Aprendendo a ler

wfoWaldir Freitas Oliveira

Completei, há relativamente pouco tempo, oitenta anos. Aprendi a ler e escrever, em 1933, aos quatro anos; e se hoje sou capaz de entender o que outros escrevem, por esse mundo afora, em cinco línguas diferentes, isto devo aos que me ensinaram a reconhecer muito cedo a significação das letras e das palavras.

Foi em casa, cobrindo letras minúsculas e maiúsculas desenhadas a lápis, com cuidado, sobre um papel pautado, por minha madrinha de batismo e mãe de criação, que fui iniciado no mundo fascinante da escrita; e foi com a Cartilha Ensino Rápido da Leitura, do Prof.Mariano de Oliveira, que aprendi a reconhecer  minhas cinco primeiras palavras escritas  – asa, ema, ímã, ovo e uva; cada uma delas começando com uma das  vogais;  dali tendo partido para a leitura plena.

Lembro que nesta Cartilha, ao seu final, havia uma longa estória, na qual os principais personagens eram alguns pintinhos. Esforço-me para lembrar o que ela contava; mas mesmo vasculhando a memória, não consigo ir além das figuras meio azuladas dos pintinhos que a ilustravam.

A primeira edição dessa Cartilha circulou em São Paulo,  em 1917, publicada pela editora então denominada “Weiszlog Irmãos”, que veio depois a tornar-se a “Companhia Melhoramentos de São Paulo”; havendo sido  editada 2.230 vezes, durante 79 anos, até o ano de 1996, dela tendo sido vendidos mais de um milhão de exemplares, com uma tiragem média anual, até o ano de 1969, de mais de 100.000 exemplares; passando a decair, drasticamente, essa quantidade, por motivos que desconhecemos, a partir de 1970, tendo, afinal,  passado  a sua tiragem a alcançar somente 1.000 exemplares, em 1996, o   ano da sua última edição.

Quanto ao seu autor, era natural de Piracicaba, onde nasceu a 26 de maio de 1869, havendo se completado, portanto, no ano de 2009, 140 anos desde o seu nascimento. Esperávamos, então, que, ao menos os paulistas, se lembrassem de homenageá-lo nessa data. Tal, infelizmente, não aconteceu.

Um ano antes da edição do Ensino Rápido, em 1916, havia ele publicado, pela mesma editora, a Nova Cartilha analytico-synthetica, que continuou sendo publicada até 1955, quando alcançou sua l85.ª edição, sem que tivesse, no entanto, obtido a mesma aceitação da Cartilha Ensino Rápido, da qual foi considerada uma seqüência natural. Permitindo-nos, no entanto, o autor, saber, pela dedicatória que colocou na folha de rosto da Cartilha analytico-synthetica, o nome e a profissão de sua mãe – Corina Eugênia de Oliveira, professora.

Mariano de Oliveira diplomou-se em 1888, pela Escola Normal de São Paulo; exerceu, a seguir, a partir de data que não consegui apurar, o cargo de Inspetor Escolar, havendo redigido e publicado, em 1911, em parceria com Miguel Carneiro, J. Pinto e Silva e Theodoro de Morais, em edição de Siqueira, Nagel & Cia., a monografia Como ensinar leitura e linguagem nos diversos annos do curso preliminar; e em 1914, publicou, em parceria com Ramon Roca Dordal e Arnaldo de Oliveira Barreto o trabalho Instrucções praticas para o ensino da leitura pelo methodo analytico – Modelos de lições,  na Revista do Ensino, periódico que figurou, em sua primeira fase (1902-1910), como “Órgão da Associação Beneficente do Professorado Público”, e passou a constituir-se, a partir de 1911, como órgão oficial da Diretoria da Instrução Pública do Estado de São Paulo, então  sob a direção de Oscar Thompson; havendo sido esse trabalho acrescentado, em linguagem adaptada, como anexo, a uma das edições subseqüentes  da Cartilha Analytica de autoria de Arnaldo de Oliveira Barreto, publicada, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, provavelmente em 1909, pela Livraria Francisco Alves.

