Volúpias do colchão

consueloConsuelo Pondé de Sena

Certo dia, Marisa se deu conta de que tinha necessidade de comprar um colchão. Estava perto de uma loja na Boca do Rio, que vendia colchões de qualidade. Acercou-se do vendedor, belo e corpulento, moreno e sensual, como é do seu agrado.

Ficou deslumbrada com tamanha simpatia e arriscou saber o preço das mercadorias expostas. Não que estivesse tão necessitada de adquirir bens de consumo, pois a “crise financeira” está deixando a classe média sem sono. A compra poderia ser protelada para ocasião mais conveniente. Afinal, não se tratava de “sangria desatada”. Todavia, como há muito, não sentia o hálito abafado de um homem, o cheiro de corpo de um macho, não recebia carícias estimulantes, pensou que aquele galante vendedor poderia representar uma saída para a sua insatisfação.  Há muito tempo estava sem “assistência técnica”, “sem manutenção” de qualquer natureza.

Assim imaginando, fantasiou um encontro amoroso com o sedutor cavalheiro. Estimulada pela lábia do “finório”, decidiu endividar-se e adquirir um colchão às pressas.  Pensou assim: mais vale um gosto do que dois vinténs.

Continuava embalada pelos elogios do galã, que ressaltou a beleza e o aspecto jovial do seu rosto, sua aparência jovem e distinta e partiu para cometer um desatino. Seu único objetivo era conquistar Alfredo, de olhos mornos e sedutores, que a fizera arder de desejo e incrementara a vontade de saciar-se.

Por sua vez, o astuto vendedor soube “dourar a pílula”, elogiando a não mais poder a qualidade do produto que a nova freguesa queria adquirir. A conversa transcorreu tão animada que, a certa altura, tomado de entusiasmo, declarou à nova cliente: “se a madame comprar o colchão, faço questão de levá-lo pessoalmente, colocá-lo sobre a sua cama solitária e vê-la  saciada, vaporosa e bela.

Não dispondo de talão de cheque, no momento, Marisa argumentou que preferia comprar o colchão em vários pagamentos, pois adquiri-lo de uma vez onerava o seu modesto orçamento.  O que está me dizendo, D. Marisa?  Nem pense num disparate desse. Faço-lhe um abatimento razoável e a senhora não fica nessa agonia de todo mês pagar o débito. Aconselho-a a ir logo adiante, onde há um caixa rápido, sacar o dinheiro e  efetuar o pagamento à vista, aproveitando o grande  desconto que lhe concedi.

Convencida de que estava “curtindo uma nice”,  ansiosa compradora, animada com a “promessa”, dirigiu-se ao tal  caixa eletrônico, dele retirando  R$650,00  em dinheiro.  Compra que seria acrescida de umas boas horas de amor, de deleite para o seu insaciado coração.

Sr Alfredo, galante conhecedor de mulheres, continuou a dizer-lhe palavras amáveis, elogiando-lhe a “frescura da pele” e a aparência juvenil.  Apesar de já contar com 60 anos, ouviu do vendedor, que lhe fizera a indiscrição de saber quanto janeiro tinha,  que parecia ter apenas 40 anos. Diante de tal afirmativa, foi aumentando sua auto-estima, convencendo-se dos seus reais atrativos e da possibilidade de entreter um tórrido romance dali por diante.

O vendedor que, por sinal, era proprietário da loja, ofereceu-se para ele próprio fazer a entrega da compra, na  residência da cliente,  porque desejava vê-la, deitar-se no colchão, com roupas leves e confortáveis .Declarou, sestroso, que queria  vê-la  delirar nas  suas  fantasias de mulher romântica e carente de amor.

No dia seguinte, Marisa faltou ao trabalho, ansiosa para receber a visita do galante vendedor. Convocou a diarista para preparar a sua casa, como se fora para um dia de noivado. Foi a salão de beleza, onde se preparou caprichosamente, fazendo escova no cabelo, burilando as unhas de esmalte cintilante, depilando-se totalmente, na expectativa do desejado encontro. Afinal, a aquisição do colchão tinha tudo para  transformar o seu destino solitário.

Para sua surpresa e frustração no dia seguinte à compra, eis que chega um estranho à sua porta, abraçado ao colchão.  Era um esquálido ancião, desdentado e maltrapilho o encarregado da “sonhada” entrega.

– Estou aqui a mando de Sr. Alfredo, para fazer a entrega do colchão de D. Marisa. Faço pequenos “selviços “ para o  Sr. Alfredo, que me deu  “dez real” para eu vir aqui. Oh! disse Marisa insatisfeita: por que ele mesmo não venho trazer o colchão? Prometeu que ele mesmo colocaria a mercadoria na minha cama! Ao que o ancião respondeu categórico: ele disse que eu não entrasse para conversar. Disse que não me demorasse muito, pois a “velha “  é muito depressiva e gosta de encompridar a conversa.

Diante desse veredicto, Marisa explodiu num choro convulso, percebendo que se esvaiam suas esperanças de manter um caso amoroso com o Sr. Alfredo.

Ludibriada nos seus anseios de mulher, revoltada com a própria ingenuidade, ainda assim, teve coragem de telefonar para o sedutor, a fim de manifestar-lhe a sua grande indignação! .

