Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio

Luis Henrique by IndioLuís Henrique Dias Tavares

Conheci três ex-escravas idosas e um ex-escravo idoso na Cidade de Nazaré das Farinhas nos primeiros oito anos de 1930. Chamavam-se: Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio.

Benvinda morava em velha casa de sopapo na margem esquerda do Rio Jaguaripe, em terras da família Coelho de Souza. Era negra. Estava permanente sentada em velha cadeira ao lado de uma fogueira de pedra que lhe ajudava a preparar o seu famoso azeite de dendê, o melhor entre os melhores da cidade. Respondia pelos cajueiros, mangueiras e dendezeiros daquele pedacinho de terra e do pequeno trecho do Rio Jaguaripe batizado “Rio de Benvinda”. Ela gritava com as crianças e adultos que ousavam nadar naquele trecho de pedras escorredeiras do Jaguaripe. Logo em seguida, o rio se tornava largo e fundo. Era a morada do pai jamais visto de todos os peixes e pitus que o habitavam.

Genoveva residia no térreo de velho sobrado da Avenida Pedro II. Era negra, gorda. E inacessível para todos, fossem velhos ou jovens que sonhassem passar além do fogareiro aceso para manter quentinhos os seus bolinhos de estudantes, os célebres “punhetas”.

Eulália não era negra. Era mulata clara, ex-escrava dos Rodrigues da Costa, com os quais aprendera a arte da cozinha, em especial o malassado, tão único que passou a ser denominado “Malassado de Eulália”. Assim o conheci.

Eulália tinha três filhos, cada qual de um pai desconhecido: Eva, Antônio e Cacilda. Eva era a mais velha, negra e de pequena estatura. Sabia tudo de cozinha, mas não trabalhava como serviçal doméstica para família alguma, visto a sua independência e afirmativa. Tinha casa na Rua Padre Antunes e oscilava a sua amizade entre os Dias Tavares e os Bittencourt.

Antônio era negro e viciado em cachaça. Cacilda era mulata clara e bonita. Oscilou em amores nas cidades de Nazaré e de Salvador, sempre bem vestida, alegre e bonita.

O Negro Sérgio residia em choupana coberta de velhas telhas quebradas. Vivia só e calado, quase sempre de pé na porta com os olhos vigilantes no laranjal.

Escrevo o quanto sei desses ex-escravos para acentuar que o denominado fim da escravidão no Brasil jamais significou vida livre para os que nasceram e trabalharam sob o açoite da escravidão.

Sobre leitores e bibliotecas

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

Em tempos virtuais, qual o futuro das “ultrapassadas” bibliotecas, suas estantes, seus acervos e seus frequentadores?

Em uma sociedade que caminha, cada dia mais, para a utilização massiva dos meios virtuais, em todas as áreas e com ênfase na educação, que papel é reservado, no futuro, para as bibliotecas? Refiro-me à concepção usual do termo biblioteca, que, aliás, parece ter evoluído bastante em relação ao sentido original, etimológico, da palavra grega bibliotheke — lugar onde se depositam livros.

A imagem de um depósito de livros traz, de imediato, uma idéia de imobilidade que soa incompatível com o conceito atual de biblioteca, como espaço dinâmico de consulta, pesquisa e estudo. Mas, devemos lembrar que é esta também uma das funções primordiais da biblioteca: a de armazenar títulos de forma que se possa reuni-los dentro de uma determinada ordem classificatória. Armazenar, diz o filósofo Jacques Derrida, é também acolher, recolher, juntar, consignar, coligir, colecionar, totalizar, eleger e ler reunindo.

Armazenar seria, portanto, o primeiro estágio de uma complexa estrutura que inclui desde a escolha do acervo e sua constante renovação até a disposição do objeto livro e dos periódicos num determinado espaço físico. E é neste conjunto que se deve pensar o papel de todos os atores (instituições, bibliotecários, atendentes, professores, alunos, leitores) envolvidos na questão apresentada no início deste artigo.

Em vez de nos lançarmos à tarefa inútil de prever a sobrevivência ou o desaparecimento do livro e das bibliotecas tradicionais, não virtuais, devemos pensar no perfil do leitor, neste início do século 21, num país periférico, com um pé no mundo globalizado e outro (em sua maior parte, diga-se de passagem) num subdesenvolvimento atroz do qual passam longe os benefícios da sociedade tecnológica informatizada. O leitor é, talvez, o elemento-chave dessa reflexão, mesmo porque é para ele que existem, em última instância, os livros e as bibliotecas.

