. O conto assume esse tom desde o início:

 

Começou com o gato me olhando. Demorou um tempão — e eu ali,  sei lá!  Absorto?

Gato, empoleiro-me na cadeira de balanço e fico a ouvir um sonzinho diferente vindo do mar. Ah, são os navios de Pedro Álvares Cabral. Então não tem importância, já estiveram aqui antes. Simpáticas gentes, chegam cansadas.

Isto não é mesmo uma bosta, Pero? pergunta o comandante.

Quiçá, senhor Comandante.

Peguem este gato, deve ser selvagem.

Não é não, senhor Comandante. E ele quer-vos falar.

É impertinente, hem?

 (Brasileiro, 1997, p. 58)

 

E mais adiante:

 

Deixe-me ver o tal navegante.

Um preguiçoso, decerto. Varou mares, aportou nessas terras e agora ronca como um leitão. Incapaz de discernir, bronco que é, a fantasia da realidade, pensa talvez que veio aqui para dar uma olhadinha apenas, pois deve seguir viagem. Capitão é pra isso mesmo. Claro que é pra isso mesmo, não houve nada de mais. Refiro-me é à sua opacidade ao ver em mim um gato e não um não-gato. Presentificar-me-ei tão logo acorde.(idem, p. 59).

A história do gato estabelece um jogo dialógico/paródico com o relato de Caminha, engastando nele a sua função dessacralizadora, sustentada pelo registro jocoso, brincalhão, que quebra solenidade retórica através da carga de ironia que lhe superpõe. Esse discurso oscila, de acordo com a tipologia de Hutcheon, entre a ironia lúdica (Hutcheon: 200, p. 78), de caráter afetuoso, benevolente, associada ao humor e à espirituosidade, em tom de paródia risível e trocadilho; e a ironia de oposição (idem, p. 83),  que subverte o discurso oficial, transgredindo os seus sentidos, numa função “contradiscursiva” contestadora dos hábitos mentais e das expressões dominantes. Trata-se de uma fala extemporânea que se imiscui no discurso da história, por via literária, para revelar a contradição recalcada pela ausência de voz contestadora na data do fato. O colonizador outorgou-nos uma história, em sua versão. E como salienta Edward W. Said (Said: 1995, p. 13) “O poder de narrar, ou de impedir que se formem e surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e  constitui uma das principais conexões entre ambos.” A história do gato insere-se na série discursiva que vem enfrentando essa herança. Assim, compulsa a história protagonizada pelo colonizador, inserindo-se por sobre sua escrita como uma variante suplementar dessacralizadora. Eis sua conclusão:

Nada deve ser posto de lado — berrou de repente Cabral. — Esta merda deve prosseguir como aquele maluco quer. Ele não quer uma nação? Pois terá a nação que quer.  Escreva aí, Pero: a terra é toda maravilhosa, não tem cobras,  não tem muriçocas, não tem onças pintadas… etc  etc. Tudo aqui  é muito ótimo. E apressemo-nos com a descoberta.  Navegar é preciso. Tenho razão, Escatimburo?

(…)

Você está anotando isso aí? perguntei.

Aqui? Hum-hum. Concluo apenas o informe: Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje — que dia é hoje? sexta-feira? — sexta-feira, primeiro dia de maio…

Voltei-me para Tzu. Esse cara é um maluco mesmo, hem? — pensei em perguntar-lhe. Tzu olhava o mar distante, os navios sumindo. Rapidamente. O gato afiava de leve suas unhas em minhas canelas. Abaixei-me para acariciá-lo.

Você falava sozinho? perguntou-me.

Ahn?

Olhei em torno, Pero não estava mais. Nem Tzu. Nem os navios.

Gato!- exclamei. — Gato! Gato!

Na minha mão, apenas a areia fria da praia. Finíssima, escorria-me por entre os dedos. Alguns grãos brilhavam, momentaneamente, mais  que o sol. (p.