Afinal colchões como aquele, que adquirira à vista, são vendidos em muitas parcelas, sem juros, nas casas que negociam como esses artigos. Mas o que mais a revoltou foi ter sido chamada de “velha”. No telefone, altiva e inconformada declarou aos gritos: Caí no “esparro”, mas o senhor se vendeu por muito pouco. E, atônita, bateu violentamente o telefone.

Três meninas e uma ciranda

refRuy Espinheira Filho

Para mim, que sou muito mais velho, são mesmo meninas. Três meninas envolvidas numa ciranda chamada poesia: Mônica Menezes, Ângela Vilma, Kátia Borges. Três poetas em três livros lançados este ano: de Mônica, Estranhamentos; de Ângela, Poemas para Antonio; de Kátia, Ticket zen. Os dois primeiros, pela P55 Edições, na coleção Cartas Bahianas; o terceiro, pela Escrituras.

Ler poesia é uma das experiências mais maravilhosas da vida ─ e também das piores. Porque, se nos eleva a alma quando de boa qualidade, quando ruim é uma abominação. E, infelizmente, o que mais encontramos é poesia ruim; porque, para não ser ruim, ela tem que ser boa, pois a que fica na faixa do mais-ou-menos, ou “razoável”, é também ruim.

Por isso a gratificação que senti ao ler os livros aqui citados. Mônica Meneses é o lirismo quase em estado puro, do princípio ao fim. Vamos lendo, lendo, e nos comovendo. E, de repente, deparamos com uma obra-prima de simplicidade e vigor lírico: “Sandália de tiras”: “trançar as tiras/atar os laços/vestir o véu/guardar o sonho/suster o abraço/ganhar o céu/voar bem alto/erguer no espaço/um carrossel”.

Achados admiráveis estão também, em vários momentos, na poesia de Ângela Vilma. Como no comovente “Meus sapatos brancos”, que se fecha com estes versos: “Tão sozinhos, após aquelas festas/Em que tu à minha espera serenava o mundo.//Agora que teu rosto desmente tudo/Só meus sapatos de menina ainda te buscam.” Ou como no fim de outro poema: ”Nada em mim rouba/A esperança dos sentidos/Que se resvalam de tua roupa/Para dentro de meus vestidos.”

Em Kátia Borges encontramos a afirmação de um forte caráter poético. Não há fraquezas, cansaços, jamais. Somos levados por ela a refletir sobre a condição humana, como quando lemos, por exemplo, “Lição”: “Contigo aprendi,/como no refrão de um bolero,/que todo amor é isso,/aquilo e aquilo outro/e, mais, as pérolas/que mastigam os porcos.”

E assim nos falam as três meninas da ciranda de poesia. Que os homens que escrevem poemas na Bahia tratem logo de ir pondo suas barbas de molho…

Poeta Cyro de Mattos Participará da Feira do Livro em Frankfurt

capa 2 O poeta baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos estará participando da Feira Internacional do Livro em Frankfurt, Alemanha, no dia 9 de outubro, quando às 9 horas dará autógrafos na sua antologia poética Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas), no galpão de sua editora – Projekte-Verlag (www.projekte-verlag.de), da cidade de Halle. Durante a Feira do Livro, a editora colocará um banner com foto do autor e de seu livro no galpão anunciando o evento com a presença do poeta.
A tradução dessa antologia de Cyro de Mattos é de Curt Meyer-Clason, que é considerado o tradutor mais conceituado de autores hispano-americanos e de língua portuguesa para a língua alemã. Ele já traduziu, entre outros, Cervantes, Ortega y Gasset, Eça de Queiroz, Fernando Namora, Julio Cortazar, Gabriel Garcia Marques, Nabokov, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge Amado e Adonias Filho.

Destinada a profissionais, a maior Feira do Livro do Mundo reúne mais de 7300 expositores de cerca de 100 países, em ambiente agitado e festivo, com muita informação sobre as tendências do mercado, novos conteúdos, autores sensação, debates, negócios. Em 2010, no mesmo ano em que comemora o bicentenário da declaração de independência, a Argentina é o país-tema da Feira de Frankfurt. Este ano vai ser realizada de 4 a 10 de outubro.

A Bahia situada no sul do Estado, onde o autor nasceu e reside, serve de motivação aos poemas reunidos nesta antologia de Cyro de Mattos publicada na Alemanha. Na primeira parte intitulada “Zwanzing Gedichte von Rio” (Vinte Poemas do Rio), o poeta revisita e transfigura o rio Cachoeira, que divide a sua cidade natal em duas partes, quando à época havia nele areeiros, pescadores, lavadeiras e aguadeiros. Faz falar sua infância com essa gente ribeirinha, empregando para isso uma dicção líquida em uma espécie de recuperação do tempo perdido, não à maneira de Proust, mas, como ressaltou o crítico e poeta Fernando Py, “conciso na expressão e claro nas imagens que respondem pela eficácia poética do conjunto.”
Os outros poemas dessa antologia foram retirados dos livros Cancioneiro do Cacau, Canto a Nossa Senhora das Matas, Ecológico, O Menino Camelô e O Circo do cacareco.