Visita importante

Leitor é, entretanto, um termo vago e impreciso — um conceito que tem sofrido transformações radicais ao longo dos últimos quatro séculos. Para se ter uma idéia mais clara, recomenda-se a leitura do ensaio O leitor incomum, do crítico literário francês George Steiner, erudito professor nas universidades de Cambridge e Genebra, autor de livros como Linguagem e silêncio, No castelo de Barba Azul e Nenhuma paixão desperdiçada, coletânea de ensaios publicada pela Record, em 2001, e da qual o referido ensaio faz parte.

Nele, Steiner relaciona algumas características do leitor do século 18, conforme o pintor francês Chardin o retrata no quadro Le philosophe lisant, completado no dia 4 de dezembro de 1734. Trata-se de um tema comum na época: o de um homem ou uma mulher lendo um livro aberto sobre uma mesa. “Entretanto”, diz Steiner, “se o analisarmos com relação à nossa época e nossos códigos afetivos, a maneira como o pintor se expressou revela, em todos os pormenores e na sua concepção mesma, uma revolução de valores”.

Que valores são esses, presentes no leitor incomum de Chardin e que são tão diversos dos que estão presentes no ato de ler em nossa sociedade tão mais “desenvolvida” e “avançada”? Ei-los, segundo Steiner, mas de forma resumida:

1. Em primeiro lugar, os trajes do leitor: formais, cerimoniosos, até. “O que realmente importa é a elegância enfática, a determinação de estar vestido assim naquele momento. O leitor não vai ao encontro do livro em trajes informais ou em desalinho”. Ele vai ao encontro do livro levando a cortesia em seu coração, como quem recebe uma visita importante.

2. A presença, no quadro, de uma ampulheta traz para o ato da leitura a noção do tempo. Lembra a condição passageira do leitor (e do homem) em contraste com a longa sobrevivência dos (grandes) livros. “O tempo passa, mas o livro permanece. A vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios”, diz Steiner. Tal consciência da efemeridade do ser e da permanência das palavras, nas obras definitivas, aumenta, no leitor, o fascínio e a angústia diante da infinita quantidade de livros que jamais serão lidos por ele. “A areia que cai através do vidro fala-nos igualmente da natureza desafiadora do tempo, que é da palavra escrita, como também da brevidade do tempo disponível para lê-la”.

3. A presença de três discos de metal em frente ao livro, por sua vez, enfatiza também a brevidade do mundo material quando comparado com a longevidade das palavras.

4. Em seguida, destaca a pena que o leitor usa para escrever e que é emblemática da obrigação de resposta inerente ao ato da leitura. Leitura esta que, longe da concepção atual de entretenimento, configura-se como uma interação em níveis profundos da compreensão envolvida no ato de ler. “A boa leitura pressupõe resposta ao texto, implica a disposição de reagir a ele, atitude essa que contém dois elementos cruciais: a reação em si e a responsabilidade que isso representa”. Ler bem é, portanto, “estabelecer uma relação de reciprocidade com o livro que está sendo lido; é embarcar em uma troca total”.

5. E, por último, algo que envolve todos esses elementos presentes no quadro — o fólio, a ampulheta, os medalhões e a pena: o silêncio. Um silêncio que, na pintura, “se manifesta inequivocamente pela qualidade da luz, pela textura da composição”. A leitura é, para o leitor do século 18 representado na obra, um ato silencioso e solitário. “Trata-se de um silêncio vibrante de emoção e de uma solidão abarrotada de vida.”

Acesso fácil

O contraste deste leitor com o de hoje em dia reflete bem a noção benjaminiana de “perda da aura” da obra de arte — noção esta que se aplica perfeitamente ao livro como objeto cultural. Longe de se constituir um objeto de culto, o livro, na sociedade de massa, popularizou-se, com todas as vantagens que isto proporciona, mas também com todos os riscos que isto acarreta. Se, por um lado, ele está mais acessível — grandes obras da literatura universal estão disponíveis, hoje, por exemplo, a qualquer pessoa nas bancas de revista —, poucos são, em termos proporcionais, aqueles que lhe dão o devido valor.

