Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio

Luis Henrique by IndioLuís Henrique Dias Tavares

Conheci três ex-escravas idosas e um ex-escravo idoso na Cidade de Nazaré das Farinhas nos primeiros oito anos de 1930. Chamavam-se: Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio.

Benvinda morava em velha casa de sopapo na margem esquerda do Rio Jaguaripe, em terras da família Coelho de Souza. Era negra. Estava permanente sentada em velha cadeira ao lado de uma fogueira de pedra que lhe ajudava a preparar o seu famoso azeite de dendê, o melhor entre os melhores da cidade. Respondia pelos cajueiros, mangueiras e dendezeiros daquele pedacinho de terra e do pequeno trecho do Rio Jaguaripe batizado “Rio de Benvinda”. Ela gritava com as crianças e adultos que ousavam nadar naquele trecho de pedras escorredeiras do Jaguaripe. Logo em seguida, o rio se tornava largo e fundo. Era a morada do pai jamais visto de todos os peixes e pitus que o habitavam.

Genoveva residia no térreo de velho sobrado da Avenida Pedro II. Era negra, gorda. E inacessível para todos, fossem velhos ou jovens que sonhassem passar além do fogareiro aceso para manter quentinhos os seus bolinhos de estudantes, os célebres “punhetas”.

Eulália não era negra. Era mulata clara, ex-escrava dos Rodrigues da Costa, com os quais aprendera a arte da cozinha, em especial o malassado, tão único que passou a ser denominado “Malassado de Eulália”. Assim o conheci.

Eulália tinha três filhos, cada qual de um pai desconhecido: Eva, Antônio e Cacilda. Eva era a mais velha, negra e de pequena estatura. Sabia tudo de cozinha, mas não trabalhava como serviçal doméstica para família alguma, visto a sua independência e afirmativa. Tinha casa na Rua Padre Antunes e oscilava a sua amizade entre os Dias Tavares e os Bittencourt.

Antônio era negro e viciado em cachaça. Cacilda era mulata clara e bonita. Oscilou em amores nas cidades de Nazaré e de Salvador, sempre bem vestida, alegre e bonita.

O Negro Sérgio residia em choupana coberta de velhas telhas quebradas. Vivia só e calado, quase sempre de pé na porta com os olhos vigilantes no laranjal.

Escrevo o quanto sei desses ex-escravos para acentuar que o denominado fim da escravidão no Brasil jamais significou vida livre para os que nasceram e trabalharam sob o açoite da escravidão.

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