A Carta de Caminha é parte do discurso colonial. Descreve, qual inventário, a gente, a terra e tudo que nela contém, num ato de apropriação do lugar e suas riquezas, destituindo seus primeiros habitantes e tornando-os objeto da expansão colonialista. Esse ideário é questionado em O conto da ilha desconhecida, uma vez que é no plano do sonho e do autoconhecimento que estaria a verdadeira viagem e conquista a empreender. A História do gato dialoga diretamente com a Carta através de um discurso que questiona a sua condição de verdadade absoluta, transformando-a em versão. O conto, já pelo título, se apresenta como história, num campo semântico ambíguo para o qual arrasta a Carta de Caminha, relativizando o seu estatuto histórico oficial. O gato, o poeta Tzu e o narrador representam a consciência do lugar invadido que se contrapõe ao discurso invasor.

Ambos os contos questionam a história, num diálogo tenso travado no terreno da ficção. Saramago propõe um novo olhar interpretante, que abre espaços para que a cultura portuguesa possa refletir sua imagem e, assim, possa redimensionar o seu lugar e sua identidade no conjunto de territórios que se aglutinam numa Europa unificada. Antonio Brasileiro propõe uma intertextualidade crítica, mediada pela ironia corrosiva sobre a Carta e pela dessacralização lúdica da versão oficial, como ponto de partida para uma reflexão sobre o país, em busca de uma autodefinição histórica.

Em José Saramago, com o navegante/ contestador, e em Antonio Brasileiro, com o narrador/crítico, esse discurso reinterpretante se traduz e se imanta na imagem de um sonho. Esse sonho é, talvez, o mesmo barco que navega no conto de Saramago, e que é avistado na praia, no conto de Antonio Brasileiro.

Referências:

CASTRO, Silvio. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L & PM, 1996.

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Trad. Denise Bottmam: Companhia das Letras,

1995.

BRASILEIRO Antonio. A história do gato. Feira de Santana: Edições Cordel, 1997.

BRASILEIRO Antonio. A história do gato. Iararana 3. Salvador, n.3, mai. 2000.

HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. Veja. São Paulo, 24.dez.1997. SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. São Paulo, Companhia das Letras,1998.

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Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor Pleno (Titular) da UEFS. Publicou vários livros, inclusive o romance O pêndulo de Euclides, pela Editora Bertrand Brasil, em 2009. Pertence à Academia de Letras da Bahia e ao PEN Clube do Brasil.

Papel e função do claustro na arte monástica de construir

dedaD. Emanuel  d´Able do Amaral

A tradição beneditina sempre esteve atenta à construção do espaço monástico, seja no seu aspecto físico, seja no seu “clima” espiritual. A Regra de São Bento (RB), diversas passagens, manifesta essa preocupação. Ela dá orientações seguras a seus monges sobre o comportamento devido em certos ambientes extra-monásticos e insiste sobre a “gravidade” de comportamento em locais específicos. São Gregório Magno, no seu Segundo Livro dos Diálogos, narra que o próprio São Bento apareceu em sonho, a determinado monge, determinando a planta de um certo mosteiro.

Quando refletimos sobre o papel e a função do claustro na arte de construir um mosteiro, temos que fazer algumas considerações sobre a história da arquitetura dos mosteiros e sobre alguns aspectos da espiritualidade medieval, concernente ao que chamamos de “claustro”.

A palavra “claustro” vem do latim clássico do século XIII: claustra, claustrorum e, no neutro, claustrum e significa “local fechado”. Na RB a palavra “claustra” significava a clausura, de forma geral, e não especificamente um lugar no mosteiro, o claustro. A origem do claustro está na antiga casa romana. Era o pátio central quadrado, às vezes ajardinado, e o centro para onde davam todas as outras divisões da casa.

A partir do século VII, quando apareceram os primeiros mosteiros cristãos, esse pátio central, começou a ser usado nas edificações dos prédios religiosos. Era à desse pátrio central que se distribuía a igreja, a sacristia, a cozinha e os dormitórios.