Contista, poeta, cronista, ensaísta e autor de livros infanto-juvenis, Cyro de Mattos publicou 40 livros, já conquistou muitos prêmios literários e, entre eles, o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes, Prêmio Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e o Internacional Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, segundo lugar, duas vezes.

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Poeta Cyro de Mattos Participará da Feira do Livro em Frankfurt

capa 2 O poeta baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos estará participando da Feira Internacional do Livro em Frankfurt, Alemanha, no dia 9 de outubro, quando às 9 horas dará autógrafos na sua antologia poética Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas), no galpão de sua editora – Projekte-Verlag (www.projekte-verlag.de), da cidade de Halle. Durante a Feira do Livro, a editora colocará um banner com foto do autor e de seu livro no galpão anunciando o evento com a presença do poeta.
A tradução dessa antologia de Cyro de Mattos é de Curt Meyer-Clason, que é considerado o tradutor mais conceituado de autores hispano-americanos e de língua portuguesa para a língua alemã. Ele já traduziu, entre outros, Cervantes, Ortega y Gasset, Eça de Queiroz, Fernando Namora, Julio Cortazar, Gabriel Garcia Marques, Nabokov, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge Amado e Adonias Filho.

Destinada a profissionais, a maior Feira do Livro do Mundo reúne mais de 7300 expositores de cerca de 100 países, em ambiente agitado e festivo, com muita informação sobre as tendências do mercado, novos conteúdos, autores sensação, debates, negócios. Em 2010, no mesmo ano em que comemora o bicentenário da declaração de independência, a Argentina é o país-tema da Feira de Frankfurt. Este ano vai ser realizada de 4 a 10 de outubro.

A Bahia situada no sul do Estado, onde o autor nasceu e reside, serve de motivação aos poemas reunidos nesta antologia de Cyro de Mattos publicada na Alemanha. Na primeira parte intitulada “Zwanzing Gedichte von Rio” (Vinte Poemas do Rio), o poeta revisita e transfigura o rio Cachoeira, que divide a sua cidade natal em duas partes, quando à época havia nele areeiros, pescadores, lavadeiras e aguadeiros. Faz falar sua infância com essa gente ribeirinha, empregando para isso uma dicção líquida em uma espécie de recuperação do tempo perdido, não à maneira de Proust, mas, como ressaltou o crítico e poeta Fernando Py, “conciso na expressão e claro nas imagens que respondem pela eficácia poética do conjunto.”
Os outros poemas dessa antologia foram retirados dos livros Cancioneiro do Cacau, Canto a Nossa Senhora das Matas, Ecológico, O Menino Camelô e O Circo do cacareco.

Contista, poeta, cronista, ensaísta e autor de livros infanto-juvenis, Cyro de Mattos publicou 40 livros, já conquistou muitos prêmios literários e, entre eles, o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes, Prêmio Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e o Internacional Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, segundo lugar, duas vezes.

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La Vorágine – O romance amazônico da Colômbia

wfoWaldir Freitas Oliveira

Há 88 anos, um advogado recém-formado pela Faculdade de Direito e Ciências Políticas da Universidade Nacional de Bogotá, José Eustasio Rivera, iniciava uma das mais extraordinárias viagens já realizadas em seu país

Nomeado membro de uma Comissão encarregada de efetuar a demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela, partiu para o sul do seu país, percorrendo um trajeto que poderá, em nossos dias, ser considerado absurdo, mas que era, em sua época, o mais viável – desceu o rio Madalena, que corre para o norte, na direção do mar das Antilhas, seguiu, costeando o litoral do Caribe, na direção do leste, passou por Port-of-Spain, em Trinidad e chegou à foz do Orenoco, por ali penetrou e subiu o seu curso até sua confluência com o rio Meta, situado na fronteira, pelas bandas  do sul,  desses dois países, e seguiu, então,  para a cidade de San Fernando de Arabapo, ainda mais ao sul,  de onde  começou  a percorrer as terras banhadas pelo rio Inírida, na província colombiana de Guaínia. E quando decidiu regressar a Bogotá, dali retornou ao Orenoco, por ele navegou até o canal de Cassiquiare, por ele navegou até alcançar o rio Negro, principal afluente brasileiro do Amazonas, sendo este rurio por ele percorrido até sua foz, dali havendo seguido, já sobre águas do oceano Atlântico, acompanhando a linha da costa, na direção do mar das Antilhas, indo alcançar, afinal, o mesmo rio Madalena, de onde partira, em sua viagem de ida, por ele então havendo navegado, subindo o seu curso, a fim de  chegar de volta à capital da Colômbia.

De tudo o que viu e ouviu, ao longo dessa sua viagem, resultou a redação de um dos mais extraordinários romances da literatura latino-americana – La vorágine; havendo sido José Eustasio Rivera, o primeiro escritor a revelar as torpezas e injúrias sofridas pelos seringueiros na floresta amazônica, antecipando-se, pois, ao falar desse assunto, ao romance que iria, seis anos depois, aparecer, escrito por Ferreira de Castro – A Selva, este, no entanto, com sua estória a desenvolver-se na Amazônia brasileira. E mesmo que a ação dos personagens de La vorágine se desenvolva tanto nos llanos como na selva, daremos, aqui, realce à parte do texto onde  e quando a mata se torna cenário privilegiado para a narrativa, desempenhando o papel de algoz e, mais que isso, assumindo o caráter de  “voragem” e  abismo.

