A prosa barranqueira de Osório Alves de Castro

aaveArmando Avena

Acho que foi no início dos tempos que a Natureza celebrou um pacto com os homens de letras: ela os engendraria de quando em vez, desde que eles narrassem aos outros homens a terra em que haviam sido engendrados. Mais provável, talvez, que, longe de esperar pela volição dessa espécie tão inconstante, cada lugar resolvesse dar à luz, uma vez que fosse, a um ser cuja essência genética estivesse programada para contar ao mundo como era o lugar em que nasceu. E, desse modo, a literatura produzida por esses homens não apenas descreveria seu lugar, mas seria semelhante a ele, teria um ritmo similar, uma expressão análoga, um estilo idêntico. E, mais que isso, talvez os homens a quem o fado exigia que cantassem sua terra fossem, eles próprios, parecidos com a terra que cantavam.  Se  assim fosse, seria mais fácil compreender por que a literatura de Machado de Assis era  rebuscada e petulante  como o  Rio de Janeiro,  por que a prosa de Jorge Amado era sensual e debochada como a Bahia, por que a escrita de Graciliano era seca  e dura como o sertão.

E, se cada lugar cria sua literatura,  os afluentes, as matas, os cerrados, as cidades, os povoados, os arraiais e o homem do  grande vale do Rio São Francisco criaram Osório Alves de Castro e sua prosa barranqueira, entrecortada como o próprio rio,  úmida como as terras ribeirinhas e, por vezes, afásica, pois assim é o homem a quem retrata.

Acho que foi em busca da sistematização de todo conhecimento humano que os homens resolveram elaborar as enciclopédias. Diderot e D”Alembert propuseram-se,  em 1747,  a catalogar os conhecimentos que todo honnête homme deveria ter no Século XVIII e creio que veio daí a crença de que todo saber pode ser encontrado nas enciclopédias. Mais provável, no entanto, é que as enciclopédias, ainda que mobilizassem as mentes mais brilhantes – e Diderot trouxe para a sua Montesquieu, Voltaire e Rousseau – não fossem capazes de abarcar todo o saber humano e de transmitir aos nossos descendentes as idéias e as histórias de todos os homens que fizeram ciência, poesia, arte e tudo o mais. Ainda assim, criado que fui na crença de que o saber humano é sem fim, terminei por acreditar que as enciclopédias “não omitiam nada do que se pudesse mostrar distintamente aos olhos”. E, extasiado com a prosa do inaudito escritor nascido na margem esquerda do Rio Corrente, fui em busca de sua história nas enciclopédias desta e de outras terras. E qual não foi meu espanto: não havia verbete autônomo, nem verbete indicativo, nem parágrafo dos verbetes indicados, nem uma linha sequer, sequer uma linha. Abespinhado, deixei o peso das enciclopédias, vaticinando açodadamente sua incapacidade de registrar a aldeia global e, pressagiando sua obsolescência, conectei-me a Internet, a enciclopédia do século XXI, onde nada esta ausente, ainda que a presença, não raro, venha recheada de incorreções. E, pasmem os leitores, nenhuma biografia, nenhum estudo acadêmico, nenhuma tese, nada assomou a pantalha eletrônica a não ser três ou quatro menções vinculadas a outros temas. E, no entanto, Osório Alves de Castro deveria estar em todas as enciclopédias, em todos os sites de literatura, ombreando-se a Guimarães Rosa na galeria dos grandes escritores brasileiros.  Assim o desejaria o próprio Rosa.

Prosa para isso tinha de sobra o escritor nascido na bucólica Santa Maria da Vitória, em pleno Além São. Francisco.  Porto Calendário, seu primeiro livro, lhe trouxe o aceite da critica e lhe valeu o Prêmio Jabuti de Literatura, em 1961.  Daí desmembraram-se duas outras obras primas, Maria Fecha a Porta Prau o Boi Não te Pegar e Baiano Tiête, formando a trilogia da integração nacional. Apenas isso já lhe valeria um verbete em negrito.