Não devemos esquecer que após a primeira destruição de Monte Cassino pelos lombardos, em 580, apenas 33 anos após a morte de São Bento, os monges fugiram para Roma, indo morar ao lado da Basílica de São João do Latrão. Foi nesse momento que o monaquismo beneditino fez sua primeira experiência urbana. E mais, ao longo da Idade Média, muitas basílicas foram atendidas por monges beneditinos.

Essa mudança para a cidade de Roma e a variação do próprio trabalho dos monges – pois começaram com o serviço litúrgico nas basílicas, residindo ao lado das mesmas – levou os próprios mosteiros a serem influenciados pela arquitetura romana.

A partir do século VII, essa mesma arquitetura romana passou a ser acolhida pelos “arquitetos beneditinos” e foi levada a toda Europa, começando pela Inglaterra, através de São Wilfrido e Bento Biscop.

É a partir deste momento que o claustro se torna um local importante na vida de uma comunidade monástica. Era localizado, segundo a tradição, ao lado da igreja, tendo outras importantes dependências ao seu redor: refeitório, capítulo, biblioteca e sacristia.

Após o período românico apareceram os claustros góticos, sobretudo no norte da Europa e na tradição cisterciense. Nesse segundo momento encontramos não somente claustros góticos, mas mosteiros e catedrais góticos.

Mais adiante, encontraremos no período do “barroco” mosteiros e claustros “barrocos”, assim como claustros fechados com vidraças, nos países de clima rigorosamente frio. No início do século XX, houve uma nova tentativa de construir claustros, mosteiros e igrejas românicos ou neo-românicos. Nas últimas décadas, porém, muitos fizeram a opção pela arquitetura moderna.

Os claustros, entretanto, não foram de uso exclusivo dos monges, pois também estavam constituídos ao lado de muitas catedrais européias e foram utilizados por aqueles sacerdotes que tinham vida em comum, como os cônegos e, mais tarde, pelos frades das ordens mendicantes.

No início, algumas atividades eram realizadas nos claustro, pois ele era uma síntese da vida cotidiana dos monges: ler, rezar, buscar água (aí encontrava-se o lavatorium), fazer a tonsura e a barba, lavar e estender roupas, dentre outras atividades.

Porém, aos poucos os monges começaram a “espiritualizar” esse local e eliminaram dele qualquer atividade paralela. É nesse momento que o claustro torna-se um local de passagem para a igreja e de passagem espiritual. É o local procurado pelos monges, antes do ofício divino, para “uma preparação” antes de entrarem para a oração e, também, um local para permanecerem após as orações corais, continuando, por meio do silêncio, a saborear a Palavra que havia sido celebrada, em comum, na igreja. Assim, escritores monásticos começaram a dar um sentido espiritual a esse local: para alguns ele “é uma prefiguração do céu” (Honorius Augustodunensis, 1,149). Para o eremita Honório (1095-1135), em sua obra Gemma Animae, o claustro, por estar próximo à igreja, poderia ser comparado ao Pórtico de Salomão, que ficava contíguo ao Templo (Ibidem, 1,48) e as árvores frutíferas de seu jardim poderiam ser comparadas aos livros das Escrituras (Ibidem, 1,49).

Assim pensando, construir mosteiros sempre foi uma “arte”. Em nossos dias, construí-los também é um grande desafio. Como unir, portanto, a “tradição da arquitetura beneditina” com a “arquitetura moderna”?

Nossos antepassados nunca se fecharam diante do novo proposto arquitetura. Assim passaram do românico para o gótico; deste para o barroco, assim como outros estilos arquitetônicos. Porém, conservaram, através dos séculos, as tradições que podiam ajudar na vida espiritual e comunitária. Um mosteiro beneditino ou cisterciense não é um colégio de irmãos maristas ou um colégio de salesianos. Sua construção se deve ao uso que ali se dará, prevendo, principalmente, uma vida comunitária baseada no voto de estabilidade.