A selva sádica y vírgen… a selva  vista e idealizada por Rivera, acabou por devorar Arturo Cova, o principal personagem do romance e os seus companheiros. E sendo este, o narrador da estória, e havendo sido também fundamental o seu desempenho, agindo como condutor dos acontecimentos, torna-se Arturo Cova peça essencial para a compreensão do romance; tendo sido através de sua voz, que, como afirmou Montserrat Ordóñez 1,  aprendeu  o século XX “a imaginar e descrever a selva”,  de modo igual,  “a interpretar a relação entre o homem e a natureza”; e, finalmente, a  entender o seu relacionamento com seu próprio mundo interior, condicionado pela presença e influência de “uma natureza mítica, personificada e carnavalizada.” 2  E como resultado da presença simultânea no romance, do autor e do narrador por ele criado, e aqui seguindo  o rumo tomado pela apreciação de Montserrat Ordóñez, irá Rivera, aos poucos,

 

“desaparecendo como pessoa relacionada com sua obra, com sua biografia e com os fatos pitorescos de sua vida, que passam a ser dados de interesse mais histórico que literário, enquanto a voz de Cova, fragmentada e enigmática, nela se mantém e cresce.”

 

Razão pela qual, torna-se essa sua voz, a

 

“versão autorizada e descomprometida da selva americana, a do testemunho da atroz perseguição dos caucheros, a do homem enlouquecido no interior da selva, cárcere verde e locus terribilis.”

 

E em La vorágine, enquanto a voz  de Rivera, no curso da sua narrativa, vai desaparecendo, a de Arturo Cova, apesar de sua condição de personagem contraditório e pouco confiável, nela permanece, mantendo-se, mesmo despedaçada, colocada por Rivera, como “a chave do êxito do livro, a possibilidade de sua sobrevivência”.3

Arturo Cova é um homem da cidade grande, com boa formação em estudos literários, que foge para a região de Casanare, na parte oriental do país, embrenhando-se em seus llanos.4, tendo chegado às matas do sul, em companhia de Alicia, uma jovem que abandonara sua casa, em Bogotá, e com ele partira, por não querer casar-se, forçada pela família, com um rico fazendeiro, pelo qual não sentia qualquer afeição. Não a amando, no entanto, Arturo Cova, de modo tão grande que pudesse  justificar essa fuga; a ela tendo sido levado, em verdade, por seu espírito aventureiro.

Outro personagem possui no romance, voz explícita, e será através dela que iremos saber muito do que nele foi dito sobre os indígenas que habitavam a região das matas, e acerca de  quem eram e como viviam os caucheros – a de Clemente Silva., que  somente aparece na segunda parte do romance, como um elo entre a civilização e a floresta, nela inclusos os seus habitantes,  tornando-se este personagem, a partir de  então, muito importante no contexto da narrativa,   embora haja sido colocado, do ponto de vista cultural, mais perto do branco que do indígena, tanto por seus valores como pelo seu comportamento.

Como vemos, Rivera fala, valendo-se de vozes várias, sabendo delas utilizar-se, nos momentos exatos em que delas necessita, a fim de permitir aos seus leitores entenderem como funcionam os laços que unem os que foram levados a conviver na selva que os domina e quase sempre os anula ‒ o branco, o caboclo e o índio, categorias distintas no conjunto humano de sua narrativa, todos subjugados pelo poder imenso da mata e forçados a ceder, uns aos outros, partes de si mesmos, para que consigam ali sobreviver. E como afirma  Montserrat Ordóñez, a voz de Clemente Silva é “a da sabedoria e da sobrevivência”, mostrando-se capaz de expressar a ética dos brancos – a de que “os fins justificam os meios”. Surgindo a selva, nessa sua fala, habilmente identificada pelo autor, com seu personagem a partir de  quando lhe deu  o sobrenome – Silva, tendo surgido, de forma inesperada, em plena selva, frente aos homens conduzidos por Arturo Cova, passando a sua aparição a assinalar a tomada,  pela estória, de  um novo rumo.

Clemente Silva havia vivido durante dezesseis anos nas montanhas do país. Ele trabalhara como cauchero em suas matas e encarna toda a sabedoria obtida com sua experiência de vida; tornando-se, conforme vimos, o elemento de ligação entre a selva e o mundo civilizado, entre os indígenas e os brancos, ou seja – entre os que antes nela viviam e os que para ali chegaram, destinados ao trabalho da  extração da borracha. E será ele quem dirá a Arturo Cova e aos seus companheiros quem foram esses recém-chegados, de que modo agiram naquelas matas,  tanto quanto  como nelas, desde então,  se passaram as coisas.

