A leitura sensível da poesia

alefAleilton Fonseca

“A emoção não é burra, ela abre horizontes.”

Benedito Nunes

Os poetas escrevem poemas; os leitores os lêem. Diferentemente dos leitores comuns, os estudiosos de literatura abordam um poema ou um conjunto de poemas, em busca de produzir novos conhecimentos acerca de um texto, de um autor ou da poesia em geral. Para isso, ao longo de sua formação, adquirem instrumentos teóricos e metodológicos que lhes permitem fazer uma abordagem supostamente objetiva, coerente e eficaz. Trata-se de modelos de análise, geralmente construídos e propostos por teóricos acadêmicos, utilizados como ferramentas que permitem desmontar e dissecar os textos — analisá-los, classificá-los, enfim, estabelecer a sua análise. O analista geralmente aplica sobre o texto poético uma nomenclatura — as categorias analíticas — enfim, formula uma metalinguagem que se desdobra sobre o objeto (o poema torna-se um objeto de estudo), muitas vezes subsumindo-o, incorporando-o, tornando-o tributário da análise. De tal forma que, não raras vezes, o resultado causa estranhamento até aos próprios autores. Não foi à toa que Carlos Drummond de Andrade escreveu um longo poema com o objetivo de exorcizar as nomenclaturas analíticas que os vários teóricos de diversas vertentes lançam sobre o texto literário. Nesse poema, intitulado Exorcismo, o poeta enumera os conceitos, concluindo cada sequência com o apelo crítico e irônico: “Libera nos, Domine.” [1]

  

EXORCISMO

Carlos Drummond de Andrade

 

Das relações entre topos e macrotopos

Do elemento suprassegmental

Libera nos, Domine

 

Da semia

Do sema, do semema, do semantema

Do lexema

Do classema, do mesma, do sentema

Libera nos, Domine

 

Da estruturação semêmica

Do idioleto e da pancronia científica

Da reliabilidade dos testes psicolingüísticos

Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais

Libera nos, Domine

 

Do vocóide

Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal

Do vocóide baixo e do semivocálico homorgâmico

Libera nos, Domine

 

Da leitura sintagmática

Da leitura paradigmática do enunciado

Da linguagem fática

Da fatividade e da não fatividade na oração principal

Libera nos, Domine

 

Da organização categorial da língua

Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicas

Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua

Da ortolinguagem

Libera nos, Domine

 

 

Do programa epistemológico da obra

Do corte epistemológica e do corte dialógico

Do substrato acústico do culminador

Dos sistemas genitivamente afins

Libera nos, Domine

 

Da camada imagética

Do espaço heterotópico

Do glide vocálico

Libera nos, Domine

 

Da lingüística frástica e transfrástica

Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual

Da clitização pronominal obrigatória

Da glossemática

Libera nos, Domine

 

Da estrutura exo-semântica da linguagem musical

Da totalidade sincrética do emissor

Da lingüística gerativo-transformacional

Do movimento transformacionalista

Libera nos, Domine

 

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock

De Saussure, Cassirer, Troubtzkoy, Althusser

De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov

De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva

Libera nos, Domine.

 

O poeta mineiro deixa transparecer que, submetido a essa “provação” conceitual, o poema, em si, como invenção de linguagem e experiência, sucumbe à análise, perde sua aura de mistério, sua magia, com suas metáforas e opacidades reveladas à exaustão, classificadas, dobradas ao entendimento objetivo, racional.  Como diria Drummond, “um claro enigma que uma vez decifrado não resta mais nada”. Um grande estudioso como Antonio Candido não se furta a registrar o mal-estar do crítico sensível, diante dessa situação:

Não posso aproximar-me da poesia, como crítico, sem sentir um certo constrangimento. Por que, para fugir de uma certa crítica detestável de impressões vagas e de tiradas sem sentido, o crítico vai se esforçando por se exprimir em conceitos, que são o resultado de análises em que o seu esforço foi — por mais que não o quisesse — o de intelectualizar as emoções.

Submeter a poesia ao processo de expressão crítica é, de certo modo, sacrílego e perigoso. Sacrílego, na mesma medida em que o é a crítica musical intelectualizada; perigoso, na medida em que o crítico sacrifica boa parte da sua experiência poética — passada em regiões e em termos inefáveis — e se intromete pela do leitor adentro.[2]

Eis aí o paradoxo inevitável. O poema é um objeto da cultura e, como tal, deve ser estudado, analisado, esclarecido como procedimento, como linguagem e experiência transmutadas em versos, como forma artística. A experiência do texto poético constitui um conhecimento e, a rigor, não se deve ter medo da análise e da teoria.[3] Todavia parece que a relação objetiva — e até fria, estritamente metodológica — do analista com este objeto extremamente sensível merece uma reflexão.

Ao impor ao texto poético um método, uma teoria, de fora para dentro, o crítico não o estaria deformando em sua natureza poética strictu sensu? Não o estaria limitando, enquadrando-o numa forma — restringindo-o aos aspectos qualificáveis dentro de um esquema de entendimento dado de antemão?  Outra questão: o analista, nessas condições, seria um leitor exemplar de poesia? Talvez não, se entendermos o poema não apenas como uma fórmula linguística desmontável, mas como texto insubmisso, desestruturador das convenções, único em sua invenção imagética. E mais: um poema é único em cada leitura, em cada recepção particular do leitor. O texto de poesia é muito mais do que uma equação de sentidos, muito mais do que sua camada intelectiva logicamente explicável. Ele é também experiência e afetividade humana condensadas em palavras, complexo imensurável, enigma cujo sentido pertence ao momento mesmo de sua concepção. As abordagens que primam pelo racional, explicam — não resta dúvida! — mas também limitam o universo do poema ao escopo teórico, restringem os seus sentidos aos parâmetros permitidos ou delimitados pelo modelo explicativo utilizado. De tal forma que, mudando-se o método, mudam-se os sentidos verificáveis e a cadeia demonstrativa aplicável ao texto. Ou seja, para cada tipo de análise, o poema é uma coisa diferente. Ele torna-se algo e faz sentido a partir dos pressupostos que lhe são aplicados. Mas, e o poema em si, em sua natureza íntima, o que é? É experiência, afetividade, sentimento pessoal e coletivo condensado em palavras. Trata-se de um discurso de exceção, para além do uso corrente da linguagem, carregado de afetividade, corrente energética que quer falar diretamente à dimensão afetiva do interlocutor, reflexivo, transitivo, figurativo do mundo e das experiências emotivas — seja no plano concreto, seja no plano do desejo ou das intenções.

Mas é possível enfrentar esse impasse. Para tanto, é preciso que o estudioso seja, antes de mais nada — e sobretudo! — um leitor sensível do poema. Que seja capaz de interagir com o texto segundo a sua natureza de discurso que busca sintonia e reciprocidade para com o domínio afetivo. Essa abertura proporcionará ao analista ampliar, sem abrir mão dos recursos de abordagem, o alcance de sua percepção, admitindo no estudo a substância de sua subjetividade, de sua experiência emotiva e de seu grau de sintonia afetiva para com o poema em consideração. O estudo do poema, portanto, escapa às rédeas do mero conceitualismo descritivo, sua abordagem deixa de ser pretensamente científica e passa a ser uma abordagem sensível, performance textual que se inscreve no campo da própria literatura.

A abordagem sensível do poema é aquela que atribui ao texto literário — e não à teoria e seu método — o lugar privilegiado. Nesse caminho, o conhecimento anterior é uma base, pois os sentidos se originam no poema e para ele convergem, soberano em sua conformação lingüística, semântica e contextual. Com isso, o discurso-guia da teoria, o discurso-praxis do pesquisador e o discurso-arte do poeta ficam livres para um diálogo sensível, sem subordinações, nem preconceitos. Trata-se de uma experiência em que a análise configura os sentidos presentificados pelo poema, considerando também os seus efeitos nos sentimentos do pesquisador.

A abordagem sensível configura seu método e sua teoria no processo em si, pois eles são intuídos e percebidos a partir do próprio campo de sentidos acionado pelo texto estudado. O pesquisador torna-se, dessa forma, um intérprete integral do poema. Sua percepção e sua consciência não são subordinadas a pressupostos e preconceitos — que, muitas vezes, levam à visão distorcida ou equívoca de um texto, considerando-o bom ou ruim, expressivo ou inexpressivo, à luz de postulados que lhes são externos. O analista sensível convoca ideias, informações, sentimentos e conceitos para formarem uma cadeia dialógica com o poema, amalgamando o domínio cognitivo e o domínio afetivo na sua percepção. Nessa abordagem, emoção e razão se reconciliam de fato, pois não há o recalque da primeira em proveito da segunda. E isto está consoante com a natureza íntima do poema, que é, em essência, o resultado da sintonia, do equilíbrio — não obrigatoriamente perfeito — entre as faculdades da razão e da emoção. De fato, a emoção somente não é capaz de transformar a experiência em texto poético, assim como a razão sozinha também não o integraliza. Enquanto, no processo, a razão é o anteparo do excesso, exercendo o domínio conformador da energia criadora, a emoção é o vetor por onde flui essa mesma energia.

Essa abordagem do poema considera na análise aquilo que o método e a teoria em regra menosprezam e evitam — o saber da subjetividade/emotividade do pesquisador. Mas, paradoxalmente, sem essas prerrogativas, o analista corre o risco de ser um mero aplicador de fórmulas interpretativas e explicativas — um mero operador e conservador de conceitos preestabelecidos — pronto para jogar no lixo o imprevisto, o acidental, o inusitado. E tudo isso constitui a energia vital do poético e da renovação das formas.

A abordagem sensível põe em cena o pesquisador em sua condição humana integral, com seu aparato cultural e sua sensibilidade peculiar. Para ele, o poema é uma caixa de surpresas. Umas se encaixam na dimensão explicativa, outras ele pode apenas sentir e, nesse caso, registrar os achados do seu sentimento. Esta é uma forma mais justa, legítima e coerente de saber o poema, pois a emoção pode ser também uma dimensão privilegiada de pensar e refletir sobre o mundo, a arte e o ser humano.

 

 

NOTAS

 


[1] ANDRADE, Carlos Drummond de. Exorcismo. In: ___.  Discurso de primavera e algumas sombras. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979,  p. 113

 

2 CANDIDO, Antonio. “Mário de Andrade – Poesias – Livraria Martins Editora – São Paulo, 1941”. In: Clima, n. 8, São Paulo, jan. 1942. Apud: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 36, São Paulo, 1994, p. 135. (publicado aí, com a ortografia atualizada).

 

[3] LIMA, Luis Costa. “Quem tem medo de teoria?”. In: __. Dispersa Demanda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, p. 193-198.

Música popular e adjacências…

livropcl

LANÇAMENTO: “Música popular e adjacências…” da autoria de Paulo Costa Lima

No dia 05 de novembro, a partir das 17h30, haverá o lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima. A publicação, da Editora da Universidade Federal da Bahia (EdUFBa), será lançada durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa, que acontecerá na Reitoria da UFBa.

Composição é mais do que música? Mais do que simplesmente aquilo que se ouve? Ou a música é quem engloba tudo, inclusive as vicissitudes de sua criação? Música e composição vão além daquilo que soa, e vibram na direção do que se pensa, do que se imagina e do que se fala. Envolvem, portanto, um mais-ouvir, surgindo daí o compromisso com o imaginário e a responsabilidade com o discurso.