Nada mais irônico do que o fato de que as gerações que dispõem, hoje, de um tesouro inimaginável ao seu alcance sejam a que menos se interessem por ele. A idéia de aproximar-se do livro cerimoniosamente, “com a cortesia no coração”, torna-se incompreensível, quando não risível.

É até difícil imaginar a existência de grandes volumes empoeirados, em bibliotecas misteriosas e labirínticas, ao gosto de Borges, quando se pode percorrer as ruas da cidade, entrar e sair de ônibus e metrôs, com uma obra-prima da literatura, no formato pocket book, metido no bolso do casaco. A revolução editorial causada pelas brochuras é, sem dúvida, co-responsável por essa disseminação da leitura, pela facilidade do acesso ao livro, mas há também grandes limitações para o leitor mais exigente.

Como diz Steiner:

Não se consegue em brochura — ou apenas raramente se consegue — a obra completa de um autor. Não se tem acesso, nessas edições populares, ao que é considerado, por juízos de valor do momento, a produção inferior de um autor. Entretanto, a leitura autêntica da obra de determinado escritor só é possível quando a conhecemos integralmente, quando podemos também nos debruçar com solicitude — ainda que impacientes e ranzinzas — sobre suas deficiências e assim construir nossa própria percepção da validade de sua obra. (STEINER, 2001)

O leitor rápido, fragmentário, superficial e não “cortês” das brochuras e dos pocket books, incapaz muitas vezes de “reagir ao texto”, dando-lhe uma resposta crítica, parece ser sintomático de uma civilização na qual ocorre uma “atrofia da memória”, “característica principal da educação e da cultura a partir da metade do século 20”. Atrofia esta que se acentua com os processos de leitura online. Se o leitor de Chardin é aquele capaz de ler com atenção, de “fazer silêncio dentro do silêncio”, conforme definição de Steiner, como se pode caracterizar o internauta? Ou caracterizá-lo seria, de certa forma, reforçar o estereótipo do jovem agitado, impaciente e imediatista, para o qual a leitura é apenas uma forma pragmática de obter informações para atingir um objetivo específico (fazer um trabalho, uma prova), inclusive copiando, sem pudor, trechos inteiros de obras sem dar-lhes o devido crédito?

É claro que entre o estereótipo do leitor profundo e solene, do século 18, e o do leitor superficial e informal, do século 21, existe uma variedade de tipos de leitores — mas não podemos deixar de reconhecer que são dois modelos emblemáticos e que correspondem a certo espírito de época. Num tempo em que a experiência cede cada vez mais espaço para a informação fragmentada e descontextualizada, a imagem do internauta, saltando de um site para outro, no espaço virtual do hipertexto, se sobrepõe cada vez mais à dos amplos salões das bibliotecas com seus leitores solenes e silenciosos.

Revolução editorial

A discussão sobre o desaparecimento ou não da mídia livro parece ociosa. Aliás, como é de conhecimento geral, mas que parece ser frequentemente esquecido pelas pessoas, a existência dos computadores e da internet tem facilitado a própria difusão das obras impressas: publicam-se mais livros hoje do que em qualquer outro momento da humanidade. Como bem lembra Jason Epstein, em O negócio do livro: passado presente e futuro do mercado editorial (Record, 2002), as novas tecnologias permitem a uma máquina

[…] copiar, digitalizar e armazenar para sempre qualquer texto criado, a fim de que outras máquinas possam buscar esse conteúdo e reproduzir cópias instantaneamente a pedido em qualquer parte do mundo, seja em forma eletrônica, baixada por uma taxa para um chamado e-book ou dispositivo similar, seja em forma impressa e encadernada por uns poucos dólares a cópia, indistinguível na aparência dos livros brochurados de fabricação convencional. (EPSTEIN, 2002)

E acrescenta, adiante: “Máquinas que podem imprimir e encadernar cópias unitárias de textos com o tempo serão itens domésticos comuns, como as máquinas de fax hoje em dia”. Em outras palavras: já existe tecnologia para que uma pessoa, numa remota localidade do mundo, no Himalaia ou na Amazônia, possa baixar, copiar e imprimir seus próprios livros, formando sua biblioteca particular, sem sair de casa.

Mais do que a sobrevivência ou não do livro, a questão mais premente hoje diz respeito à sobrevivência dos modelos de produção e comercialização, dos direitos autorais, dos grandes conglomerados editoriais, mistos de editoras e livrarias que tal como os da música perdem cada dia mais o controle sobre seus títulos. Mas isto já é tema para um outro artigo. O que se pode dizer, no momento, é que há, de fato, uma revolução sem precedentes em curso — uma revolução jamais imaginada pelo hierático leitor incomum do quadro de Chardin.