Portanto, é importante que os monges estejam abertos às novas formas da arquitetura contemporânea, e é ainda mais importante que os arquitetos que projetam os novos mosteiros conheçam a vida beneditina, assim como a história da arte de construir dos filhos de São Bento, devendo se realizar um “feliz encontro” entre tradição e modernidade.

Com certeza, em meio a um mundo barulhento, estressado e ativista, os claustros beneditinos expressam a necessidade de se voltar para o equilíbrio dos movimentos, tornando-se verdadeiros oásis de paz e espiritualidade. Eles continuarão sendo como locais de passagem; ambientes privilegiados de repouso espiritual e de contemplação, criando harmonia entre os diversos estilos construtivísticos, tais como igreja, capítulo, biblioteca e refeitório. O claustro, com seus elementos simbólicos, tende a harmonizar o homem com o seu interior, com seus irmãos de comunidade e com todos os homens e mulheres.

As novas formas da arquitetura contemporânea podem e devem ser fiéis aos princípios básicos da tradição beneditina, no momento da construção de novos mosteiros. Daí encontrarmos belos exemplares, construídos nos últimos anos. Ademais, nunca devemos esquecer que os monges habitam durante toda a vida num mesmo mosteiro e, por isso mesmo, as construções monásticas devem ser pensadas como local de agradável convívio, harmonia e de significação vigorosa.

Os claustros, nas novas construções, deverão ser preservados dos barulhos exteriores e do próprio mosteiro, gerando uma privacidade de escuta e oração. Ele só terá sua real função se a própria comunidade perceber o seu valor. É necessário, portanto, deixar-se abraçar pelo claustro e contemplar aquele a natureza que ali existente, por mais que ela seja micro. Nada ali é por acaso. Tudo tem um significado implícito e tocante. Ele é o local por excelência da lectio, meditatio, ruminatio e contemplatio.

Em meio às diversas atividades monásticas, precisamos redescobrir o valor dos espaços sagrados e tranquilizadores dos nossos mosteiros. Podemos nos esquecer, inclusive, que um mosteiro sempre será uma Domus Dei (Casa de Deus).

Sugiro, finalmente, que as comunidades que pretendem construir novos mosteiros sempre o façam pela configuração de uma “equipe”, responsável por desenvolver, sob o alicerce da tradição e da história da arquitetura beneditina, espaços verdadeiramente sagrados, que antecipem, pela espiritualidade e beleza, o que desejamos viver na morada celeste.

Este artigo foi publicado em francês no Bulletin de l’AIM, “Aliance Inter Monastères”, nº 94, 2009, nas páginas 50 a 54, Vanves, França e na edição em língua portuguesa dessa revista elaborada no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

Encontros Literários da ALB #9

Na nona edição dos Encontros Literários da Academia de Letras da Bahia apresentaram-se o acadêmico Aramis Ribeiro Costa e o escritor convidado Carlos Barbosa. As comentaristas convidadas foram Ângela Vilma e Janaína Amado.

“Tio Edson”

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Esperando o Bonde

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Morávamos na Barra Avenida e poucas famílias tinham carro, na época. A maioria dos seus moradores era de classe média, mas havia também alguns ricos e muitos modestos, que viviam em uma das muitas “avenidas” da cidade. Nós, estudantes, nos encontrávamos no ponto do bonde e entabulávamos conversas que eram interrompidas abruptamente com a chegada do “elétrico”, com a famosa frase de Imbrain Sued: depois eu conto…

Éramos todos moleques, independente da origem, no bom sentido da palavra, que pongávamos e nos divertíamos no bonde. Havia filhos de comerciantes prósperos, funcionários públicos, mecânicos, operários e até de um banqueiro. Não chegava a ser uma democracia sócio-racial, mas sem duvida o bonde socializava.  Os abrigos da Sé e do Campo Grande, que reuniam uma multidão de estudantes da rede pública e privada, respectivamente, era uma festa ao meio dia e no final da tarde, com muita conversa, flerts e namoricos.