As crônicas e ensaios apresentados em Música popular e adjacências surgiram dessa consciência, e especialmente da teimosia na combinação de traços e temas aparentemente opostos – leveza e incursão analítica, popular e erudito, formalismo e referencialismo, o cotidiano e o susto. Dessa forma, celebra uma abertura de diálogo com um novo público, encontrando agora uma moldura em livro.

Em foco, de forma especial, algumas canções brasileiras, buscando identificar caminhos e processos de construção composicional, mostrando que o terreno é fértil, e menos visitado do que deveria ser, especialmente agora que a complexidade das hierarquias não mais precisa das fronteiras de ontem, e nem mesmo de fixar receitas de complexidade.

SERVIÇO

O que: Lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima
Quando: 05 de novembro de 2010, a partir das 17h30
Onde: Durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa; Reitoria da UFBA, Rua Augusto Viana – Canela
Preço do livro: R$ 25,00
Preço do livro (Lançamento): R$ 20,00

Música popular e adjacências…

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LANÇAMENTO: “Música popular e adjacências…” da autoria de Paulo Costa Lima

No dia 05 de novembro, a partir das 17h30, haverá o lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima. A publicação, da Editora da Universidade Federal da Bahia (EdUFBa), será lançada durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa, que acontecerá na Reitoria da UFBa.

Composição é mais do que música? Mais do que simplesmente aquilo que se ouve? Ou a música é quem engloba tudo, inclusive as vicissitudes de sua criação? Música e composição vão além daquilo que soa, e vibram na direção do que se pensa, do que se imagina e do que se fala. Envolvem, portanto, um mais-ouvir, surgindo daí o compromisso com o imaginário e a responsabilidade com o discurso.

As crônicas e ensaios apresentados em Música popular e adjacências surgiram dessa consciência, e especialmente da teimosia na combinação de traços e temas aparentemente opostos – leveza e incursão analítica, popular e erudito, formalismo e referencialismo, o cotidiano e o susto. Dessa forma, celebra uma abertura de diálogo com um novo público, encontrando agora uma moldura em livro.

Em foco, de forma especial, algumas canções brasileiras, buscando identificar caminhos e processos de construção composicional, mostrando que o terreno é fértil, e menos visitado do que deveria ser, especialmente agora que a complexidade das hierarquias não mais precisa das fronteiras de ontem, e nem mesmo de fixar receitas de complexidade.

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O que: Lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima
Quando: 05 de novembro de 2010, a partir das 17h30
Onde: Durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa; Reitoria da UFBA, Rua Augusto Viana – Canela
Preço do livro: R$ 25,00
Preço do livro (Lançamento): R$ 20,00

Música popular e adjacências…

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No dia 05 de novembro, a partir das 17h30, haverá o lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima. A publicação, da Editora da Universidade Federal da Bahia (EdUFBa), será lançada durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa, que acontecerá na Reitoria da UFBa.

Composição é mais do que música? Mais do que simplesmente aquilo que se ouve? Ou a música é quem engloba tudo, inclusive as vicissitudes de sua criação? Música e composição vão além daquilo que soa, e vibram na direção do que se pensa, do que se imagina e do que se fala. Envolvem, portanto, um mais-ouvir, surgindo daí o compromisso com o imaginário e a responsabilidade com o discurso.

As crônicas e ensaios apresentados em Música popular e adjacências surgiram dessa consciência, e especialmente da teimosia na combinação de traços e temas aparentemente opostos – leveza e incursão analítica, popular e erudito, formalismo e referencialismo, o cotidiano e o susto. Dessa forma, celebra uma abertura de diálogo com um novo público, encontrando agora uma moldura em livro.

Em foco, de forma especial, algumas canções brasileiras, buscando identificar caminhos e processos de construção composicional, mostrando que o terreno é fértil, e menos visitado do que deveria ser, especialmente agora que a complexidade das hierarquias não mais precisa das fronteiras de ontem, e nem mesmo de fixar receitas de complexidade.

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O que: Lançamento do livro Música popular e adjacências… da autoria de Paulo Costa Lima
Quando: 05 de novembro de 2010, a partir das 17h30
Onde: Durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa; Reitoria da UFBA, Rua Augusto Viana – Canela
Preço do livro: R$ 25,00
Preço do livro (Lançamento): R$ 20,00

O conto de Herberto Sales

arcAramis Ribeiro Costa

O contista Herberto Sales já encontrou o romancista Herberto Sales a meio caminho. Vinha de romances consagrados, entre os quais o primeiro, o famoso Cascalho, epopeia de garimpeiros nas lavras e grunas de Andaraí, obra que, rapidamente, lhe granjeara renome nacional. Cascalho fora dado a público em 1944, no Rio de Janeiro, pelas Edições O Cruzeiro, e foram romances também os dois livros seguintes, Além dos Marimbus (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1961) e Dados Biográficos do Finado Marcelino (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1965). O contista só aconteceria em 1966, ou seja, vinte e dois anos após a publicação do livro de estreia. Para participar de um concurso, Herberto escreveu três contos: “Quando o Homem Ama”, “O Paciente” e “Cachaça”, três relatos curtos e dialogados que, se não lograram os prêmios do certame obtiveram outro maior, que foi o de estimularem o autor a prosseguir no gênero. E, em pouco tempo, estava concluído o conjunto dos dezessete textos que seriam publicados sob o título de Histórias Ordinárias (Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1966). Mas por que o contista tardara tanto, quando tantos outros ficcionistas iniciam-se justamente pela página de pequeno fôlego, antes de aventurar-se no vôo mais largo do romance? É o próprio escritor quem explica, no seu SubsiDiário/ Confissões, Memórias & Histórias (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1988):

“Sempre achei muito difícil escrever um conto. Tentava, tentava, tentava, e acabava rasgando e jogando fora. Por intuição, e depois, sentindo sem exagero na carne a experiência, cheguei à conclusão, embora não à novidade — esta: só escreve um bom conto quem sabe realmente escrever. Quer dizer: quem tem o domínio da língua. Quem tem — escrevendo — o senso da medida. Ou melhor: o senso clássico e tomístico da medida. O arpejo certo. Sem uma nota a mais ou uma nota a menos. O buraco da agulha e a linha. Quase que a conta matemática da escrita.”

Foi essa conta matemática da escrita, acertada nos três contos já citados, a nota dominante das suas Histórias Ordinárias, um título sugerido pelo dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, com a aprovação imediata do autor, e, sobre o qual, há também que se questionar, principalmente pelas conotações da palavra ordinárias. O fato é que, de ordinárias nada tinham aquelas histórias no sentido da má qualidade, enquanto que, pelos costumes da época e dos lugares onde várias delas se passam, bem poderiam ser ordinárias na acepção de ocorrência ordinária, habitual, comum, como o episódio de “Emboscada”, que encerra o volume, um dos seus contos mais antologiados, e tão magistral quanto a passagem de Cascalho, onde o jagunço Zé do Peixoto é, também, emboscado e morto.

Seria quase impossível recontar, oralmente, o conto “Emboscada”. Ou melhor, poderia ser contado em pouquíssimas palavras, mas deixaria a impressão, em quem ouvisse, de se tratar de um conto pobre e sem nenhum interesse. Dois homens, um mais velho, Patuá, e um mais moço, Guido, caminham para emboscar o fazendeiro Pedro Neves. O mais velho está calmo, o mais moço nervoso. Todo o conto é o diálogo dos dois sobre a emboscada. Enquanto conversam, preparam-se e esperam. Finalmente surge a vítima, e eles atiram. Não há nada de interessante nisto. Entretanto a narrativa torna-se interessantíssima exatamente em função do diálogo, da descrição do ambiente e, sobretudo, do clima de expectativa e nervosismo durante o período da espera.

A reincidência do tema “emboscada”, primeiro no romance Cascalho e depois neste conto, indicaria a frequência da situação na época e nas terras em que tais histórias se passam. Mas, ainda assim, seria uma ocorrência ordinária apenas para aquela gente habituada à violência do garimpo daqueles tempos dos coronéis, e sua ilimitada sede de poder. O leitor contemporâneo, particularmente o urbano, não verá o ordinário desses episódios, nem mesmo neste outro sentido da palavra, surpreendendo-se, pelo contrário, com o inusitado e, às vezes, absurdo dos relatos. O mesmo se pode dizer das ocorrências urbanas. Embora uma ou outra, como em “Generoso, Generoso” — um mero encontro de amigos em diferentes condições financeiras —, o acontecimento possa ser considerado efetivamente comum ou ordinário, será difícil rotular desta forma, por exemplo, a história de “O Automóvel”, seu conto mais longo, cuja extensão e estrutura de trama beiram a novela, uma obra-prima de observação e sutilezas, capaz de fazer rir e pensar.

Maupassant, para condenar o recurso do acaso na ficção, dizia que não se deve deixar cair uma telha na cabeça de um personagem central. A exemplo de Monteiro Lobato, em seu famoso conto “O Comprador de Fazendas”, onde o vigarista Pedro Trancoso tira a sorte grande na loteria, Herberto, neste “O Automóvel”, ousando contrariar o mestre francês, deixa cair a telha na cabeça do personagem. Melhor: supera Lobato, e faz cair a telha duas vezes, ou, se quiserem, faz caírem duas telhas seguidas. Como em “Emboscada”, é possível resumir, em poucas palavras, o fio condutor deste enredo. Seu Raul é um modesto funcionário público, morador em Olaria com a família, a mulher e cinco filhos. Vivem de apertos quando, um dia, ele ganha um automóvel num sorteio — primeira telha. A vida da família passa a girar em torno do automóvel, com todos os problemas, mudanças, alegrias e decepções que ele proporciona, até que, pouco tempo depois, o veículo é destroçado na porta de casa, por um caminhão — segunda telha. Assim resumido, não se pode imaginar o quanto de riqueza narrativa possui este conto, o quanto ele desperta de interesse no leitor. Torna-se rico e interessante, em particular, pelo registro de pormenores do cotidiano, pela espontaneidade e procedência dos diálogos, e pela autenticidade dos personagens, extraordinariamente vivos e humanos em suas fraquezas e esperanças. Porém como se considerar ordinária ou comum a singularidade de alguém ganhar um automóvel num sorteio e perder, logo em seguida, esse mesmo automóvel, diante da própria casa, destroçado por um caminhão? Não fosse o extraordinário da circunstância, ou das circunstâncias, já que há mais de uma excepcional — o ganho e a perda do veículo —, não fossem, afinal, as duas telhas de Maupassant, e, certamente, este conto não aconteceria. Ocorre, portanto, nesse primeiro livro, o oposto do que acreditou o autor quando, em nota no início do volume, glosou o título geral dos seus escritos:

“Não se lerá aqui, nas histórias que estas páginas registram, nada de extraordinário. Nem a tanto poderiam elas aspirar, por lhes faltarem para isso engenho e fantasia. São simples casos. Coisas comuns. Histórias ordinárias.”

Está visto que não eram. Ou, se eram, deixaram de ser, pela distância do tempo e do ambiente, mas, sobretudo, pela perícia narrativa do mestre contista.