 

Rascunho, nov. 2006

REFERÊNCIAS

EPSTEIN, Jason. O negócio do livro: passado, presente e o futuro do mercado editorial. Rio de Janeiro: Record, 2002.

STEINER, George. O leitor incomum. In:______. Nenhuma paixão desperdiçada. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Luis Henrique Dias Tavares e a Bahia de 1798

Foto de Haroldo Abrantes / Ag. A Tarde

Foto de Haroldo Abrantes / Ag. A Tarde

Na próxima quinta-feira, 12, o acadêmico Luis Henrique Dias Tavares lançará seu mais novo livrro. Abaixo a reprodução da reportagem e entrevista publicada no Jornal A Tarde desta segunda-feira.

Uma revolta atual

MARCOS DIAS

Chegara o momento final. Os tambores e cornetas abafaram o som dos sinos. Manuel Faustino foi carregado por quatro soldados e levado ao patíbulo.

Com o rosto coberto, o carrasco já esperava no alto. Tinha o laço aberto nas mãos. Um soldado cobriu o rosto de Manuel Faustino.

Tudo foi muito rápido.

A cidade era Salvador. O ano, 1799. Manuel, 16 anos, era um dos quatro revoltosos que foram enforcados na Praça da Piedade, ao lado do também alfaiate João de Deus, e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga.

Esse último, responsabilizado pelos panfletos que surgiram na cidade em 12 de agosto de 1798 e diziam, entre outras coisas: “Animai-vos Povo baiense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”.

Na próxima quinta-feira, completam 212 anos daquela que ficou conhecida como a Sedição de 1798, Revolta dos Alfaiates, Inconfidência Baiana ou Revolução dos Búzios, e será lançado no Instituto Geográfico e Histórico, às 18 horas, o livro paradidático Bahia, 1798, do historiador e escritor natural de Nazaré das Farinhas Luis Henrique Dias Tavares, 84.

Escravidão O crime de que os revoltosos foram acusados pela Rainha portuguesa Maria I era o de incitar a população, na época cerca de 40 mil pessoas, a libertar a Bahia dos portugueses, proclamar uma república federativa e lutar contra a escravidão.

”É parte da minha história ter dedicado muita atenção e tempo da minha vida para que seja reconhecido o movimento de 1798 e honrada a memória dos nossos quatro mártires”, afirma o professor. Para ele, que considera o racismo uma doença do ser humano, sua posição é única: “Sou contra o autoritarismo e o preconceito, a favor da democracia e de que todos os brasileiros são brasileiros, não importando a cor”.

Com ilustrações do artista gráfico Cau Gomez, ilustrador do jornal A TARDE, Dias Tavares também agrega a intenção de que o livro chegue às mãos de professores e alunos, como um novo pedido para que História da Bahia volte ao ensino médio.

O motivo é tão elementar quanto essencial: ”Para que o jovem entre na vida sabendo o que é ser baiano e o que representa a Bahia no conjunto do Brasil”.

LANÇAMENTO DO LIVRO BAHIA, 1798, DE LUIS HENRIQUE DIAS TAVARES / DIA 12, A PARTIR DAS 17H30, NO INSTITUTO GEOGRÁFICO E HISTÓRICO DA BAHIA (PIEDADE)

TODOS OS TEMAS DE HISTÓRIA ESTÃO PERMANENTEMENTE ABERTOS

Foi com propósitos educacionais que o historiador e Professor Emérito da Ufba, Luis Henrique Dias Tavares, 84, escreveu o livro paradidático Bahia, 1798, que será lançado nesta quinta, a partir das 17h30, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A renda do livro, que será vendido no dia por R$ 20, será doada pelo autor ao próprio IGHB, do qual é sócio há 50 anos. Doutor Honoris Causa da Ufba,compós-doutorado na London University, é dele o clássico História da Bahia (11ª edição, Edufba/Unesp), além de livros de crônica e ficção, como Moça sozinha na sala (1960) e a novela Não foi o vento que levou(1996).Atualmente, além de se debruçar sobre novos aspectos da Sedição de 1798, trabalha em outra novela. E acredita que ainda há o que estudar sobre 1798: “Os temas de história estão permanentemente abertos“.