Esclarece, a seguir:

 

“Cada dono de seringal tem caneys que servem de moradia e de armazém. (…) Esses depósitos ou barracas jamais estão vazios, porque neles se guarda a borracha com as mercadorias e as provisões, e os capatazes moram ali com suas amantes”

 

E em sua narrativa, prossegue, falando dos que trabalham nos seringais:

 

“O pessoal dos trabalhadores se compõe, em sua maioria, de indígenas e contratados que, segundo as leis da região, não podem mudar de dono antes de dois anos. Cada indivíduo possui uma conta na qual são anotadas as bugigangas que lhes são empurradas – as ferramentas, os alimentos e a borracha extraída, que nela é registrada por um preço irrisório, determinado pelo patrão. Nunca um seringueiro sabe quanto custa o que recebe  nem quanto lhe está sendo pago pela borracha que entrega, pois o segredo do dono do seringal  está no fato de esconder o modo pelo qual o trabalhador continuará a ser seu  devedor. E essa nova forma de escravidão atravessa todo o curso de vida desses homens e se transmite aos seus herdeiros”

 

E diz, ainda, que,

 

“pelo seu lado, os capatazes inventam diversas formas de espoliação, roubam a borracha dos seringueiros, tiram-lhes as filhas e as esposas, mandam-nos para o trabalho em caños paupérrimos, onde não poderiam tirar a borracha que lhes é exigida, e isso dá motivos para insultos e castigos executados a chicote, quando neles não se envolvem tiros de Winchester. E bastará dizer depois que fulano se picureou ou que morreu de febres, para que tudo se arrume”

 

E acrescenta:

 

“Não se devendo esquecer onde entram a traição e o dolo. Nem todos os peões são pombas brancas. Alguns deles pedem para ser contratados somente para roubar o que recebem, ou ir para a mata, a fim de matar um inimigo, ou para ludibriar seus companheiros e acabar por vendê-los para outras barracas.” 5

 

Acaba declarando que viveu em tais condições, naquelas terras, durante dezesseis anos, qur foram por ele considerados “anos de miséria”; desde que a escravidão  que ali é imposta, pelos donos dos seringais,  aos que neles trabalham, valendo-se da indiferença, a  respeito, das autoridades do país, nunca, em verdade, se extingue.

A voz de Rivera soa, então, forte e em alto tom, através da fala de Clemente Silva. Por ela são confirmados, inclusive, os desmandos e o arbítrio mantido por Julio Cesar Arana, sobre as terras do Putumayo, desde que o velho peão declara haver ali trabalhado, em seus seringais, e relata o que por lá se passava.  E ao voltar a falar pela voz de Arturo de Cova, Rivera, considera a selva, como sádica e somente encontra uma solução para dela escapar – a fuga, que ele, contudo, não conseguiu efetuar.

Brada, a seguir, desesperado, que “o homem civilizado é o paladino da destruição.”

Afirma, no entanto, existir “um valor magnífico na epopéia desses piratas que escravizam os seus peões, exploram os índios e lutam contra a selva”

E explica que

. “atropelados pela infelicidade, provindos do anonimato das cidades, lançaram-se nos desertos buscando alcançar um final qualquer para suas vidas estéreis. Delirantes de paludismo, despojaram-se da sua consciência e co-naturalizados com cada risco corrido, sem qualquer outra arma que a Winchester e o machadinho, sofreram as mais atrozes necessidades, ansiando prazeres e abundância, arrostando os rigores das intempéries, sempre famintos e até mesmo desnudos, pois as  suas roupas haviam apodrecido sobre a carne dos seus corpos.” 6

 

E, a seguir, de forma irônica e perversa, revela como esses homens chegaram, um dia, à beira de um penhasco, à margem de um rio qualquer da região, e se declararam, simplesmente, sem qualquer escrúpulo, “donos de empresa”. E mesmo que houvessem entendido ser a selva, sua principal inimiga, eles demonstraram ali  não saber a quem ou como combater; e  por isso acabaram sendo por ela vencidos e destroçados.

Tendo sido  através da voz de Balbino Jacome, outro velho seringueiro, que Rivera  revelara, pouco antes,   a amargura de vida dos que para ali se dirigiram, quando  pede  ao Visitador  que havia chegado ao seringal onde se encontrava, que quando ele  pisasse “terra cristã”, pagasse uma missa  em sua intenção;  valendo  essa missa,  também,  pela “esperança que perdemos.” Revelando, então,  àquela pessoa  que se apresenta  frente a ele,  como uma  autoridade maior, que ‒ “o  crime maior “ a ser  ali por ele apurado, não estava na selva, mas nos livros de escrituração dos seringais; e afirma:

 

“Se Sua Senhoria os conhecesse, encontraria muito mais leitura no Deve que no Haver, já que muitos homens são lesados na conta por simples cálculo, segundo o que informam os capatazes. Acharia, contudo, dados vergonhosos: peões que entregam quilos de borracha por cinco centavos e recebem tecidos de vinte pesos, índios que trabalham há seis anos, e ainda aparecem devendo o mañoco do primeiro mês; crianças que herdam dívidas enormes, procedentes do pai que mataram, da mãe que forçaram, das irmãs que violentaram, dívidas que não saldariam em toda sua vida, porque, quando chegarem à puberdade, só os gastos de sua infância lhes darão meio século de escravidão”. 7

 

Seu tom de denúncia é forte e eloqüente.  E nela chega a envolver a participação conivente das autoridades do Governo da Colômbia, nos crimes ali praticados, quando põe o Visitador a falar , passando, então,  a perguntar –

:

“Que ganharíamos com a evidência de que fulano matou sicrano, roubou mengano, feriu beltrano? (…) Deus nos livre de que se comprove algum crime, porque os patrões conseguiriam realizar o seu maior desejo: a criação de prefeituras e de cadeias, ou melhor, a iniqüidade dirigida por eles mesmos”

 

E ao acrescentar:

 

“… o presidente da República não disse que enviou o general Velazco para licenciar tropas e guardas no Putumayo e no Caquetá, como resposta muda ao pedido de proteção que os colonizadores dos nossos rios lhes faziam diariamente? Paisano, paisaninho, nós estamos perdidos! E o Putumayo e o Caquetá também estão sendo perdidos!” 8

 

E voltando a falar dos indígenas da mata colombiana, deles nos diz Rivera, agora através da voz de Arturo Cova, serem eles povos “rudimentares e nômades” que não possuem “deuses, nem heróis, nem pátria, nem pretérito nem futuro”; não havendo dúvida sobre o fato de ele próprio  considerar-se superior  aos indigenas; mas tornando-se, pelo que, conclui Montserrat Ordóñez, falando  a seu respeito,  “o grande defensor do índio explorado nas caucherias”, sendo,  no fundo de si mesmo, “um triste remendo do conquistador e colonizador europeu”;  ainda mais,tomando por base o que sobre eles disseram, no curso do romance,  o   próprio autor e os  seus personagens Arturo Cova e Clemente Silva, sendo no romance  reconhecido o fato de serem  os índios.  “o grupo humano mais explorado”, pois que “devem entregar suas mulheres e suas filhas, se acham escravizados por dívidas impossíveis de ser pagas, e são torturados e assassinados sem piedade ou por  simples diversão.” 9

Tratemos, finalmente, da selva, como abismo voraz dos homens que a penetram, levando consigo a ilusão de poder dominá-la, segundo a visão do próprio José Eustasio Rivera, expressa através das vozes de Arturo Cova e Clemente Silva.

Segundo eles, como informou Montserrat Ordóñez, “a selva é cárcere e inferno, escura e úmida, sexual e imunda, abismo antropófago, boca que engole os homens e causa da sua crueldade”. Tornando-se claro que para o homem civilizado, estar na selva não é cousa que ele possa desejar; pelo que ele somente deverá cuidar de  atravessá-la,  em viagens imprescindíveis, a fim de explorá-la,  ao tentar vencê-la, mas nunca para nela viver em harmonia. Idéia que vem a ser confirmada, ao final do romance, quando em seu “Epílogo”, encontramos registrada a notícia enviada pelo Cônsul da Colômbia em Manaus, ao Ministro do seu país, a respeito da presumida morte de Arturo Cova e seus companheiros: ‒ “Há cinco meses que Clemente Silva os busca em vão. Nenhum rastro deles. A selva os devorou!”. 10

De todo oportuno, será, então, a transcrição de dois trechos colhidos do romance de José Eustasio Rivera, a\través dos  quais o autor-poeta assume o lugar do autor-novelista, e em prosa repleta de poesia, fala, em primeiro lugar ‒ da selva; e,  a seguir, compõe um  hino  em louvor aos seringueiros.

Aparecem esses textos como aberturas, respectivamente, para a segunda e terceira partes do livro; e sua beleza singular  revela o poeta que convivia com o ficcionista colombiano.

No primeiro, o canto em louvação da selva soa, a um só tempo, triste e grandioso, dando à mata, uma vida própria e uma alma que a transforma em ser mágico que encanta os que a penetram e os que nela buscam abrigo:

 

“Tu és a catedral da amargura, onde deuses desconhecidos falam a meia-voz, na linguagem dos murmúrios, prometendo longevidade às árvores imponentes, contemporâneas do paraíso, que já eram as mais velhas quando as primeiras tribos ali apareceram e hoje aguardam, impassíveis, a submersão nos séculos que virão. . Teus vegetais formam sobre a terra uma poderosa família que nunca se atraiçoa. O abraço que tuas ramadas não podem  dar,  umas às outras, levam-no,  unindo-as,  as trepadeiras e os cipós;  e és solidária até na dor da folha que cai. Tuas vozes multíssonas formam um só eco a  chorar e escorrer pelos troncos que tombam, e em cada brecha da mata, os novos  gérmenes  apressam suas gestações. Tens a austeridade da força cósmica e encarnas um mistério de criação. Apesar disso, meu espírito se ajusta  por completo com o teu caráter instável, desde que ele suporta o peso de sua perpetuidade e,  mais que ao carvalho de galho robusto, ele aprendeu a amar a lânguida orquídea,  por ser ela  fugaz, como o homem,  e por  murchar,  como uma ilusão.” 11

 

Enquanto no segundo, falando através da voz de Clemente Silva, encontramos o elogio trágico de quem, desiludido, vítima da ilusão por ele próprio criada, brada, em desespero, convencido de que nunca deixará de ser um seringueiro:

 

“Quem estabeleceu o desequilíbrio entre a realidade e a alma insaciável? Para que nos deram asas  para voar no vazio?  A nossa madastra foi a pobreza; o nosso tirano, a aspiração! Por olhar  para o alto, tropeçamos nas asperezas do chão; para atender as necessidades do ventre  misérrimo, fracassamos no espírito. A mediocridade nos presenteou com a angústia. Nunca fomos senão os heróis medíocres!”