No começo dos anos 60 os bondes foram abolidos a pretexto de atrapalhar o trânsito, para dar passagem aos milhares de carros produzidos no país. A popularização do carro privado deveria resolver tudo. Desde então deixamos de ter políticas de transporte público. Foi preciso a FIFA dizer que sem transporte de massa não haveria Copa para que nossas autoridades despertassem.

Surge assim o projeto Rede Integrada de Transporte – RIT, gentilmente presenteado à Prefeitura pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador – SETPS, que na primeira etapa deve ligar o Aeroporto ao Shopping Iguatemi, correndo pelo canteiro central da Av. Paralela. As etapas seguintes, bem mais complicadas, não têm prazo, nem orçamento. As construtoras e os donos de ônibus têm pressa de cobrar a fatura de R$ 570 milhões prometidos pelo BNDES.

Criou-se, porém, uma polêmica sobre a motorização do sistema. A SETPS defende um sistema conhecido pelo nome cifrado de BRT – Bus Rapid Transit. Por outro lado, o Governo do Estado, que tem a chave do cofre federal, advoga a adoção do VLT – Veiculo Leve Sobre Trilhos. A decisão, que deveria ser técnica, está dependendo da sucessão senatorial.

O BRT, como o nome indica, é um sistema de “buzus” moderninhos trafegando em via segregada, como em Curitiba. O VLT é um bonde articulado, muito comum na Europa, trafegando no meio das ruas, nos trilhos dos antigos bondes, que nunca desapareceram completamente. Este tem a vantagem de não poluir e ter uma manutenção baixa. Mas o adjetivo “leve” expressa bem que não é um transporte de massa. É o bonde moderno. Ambos podem servir como redes alimentadoras, transversais, do sistema de metrô, como nas cidades do México, Londres e Nova York.

O vetor de expansão mais forte de Salvador é o norte. Salvador já transbordou para Lauro de Freitas e esta chegando a Abrantes, em Camaçari. Nem BRT nem VLT darão conta da demanda de deslocamentos humanos na Região Metropolitana de Salvador nos próximos dez anos, quando a região terá seis milhões de habitantes. A RMS tem duplicado de população a cada vinte anos e terá doze milhões em 2040. As duas alternativas são uma rima, não uma solução, como diria Drummond.

Por que não se faz logo um metrô estruturante dessa expansão na Paralela, prevendo sua extensão até Camaçari ? Um metrô de superfície, sem desapropriações nem galerias subterrâneas, como o da Paralela, não custaria muito mais que um VLT ou BRT. Os vagões estão ai, parados, enferrujando e pagando pedágio. O metrô-tobogã da Bonocô até chegar a Cajazeiras, para que seja viável, demorará mais dez anos.

Com essa solução dispensaríamos a abertura da Via Atlântica e Linha Viva, que provocarão grandes impactos sociais e ambientais e um montão de desapropriações. E o pior, não resolverá nada, pois só induzem a população a comprar mais carros. Temos que deixar de pensar pequeno.

Lembro-me, ágora, das propagandas rimadas nos bondes, como a do Rum Creosotado, do Elixir de Nogueira e uma que dizia: “neste mundo todos são passageiros, só não o cobrador e o motorneiro”. Desconfio que nossos Motorneiros e Cobradores são também passageiros do bonde da história. A conversa está muito boa, mas Vs. me dêem licença, porque não sei se um bonde ou um ônibus está chegando….atrasado. Depois eu conto…

Lembranças de Afrânio Coutinho

consueloConsuelo Pondé de Sena

A primeira vez que vi Afrânio Coutinho, foi como examinador de concurso de Docência Livre de Literatura Brasileira, a que se submeteu Herón de Alencar, na Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras  da Bahia, em agosto de 1953.

 

Defrontavam-se, num inesquecível torneio de inteligência, um médico baiano e outro cearense, ambos direcionados para os estudos da literatura brasileira, conseqüentemente, desviados da profissão que haviam trilhado.