Por que o episódio da Sedição de1798 o mobiliza tanto?
Pelo dever de insistir para que a Bahia coloque lembranças físicas, culturais e educacionais do movimento de 1798.

Aí estão quatro mártires brasileiros.

O Brasil só comemora o martírio de Tiradentes na Inconfidência Mineira, mas, sem fazer comparações, o 1798 tem uma dimensão bastante maior. Porque está lutando pelo fim completo da escravidão, pela separação da Bahia do império português e pelos direitos das pessoasquetrabalham.

Os mártires eram negros? Eles eram pardos, mestiços.

Nós, baianos, não somos brancos, somos mestiços, mulatos, usando essa palavra. Eu próprio tive pelo lado de minha avó paterna uma ex-escrava, e posso colocá-la como uma trisavó. E não há nada de extraordinário nisso.

Todos os baianos têm essas histórias. Não há baiano branco.

Uma das questões da revolta era a discriminação em relação à ascensão no trabalho, hoje chamado racismo institucional. Como o racismo se expressa na primeira década do século21?

Ele permanece. Muito embora se possa falar em preconceito, sobre esse preconceito há uma negação de outros baianos por uma questão de cor, da cor da pele. Isso é um absurdo porque a cor da pele é uma questão de clima. Os climas mais quentes fazem pessoas de pele negra. Os climas de países pouco tomados pelo sol fazem os chamadosbrancos.

Considera que o Movimento de 1798 ainda é pouco estudado?

Ele ainda não é estudado. Eu trabalho com este tema há muitos anos. Foi tema do meu concurso para professor e doutorado da Ufba. Eu pesquisava temas de educação, para atender um projeto do nosso inesquecível Anísio Teixeira. Ele desejou uma pesquisa mais larga e profunda sobre a educação na Bahia. No Arquivo Público do Estado da Bahia eu encontrei o que a Bahia ainda tinha da documentação referente ao 1798. Aí aprofundei-me.

Esgotou o assunto?

Acho que ainda está aberto. Em história não há tema fechado. E o nosso 1798 ainda está pedindo mais dedicação dos historiadores. Eu próprio, reconhecendo os buracos que ainda existem na história do 1798, voltei à pesquisa, agora em torno das mulheres que estão nos documentos de 1798. Não apenas a madrinha de Manuel Faustino dos Santos Lira, mas as mulheres negras, mães ou parentes dos que foram enforcados e esquartejados.

Quais seriam as bandeiras hoje do povo se essa sedição fosse atualizada?

Acabar com a escravidão no Brasil. Ela ainda existe. Acabar com a escravidão no mundo. Nesta altura, século XXI, ainda se calcula que existam no mundo 25 milhões de escravos. É a exploração do ser humano pelo ser humano. É lamentável, mas continua aí.

O senhor contou o episódio de 1798 de forma literária. Assim é possível atingir mais pessoas?

Acredito. Todo o livro de história pede o estudo, que o leitor raciocine e abra um horizonte para novas interrogações. Assim como meus trabalhos sobre o 1798 não são a última palavra, todos os temas de história estão permanentemente abertos.

Todo o livro de história pede o estudo, que o leitor abra um horizonte para novas interrogações.

Menezes vermelho ou verde

hpHélio Pólvora

Na Praça Mauá, antigo Cais Pharoux, rente à escadaria do edifício de A Noite, Rio de Janeiro, bati de frente com um velho amigo de São Gonçalo dos Campos. Já bem distanciado da adolescência, ainda buscava um rumo na vida. Era o Menezes — tipo vermelhaço, de cabelo mais duro e retorcido que arame farpado. Inteligente, tinha leitura e frases de efeito que recolhia no ar, às vezes pela metade, quase sempre de autoria trocada, e que emitia como suas. Era atlético — e a rapidez dos movimentos abria-lhe passagem. No entanto, algo dentro dele, uma tecla surda, bagunçava a orquestração da mente. Inquieto, impulsivo, agoniado, mexia-se à toa, com alto derrame de energias.

 

— Você aqui no Rio?

— Vim procurar o chefe.

— Qual chefe?

— O Plínio.

— O líder integralista?

— Ele mesmo.

— Mas você não era o Menezes vermelho na cor e vermelho nas idéias? Pulou o muro? Trocou de ideologia?

— A necessidade manda e não pede. Trago uma carta de apresentação de um amigo de meu pai, pessoa influente. Pede que ele me arrume emprego. Acho que vai dar certo.