Encontrando o romancista Herberto Sales já pronto, senhor e mestre do seu ofício, o contista Herberto Sales tomou-lhe o estilo e, com ele, a linguagem seca, quase sem adjetivos, porém de amplas modulações, indo do escorreito e do erudito ao coloquial e costumeiro na região recriada. Sendo um observador sagaz do cotidiano, os seus contos, como os seus romances, tornam-se um registro quase obsessivo de quanto acontece à sua volta, como se o autor fosse um repórter que tivesse por missão documentar tudo sem distorcer a verdade, sem aumentá-la, sem diminuí-la, sem enfeitá-la com cores mais belas ou piorá-la com tintas ainda mais sombrias. Em Herberto o cinza não é azul disfarçado, mas cinza mesmo, o negro não é ausência de cor nem o branco é alvo. Cada coisa no seu lugar, na sua medida exata, ainda mais contido no conto do que no romance, contido em cada frase, em cada palavra nua e crua. Apesar disto tira humor de tragédias, como no originalíssimo “Duas Versões”, com seus dois tão inesperados desfechos. E também não esconde a sensibilidade nem a indignação, tampouco a emoção diante das injustiças ou dos sofrimentos, fazendo do seu trabalho, além de arte literária de altíssimo nível, um instrumento poderoso de denúncia. Se fosse repórter, as suas observações resultariam em duras reportagens. Sendo um ficcionista, recria a realidade na literatura, inserindo nela o registro dos costumes, fazendo-a documento de época e de lugar, reveladora da condição humana em seus mais íntimos, ínfimos e também maiores anseios e conflitos.

Diante de tais abordagens, seria lícito acreditar-se não se preocupar este contista demasiadamente com a urdidura do seu conto. Porém isto não é verdadeiro. Há tramas que resultam de cuidadoso artesanato, cujos elementos narrativos são peças que se encaixam e se completam, obtendo, no final, o efeito desejado. Veja-se este “Duas Versões”, aqui citado. O conto inicia com uma pergunta: “Finalmente, como teria João Sapucaia matado a mulher?” Note-se que o autor não põe em dúvida o assassinato, como não porá em dúvida, no corpo da narrativa, o motivo do crime. João Sapucaia, “garimpeiro, residente no povoado de Piranhas”, matou a mulher, D. Luzia, por ciúme dela com Coriolano, “um homem de dente de ouro, conhecido tocador de harmônica”. É um fato. E matou a facadas, também isto não é posto em dúvida. O que não se sabe é de que forma, exatamente, se deu o homicídio. Há a versão de Jorjão, e esta é a primeira a ser contada, onde João Sapucaia esfaqueia a mulher dentro de casa, enquanto recebe o seu compadre Isidro, que trazia um peru, para a festa de São João. João Sapucaia fica alternando entre ir lá dentro dar mais uma facada na mulher, até a derradeira, na goela, e a atenção ao seu compadre, na sala. O conto podia acabar aí, com a morte da mulher e o pedido para que Isidro o levasse para a cadeia. E estaria muito bem. Mas seria apenas o curioso relato de um crime passional, pouco mais trabalhado que uma notícia jornalística em página policial, ou o pormenorizado registro de um inquérito, numa delegacia de polícia. Então o autor, inesperadamente, conta a outra versão do assassinato, onde a mulher sai de casa correndo, já esfaqueada, e a última facada é dada em plena rua, diante de várias pessoas, inclusive do compadre Isidro, que vai chegando naquele momento. E o pequeno conto, que seria apenas divertido se permanecesse na primeira versão, cresce extraordinariamente em originalidade e interesse.

O que mais surpreende a quem estuda as páginas de ficção curta de Herberto Sales, das quais esta “Duas Versões” é uma das mais expressivas, é como ele consegue armar um conto com tão poucos incidentes narrativos, e ainda consegue tirar das circunstâncias — aparentemente pobres — o mais perseguido dos efeitos neste gênero literário: a surpresa.

Ainda em relação aos contos de Histórias Ordinárias, narrados, todos eles, na terceira pessoa e, indiscutivelmente, páginas de ficção e não simples relatos de experiências e sensações ou registros de acontecimentos reais, não se poderia esquecer a matéria-prima autobiográfica, sobretudo porque confessada no SubsiDiário, e não raro identificada — como em “Ordem de Pagamento”, as atribulações de um escritor para receber direitos autorais vindos da Bulgária, e “Memórias”, onde o personagem tenta, desesperadamente, ser um contista, sem êxito.

O livro de contos seguinte, intitulado pelo autor de Contos Folclóricos e modificado, pela editora, para O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos (Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1970), representa um trabalho singular na obra de Herberto Sales, pois permuta a recriação da realidade pessoal e circundante pela recriação de temas do imaginário popular, de raízes índias, negras e portuguesas, transmitidas através de gerações, pela oralidade, como Lobisomem, Caapora, Saci, Mãe-D’Água, Mula-Sem-Cabeça e outros. As histórias aproveitam-se, principalmente, das lendas dos encantados que lhes servem de protagonistas, daí a sua natureza folclórica. Não há, no entanto, como excluir este livro da sua contística, desde quando as suas páginas são verdadeiramente contos, nascidos da habilidade ficcional do autor, e não apenas transcrições da tradição oral. A nota inserida na primeira página do volume explica isto:

“Não são variantes, na acepção da pesquisa e da ciência; mas versões pessoais de ficcionista, literatura com motivações folclóricas, só: bichos, crendices, povo. Reinvenção do inventado; conto do contado, recontado sob outra forma, por outra boca: acrescentos do homem à obra que o povo faz. Como diz o próprio povo e reconhece: “Quem conta um conto aumenta um ponto”.”

São quinze contos vivos, movimentados, cheios de suspense, impregnados dos mistérios dos encantados, como em “Flor-do-Mato”, a caapora fêmea, que seduz e atrai, para o interior da mata, o solitário menino Janjão, roubando-o para sempre do seu avô, ou como em “O Mistério das Sete Estrelas”, onde sete indiazinhas são transformadas no Sete-Estrelo pela estrela Ueré. Embora também autor de literatura infantil, Herberto Sales não dirigiu estas páginas à infância, como fez Monteiro Lobato, quando tratou de temas semelhantes, em O Saci e Histórias de Tia Nastácia. Mas deu-lhes um especial colorido num estilo que lembra o contador do povo contando histórias, “realizando uma adequação de linguagem em que o clássico se funde com o popular”, como observa um comentário na primeira edição do livro.

A recriação da realidade na ficção de pequeno fôlego, quase com as mesmas características das Histórias Ordinárias, teria o seu retorno, no mesmo ano da publicação de O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos, em Uma Telha de Menos (Rio de Janeiro, Editorial Tormes, 1970), um conjunto de dezoito contos curtos, cujo título geral, apesar de sugestivo e instigante, não pertence, como no primeiro livro, a nenhum deles. A linguagem, marca do autor, permanece a mesma em seu rigor e precisão, bem como a fluência narrativa e a estrutura e o desenvolvimento das tramas. Permanece, igualmente, a alternância de cenário entre o rural e o urbano.

Exemplo, neste livro, de conto rural, é o excelente “O Morrinho”, que abre o volume e rivaliza, com “Emboscada”, na preferência dos organizadores de antologia. Os dois primeiros parágrafos, concisos, precisos e curtos, definem os rumos do episódio:

“Coisas de terras; uma cerca que não devia passar por onde passava. O rumo era outro, pela escritura; mas a cerca de Militão acabou entrando nos terrenos de Apolônio, e pegou de viés um morrinho que não era lá grande coisa.

Apolônio chamou dois crioulos e mudou a cerca de lugar, recuando-a para o rumo indicado na escritura: o morrinho inteiro tinha de ficar dentro do seu terreno. Era assim que estava na escritura.”

Desta forma começa o conto, e começa a disputa entre Militão e Apolônio pelo morrinho, disputa que acaba na morte de um deles, baleado pelo outro. Aqui, mais uma vez, Herberto surpreende, extraindo, de uma controvérsia banal de divisa de terras, um episódio tragicômico primoroso. Por suas peculiaridades, “O Morrinho” talvez melhor estivesse em Histórias Ordinárias, ao lado de “Emboscada” e “Duas Versões”.

Demonstrativo de conto urbano em Uma Telha de Menos é “Fim de Semana”, um interessante caso de excessivo ciúme conjugal, onde o personagem Leovigildo prefere pedir o desquite a ter de explicar à ciumentíssima Célia, sua esposa, a circunstância verídica e inocente, que o envolve num acidente com outra mulher.

De um modo geral, em Uma Telha de Menos, as narrativas tornam-se mais breves e mais leves, algumas chegando à fronteira de um território que se poderia creditar à crônica ficcional, na forma e no tratamento. Apresentam-se, também, esses contos, em seu conjunto, com uma menor densidade dramática, e já não é tão evidente o registro obsessivo dos costumes, embora permaneça a anotação cuidadosa dos fatos e das circunstâncias. Como em Histórias Ordinárias, são narrados na terceira pessoa, com exceção de “Uma Questão de Tranquilidade”, as desventuras de um proprietário de apartamento que é solicitado para ser avalista, e conservam, ainda que, algumas vezes, em esboços, a estrutura clássica do princípio, meio e fim, com especial atenção para o desfecho. Mas, neste livro, o contista dá a impressão de um narrador mais descontraído, menos formal, como se estivesse a contar casos numa roda de amigos, com o intuito de interessá-los e distraí-los. É oportuno transcrever, do SubsiDiário, um comentário do autor sobre Uma Telha de Menos:

“Confesso que nesse tempo, tendo já de alguma maneira conquistado a forma, quer dizer: a forma que tenho de ser mais claro comigo mesmo e com os outros, não me era difícil escrever um conto. Porque o resto — isto é o recheio da forma — para mim não era e talvez ainda não seja o problema. Para escrever um conto, basta-me a mim escrever um dos mil e um desimportantes episódios com que ao longo do tempo venho compondo sem querer a minha autobiografia, imiscuídas nelas as gentes que conheci e que recordo, entre a piedade de meu ódio e o arrependimento de minha simpatia. O que tem de autobiográfico nesse livro não está no mapa. Enfim o escrevi.”

Histórias Ordinárias e Uma Telha de Menos tiveram, também, edição conjunta, sob o título geral de Transcontos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974).

O quarto e último livro de contos de Herberto Sales foi Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980).

Escrito em função do último conto da coletânea, “Edgarzinho ou Atos que não se Praticam”, onde o autor coloca a sua revolta contra demissões arbitrárias, particularmente no serviço público, o conjunto das narrativas mantém a característica de crítica e sátira social e de costumes. Seus heróis, os tão conhecidos anti-heróis contemporâneos, massificados e não raro esmagados pela grande máquina da sociedade, são criaturas do nosso convívio diário e com as quais, muitas vezes, nos identificamos, como em “O Vôo da Fantasia” — onde um personagem sonha com viagens de avião sem a habitual perturbação das mamães, dos papais, dos vovôs, das vovós e, acima de tudo, das crianças —, ou como em “Sede de Vingança” — onde um funcionário pensa em matar o chefe que não o valoriza. Criaturas insatisfeitas e rebeldes, de alguma maneira, nesses episódios, manifestam o seu inconformismo, às vezes de forma bastante insólita, como em “O Estilete” — no qual um cidadão aparentemente normal manda fabricar um estilete com trinta centímetros para espetar, através do estofado, o primeiro passageiro que, na poltrona da frente do avião, reclina-se a ponto de incomodá-lo.