“No ano que vem, caminho de S.Paulo me tem”, essa era a pichação que manchava os muros de Santa Maria da Vitória, de Correntina e de Barreiras e seus autores,  jovens que recém completavam 18 anos,  logo estariam margeando o Tiête em busca da redenção econômica. Osório Alves de Castro  cantou o fado desses jovens e deu vida ao povo ribeirinho, especialmente aquele que não tinha força ou desejo de deixar seu vale querido.  E, apesar disso, as enciclopédias lhe regalaram o esquecimento e até seu povo, aquele que habita os cerrados da Bahia, parece não lhe prestar a devida atenção.  Hamlet estava errado: não há esperança de que a memória de um grande homem possa sobreviver-lhe sequer por meio ano.

Vivo estivesse, Osório Alves de Castro tripudiaria de minhas preocupações, afinal,  não estava ele redimido pelas palavras de Guimarães Rosa:  “ Oh, o homem do São Francisco! Pudesse, eu ia lá, em Marília, conversar com ele, três noites e três dias, seguidos, sem pausa nem pio, sem fio nem pavio. Foi para mim uma rajada, um desembesto, um desadoro, um desabalo. Não tenho palavras. Foi um filme doido, vero, cinerama, passando diante de mim, de minha velhice-infância”. Não estava ele redimido pelas teses e estudos que, quando em vez, os jovens das universidades brasileiras entabulavam sobre sua obra. E, além disso, de que valem as enciclopédias frente a arte que teima em brotar das entranhas do homem?

E que homem! Que escritor!  Não exprobre, condestável leitor, as aclamações que  aí estão apenas para corroborar o espanto que assomou a pena de  Rosa quando ele leu a carta, “a espantosa, a estouradora carta, mensagem dos cem mil cavalheiros: a carta de Osório Alves de Castro, publicada na Revista Diálogo em 1957. Não, não era uma carta, era já um romance, condensado em poucas páginas, mas caudaloso, cheio de corredeiras e quedas d’águas. As águas do Velho Chico molhavam aquelas páginas, o homem do vale  navegava naquelas palavras, os coronéis e os atravessadores, exploradores do ribeirinho, mergulhavam naqueles parágrafos barrentos,  tudo já estava ali e iria desaguar no mar de Porto Calendário.

Que homem! Que escritor! Alfaiate, nunca renegou seu oficio, mas se de dia alinhavava os tecidos na sua Alfaiataria Rex de noite dava forma às palavras. E que forma!  “Antigamente as noticias chegando era como um tempero insosso ganhava travo e a gente comprazia divera… Hoje? …  Que Deus tenha pena de nós. Tudo chega de supetão, arrasa e fica nas angústias como um arco-íris. Sumindo detardinha “,.

Que homem! Ele próprio um personagem. De inicio, clarinetista na Orquestra Filarmônica Seis de Outubro, depois construtor de  cenários e encenador de peças  até que, de repente,  viu-se comerciante transportando sal, rapadura e cachaça nas barcaças do  São.Francisco. Em 1923, pensou enganar os muros da cidade, e foi para o Rio de Janeiro. Lá estudou latim, literatura e política e foi iniciado nas artes da alfaiataria. Mas não se foge ao fadário impresso nos muros da inevitabilidade e lá se foi nosso homem morar em S.Paulo, em Marília, onde logo haveria um ponto de encontro para os intelectuais e para os amantes da literatura: a alfaiataria Rex, onde o militante comunista fazia do Capital o remo que o levaria ao porto do socialismo. A ditadura, tão pródiga em espancar os remeiros que anseiam por uma terra melhor, prendeu-o, antes mesmo de saber-se ditadura, mas das grades ele podia ver a aurora cor de barro, barro que dava cor ao São Francisco…

Osório Alves de Castro, criador de personagens insólitos, foi ele mesmo um personagem, tão bravo e insueto quanto Pedro Voluntário-da-Pátria, que se preocupava  com o estio recorrente no  fim-de-era: “ Desde o Cariri até os cerrados da Bahia, entrando por Minas Gerias, não se vê uma folha verde”; tão raro  quanto Doquinha Peste-Bubônica, que ganhou o apelido por ter a língua venenosa como a peste; tão triste quanto  o remeiro Salu, que a zinga arrebentou os peitos e morreu botando sangue pela boca, incapaz de vencer a água do Quebra Botão. A zinga era vara que lutava contra a correnteza que de tão forte tinha a alcunha de Quebra Botão.