 

E em tom patético, exclama:

 

“Sonhos irrealizados, triunfos perdidos! Por que sois fantasmas de memória, como se desejásseis envergonhar-se de vós próprios? Vede onde foi deter-se o sonhador  que feriu a árvore inerme, para enriquecer os que não  sonham, a suportar desprezos e vexames em troca de uma migalha recebida a cada anoitecer (…)  Escravo, não te  lamentes da fadiga; prisioneiro, não te queixes da prisão: ignores a tortura de vagar soltos no interior de um cárcere como a selva, cujas abobadas verdes têm como fossos, rios imensos.(…) Eu, porém, não me compadeço daquele que não protesta. Um tremor nas galhadas não é rebeldia que me inspire afeição. Por que não ruge  toda a selva e nos esmaga como répteis para castigar–nos pela  exploração vil? Aqui não sinto tristeza, e sim desespero! .

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Fui cauchero, sou cauchero! E o que fizeram as minhas mãos contra as árvores, podem elas fazer contra os homens!”  12

 

Não encerraremos, contudo, essa nossa apreciação sobre La vorágine, sem registrar o que disse desse romance, Federico Carlos Sainz de Robles, em seu Ensayo de un Diccionario de la Literatura, no verbete – RIVERA, José Eustasio:

 

“Sua única novela, La vorágine (1924), tornou-o famoso em todo o mundo. Para a grande maioria dos críticos, ela é a novela mais formosa e patética que produziram as letras hispano-americanas.” 13

 

Nem deixar de mencionar, em conclusão, como foi por ele registrado, havê-lo considerado Julio A. Leguizamón, em sua Historia de la literatura hispanoamericana (Buenos Aires, 1949), um romance excepcional,  ao  afirmar que nele  José Eustasio Rivera

 

“… narra e descreve, com poderosa força de criação. Seu realismo é de uma extraordinária capacidade evocativa… Mas a maestria do novelista se revela pela criação desse clima de força telúrica, realidade e presença da selva… Ali palpita e estremece um terror biológico e impera uma crueldade selvagem, incomparável e inflexível como a dura lei do triunfo do mais forte.”

 

Nem, de modo especial, a opinião de José Maria Salaverria (1873-1940), a respeito do romance, incluída nesse mesmo verbete, quando afirmou que

 

La vorágine: é o triunfo da árvore, a apoteose da mata impenetrável, a exaltação de uma Natureza incrivelmente vigorosa que cria e mata com assombrosa inexorabilidade. E frente a essa Natureza sublime e monstruosa, o homem refinado da cidade, o poeta José Eustasio Rivera, sente-se arrebatado por uma mescla de terror e entusiasmo, e escreve, afinal, o livro das matas virgens que em nossa literatura de língua espanhola estava ainda por ser escrito”.14

 

La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto, com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, forçados ao trabalho na condição de escravos, caboclos ou índios, se esforçaram ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes, de suas próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos civilizados que ali chegaram, fossem eles estrangeiros ou naturais desses países.

 

Quanto ao colombiano José Eustacio Rivera, autor da novela La Vorágine, publicada em 1924, cuja ação se desenvolve nas florestas do seu país de origem, nasceu em Neiva, (hoje denominada Rivera, em sua homenagem), a 19 de fevereiro de 1888, havendo falecido nos Estados Unidos, em 1928, em New York, antes de completar 40 anos.

Algo importante estabelece, porém, a diferença entre La Vorágine e A Selva.  Em A Selva, o seu autor, o português Ferreira de Castro, viveu, realmente, as situações de vida de Alberto, seu principal personagem; havendo sido, de fato, um seringueiro; enquanto José Eustasio River, o autor de La Vorágine, foi, tão somente, um viajante que colheu, tanto quanto lhe foi possível, informações a respeito das penosas circunstâncias que envolviam a vida dos seringueiros nas matas colombianas, quando as percorreu, na região de Guaínia, província, como registramos, situada nas proximidades do alto curso do rio Negro, afluente brasileiro do Amazonas, na condição de  integrante da Comissão do Governo colombiano encarregada dos trabalhos de demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela.

. Não chegaria La Vorágine a alcançar os mesmos índices de aprovação com que os críticos literários da época iriam receber, anos depois, A Selva, de Ferreira de Castro, publicada em 1930. Podendo isto ser comprovado pela pronta aparição, a partir da primeira edição deste romance, de sucessivas edições em línguas estrangeiras, numa seqüência que se iniciou com a da sua tradução, em 1933, para o alemão, para o inglês, com edições nos Estados Unidos, no Canadá e na Inglaterra; para o italiano, em 1934 e para o francês, em 1938; a essas havendo se  seguido  outras edções,  em  espanhol, romeno, checo, croata, holandês, sueco, norueguês,  búlgaro  e eslovaco, tornando-se  o romance de Ferreira de Castro uma das obras mais  traduzidas em todo o mundo.