Pontuando esses contos com uma boa dose de humor, mas, sobretudo, com uma grande carga de ironia e indignação, Herberto Sales apresenta-se, na coletânea Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro, quase um contista novo, imprimindo uma maior velocidade ao seu estilo, com uma linguagem mais solta e uma maior liberdade narrativa, como é exemplo a história que serve de título ao volume. Este conto, “Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro”, reafirma o pendor irresistível do contista Herberto Sales para a tragicomédia. Comédia fina, irônica, inglesa, extraída dos costumes ou — como queria Wilson Lins — dos maus costumes. E tragédia rápida, cortante, de causar impacto no leitor e deixá-lo estático, mudo, pensativo, a “ouvir uma mosca voar”, como dizia Lobato de Maupassant e de Kipling, e como desejava que fossem os seus próprios contos. O garotão louro, de compridos e escorridos cabelos louros, repartidos ao meio, parte cavalgando a sua moto possante, armado cavaleiro, na liça do asfalto. Vem o ônibus, vem a tragédia. Tudo muito rápido, numa velocidade de tirar o fôlego, levando o leitor, no curto espaço de tempo da leitura do conto, do sorriso inicial pelo tom irônico do contista, à perplexidade pela morte brutal do personagem. Nesta página há um absoluto domínio da técnica narrativa na ficção de pequeno fôlego. Uma página de mestre. Lamentável que, justamente quando este nível de qualidade indiscutível é atingido, Herberto abandona o conto para sempre, jamais a ele retornando.

A ficção curta de Herberto Sales foi reunida ainda, em livro, nas seguintes antologias: Seleta, Organizada por Ivan Cavalcanti Proença, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1974; Vamos Ler Herberto Sales, Seleção e nota introdutória de Fernando Sales, Rio de Janeiro, Cátedra, 1984; Os Melhores Contos de Herberto Sales, Seleção e estudo introdutório de Judith Grossmann, São Paulo, Global, 1984; e Herberto Sales — 10 Contos Escolhidos, Estudo introdutório de Maurício Salles Vasconcelos, Brasília, Horizonte, 1985. Participa, ainda, de inúmeras antologias nacionais e estrangeiras, tendo sido os livros traduzidos para diversos idiomas.

Sem a continuidade do romancista Herberto Sales, o contista Herberto Sales, com páginas como “Duas Versões”, “Emboscada”, “O Morrinho”, “Armado Cavaleiro o Audaz Motoqueiro”, e, sobretudo, “O Automóvel”, colocou-se, no conto, como já o fizera, no romance, o romancista, entre os maiores da literatura nacional.

A prosa barranqueira de Osório Alves de Castro

aaveArmando Avena

Acho que foi no início dos tempos que a Natureza celebrou um pacto com os homens de letras: ela os engendraria de quando em vez, desde que eles narrassem aos outros homens a terra em que haviam sido engendrados. Mais provável, talvez, que, longe de esperar pela volição dessa espécie tão inconstante, cada lugar resolvesse dar à luz, uma vez que fosse, a um ser cuja essência genética estivesse programada para contar ao mundo como era o lugar em que nasceu. E, desse modo, a literatura produzida por esses homens não apenas descreveria seu lugar, mas seria semelhante a ele, teria um ritmo similar, uma expressão análoga, um estilo idêntico. E, mais que isso, talvez os homens a quem o fado exigia que cantassem sua terra fossem, eles próprios, parecidos com a terra que cantavam.  Se  assim fosse, seria mais fácil compreender por que a literatura de Machado de Assis era  rebuscada e petulante  como o  Rio de Janeiro,  por que a prosa de Jorge Amado era sensual e debochada como a Bahia, por que a escrita de Graciliano era seca  e dura como o sertão.

E, se cada lugar cria sua literatura,  os afluentes, as matas, os cerrados, as cidades, os povoados, os arraiais e o homem do  grande vale do Rio São Francisco criaram Osório Alves de Castro e sua prosa barranqueira, entrecortada como o próprio rio,  úmida como as terras ribeirinhas e, por vezes, afásica, pois assim é o homem a quem retrata.

Acho que foi em busca da sistematização de todo conhecimento humano que os homens resolveram elaborar as enciclopédias. Diderot e D”Alembert propuseram-se,  em 1747,  a catalogar os conhecimentos que todo honnête homme deveria ter no Século XVIII e creio que veio daí a crença de que todo saber pode ser encontrado nas enciclopédias. Mais provável, no entanto, é que as enciclopédias, ainda que mobilizassem as mentes mais brilhantes – e Diderot trouxe para a sua Montesquieu, Voltaire e Rousseau – não fossem capazes de abarcar todo o saber humano e de transmitir aos nossos descendentes as idéias e as histórias de todos os homens que fizeram ciência, poesia, arte e tudo o mais. Ainda assim, criado que fui na crença de que o saber humano é sem fim, terminei por acreditar que as enciclopédias “não omitiam nada do que se pudesse mostrar distintamente aos olhos”. E, extasiado com a prosa do inaudito escritor nascido na margem esquerda do Rio Corrente, fui em busca de sua história nas enciclopédias desta e de outras terras. E qual não foi meu espanto: não havia verbete autônomo, nem verbete indicativo, nem parágrafo dos verbetes indicados, nem uma linha sequer, sequer uma linha. Abespinhado, deixei o peso das enciclopédias, vaticinando açodadamente sua incapacidade de registrar a aldeia global e, pressagiando sua obsolescência, conectei-me a Internet, a enciclopédia do século XXI, onde nada esta ausente, ainda que a presença, não raro, venha recheada de incorreções. E, pasmem os leitores, nenhuma biografia, nenhum estudo acadêmico, nenhuma tese, nada assomou a pantalha eletrônica a não ser três ou quatro menções vinculadas a outros temas. E, no entanto, Osório Alves de Castro deveria estar em todas as enciclopédias, em todos os sites de literatura, ombreando-se a Guimarães Rosa na galeria dos grandes escritores brasileiros.  Assim o desejaria o próprio Rosa.

Prosa para isso tinha de sobra o escritor nascido na bucólica Santa Maria da Vitória, em pleno Além São. Francisco.  Porto Calendário, seu primeiro livro, lhe trouxe o aceite da critica e lhe valeu o Prêmio Jabuti de Literatura, em 1961.  Daí desmembraram-se duas outras obras primas, Maria Fecha a Porta Prau o Boi Não te Pegar e Baiano Tiête, formando a trilogia da integração nacional. Apenas isso já lhe valeria um verbete em negrito.

“No ano que vem, caminho de S.Paulo me tem”, essa era a pichação que manchava os muros de Santa Maria da Vitória, de Correntina e de Barreiras e seus autores,  jovens que recém completavam 18 anos,  logo estariam margeando o Tiête em busca da redenção econômica. Osório Alves de Castro  cantou o fado desses jovens e deu vida ao povo ribeirinho, especialmente aquele que não tinha força ou desejo de deixar seu vale querido.  E, apesar disso, as enciclopédias lhe regalaram o esquecimento e até seu povo, aquele que habita os cerrados da Bahia, parece não lhe prestar a devida atenção.  Hamlet estava errado: não há esperança de que a memória de um grande homem possa sobreviver-lhe sequer por meio ano.

Vivo estivesse, Osório Alves de Castro tripudiaria de minhas preocupações, afinal,  não estava ele redimido pelas palavras de Guimarães Rosa:  “ Oh, o homem do São Francisco! Pudesse, eu ia lá, em Marília, conversar com ele, três noites e três dias, seguidos, sem pausa nem pio, sem fio nem pavio. Foi para mim uma rajada, um desembesto, um desadoro, um desabalo. Não tenho palavras. Foi um filme doido, vero, cinerama, passando diante de mim, de minha velhice-infância”. Não estava ele redimido pelas teses e estudos que, quando em vez, os jovens das universidades brasileiras entabulavam sobre sua obra. E, além disso, de que valem as enciclopédias frente a arte que teima em brotar das entranhas do homem?

E que homem! Que escritor!  Não exprobre, condestável leitor, as aclamações que  aí estão apenas para corroborar o espanto que assomou a pena de  Rosa quando ele leu a carta, “a espantosa, a estouradora carta, mensagem dos cem mil cavalheiros: a carta de Osório Alves de Castro, publicada na Revista Diálogo em 1957. Não, não era uma carta, era já um romance, condensado em poucas páginas, mas caudaloso, cheio de corredeiras e quedas d’águas. As águas do Velho Chico molhavam aquelas páginas, o homem do vale  navegava naquelas palavras, os coronéis e os atravessadores, exploradores do ribeirinho, mergulhavam naqueles parágrafos barrentos,  tudo já estava ali e iria desaguar no mar de Porto Calendário.

Que homem! Que escritor! Alfaiate, nunca renegou seu oficio, mas se de dia alinhavava os tecidos na sua Alfaiataria Rex de noite dava forma às palavras. E que forma!  “Antigamente as noticias chegando era como um tempero insosso ganhava travo e a gente comprazia divera… Hoje? …  Que Deus tenha pena de nós. Tudo chega de supetão, arrasa e fica nas angústias como um arco-íris. Sumindo detardinha “,.

Que homem! Ele próprio um personagem. De inicio, clarinetista na Orquestra Filarmônica Seis de Outubro, depois construtor de  cenários e encenador de peças  até que, de repente,  viu-se comerciante transportando sal, rapadura e cachaça nas barcaças do  São.Francisco. Em 1923, pensou enganar os muros da cidade, e foi para o Rio de Janeiro. Lá estudou latim, literatura e política e foi iniciado nas artes da alfaiataria. Mas não se foge ao fadário impresso nos muros da inevitabilidade e lá se foi nosso homem morar em S.Paulo, em Marília, onde logo haveria um ponto de encontro para os intelectuais e para os amantes da literatura: a alfaiataria Rex, onde o militante comunista fazia do Capital o remo que o levaria ao porto do socialismo. A ditadura, tão pródiga em espancar os remeiros que anseiam por uma terra melhor, prendeu-o, antes mesmo de saber-se ditadura, mas das grades ele podia ver a aurora cor de barro, barro que dava cor ao São Francisco…

Osório Alves de Castro, criador de personagens insólitos, foi ele mesmo um personagem, tão bravo e insueto quanto Pedro Voluntário-da-Pátria, que se preocupava  com o estio recorrente no  fim-de-era: “ Desde o Cariri até os cerrados da Bahia, entrando por Minas Gerias, não se vê uma folha verde”; tão raro  quanto Doquinha Peste-Bubônica, que ganhou o apelido por ter a língua venenosa como a peste; tão triste quanto  o remeiro Salu, que a zinga arrebentou os peitos e morreu botando sangue pela boca, incapaz de vencer a água do Quebra Botão. A zinga era vara que lutava contra a correnteza que de tão forte tinha a alcunha de Quebra Botão.