 

Afrânio Coutinho era filho do engenheiro Eurico da Costa o e de Adalgisa Pinheiro dos Santos Coutinho.  Nasceu em Salvador a 15 de março de 1911, e faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia, no dia 5 de agosto de 2000.

 

Sócio, desde jovem, do Instituto Geográfico Histórico da Bahia freqüentava-o assiduamente. Atuava na imprensa e lecionava História no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora:” uma escola normal da professora Anfrísia Santiago, que me encaminhou no magistério. Ensinei também nos Maristas de Salvador, onde tinha – onde tinha feito o curso secundário – História,Literatura e um pouco de Filosofia. “  Por seu turno , são suas as palavras sobre o acesso à  imprensa baiana: “Minha carreira jornalística começou nessa fase , quando fui chamado por Ernesto Simões Filho para colaborar com A TARDE. “ Graças ao jornalista Simões Filho, tornou-se conhecido, recebendo convite para  escrever em  outro jornal de grande circulação  sobre Literatura, Política Internacional, Artes e outros assuntos. Contava apenas vinte anos. Passado algum tempo, em 1940, recebeu o convite de Dário Magalhães, sócio dos Diários Associados no Rio de Janeiro, para colaborar com o Estado da Bahia, em cuja redação esteve durante dois anos, escrevendo sobre a guerra contra o fascismo, o nazismo e o comunismo.

 

Sua escolha profissional decorrera da falta de opção nos anos 20, em que, salvo a carreira religiosa, os moços só se encaminhavam para as faculdades de direito, engenharia e medicina, sendo essa última era a mais prestigiada em nosso meio, não apenas por ter sido a primeira do Brasil como pelo renome que adquirira. Ingressou na Faculdade de Medicina aos vinte anos, tendo que aumentar a idade para cursá-la.”Mas , apesar de jovem, era muito maduro e cursei os primeiros quatro anos com grande élan “ Professor por vocação, Afrânio ensinou história e literatura antes de diplomar-se, dando aulas no curso secundário. Nunca exerceu a medicina, foi bibliotecário da sua Faculdade e lecionou na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

 

Indagado sobre sua paixão pela Literatura declarou ter sido por intermédio da leitura de um trecho de Quincas Borba, publicado na Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Lair, adotada em quase todos colégios  naqueles tempos. Fascinado pelo estilo do autor, passou a ler toda sua obra.

Em 1932, já diplomado médico e diretor da biblioteca da Faculdade de Medicina, saía pelo Terreiro de Jesus e a extinta rua do Colégio , àquela altura com a Igreja da Sé  criminosamente destruída e parava na pequenina livraria “Progresso para inteirar-se das novidades.

 

Certo dia encontrou uma obra que o interessou. Tratava-se  de uma edição do centenário de Almeida Garret , que mandou reservar para si. No outro dia, passou para buscar a encomenda, tendo sido informado de que um poeta baiano, Eugênio Gomes, quis adquirir o livro, tendo  manifestado interesse em saber   quem o havia adquirido. Esse encontro propiciou-lhe uma grande amizade literária, firme até os últimos dias de E.Gomes, que lhe abriu os olhos para a crítica inglesa, vez que lhe disse Afrânio Coutinho só conhecer a francesa. Foi Eugênio Gomes seu grande orientador naquele instante de definição profissional.

 

Heron de Alencar era, para mim, uma figura familiar porque, sendo um jovem médico, convivia com meu pai, Edistío Pondé, àquela altura assistente do Prof Alfredo Brito, na Clinica Neurológica, além de à noitinha namorar com Wanda Amorim, filha do Dr. Alfredo Amorim. Era o Dr.Amorim, conceituado advogado baiano, residente na mesma rua do Desterro, onde morávamos. Cearense do Crato, Heron nasceu em 1921, vindo estudar na Bahia, tendo se formado na mesma faculdade em que se diplomara Coutinho.

 

Impossível esquecer as provas públicas de Herón, tanto a leitura da escrita quanto a defesa de tese.  Eram Herón e Coutinho eram dois “gigantes” a se defrontar diante de uma assistência atenta e entusiasmada.