— Já entregou a carta?

— Ainda não. Quis primeiro identificar o endereço, essas coisas.

— E está em que hotel?

— Ali em cima, atrás da Central do Brasil.

— Quando pretende ver o Plinoca?

— Amanhã entrego a carta. Quer ir comigo?

 

Era só o que me faltava, pensei. Naqueles assuntos de camisa vermelha ou verde, eu não me metia mais. Também trouxera carta de um agitador que organizava na boca do sertão as primeiras ligas camponesas da Bahia, e passei um mês inteiro indeciso.  Me apresento? Não me apresento? Desilusão precoce. Se entregasse a carta, teria o gosto de xingar os empresários, chamar os americanos de espoliadores, mas — e o contrapeso? O que esperariam de mim, além de encher tiras de papel com uma adjetivação pesada? Com certeza seria fichado, obrigado a freqüentar células, gastaria o meu tempo a pichar muros, a me esconder da polícia. Sou muito sensível a dores, alheias e minhas – especialmente as minhas. Conhecia casos, como o do Souza, que sumiu mais de um mês do jornal. Ninguém comentava o desaparecimento, havia entre os companheiros uma conspiração tácita para considerá-lo morto, esquecido e insepulto.  Um dia, porém, entrei no jornal, desavisado, e dei com o Souza, que não batucava na Remington porque parecia ter as mãos inchadas. Também havia alguma coisa errada no sorriso: o velho Souza sorria sem espontaneidade. Fui dar-lhe um abraço comovido. E perguntei então, na maior das inocências: “Extraiu um dente?” “Infecção generalizada”, respondeu o Souza. “Perdi todos”. E, com um sorriso que era medonha careta, exibiu as gengivas de onde os dentes tinham sido arrancados a torquês, enquanto a mão inchada, de dedos sem unhas, descansava no meu ombro. A lembrança do Souza chegou-me como um conselho de mãe: decidi não entregar a carta. Não seria por minha falta que a guerra-fria deixaria de esquentar. Só desejava uma cama, um canto para ler em paz e talvez escrever. No entanto, a curiosidade de ver o escritório de Plínio, de medir o estado físico e mental da velha galinha~verde, falou mais alto. Acompanharia o Menezes  — why not?

Mas o Menezes, com todo aquele porte atlético, parecia também sem jeito para a militância ostensiva ou clandestina: gastou o dinheiro do pai em refeições prolongadas, em rodadas de chope, nos cinemas e com mulheres.

 

— Espero que Plinoca me arranje uma sinecura qualquer.

— Certo. Certo.

 

A essa altura, Menezes dava sinais de desespero: amassava raras cédulas no bolso, contava níqueis, já falava em retornar a São Gonçalo – o que acabou por fazer, com um secreto gosto, aliás. Morreu aos 33 anos, de câncer na garganta, cadavérico, ainda sem divisar na mata escura por onde andava a vereda que mais lhe convinha. Plínio Tômbola, como o chamava a imprensa de esquerda, faltara-lhe com a promessa. Sentado a uma mesa modesta, no escritório acanhado do PRP, o líder franzino, que prometera perseguir os adversários im-pla-ca-vel-men-te, num comício em Salvador, redigia artigos políticos, manifestos, correspondência. Cumprimentou cordialmente, leu a carta, colocou-se à disposição de Menezes. Afinal, disse ele, devia muito a São Gonçalo,e ao sul da Bahia, uma das maiores concentrações integralistas do país, de onde lhe chegavam ainda dotações vultosas “para a causa”. E ficou nessa lenga-lenga. Menezes voltou lá umas duas vezes, logo se desinteressou. E em seguida desapareceu. Me disseram um ano depois que estava casado, em São Gonçalo, ou melhor: fora obrigado a casar, depois de fazer mal, como se dizia então, a uma moça, embora a intenção fosse a de fazer o bem, a ela e a si próprio, e tinham uma filha.. Enfrentava o olhar pesado da família s que não admitia vadios. Montou um bar – infeliz escolha, porque, consumiu ele mesmo o estoque. Suas esperanças de se fazer prócer político do PRP, discípulo amado do ex-chefe integralista, ficaram no asfalto do Rio de Janeiro, naquelas ruas vizinhas da Light, “velha exploradora canadense”, conforme diziam os jornais do Pecebão.