Menezes vermelho ou verde

hpHélio Pólvora

Na Praça Mauá, antigo Cais Pharoux, rente à escadaria do edifício de A Noite, Rio de Janeiro, bati de frente com um velho amigo de São Gonçalo dos Campos. Já bem distanciado da adolescência, ainda buscava um rumo na vida. Era o Menezes — tipo vermelhaço, de cabelo mais duro e retorcido que arame farpado. Inteligente, tinha leitura e frases de efeito que recolhia no ar, às vezes pela metade, quase sempre de autoria trocada, e que emitia como suas. Era atlético — e a rapidez dos movimentos abria-lhe passagem. No entanto, algo dentro dele, uma tecla surda, bagunçava a orquestração da mente. Inquieto, impulsivo, agoniado, mexia-se à toa, com alto derrame de energias.

 

— Você aqui no Rio?

— Vim procurar o chefe.

— Qual chefe?

— O Plínio.

— O líder integralista?

— Ele mesmo.

— Mas você não era o Menezes vermelho na cor e vermelho nas idéias? Pulou o muro? Trocou de ideologia?

— A necessidade manda e não pede. Trago uma carta de apresentação de um amigo de meu pai, pessoa influente. Pede que ele me arrume emprego. Acho que vai dar certo.

— Já entregou a carta?

— Ainda não. Quis primeiro identificar o endereço, essas coisas.

— E está em que hotel?

— Ali em cima, atrás da Central do Brasil.

— Quando pretende ver o Plinoca?

— Amanhã entrego a carta. Quer ir comigo?

 

Era só o que me faltava, pensei. Naqueles assuntos de camisa vermelha ou verde, eu não me metia mais. Também trouxera carta de um agitador que organizava na boca do sertão as primeiras ligas camponesas da Bahia, e passei um mês inteiro indeciso.  Me apresento? Não me apresento? Desilusão precoce. Se entregasse a carta, teria o gosto de xingar os empresários, chamar os americanos de espoliadores, mas — e o contrapeso? O que esperariam de mim, além de encher tiras de papel com uma adjetivação pesada? Com certeza seria fichado, obrigado a freqüentar células, gastaria o meu tempo a pichar muros, a me esconder da polícia. Sou muito sensível a dores, alheias e minhas – especialmente as minhas. Conhecia casos, como o do Souza, que sumiu mais de um mês do jornal. Ninguém comentava o desaparecimento, havia entre os companheiros uma conspiração tácita para considerá-lo morto, esquecido e insepulto.  Um dia, porém, entrei no jornal, desavisado, e dei com o Souza, que não batucava na Remington porque parecia ter as mãos inchadas. Também havia alguma coisa errada no sorriso: o velho Souza sorria sem espontaneidade. Fui dar-lhe um abraço comovido. E perguntei então, na maior das inocências: “Extraiu um dente?” “Infecção generalizada”, respondeu o Souza. “Perdi todos”. E, com um sorriso que era medonha careta, exibiu as gengivas de onde os dentes tinham sido arrancados a torquês, enquanto a mão inchada, de dedos sem unhas, descansava no meu ombro. A lembrança do Souza chegou-me como um conselho de mãe: decidi não entregar a carta. Não seria por minha falta que a guerra-fria deixaria de esquentar. Só desejava uma cama, um canto para ler em paz e talvez escrever. No entanto, a curiosidade de ver o escritório de Plínio, de medir o estado físico e mental da velha galinha~verde, falou mais alto. Acompanharia o Menezes  — why not?

Mas o Menezes, com todo aquele porte atlético, parecia também sem jeito para a militância ostensiva ou clandestina: gastou o dinheiro do pai em refeições prolongadas, em rodadas de chope, nos cinemas e com mulheres.

 

— Espero que Plinoca me arranje uma sinecura qualquer.

— Certo. Certo.

 

A essa altura, Menezes dava sinais de desespero: amassava raras cédulas no bolso, contava níqueis, já falava em retornar a São Gonçalo – o que acabou por fazer, com um secreto gosto, aliás. Morreu aos 33 anos, de câncer na garganta, cadavérico, ainda sem divisar na mata escura por onde andava a vereda que mais lhe convinha. Plínio Tômbola, como o chamava a imprensa de esquerda, faltara-lhe com a promessa. Sentado a uma mesa modesta, no escritório acanhado do PRP, o líder franzino, que prometera perseguir os adversários im-pla-ca-vel-men-te, num comício em Salvador, redigia artigos políticos, manifestos, correspondência. Cumprimentou cordialmente, leu a carta, colocou-se à disposição de Menezes. Afinal, disse ele, devia muito a São Gonçalo,e ao sul da Bahia, uma das maiores concentrações integralistas do país, de onde lhe chegavam ainda dotações vultosas “para a causa”. E ficou nessa lenga-lenga. Menezes voltou lá umas duas vezes, logo se desinteressou. E em seguida desapareceu. Me disseram um ano depois que estava casado, em São Gonçalo, ou melhor: fora obrigado a casar, depois de fazer mal, como se dizia então, a uma moça, embora a intenção fosse a de fazer o bem, a ela e a si próprio, e tinham uma filha.. Enfrentava o olhar pesado da família s que não admitia vadios. Montou um bar – infeliz escolha, porque, consumiu ele mesmo o estoque. Suas esperanças de se fazer prócer político do PRP, discípulo amado do ex-chefe integralista, ficaram no asfalto do Rio de Janeiro, naquelas ruas vizinhas da Light, “velha exploradora canadense”, conforme diziam os jornais do Pecebão.

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