Porto Calendário é rio caudal formado por afluentes personagens e nem Macondo os teria gerado com tanta originalidade. Que dizer de Sussu Flores, uma Shahriyar do cerrado, que mandava matar os amantes após dormir com eles, com o consentimento complacente do Coronel Chico Fulo, seu marido; ou de Jove de Correntina com seus óculos comprados na Bahia, com os quais podia ver todas as mulheres nuas, em pelo, até que um dia os escangalhou nos olhos, ao mirar a própria mãe na procissão do Senhor Morto.

A pena do alfaiate que cerzia palavras  era mais destra que a tesoura e, em suas mãos,  até a Natureza, até o Tempo tornavam-se personagens. O Tamarindeiro, que servia de elo entre os que povoam as páginas de Porto Calendário, é protagonista, assim como o tempo, retratado no Século que assustava os viventes das cidades à beira do Rio. “Um tal século, que vem trazendo na mão esquerda a espada de Moreira César e na direita um punhado de sementes encharcadas de sangue ”.

Que escritor! Que livro! Porto Calendário, o romance da saga são-franciscana,  é uma barcaça que reúne os remeiros, os pescadores, as prostitutas, as cassandras, os coronéis e todo o povo do Vale e os faz navegar no rio da literatura, ao sabor de ondas dialetais, de correntezas de palavras, de desvios arcaicos, tudo isso tendo ao fundo a marca d”água do Rio S,.Francisco.

Acho que foi no inicio dos tempos que a Natureza resolveu criar uma planta capaz de prevenir-se da seca que as vezes assolava as terras do cerrado e das enchentes que inundavam as plantações,  carregando as sementes e o porvir. As folhas dessa planta da família das sensitivas fecham-se imediatamente quando são  tocada pelos homens, pelas águas ou pelos ventos. Engenhosa a Natureza e os homens, que lhe deram por nome Maria Fecha a Porta Prau o Boi Não te Pegar.  Mais engenhoso ainda Osório Alves de Castro que fez da planta título do seu segundo livro, um livro poesia,  cheio de Marias que se fecham quando tocadas. Elegia ao Velho Chico, o romance corre como o rio, caudal e forte:

“Veja, Maria!… É o nosso São Francisco. Vindo de longe, correndo do Sul para o Norte, é um abraço na imensidão, unindo as terras e as gentes do Brasil. “ Forma-se, então, o segundo elo da trilogia iniciada com Porto Calendário e que se encerrará com  Bahiano Tietê, romance da transformação, que mostra  a dor, o sofrimento e a adaptação  do povo ribeirinho, que agora habita as terras do café.  E mais uma vez o Rio São Francisco sela a integração nacional e faz do homem do cerrado um BaianoTiête. Muitos anos depois, uma outra leva migratória, inimaginável aos olhos do velho escritor barranqueiro,  far-se-á em torno do Rio São Francisco, uma nova integração nacional dessa vez no sentido inverso, com gaúchos e paranaenses cobiçando as terras do cerrado e  escrevendo nos muros dos seus sonhos de riqueza: ano que vem, caminho do São.Francisco me tem.

Osório Alves de Castro morreu em 1978 antes de ver Baiano Tietê publicado. O livro, que Gey Espinheira presenteou-me num tórrido março de 1991 e em cuja orelha rabiscou sua admiração por aquela prosa, traz um prólogo de Jehová de Carvalho que, indignado, brada contra o mutismo que tomou conta da imprensa nacional quando da morte do escritor: nem um obituário, uma resenha sequer, sequer uma retrospectiva sobre a obra do autor que encantou Guimarães Rosa.  Jehová fulminava, como uma cassandra que pressagiava o esquecimento de si mesmo: “ Osório Alves de Castro tinha um defeito grave: era escritor baiano e pobre”.

Que seja. Que os obituários não registrem sua morte, que as enciclopédias queiram negar-lhe existência, que a Internet não tenha chips capazes de abarcar sua obra. Não importa. A prosa de Osório Alves de Castro  é tronco milenar, é flor do cerrado,  é planta que se fecha para quem não sabe tocá-la,  é cedro que faz o oco das canoas,  é rio perene, ancho, barrento e alongado, e sobreviverá navegando na alma de quem ama a literatura e o Rio São Francisco. É prosa única que “ vem do Porto das Calendas onde tudo-tudo se dará “.

GLÁUCIA LEMOS TOMA POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA

Com 30 anos de carreira literária, comemorados com um livro de poesias, a romancista passa a fazer parte da Academia de Letras, ocupando a cadeira 14.

Neste ano, quando completou três décadas dedicadas à literatura, a escritora Gláucia Lemos fez algo que, mais frequentemente, acontece com jovens: publicou um livro de poemas, bancado por ela mesma, pelo prazer de comemorar esse tempo e distribuí-lo aos amigos.

As comemorações devem continuar: no próximo dia 21, às 20 horas, na Academia de Letras da Bahia, ela será empossada comoa mais nova acadêmica da instituição, fundada em 1917.

A eleição foi no dia 29 de julho e, ao contrário do que acontece na Academia Brasileira de Letras, os escritores não se candidatam, mas são escolhidos pelos demais. Ela vai ocupar a cadeira 14, que foi de Epaminondas Costalima e cujo patrono é o Barão e Visconde de São Lourenço.

Com 34 livros publicados, entre contos, romances e literatura infantil, os prêmios ao longo da carreira, como o Cidade do Salvador, da Academia de Letras da Bahia em 1985, por seu primeiro romance, O riso da raposa, já marcam sua aproximação com a academia.

Reconhecimento

“Tomo a eleição como um reconhecimento ao meu trabalho”, diz ela, garantindo que não pediu voto a ninguém. Sua bibliografia já é um dado considerável: só o juvenil As aventuras do marujo verde ( Ed.Atual, 1990) teve três edições no ano de lançamento e, em 2009, já eram 23 edições e mais de 200 mil exemplares vendidos no País.

Um deles, contudo, o primeiro, Era uma vez uma rosa que virou mulher (contos, 1979), ela garante que reescreveria. “Minha literatura hoje é outra, mais madura”, considera.

O mais importante, para Gláucia, é não ter parado de escrever durante esses anos e ter mantido “o mesmo empenho em fazer o melhor possível”.

Daí que reescreve sempre que julga necessário e não parte para publicar um livro sem antes deixar que ele descanse um pouco na gaveta. “Quinze dias já dá para esfriar”.

Quanto ao livro comemorativo de poesias, Trilha de Ausências, ela pensa que talvez seja o único da sua já extensa bibliografia.

Não conta o bem-sucedido de poesia infantil, O cão azul, adotado em escolas e que já está em sua quinta edição.

A justificativa convence pouco: “Sei que sou boa prosadora, mas não sei se sou boa poetisa”.

Por mais que a modernidade tenha insistido em que o próprio artista deve ser seu primeiro crítico, quantos autores já condenaram textos ao limbo, por julgamentos tão severos, e algumas vezes equivocados?

Muito avó Gláucia Lemos faz parte de uma geração que foi criada quando não havia televisão nem internet.

Por nada diz a idade, mas afirma, com humor: “Já sou muito avó”. E ler, na infância, além de ter-lhe dado imaginação privilegiada, era também um lazer, sendo muito incentivada na prática por familiares e na escola.

Aos 14, numa dessas mágicas que só ocorre numa biblioteca, lhe cai um livro de Dostoievski à mão e ela lê sem parar Os irmãos Karamazov. Queria escrever como ele. “Só tinha 14 anos, era uma boba”, lembra, embora nunca tenha duvidado do seu vínculo com a literatura: “A palavra é o meu destino”.

A acadêmica Yeda Pessoa de Castro revelou estar feliz de ter mais uma mulher na Academia de Letras da Bahia. Dos 40 atuais, apenas sete são mulheres.

“Seu trabalho é admirável e está se firmando cada vez mais na literatura”, opina.

E mesmo que a literatura tenha sido seu destino, olhando para trás, Gláucia avalia: “Sempre foi a literatura, mas nunca sacrifiquei minha família por isso.

Mas também sempre lutei muito para que meu lado literário não ficasse sufocado”.

Adolescente, mandava seus contos para concursos no Jornal da Bahia, até que emplacou três, consecutivos. E pediram-lhe, delicadamente, que desse a vez aos outros. O acadêmico Carlos Edmundo da Rocha, que fazia parte do suplemento, quis conhecê-la e disselhe que a encaminharia para uma editora. Dito e feito. E foi assim que surgiu o hoje abjurado Era uma vez uma rosa que virou mulher.

Formada em Direito, com pós-graduação em crítica de arte, nada disso exerceu fascínio na escritora, que preferiu escrever para jornal e até lembra certa vez que viu uma das páginas de sua coluna rolando numa calçada.

“Fiquei muito aborrecida, me senti insultada, como se tivessem me batido”, diz ela, que para a literatura ou o jornal tem o mesmo método: “Escrevo com muito amor. Todo trabalho que vou fazer é sagrado, faço com o meu coração”.

O imortal Aramis Ribeiro Costa, que destaca o romance Bichos de conchas, saúda a nova acadêmica: “Gláucia tem se destacado com edições nacionais e como a Academia é uma casa, sobretudo, de escritores, ela vem formar com o grupo com absoluta qualidade e muito mérito por tudo que fez”.

Viúva há 14 anos, foi casada com o advogado e também jornalista Altamirando Leal, com quem teve cinco filhos. A mais velha, morreu aos 12, e com toda a experiência que se pode ter quando já se é “muito avó”, o reconhecimento: “Tive que sofrer isso, não há dor maior”.

Ainda assim, aspectos da vida pessoal não costumam ser retratados na sua obra. “Minha vida não vai conscientemente para os livros. Mas creio que a memória inconscientemente toca em alguma coisa”

PRINCIPAIS LIVROS DE GLÁUCIA LEMOS

BICHOS DE CONCHAS (romance) – Ed.Scortecci, 2008 – Prêmio do concurso de literatura O Melhor Livro, da União Brasileira de Escritores de São Paulo AS AVENTURAS DO MARUJO VERDE (juvenil) – Ed. Atual, 1990 – 23ª edição em 2009 AS CHAMAS DA MEMÓRIA (romance) – Editora BDA, 1996 – Prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro em 1991 O CÃO AZUL (Poesia infantil) Editora Saraiva/Formato, 1999, 4ª edição O RISO DA RAPOSA (romance) Ed. Bibliex, 1989 – Prêmio Cidade do Salvador da Academia de Letras da Bahia, em 1985 ESTRELA, ESTRELA MINHA (juvenil) Ed. do Brasil, 1991 – Prêmio da Secretaria de Cultura do Maranhão 1989

Fonte: Jornal A Tarde
Reportagem: Marcos Dias

Aprendendo a ler

wfoWaldir Freitas Oliveira

Completei, há relativamente pouco tempo, oitenta anos. Aprendi a ler e escrever, em 1933, aos quatro anos; e se hoje sou capaz de entender o que outros escrevem, por esse mundo afora, em cinco línguas diferentes, isto devo aos que me ensinaram a reconhecer muito cedo a significação das letras e das palavras.