Porto Calendário é rio caudal formado por afluentes personagens e nem Macondo os teria gerado com tanta originalidade. Que dizer de Sussu Flores, uma Shahriyar do cerrado, que mandava matar os amantes após dormir com eles, com o consentimento complacente do Coronel Chico Fulo, seu marido; ou de Jove de Correntina com seus óculos comprados na Bahia, com os quais podia ver todas as mulheres nuas, em pelo, até que um dia os escangalhou nos olhos, ao mirar a própria mãe na procissão do Senhor Morto.

A pena do alfaiate que cerzia palavras  era mais destra que a tesoura e, em suas mãos,  até a Natureza, até o Tempo tornavam-se personagens. O Tamarindeiro, que servia de elo entre os que povoam as páginas de Porto Calendário, é protagonista, assim como o tempo, retratado no Século que assustava os viventes das cidades à beira do Rio. “Um tal século, que vem trazendo na mão esquerda a espada de Moreira César e na direita um punhado de sementes encharcadas de sangue ”.

Que escritor! Que livro! Porto Calendário, o romance da saga são-franciscana,  é uma barcaça que reúne os remeiros, os pescadores, as prostitutas, as cassandras, os coronéis e todo o povo do Vale e os faz navegar no rio da literatura, ao sabor de ondas dialetais, de correntezas de palavras, de desvios arcaicos, tudo isso tendo ao fundo a marca d”água do Rio S,.Francisco.

Acho que foi no inicio dos tempos que a Natureza resolveu criar uma planta capaz de prevenir-se da seca que as vezes assolava as terras do cerrado e das enchentes que inundavam as plantações,  carregando as sementes e o porvir. As folhas dessa planta da família das sensitivas fecham-se imediatamente quando são  tocada pelos homens, pelas águas ou pelos ventos. Engenhosa a Natureza e os homens, que lhe deram por nome Maria Fecha a Porta Prau o Boi Não te Pegar.  Mais engenhoso ainda Osório Alves de Castro que fez da planta título do seu segundo livro, um livro poesia,  cheio de Marias que se fecham quando tocadas. Elegia ao Velho Chico, o romance corre como o rio, caudal e forte:

“Veja, Maria!… É o nosso São Francisco. Vindo de longe, correndo do Sul para o Norte, é um abraço na imensidão, unindo as terras e as gentes do Brasil. “ Forma-se, então, o segundo elo da trilogia iniciada com Porto Calendário e que se encerrará com  Bahiano Tietê, romance da transformação, que mostra  a dor, o sofrimento e a adaptação  do povo ribeirinho, que agora habita as terras do café.  E mais uma vez o Rio São Francisco sela a integração nacional e faz do homem do cerrado um BaianoTiête. Muitos anos depois, uma outra leva migratória, inimaginável aos olhos do velho escritor barranqueiro,  far-se-á em torno do Rio São Francisco, uma nova integração nacional dessa vez no sentido inverso, com gaúchos e paranaenses cobiçando as terras do cerrado e  escrevendo nos muros dos seus sonhos de riqueza: ano que vem, caminho do São.Francisco me tem.

Osório Alves de Castro morreu em 1978 antes de ver Baiano Tietê publicado. O livro, que Gey Espinheira presenteou-me num tórrido março de 1991 e em cuja orelha rabiscou sua admiração por aquela prosa, traz um prólogo de Jehová de Carvalho que, indignado, brada contra o mutismo que tomou conta da imprensa nacional quando da morte do escritor: nem um obituário, uma resenha sequer, sequer uma retrospectiva sobre a obra do autor que encantou Guimarães Rosa.  Jehová fulminava, como uma cassandra que pressagiava o esquecimento de si mesmo: “ Osório Alves de Castro tinha um defeito grave: era escritor baiano e pobre”.

Que seja. Que os obituários não registrem sua morte, que as enciclopédias queiram negar-lhe existência, que a Internet não tenha chips capazes de abarcar sua obra. Não importa. A prosa de Osório Alves de Castro  é tronco milenar, é flor do cerrado,  é planta que se fecha para quem não sabe tocá-la,  é cedro que faz o oco das canoas,  é rio perene, ancho, barrento e alongado, e sobreviverá navegando na alma de quem ama a literatura e o Rio São Francisco. É prosa única que “ vem do Porto das Calendas onde tudo-tudo se dará “.

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