Luis Henrique Dias Tavares e a Bahia de 1798

Foto de Haroldo Abrantes / Ag. A Tarde

Foto de Haroldo Abrantes / Ag. A Tarde

Na próxima quinta-feira, 12, o acadêmico Luis Henrique Dias Tavares lançará seu mais novo livrro. Abaixo a reprodução da reportagem e entrevista publicada no Jornal A Tarde desta segunda-feira.

Uma revolta atual

MARCOS DIAS

Chegara o momento final. Os tambores e cornetas abafaram o som dos sinos. Manuel Faustino foi carregado por quatro soldados e levado ao patíbulo.

Com o rosto coberto, o carrasco já esperava no alto. Tinha o laço aberto nas mãos. Um soldado cobriu o rosto de Manuel Faustino.

Tudo foi muito rápido.

A cidade era Salvador. O ano, 1799. Manuel, 16 anos, era um dos quatro revoltosos que foram enforcados na Praça da Piedade, ao lado do também alfaiate João de Deus, e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga.

Esse último, responsabilizado pelos panfletos que surgiram na cidade em 12 de agosto de 1798 e diziam, entre outras coisas: “Animai-vos Povo baiense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”.

Na próxima quinta-feira, completam 212 anos daquela que ficou conhecida como a Sedição de 1798, Revolta dos Alfaiates, Inconfidência Baiana ou Revolução dos Búzios, e será lançado no Instituto Geográfico e Histórico, às 18 horas, o livro paradidático Bahia, 1798, do historiador e escritor natural de Nazaré das Farinhas Luis Henrique Dias Tavares, 84.

Escravidão O crime de que os revoltosos foram acusados pela Rainha portuguesa Maria I era o de incitar a população, na época cerca de 40 mil pessoas, a libertar a Bahia dos portugueses, proclamar uma república federativa e lutar contra a escravidão.

”É parte da minha história ter dedicado muita atenção e tempo da minha vida para que seja reconhecido o movimento de 1798 e honrada a memória dos nossos quatro mártires”, afirma o professor. Para ele, que considera o racismo uma doença do ser humano, sua posição é única: “Sou contra o autoritarismo e o preconceito, a favor da democracia e de que todos os brasileiros são brasileiros, não importando a cor”.

Com ilustrações do artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do jornal A TARDE, Dias Tavares também agrega a intenção de que o livro chegue às mãos de professores e alunos, como um novo pedido para que História da Bahia volte ao ensino médio.

O motivo é tão elementar quanto essencial: ”Para que o jovem entre na vida sabendo o que é ser baiano e o que representa a Bahia no conjunto do Brasil”.

LANÇAMENTO DO LIVRO BAHIA, 1798, DE LUIS HENRIQUE DIAS TAVARES / DIA 12, A PARTIR DAS 17H30, NO INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DA BAHIA (PIEDADE)

TODOS OS TEMAS DE HISTÓRIA ESTÃO PERMANENTEMENTE ABERTOS

Foi com propósitos educacionais que o historiador e Professor Emérito da Ufba, Luis Henrique Dias Tavares, 84, escreveu o livro paradidático Bahia, 1798, que será lançado nesta quinta, a partir das 17h30, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A renda do livro, que será vendido no dia por R$ 20, será doada pelo autor ao próprio IGHB, do qual é sócio há 50 anos. Doutor Honoris Causa da Ufba,compós-doutorado na London University, é dele o clássico História da Bahia (11ª edição, Edufba/Unesp), além de livros de crônica e ficção, como Moça sozinha na sala (1960) e a novela Não foi o vento que levou(1996).Atualmente, além de se debruçar sobre novos aspectos da Sedição de 1798, trabalha em outra novela. E acredita que ainda há o que estudar sobre 1798: “Os temas de história estão permanentemente abertos“.

Por que o episódio da Sedição de1798 o mobiliza tanto?
Pelo dever de insistir para que a Bahia coloque lembranças físicas, culturais e educacionais do movimento de 1798.

Aí estão quatro mártires brasileiros.

O Brasil só comemora o martírio de Tiradentes na Inconfidência Mineira, mas, sem fazer comparações, o 1798 tem uma dimensão bastante maior. Porque está lutando pelo fim completo da escravidão, pela separação da Bahia do império português e pelos direitos das pessoasquetrabalham.

Os mártires eram negros? Eles eram pardos, mestiços.

Nós, baianos, não somos brancos, somos mestiços, mulatos, usando essa palavra. Eu próprio tive pelo lado de minha avó paterna uma ex-escrava, e posso colocá-la como uma trisavó. E não há nada de extraordinário nisso.

Todos os baianos têm essas histórias. Não há baiano branco.

Uma das questões da revolta era a discriminação em relação à ascensão no trabalho, hoje chamado racismo institucional. Como o racismo se expressa na primeira década do século21?

Ele permanece. Muito embora se possa falar em preconceito, sobre esse preconceito há uma negação de outros baianos por uma questão de cor, da cor da pele. Isso é um absurdo porque a cor da pele é uma questão de clima. Os climas mais quentes fazem pessoas de pele negra. Os climas de países pouco tomados pelo sol fazem os chamadosbrancos.

Considera que o Movimento de 1798 ainda é pouco estudado?

Ele ainda não é estudado. Eu trabalho com este tema há muitos anos. Foi tema do meu concurso para professor e doutorado da Ufba. Eu pesquisava temas de educação, para atender um projeto do nosso inesquecível Anísio Teixeira. Ele desejou uma pesquisa mais larga e profunda sobre a educação na Bahia. No Arquivo Público do Estado da Bahia eu encontrei o que a Bahia ainda tinha da documentação referente ao 1798. Aí aprofundei-me.

Esgotou o assunto?

Acho que ainda está aberto. Em história não há tema fechado. E o nosso 1798 ainda está pedindo mais dedicação dos historiadores. Eu próprio, reconhecendo os buracos que ainda existem na história do 1798, voltei à pesquisa, agora em torno das mulheres que estão nos documentos de 1798. Não apenas a madrinha de Manuel Faustino dos Santos Lira, mas as mulheres negras, mães ou parentes dos que foram enforcados e esquartejados.

Quais seriam as bandeiras hoje do povo se essa sedição fosse atualizada?

Acabar com a escravidão no Brasil. Ela ainda existe. Acabar com a escravidão no mundo. Nesta altura, século XXI, ainda se calcula que existam no mundo 25 milhões de escravos. É a exploração do ser humano pelo ser humano. É lamentável, mas continua aí.

O senhor contou o episódio de 1798 de forma literária. Assim é possível atingir mais pessoas?

Acredito. Todo o livro de história pede o estudo, que o leitor raciocine e abra um horizonte para novas interrogações. Assim como meus trabalhos sobre o 1798 não são a última palavra, todos os temas de história estão permanentemente abertos.

Todo o livro de história pede o estudo, que o leitor abra um horizonte para novas interrogações.

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