Foi em casa, cobrindo letras minúsculas e maiúsculas desenhadas a lápis, com cuidado, sobre um papel pautado, por minha madrinha de batismo e mãe de criação, que fui iniciado no mundo fascinante da escrita; e foi com a Cartilha Ensino Rápido da Leitura, do Prof.Mariano de Oliveira, que aprendi a reconhecer  minhas cinco primeiras palavras escritas  – asa, ema, ímã, ovo e uva; cada uma delas começando com uma das  vogais;  dali tendo partido para a leitura plena.

Lembro que nesta Cartilha, ao seu final, havia uma longa estória, na qual os principais personagens eram alguns pintinhos. Esforço-me para lembrar o que ela contava; mas mesmo vasculhando a memória, não consigo ir além das figuras meio azuladas dos pintinhos que a ilustravam.

A primeira edição dessa Cartilha circulou em São Paulo,  em 1917, publicada pela editora então denominada “Weiszlog Irmãos”, que veio depois a tornar-se a “Companhia Melhoramentos de São Paulo”; havendo sido  editada 2.230 vezes, durante 79 anos, até o ano de 1996, dela tendo sido vendidos mais de um milhão de exemplares, com uma tiragem média anual, até o ano de 1969, de mais de 100.000 exemplares; passando a decair, drasticamente, essa quantidade, por motivos que desconhecemos, a partir de 1970, tendo, afinal,  passado  a sua tiragem a alcançar somente 1.000 exemplares, em 1996, o   ano da sua última edição.

Quanto ao seu autor, era natural de Piracicaba, onde nasceu a 26 de maio de 1869, havendo se completado, portanto, no ano de 2009, 140 anos desde o seu nascimento. Esperávamos, então, que, ao menos os paulistas, se lembrassem de homenageá-lo nessa data. Tal, infelizmente, não aconteceu.

Um ano antes da edição do Ensino Rápido, em 1916, havia ele publicado, pela mesma editora, a Nova Cartilha analytico-synthetica, que continuou sendo publicada até 1955, quando alcançou sua l85.ª edição, sem que tivesse, no entanto, obtido a mesma aceitação da Cartilha Ensino Rápido, da qual foi considerada uma seqüência natural. Permitindo-nos, no entanto, o autor, saber, pela dedicatória que colocou na folha de rosto da Cartilha analytico-synthetica, o nome e a profissão de sua mãe – Corina Eugênia de Oliveira, professora.

Mariano de Oliveira diplomou-se em 1888, pela Escola Normal de São Paulo; exerceu, a seguir, a partir de data que não consegui apurar, o cargo de Inspetor Escolar, havendo redigido e publicado, em 1911, em parceria com Miguel Carneiro, J. Pinto e Silva e Theodoro de Morais, em edição de Siqueira, Nagel & Cia., a monografia Como ensinar leitura e linguagem nos diversos annos do curso preliminar; e em 1914, publicou, em parceria com Ramon Roca Dordal e Arnaldo de Oliveira Barreto o trabalho Instrucções praticas para o ensino da leitura pelo methodo analytico – Modelos de lições,  na Revista do Ensino, periódico que figurou, em sua primeira fase (1902-1910), como “Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público”, e passou a constituir-se, a partir de 1911, como órgão oficial da Diretoria da Instrução Pública do Estado de São Paulo, então  sob a direção de Oscar Thompson; havendo sido esse trabalho acrescentado, em linguagem adaptada, como anexo, a uma das edições subseqüentes  da Cartilha Analytica de autoria de Arnaldo de Oliveira Barreto, publicada, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, provavelmente em 1909, pela Livraria Francisco Alves.

Em 1916, portanto, como registramos, já publicara Mariano de Oliveira, pela Weiszflog Irmãos, sua Nova Cartilha analytico-synthetica e em 1917, sua famosa Cartilha Ensino Rápido da Leitura; mas dentre as publicações dessa editora, que já então se transformara em “Companhia Melhoramentos de São Paulo”, figura, como informa  registro acrescentado ao final do livro Leitura III, de Erasmo Braga, em sua edição de 1934, ao lado do anúncio desses dois livros, o de um outro, também  de autoria de Mariano de Oliveira – Páginas Infantis, ali  anunciado como – “uma série de lições muito bem graduadas e coordenadas que facilitam sobremaneira o desenvolvimento da leitura corrente e encerra eficazmente os primeiros passos da infância na leitura”. Não conseguimos, contudo, obter um seu exemplar nem identificar o ano de sua publicação.

Em maio de 1917, foi Mariano de Oliveira nomeado Diretor da Escola Normal de São Carlos, em cuja direção permaneceu até abril de 1922, quando requereu sua aposentadoria; sem termos, contudo, encontrado referências que nos permitissem identificar a data do seu falecimento.

As suas duas cartilhas podem ser consideradas como as de maior notoriedade no país, na primeira metade do século passado; ainda que disputando a primazia, com a Cartilha Analytica, de Arnaldo de Oliveira Barreto, que teria sido o seu maior concorrente como autor, neste campo de atividade; acreditando, no entanto, terem sido as cartilhas de Mariano de Oliveira, os principais instrumentos de aprendizagem da leitura, por gerações contínuas  da classe média urbana em vários estados do Brasil.

Faz-nos falta, na Bahia, terra notabilizada pela presença e atuação de professores primários renomados, atuando, principalmente em sua capital, um centro de documentação semelhante ao “Centro de Referência em Educação Mário Covas” existente em São Paulo, donde recolhemos, via Internet, as informações aqui prestadas sobre o autor e as edições da Cartilha Ensino Rápido. Aqui na Bahia são esses nossos professores lembrados apenas por haverem sido os nomes de alguns deles dados, por iniciativa de algum vereador ou prefeito de Salvador, a certas ruas da cidade ou a alguma escola pública localizada em bairros periféricos da capital baiana.  Não sabemos, então, se chegou a ser publicada na Bahia, em começos do século XX, alguma cartilha de autoria de professor baiano ou  radicado na capital baiana,  destinada ao ensino da leitura, principalmente se levarmos em conta a presença ativa,  na Bahia dessa época, da Livraria Catilina, com edições que então alcançavam mercados de  outros estados brasileiros. É tempo, ainda, porém, de resgatar a memória de tantos que se empenharam para permitir a milhares de jovens baianos, o ingresso no mundo fantástico das letras; com a pretensão de  reconstituir-se a história do ensino primário, tanto o público como o particular,  na Bahia; devendo lembrar-nos que neste setor, salientaram-se, no século XIX, Abílio César Borges, o barão de Macaúbas e o extraordinário João Estanislau da Silva Lisboa, o fabuloso protagonista do episódio dramático da “bala de ouro”; seguidos, no século seguinte, por um grande número de outros nomes que se destacaram na capital baiana, na área do magistério.  Após um longo tempo, equivalente a um curso de quase 80 anos, expresso a minha gratidão ao Prof. Mariano de Oliveira e presto-lhe a homenagem que lhe era devida, mas não lhe foi dada, na data em que se completaram  140 anos do seu nascimento.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BERNARDES, Vanessa Cuba. “Um estudo sobre Cartilha Analytica (190?) de Arnaldo de Oliveira Barreto”. Download disponível in vanessa_cubabernardes@yahoo.com.br ( Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia).- Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília.  Universidade Estadual Paulista, Marília, SP)

BUFFA, Ester e NOSELLA, Paolo. Schola Mater – a antiga Escola Normal de São Carlos. EdUFSCar: São Carlos, SP, 2002.

CALMON, Pedro. A Bala de ouro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1947.

NOSELLA, Paolo e BUFFA, Ester. Opus cit..

SOBRAL, Patrícia de Oliveira. “Um estudo sobre Cartilha Analytico-Synthetica (1916), de Mariano de Oliveira”. Download disponível in posobral@yahoo.com.br. (Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia – Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília. Universidade Estadual Paulista. Marília, SP).

A poesia como expressão do cotidiano

mfMyriam Fraga

A poesia está em tudo,
tanto nos amores, como nos chinelos.

Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada

O avesso da retórica

Paris, fins do século XVIII. Madame Guilhotina corta cabeças coroadas. Na praça lavada de sangue, as terríveis megeras param de tricotar e, enfiando os novelos de lã nas bolsas ensebadas, retiram-se em silêncio. O mundo se estilhaça varrido pelos ventos que sopram da Bastilha.

Enquanto isso, nas eternas e verdejantes encostas do monte Parnaso, ao abrigo das paixões humanas, a Musa sente a pele fina arrepiar-se num pressentimento. Deixando a lira e o arco, inclina-se pensativa sobre os bordos de uma fonte onde a estátua de um menino molha a ponta de suas setas e contempla por instantes a própria radiante formosura: um rosto grave e gentil e a ondulada cabeleira coroada de mirtos e de rosas. Tudo parece tão sereno. Mas uma súbita aragem sopra por entre as folhas, encrespando de leve a superfície das águas. Nada mais poderia ser igual ao que era antes… Três palavras mágicas, — liberdade, igualdade, fraternidade —, um barrete vermelho, e eis o mundo virado pelo avesso.

Século XIX: novas idéias, progresso material, ascensão da burguesia, inquietação, pluralismo. A Revolução Francesa não foi apenas um acontecimento circunscrito aos limites dos seus próprios horizontes, foi um marco decisivo na história da humanidade. As transformações que se operaram a partir deste movimento tiveram o poder de reformular conceitos e teorias, ensejando novas maneiras de ver-se o mundo e, conseqüentemente, novos procedimentos nas artes e na literatura.

Se, do ponto de vista político, o século XIX, para o mundo ocidental, caracterizou-se por uma ruptura em relação aos modelos do passado, no campo literário também foi palco de uma mudança consideravelmente assinalável.

Foi em meados do século XIX que algumas correntes de pensamento começaram a contestar o belo como atributo primordial da obra de arte e a poesia como o veículo sublime de sentimentos elevados.

Se Victor Hugo já ameaçara colocar um barrete vermelho no dicionário, foi com Charles Baudelaire, profundamente influenciado por Edgar Alan Poe, que a poesia toma consciência de que, do outro lado do espelho, Apolo e Calibã teriam a mesma face.

“Beleza! monstro horrendo”, exclama o poeta das Flores do mal em seu “Hino à beleza”.[1] Mais além, extasia-se com o putrefato esplendor de uma carniça e entoa versos à dissolução da carne e aos vermes que a devoram, escandalizando o público pela escolha de temas e palavras considerados, até então, indignos de figurar nas estrofes de um poema.[2]

De Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, podemos afirmar que prepararam o caminho das vanguardas literárias cujo aparecimento fez-se sentir a partir da segunda metade do século XIX, multiplicando-se em –ismos e tendências que se espraiaram no estuário farto dos experimentalismos que marcaram o início do século XX, cujos reflexos podem ser vistos nas literaturas de Portugal e do Brasil.

Aqui não nos propomos fazer história e muito menos história literária. O tema escolhido não deixa margem a outras intenções: poesia como expressão do cotidiano, poesia como tradução de uma experiência fundada no real, testemunho inequívoco da militância no dia-a-dia.