 

Afrânio Coutinho era um espírito combativo, um temperamento instigador e argüiu, com vigor, o jovem estreante. Não menos vibrante foi a defesa de Alencar. Duelo de titãs.

 

Minhas lembranças são as de uma jovem estudante do Curso de Geografia e História, deslumbrada com os debates acirrados ocorridos no Salão Nobre do velho sobrado onde funcionara a Escola Normal da Bahia, ao Caquende. Concurso memorável , assistido por uma assistência seleta, constituída  de professores, alunos e amigos do candidato, que  apresentava  uma tese de título instigante: “Literatura , um conceito em crise “.  A certa altura, lembro-me bem, o examinador baiano dirigiu-se a Heron de Alencar, dizendo-lhe, mais ou menos, assim: “não se preocupe com a literatura, senhor candidato, ela não está em crise, aliás, vai muito bem, obrigado”. E os presentes sorriram com a tirada do mestre irreverente.

 

Numa das vezes em que com ele estive, declarou-me que resolvera deixar a Bahia quando percebeu que aqui não cresceria, a cidade era muito acanhada para as suas pretensões: Para gracejar comigo, disse-me: sabe por que fui morar no Rio?   Respondendo à própria indagação, declarou sorrindo: “fui embora, porque a diretoria do IGHB me incumbiu de fazer o discurso do Dois de Julho, no Panteón da Lapinha. Aquela tarefa era demais para mim.”

Brincadeira à parte, o ambiente baiano era muito limitado para as aspirações do futuro crítico literário. Ademais disso, a rivalidade profissional entre os médicos era tão acirrada  que somente os “apadrinhados” tinham condição  de vencer na cidade da Bahia.

 

Afrânio descortinou a possibilidade de sair para a capital da República. Foi-se para o Rio de Janeiro e, de lá, seguiu para os Estados Unidos, onde seu padrinho de casamento, Otávio Mangabeira, arranjou-lhe serviço no Readers Digest, sendo-lhe possível viajar para os Estados Unidos e estudar, de 1942 a 1947, na Universidade de Columbia, onde completou seus estudos literários .

 

A.Coutinho é considerado o renovador da crítica literária no Brasil. Homem independente, jamais participou das “panelinhas literárias do Distrito Federal, tendo defendido, ardorosamente, a independência   da   “língua brasileira”.

 

Entrevistado pela jornalista, Beatriz Marinho, “sobre a critica ao crítico”, declarou: “Ressentimento pelo que desestabilizei e também ao fato de que no Brasil ninguém analisa nada e, ainda, ao fato do brasileiro ser um homem de breves críticas, de não haver profundidade em nada do que se faz aqui”.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras passou a ocupar a cadeira número 33, no dia 17 de abril de 1962.

 

Estive com Afrânio Coutinho mais algumas vezes. Visitei-o em sua residência no Leblon , quando , muito gentilmente, levou-me conhecer e apreciar sua extraordinária biblioteca.  Biblioteca que se constituiu no germe da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), local onde se reuniam estudiosos da nossa literatura, realizavam-se cursos, debates, e hoje pertence à UFRJ.

 

Quando aqui esteve no Natal de 1900, para uma permanência de alguns dias, ofereci-lhe e à sua segunda esposa, Sonia, um cozido baiano, em minha casa, um almoço no sítio de Maryvonne e Jorge Malbouisson de Mello, além de ter coordenado um almoço em sua homenagem no Hotel da Bahia, do qual participaram inúmeros intelectuais amigos.

 

Ao comentar sobre a Bahia, dizia que a cidade não perdera suas características antigas, que velhos “esquemas” continuavam a funcionar e que os conterrâneos, não se conformavam com o sucesso alheio, confirmando o que o governador Otávio Mangabeira sabiamente dizia: “o baiano deixa de ganhar 200 mil reis para o outro não receber cem.”. Com efeito, a Bahia é uma terra de muito ciúme, para se vencer é necessário   atravessar a fronteira do Estado.