Em 1916, portanto, como registramos, já publicara Mariano de Oliveira, pela Weiszflog Irmãos, sua Nova Cartilha analytico-synthetica e em 1917, sua famosa Cartilha Ensino Rápido da Leitura; mas dentre as publicações dessa editora, que já então se transformara em “Companhia Melhoramentos de São Paulo”, figura, como informa  registro acrescentado ao final do livro Leitura III, de Erasmo Braga, em sua edição de 1934, ao lado do anúncio desses dois livros, o de um outro, também  de autoria de Mariano de Oliveira – Páginas Infantis, ali  anunciado como – “uma série de lições muito bem graduadas e coordenadas que facilitam sobremaneira o desenvolvimento da leitura corrente e encerra eficazmente os primeiros passos da infância na leitura”. Não conseguimos, contudo, obter um seu exemplar nem identificar o ano de sua publicação.

Em maio de 1917, foi Mariano de Oliveira nomeado Diretor da Escola Normal de São Carlos, em cuja direção permaneceu até abril de 1922, quando requereu sua aposentadoria; sem termos, contudo, encontrado referências que nos permitissem identificar a data do seu falecimento.

As suas duas cartilhas podem ser consideradas como as de maior notoriedade no país, na primeira metade do século passado; ainda que disputando a primazia, com a Cartilha Analytica, de Arnaldo de Oliveira Barreto, que teria sido o seu maior concorrente como autor, neste campo de atividade; acreditando, no entanto, terem sido as cartilhas de Mariano de Oliveira, os principais instrumentos de aprendizagem da leitura, por gerações contínuas  da classe média urbana em vários estados do Brasil.

Faz-nos falta, na Bahia, terra notabilizada pela presença e atuação de professores primários renomados, atuando, principalmente em sua capital, um centro de documentação semelhante ao “Centro de Referência em Educação Mário Covas” existente em São Paulo, donde recolhemos, via Internet, as informações aqui prestadas sobre o autor e as edições da Cartilha Ensino Rápido. Aqui na Bahia são esses nossos professores lembrados apenas por haverem sido os nomes de alguns deles dados, por iniciativa de algum vereador ou prefeito de Salvador, a certas ruas da cidade ou a alguma escola pública localizada em bairros periféricos da capital baiana.  Não sabemos, então, se chegou a ser publicada na Bahia, em começos do século XX, alguma cartilha de autoria de professor baiano ou  radicado na capital baiana,  destinada ao ensino da leitura, principalmente se levarmos em conta a presença ativa,  na Bahia dessa época, da Livraria Catilina, com edições que então alcançavam mercados de  outros estados brasileiros. É tempo, ainda, porém, de resgatar a memória de tantos que se empenharam para permitir a milhares de jovens baianos, o ingresso no mundo fantástico das letras; com a pretensão de  reconstituir-se a história do ensino primário, tanto o público como o particular,  na Bahia; devendo lembrar-nos que neste setor, salientaram-se, no século XIX, Abílio César Borges, o barão de Macaúbas e o extraordinário João Estanislau da Silva Lisboa, o fabuloso protagonista do episódio dramático da “bala de ouro”; seguidos, no século seguinte, por um grande número de outros nomes que se destacaram na capital baiana, na área do magistério.  Após um longo tempo, equivalente a um curso de quase 80 anos, expresso a minha gratidão ao Prof. Mariano de Oliveira e presto-lhe a homenagem que lhe era devida, mas não lhe foi dada, na data em que se completaram  140 anos do seu nascimento.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BERNARDES, Vanessa Cuba. “Um estudo sobre Cartilha Analytica (190?) de Arnaldo de Oliveira Barreto”. Download disponível in vanessa_cubabernardes@yahoo.com.br ( Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia).- Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília.  Universidade Estadual Paulista, Marília, SP)

BUFFA, Ester e NOSELLA, Paolo. Schola Mater – a antiga Escola Normal de São Carlos. EdUFSCar: São Carlos, SP, 2002.

CALMON, Pedro. A Bala de ouro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1947.

NOSELLA, Paolo e BUFFA, Ester. Opus cit..

SOBRAL, Patrícia de Oliveira. “Um estudo sobre Cartilha Analytico-Synthetica (1916), de Mariano de Oliveira”. Download disponível in posobral@yahoo.com.br. (Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia – Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília. Universidade Estadual Paulista. Marília, SP).

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