Se acrescentamos, como preâmbulo, este recorte no tempo, este esboço tão rápido e impreciso como uma paisagem vista do alto de um aeroplano, foi para assinalar que, a partir do século XIX, algo mudou no modus vivendi/operandi dos poetas. Até o advento do Romantismo, a poesia esteve sempre a serviço de alguma causa. A partir de então, instaura-se o descompromisso com tudo que não seja a própria poesia. O poema deixa de ser objeto, para assumir a posição de sujeito, a refletir sobre si mesmo, Narciso sem pudor.

Nesse momento, os poetas adquirem consciência de que o poema não deve servir apenas de veículo ao sublime, mas também pode expressar as coisas simples da vida, instaurando a poética do cotidiano na prática de uma linguagem que não busca o enobrecimento artificial do tema, mas procura conservar o frescor e o brilho da simplicidade. Na estrofe final de sua “Art poétique”, poema datado de 1874, mas publicado dez anos depois, Paul Verlaine já define esta procura:

 

Seja teu verso a boa aventura

Solta ao vento vivaz da manhã

Que recende a erva-doce e hortelã…

E tudo mais é literatura.[3]

A poesia de chinelos

Esparsa “ao vento vivaz da manhã”, “a poesia está em tudo ¾ tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas”, afirma Manuel Bandeira, no Itinerário de Pasárgada.[4] A poesia está no “jardim da pensãozinha burguesa” com “gatos espapaçados ao sol”[5] ou, como afirma Carlos Drummond de Andrade, [n]aquele girassol no jardim público de Palmira”.[6] A poesia está na descrição da vida burguesa familiar com

Três meninos e duas meninas,

sendo uma ainda de colo.

A cozinheira preta, a copeira mulata,

o papagaio, o gato, o cachorro,

as galinhas gordas no palmo de horta

e a mulher que trata de tudo.[7]

Mesmo no século passado, Mallarmé não hesita em deixar o som de suas “flautas raras” para compor a quadra “O Vendedor de alho e cebola”:

A insipidez da visita

Com alho posso depô-la

A elegia ao choro hesita

Pouco se eu corto a cebola.[8]

A cebola, esse prosaico objeto, também serve de inspiração a Pablo Neruda, que, numa ode,[9] consegue sintetizar a beleza transparente e luminosa do bulbo:

Tudo que existe celebrei, cebola;

mas para mim és

mais formosa que uma ave

de penas cegadoras, és para os meus olhos

globo celeste, taça de platina, dança imóvel

de anêmona nevada

e vive a fragrância da terra

na tua natureza cristalina.

Pablo Neruda tinha o dom de transformar em poesia os objetos que o cercavam:

 

Prodigiosa

tesoura

(parecida

com os pássaros

e os peixes),

polida és como as armaduras

da cavalaria.[10]

Em “Ode à tesoura” vemos, quase por artes mágicas, o objeto prosaico transmudar-se em assunto para a mais alta poesia ¾ a lírica lembrança da “Tesoura / cheirosa / na mão / da tia / costureira”,[11] companheira doméstica cumprindo seus usos; imagem épica, a tesoura, cortando bandeiras; a simbólica intersecção a separar o filho de sua mãe, no corte umbilical. Para Neruda,“tudo foi pano / para a tesoura”.[12] Tudo será objeto para a poesia.

Tudo, até mesmo um simples comprimido. Em “Num monumento à aspirina”,[13] poema recortado à maneira de duas estrofes de doze versos, João Cabral de Melo Neto inventa sua ode a esse “cristal / polido a esmeril e repolido a lima”, panacéia diária e universal, milagre a curar as dores do corpo, como a poesia tenta curar as dores da alma:

Claramente: o mais prático dos sóis,

o sol de um comprimido de aspirina:

de emprego fácil, portátil e barato,

compacto de sol na lápide sucinta.

Principalmente porque, sol artificial,

que nada limita a funcionar de dia,

que a noite não expulsa, cada noite,

sol imune às leis da meteorologia,

a toda hora em que se necessita dele

levanta e vem (sempre num claro dia):

acende, para secar a aniagem da alma,

quará-la, em linhos de um meio-dia.

  

A poesia como missão

O poeta, no século XX, assiste ao eclodir de todos os acontecimentos. Já não há tantos mistérios entre os céus e a terra, e a nossa vã filosofia mal consegue acompanhar a vertigem das mudanças que se sucedem. No processo de individuação o homem é um animal que se reconhece no espelho. O poeta no espelho não vê a própria face, mas a face do mundo. Resistindo à tentação de cantar o próprio ego, busca exprimir as angústias do seu tempo e o difuso semblante da entidade a quem genérica e vagamente chama “o povo”.

No poema “A flor e a náusea”, diz o poeta Drummond: “Preso à minha classe e a algumas roupas, / vou de branco pela rua cinzenta”. Dividido entre o ser e o mundo, pergunta-se estupefato: “Devo seguir até o enjôo? / Posso, sem armas, revoltar-me?”.[14] E, recusando a torre de marfim, reafirma-se solidário:

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

[…]

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.[15]

Se o poema não é um “campo de flores”,[16] é desnecessário rimar “a palavra sono / com a incorrespondente palavra outono”.[17]

Assim, o poeta (des)monta a própria emoção/razão de criar, como Affonso Romano de Sant’Anna em “O poeta se confessa enfastiado de sua profissão”, onde repete até à exaustão a prática da metalinguagem, o poema a explicar o próprio poema:

Por profissão, cansaço e nojo

quebro os diques, ainda que deles guardião,

deserto meus oásis por muito usá-los

como operário que se explode com a mina.[18]

Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto são mestres absolutos nestas composições que refletem sobre si mesmas, que, como a aranha, tecem o que vomitam, fabricando suas teias e capturando o leitor com o fascínio destes jogos onde se encaixam as palavras como mosaicos transparentes. Como exemplos, citaríamos os poemas “Nudez” e “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Catar feijão”, de João Cabral de Melo Neto.

Em “Nudez”,[19] o poeta deseja-se apenas receptáculo, lira tangida pelo vento. Como a vidraça, atravessada pela luz, o poeta é transpassado pelos acontecimentos. “Procura da poesia”[20] é, com certeza, um dos mais célebres poemas da literatura brasileira, verdadeira arte poética, exemplar lição de poesia, valendo por toda uma teoria literária.

No entanto, a verdadeira poética do cotidiano, delineia-se nos versos de “Catar feijão”,[21] onde a simplicidade da doméstica tarefa define o ato de escolher as palavras, pesá-las e ordená-las, frente às funções primordiais do poema: expressão correta, equilíbrio, comunicação. Pedra angular de uma atitude diante da poesia, esta composição define o limite preciso de um artesanato que aspira à exatidão, ao fio seco das navalhas, aos descampados batidos pelos ventos, uma faca só lâmina,[22] aparando toda gordura, reduzindo o verso ao esqueleto essencial, lavado e seco como as ossadas das caatingas sertanejas.

 

A cidade como expressão do real

Na obra de todo poeta está presente uma cidade. Real ou imaginada. Reminiscência ou projeção de um desejo de fuga. Cidade como regaço de mãe, como seio de amante. Cidades onde se morre e se vive. Onde se ama e perdoa. Cidades como matéria de recriação estética ou apenas cenário. Jerusalém ou Babilônia.

No caso presente, o que nos interessa é a recriação poética da cidade a partir de elementos do cotidiano. Escolhemos três poetas, afastados cronológica e espacialmente, que nos parecem exprimir em seus poemas uma relação que, embora diversa no sentimento, guarda uma proximidade no que tange à percepção da cidade como espaço real, palmilhado diuturnamente e intensamente vivenciado: Cesário Verde, Manuel Bandeira e Mário de Andrade. O primeiro, português, vivendo em Lisboa em fins do século passado. Os outros dois, brasileiros, protagonistas da grande aventura literária de 22.

A relação de Cesário Verde com Lisboa é uma relação penosa. A cidade o incomoda:

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Nada escapa ao poeta em sua visão da cidade: os edifícios, a multidão, as ruas, praças, igrejas… Um cenário depressivo onde o poeta sente-se encurralado. Com aguda e ferina sensibilidade ele anota cada detalhe, cada atitude de transeunte, cada nódoa na fachada. O poema “O sentimento de um ocidental”[23] é a síntese desta vivência citadina, ponto alto da obra do poeta. Grande painel cinematográfico onde as figuras movem-se contra um fundo acinzentado, “Num trem de praça arengam dois dentistas” e, ao mesmo tempo, “Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros”. Enquanto isso, numa intersecção de planos, passam costureiras, floristas, burguesinhas, varinas. Cesário Verde é um desterrado, a percorrer sempre, neuroticamente, os mesmos atalhos de uma cidade que o atrai e repele com o mesmo fascínio das “impuras”, das “imorais” que, “nos seus roupões ligeiros, / Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas”. Nesta cidade turva, fantástica como uma visão de febre, num arrojo de audácia criativa, o poeta ousa uma imagem insólita, quase inacreditável para os padrões estéticos da época: “E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes / Amareladamente, os cães parecem lobos”.

Bem diversa é a relação de Mário de Andrade com a sua cidade bem amada: “São Paulo! comoção de minha vida… / Galicismo a berrar nos desertos da América!”.[24] E ainda: “Minha Londres das neblinas finas!”[25]

Toda a obra poética deste autor é permeada por essa explosão dionisíaca, desejo pânico de possuir a cidade, roçar seus edifícios, cantar “o arranha-céu cor de rosa / Mexendo asas azuis dentro da tarde”.[26]

Como num sonho, ele vê a cidade a girar com a velocidade de um caleidoscópio:

Os caminhões rodando, as carroças rodando,

rápidas as ruas se desenrolando,

rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos…

E o largo coro de ouro dos sacos de café!…[27]

Sempre pronto a encordoar sua lira paulistana em cantigas de bem-querer:

Minha viola quebrada,

Raiva, anseios, lutas, vida.

Miséria, tudo passou-se

Em São Paulo.[28]

Embora afirme que “Deus recortou a alma da Paulicéia / num cor de cinzas sem odor…”,[29] sua visão é sempre uma visão luminosa. Sol brilhante entre a garoa. Cidade “mulher feita de asfalto e de lamas de várzea, / toda insultos nos olhos, / toda convites nessa boca louca de rubores!”.[30]

Desmesurada, desmedida paixão que se projeta além da vida:

Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.[31]

A Recife de Manuel Bandeira tem gosto de chá com madeleine. Restaurada pela imaginação do poeta, a cidade de sua infância vive “suspensa no ar”, por um artifício da memória: [32]

Recife

Não a Veneza americana

Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais

Não o Recife dos Mascates

Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —

Recife das revoluções libertárias

Mas o Recife sem história nem literatura

Recife sem mais nada

Recife da minha infância.

Doce Recife pequeno-burguesa, de cadeiras nas calçadas, vendedores de roletes de cana e de amendoim, sem livros nem jornais, só as notícias chegando pela boca do povo: as cheias dos rios, os incêndios da mata. A sensação dos primeiros namoros…

Em “Evocação do Recife”, pode-se fazer uma lista de imagens/signos que remetem ao cotidiano da infância: o chicote-queimado, as vidraças quebradas, o pincenê, as brincadeiras de roda, o nome das ruas, os banheiros de palha onde um dia o Poeta viu “uma moça nuinha no banho” e teve o “primeiro alumbramento”. A enchente, o boi morto, as cavalhadas, a preta das bananas, ovos frescos e baratos. E a vida, com a força das coisas simples que pareciam eternas.

A nódoa no brim

No livro Libertinagem, Manuel Bandeira explode a comportada arquitetura de seus poemas anteriores:

Estou farto do lirismo comedido

do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

               [protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

               [o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas[33]

Já no século passado, em sua “Arte poética”, o poeta Paul Verlaine exclamava imperativo: “Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!”.[34]

Desde então, porta aberta a todos os desvarios, a poesia tornou-se libertação, fragmentação, non sense, piada. Todos os caminhos estavam abertos. Tudo era permitido ao poeta nos limites da página em branco. A Poesia descabelava-se, descia aos infernos do inconsciente, virava panfleto, comício, fazia e desfazia.

Deste mosaico ainda por mapear, extraímos mais uma pedra que traz a marca de uma tendência ¾ a do poema sujo. E aqui nos socorremos novamente de Bandeira, citando “Nova poética”,[35] título do poema de 1949 em que ele lança a possibilidade de o poema incorporar não apenas elementos insólitos do cotidiano, mas também o lixo, o que deve ficar oculto, a poeira empurrada para baixo do tapete:

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito.

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem

            [engomada, e na primeira esquina passa um caminhão,

            [salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.

 

O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

O gosto, ou necessidade, do poeta em cantar o sórdido já encontrávamos em Pablo Neruda em um fragmento intitulado “Sobre a poesia sem pureza” (1935):

Uma poesia impura como um traje, como um corpo, com manchas de nutrição, e atitudes vergonhosas, com pregas, observações, sonhos, vigília, profecias, declarações de amor e de ódio, bestas, sacudidas, idílios, credos políticos, negações, dúvidas, afirmações, impostos.[36]

O poeta de Memorial de Ilha Negra deseja o produto poesia com marcas de dentes e pêlo, roído talvez pelo suor e pelo uso.

As últimas conseqüências desta poética vão desaguar na poesia dita marginal, nos anos 70, particularmente no movimento pornô. Uma poesia do cotidiano que, às vezes, ao privilegiar o cotidiano, esquece a poesia.

Como lição maior da “nódoa no brim” ficou-nos o “Poema sujo” de Ferreira Gullar: […] Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do jantar […].[37]

 

O espaço feminino

Aqui vou amarrar meu cavalo em pasto limitado. Falar sobre mulher às vezes pode ser muito perigoso, porque todo o conceito de feminino ainda está em discussão. Tudo que se falar sobre mulher tem que ser bem medido e pesado. Assim, vou com infinita cautela. Neste vôo de pássaro-rápido, talvez distante, arrebatado, não pude perceber senão o que mais evidente se impunha. Convém não esquecer que aqui me apresento com algumas intuições e a prática insuficiente de um aprendiz de poeta que se quer também leitor apaixonado.

Não estou bem certa do que afirmo agora, por me faltarem elementos que se fazem necessários para uma afirmação definitiva, mas me parece que raramente as mulheres mostraram-se dispostas a expressar em poesia o seu cotidiano. Talvez porque este cotidiano se configurasse em espaço de confinamento, mais de perdas que de realizações.

Considerada por muito tempo um cidadão de segunda classe, à mulher restava o sonho, o devaneio e a fuga de uma realidade onde se sentia prisioneira ou rejeitada. O espaço de sua liberdade era o pensamento e a imaginação. Daí buscar na poesia a transcendência que lhe era negada.

Duas vozes na literatura brasileira deste século desmentem esta possível afirmação — Adélia Prado e Cora Coralina —, expressando em sua criação poética a marca do dia-a-dia, o sabor de uma existência vivida nos limites da simplicidade.

Interessante notar que o aparecimento dessas duas poetisas na cena literária foi acompanhado de certo frisson. Aparentemente, por surgirem de súbito, com uma obra pronta, habitarem cidades do interior, e não freqüentarem as rodas literárias. Cora Coralina acrescentando a isso a idade avançada. Mas, embora não explicitamente, havia uma novidade a mais: eram mulheres que escreviam sobre as realidades do seu cotidiano, um tema que a maioria das mulheres, sem dúvida, parecia, ou queria esquecer. Cora Coralina de maneira mais direta, menos literária, depoimento de mulher que reconhece: “Tudo em mim foi espontâneo, natural e meu. Só tive na vida uma escola primária de uma antiga mestra que já tinha sido mestra de minha mãe, mestra Silvina”.[38] Sua poesia corre leve, sem artifícios, a inspiração pousando como pássaro sobre imagens perdidas no passado e sobre a realidade das pessoas humildes:

Essa mulher

tem quarentanos de lavadeira.

Doze filhos

crescidos e crescendo.

Viúva naturalmente.

Tranqüila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu.

Enrodilhada no seu mundo pobre.[39]

Já o cotidiano de Adélia Prado tem simplicidades muito especiais. Adélia é feiticeira, maga, transformadora. Ah! Os bules azuis, os peixes no tempero! A sua poesia é como ela mesma que se quer “mulher do povo, mãe de filhos, Adélia”, mas é “requintada e esquisita como uma dama”.[40]

Adélia possui uma varinha mágica: transforma abóboras em carruagens e o marido nosso-de-todo-dia num eterno príncipe encantado. Adélia possui também a ironia, a graça de ver as coisas onde os outros enxergam apenas o vazio. Sua poesia é o prazer da descoberta das coisas menos escondidas. A gente passa todo dia e nem vê. Adélia esconde a poesia sob panos de prato e, quando alguém se aproxima, diz matreira: está quente!

Compreendendo que a poesia não é prato para todas as fomes, Adélia, com a mais fina ironia, se permite brincar com o que de mais sério existe em sua/nossa vida: a prática do poema, esta lavoura secreta, escavar das próprias entranhas, isto que chamam talvez literatura.

O mais são as mal-traçadas linhas.[41]


[1] “O Beauté! Monstre énorme.” BAUDELAIRE, Charles. Hymne à la beauté apud ALMEIDA, Guilherme de. Hino à beleza. Flores das Flores do mal de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1944. p.30-33. Edição bilíngüe.

[2] Cf. BAUDELAIRE, Charles. Une charogne apud ALMEIDA, op. cit., p.44-49.

[3] “Que ton vers soit la bonne aventure / Éparse au vent crispé du matin / Qui va fleurant la menthe et le thim… / Et tout le reste est littérature.” VERLAINE, Paul. Art poétique apud VEIGA, Cláudio (Org.). Antologia da poesia francesa: do século IX ao século XX. 2. ed. ampl. Rio de Janeiro; Record; Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 1999. p.242-245. Edição bilíngüe. Tradução de Cláudio Veiga.

[4] BANDEIRA, Itinerário de Pasárgada. In: ______. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p.34.

[5] BANDEIRA, Manuel. Pensão familiar. Ibid., p.204-205.

[6] ANDRADE, Carlos Drummond de. Girassol. In: ______. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p.91.

[7] ANDRADE, Carlos Drummond de. Família. Ibid., p.69.

[8] “L’ennui d’aller en visite / Avec l’ail nous l’éloignons. / L’élegie au pleur hésite / Peu si je fends des oignons.” MALLARMÉ, Stéphane. Le marchand d’ail et d’oignons. In: ______. Poésies. Paris: Nouvelle Revue Française, 1913. A tradução é de Augusto de Campos.

[9] “Yo cuanto existe celebré, cebolla, / pero para mí eres / más hermosa que un ave / de plumas cegadoras, / eres para mis ojos / globo celeste, copa de platino, / baile inmóvil / de anémona nevada / y vive la fragancia de la tierra / en tu naturaleza cristalina.” NERUDA, Pablo. Oda a la cebolla. In: ______. Antologia poética. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p.171-174. Edição bilíngüe. Tradução de Eliane Zagury.

[10] “Prodigiosas / tijeras / (parecidas / a pájaros, / a peces), / bruñidas sois como las armaduras / de la caballería.” NERUDA, Pablo. Oda a las tijeras. Ibid., p.205.

[11] “Tijeras / olorosas / a / mano / de la tía / costurera.” In: NERUDA, loc. cit.

[12] “todo fué paño / para las tijeras.” In: NERUDA, op. cit., p.207.

[13] MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ______. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.360-361.

[14] ANDRADE, Carlos Drummond de. A flor e a náusea. In: ANDRADE, C. D., op. cit., p.140.

[15] ANDRADE, Carlos Drummond de. Mãos dadas. Ibid., p.111.

[16] Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Campo de flores. Ibid., p.250-251.

[17] ANDRADE, Carlos Drummond de. Consideração do poema. Ibid., p.137.

[18] SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia Reunida: 1965-1999. Porto Alegre: L&PM, 2004, p.159.

[19] Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Nudez. In: ANDRADE, C. D., op. cit., p.295-296.

[20] Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Procura da poesia. Ibid., p.138-139.

[21] Cf. MELO NETO, João Cabral. Catar feijão. In: MELO NETO, op. cit., p.346-347.

[22] Cf. MELO NETO, João Cabral. Uma faca só lâmina. Ibid., p.203-215.

[23] VERDE, Cesário. O sentimento de um ocidental. In: ______. Obra completa de Cesário Verde. Lisboa: Portugália, 1964.

[24] ANDRADE, Mário de. Inspiração. In:______. Poesias completas. São Paulo: Martins Fontes, 1966. p.32 (Obras completas de Mário de Andrade, II).

[25] ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 1. Ibid., p.37.

[26] ANDRADE, Mário de. Poemas da amiga. Ibid., p.208.

[27] ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 4. Ibid., p.51.

[28] ANDRADE, Mário de. Minha viola bonita. Ibid., p.281.

[29] ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 2. Ibid., p.46.

[30] ANDRADE, Mário de. Tu. Ibid., p.47.

[31] ANDRADE, Mário de. Quando eu morrer. Ibid., p.300.

[32] BANDEIRA, Manuel. Evocação do Recife. In: BANDEIRA, op. cit., p.212-214.

[33] BANDEIRA, Manuel. Poética. Ibid., p.207.

[34] “Prens l’éloquence et tords-lui son cou!” VERLAINE, Paul. Art poétique apud VEIGA, op. cit., p.245.

[35] BANDEIRA, Manuel. Nova poética. In: BANDEIRA, op. cit., p.287.

[36] “Una poesía impura como un traje, como un cuerpo, con manchas de nutrición, y actitudes vergonzosas, con arrugas, observaciones, sueños, vigilia, profecías, declaraciones de amor y de odio, bestias, sacudidas, idilios, creencias políticas, negaciones, dudas, afirmaciones, impuestos.” NERUDA, Pablo. Sobre una poesía sin pureza. In: NERUDA, op. cit., p.90.

[37] GULLAR, Ferreira. Poema sujo. In: ______. Toda poesia (1950-1980). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p.295-389.

[38] CORALINA, Cora. Cora Coralina: depoimento e antologia. Revista Goiana de Artes, UFG, v.2, n.2, jul./dez. 1981. p.139-177.

[39] CORALINA, Cora. A lavadeira. In: ______. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1965.

[40] PRADO, Adélia. Grande desejo. In: ______. Bagagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. p.20 (Col. Poiesis).

[41] PRADO, Adélia. O que a musa eterna canta. Ibid., p.48.