La Vorágine foi igualmente traduzida para várias línguas: ‒ para o francês e o alemão, em 1934, para o inglês, em 1935, com edição em New York, para o italiano, em 1941, para o holandês, em 1948, e, a seguir, a partir dos anos 50, para o búlgaro, o checo, o esloveno, o  chinês,  o romeno e  o sueco; podendo com isso comprovar-se o interesse que despertou no mundo intelectual dessa época.  14

Lembramos, então, o fato de haver José Eustasio Rivera vivido somente 40 anos, nascido que foi em 1888, em San Mateo (hoje denominada Rivera, em sua homenagem), cidade  situada nas proximidades de Neiva, ao sul da Colômbia, havendo falecido em New York, em 1928.  Ainda  que  La Vorágine foi editada cinco vezes, entre 1924 e 1928 – a primeira vez, em novembro de 1924, na Colômbia, pela Editorial Cromos, a segunda e a terceira, em 1925 e 1926, ainda na Colômbia, pela Editorial Minerva; havendo a sua quarta edição sido, em verdade, uma reimpressão da terceira, desde que em pouco dela  difere.  Havendo, a seguir, surgido, em 1928 as edições de New York, publicadas pela Editorial Andes, aqui identificadas como sendo a quinta e a sexta, e, a seguir, a sétima, a oitava e a nona, em 1929; todas elas, contudo, a partir da sexta, devendo ser consideradas  reimpressões da quinta, a que foi revista e corrigida pelo próprio autor. 15 E o romance  continuou a ser traduzido, após a morte de José Eustasio Rivera, em 1928, em vários países do mundo, alcançando o número de suas edições em países estrangeiros, quase o mesmo número das de A Selva, havendo surgido em alemão e francês, em 1934; em inglês e russo, em 1935; e, nas décadas dos anos 40 e 50, em búlgaro, checo, esloveno, holandês, romeno, italiano e chinês; e, finalmente, como registramos, em português, no Brasil,  em 1982, ou  antes, talvez, sem que tenhamos tido a oportunidade de comprovar essa precedência.

Da edição de que nos valemos para a releitura do romance, publicada em 2006, sendo ela, provavelmente, a mais recente, consta, organizada por Montserrat Ordoñez, uma coletânea de textos expondo um considerável acervo de informações, tanto sobre José Eustasio Rivera, como acerca do seu romance; da qual destacamos a secção apresentada sob o título Historia de la crítica de ´La Vorágine`“, cuja leitura se torna extremamente útil  para conduzir-nos à compreensão da novela.

Nele, as conclusões dos seus autores indicam que

 

como pocas obras, La vorágine se presta a estudios interdisciplinares, a reflexiones sobre cultura e história,  a estudios sobre  la fragmentación, la incoherencia, el engaño y el sujeto descentrado, a las nuevas lecturas de contradicciones, anmbivalencias y ambiguedades, dentro de una perspectiva de valoración de la historia y de los relatos envolventes, y dentro de una persspectiva de la lectura como proceso de construcción de la obra.” 16

 

E convém registrar que ao redigir o texto “Ciclo nortista”, secção constante do capítulo “O regionalismo na ficção” em A Literatura no Brasil, obra monumental publicada sob a direção de Afrânio Coutinho, no Rio de Janeiro, pela José Olympio Editora e pela Universidade Federal Fluminense, em 1986, Peregrino Junior, autor, por sinal, de Pussanga, um dos mais belos livros de contos já escritos sobre a Amazônia, afirmou que José Eustasio Rivera, em La vorágine,

 

“traz-nos da paisagem e da vida amazônica um quadro belo e poderoso: aquela floresta agressiva, áspera, esmagadora: aquelas águas, numerosas e traiçoeiras; aqueles homens bárbaros e tristes, perdidos na selva sádica y virgen…  Ele também denuncia, como Ferreira de Castro, as torpezas e os crimes que a floresta esconde. O seu livro é um libelo, é protesto, é denúncia e grito de revolta contra o abandono do homem – aquele pária jogado à mercê dos aventureiros, exploradores e frios tiranos sem entranhas, criminosos e rapaces, que exploram os seringais da Amazônia.“ 17

 

Diferem, porém, de modo sensível, os dois romances, quanto ao modo como são considerados pelos seus autores, os indígenas habitantes da floresta; e se tanto em um como no outro, os índios aparecem como seres inferiores, quando são colocados em confronto com os civilizadores, em La Vorágine, José Eustasio Rivera ergue a sua voz para defendê-los; o que não acontece em A Selva, onde os parintintins – a única tribo mencionada em seu romance, por Ferreira de Castro, nos são mostrados como sendo  o terror dos seringueiros, apontados como possuidores de uma enorme crueldade, capazes de realizar festas macabras, durante as quais dançam em torno de varas,  no topo das quais se acham espetadas as cabeças decapitadas de seringueiros por eles atacados, tidos, portanto, pelo autor, como  uma ameaça constante  para esses seringueiros, que então  se mostravam com a disposição de  exterminá-los  à bala.18

La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto, com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, viram-se forçados ao trabalho, na condição de escravos, caboclos ou índios, esforçando-se, ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes, das próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos civilizados que ali chegaram, fossem eles estrangeiros ou naturais desses países.

La vorágine continuará, pois, a nosso ver, a destacar-se como  um dos pontos mais altos já alcançados pela literatura latino-americana, em favor da dignidade humana violentada e ultrajada pela civilização.

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1  MONTSERRAT ORDOÑEZ  (1941-2001), nascida em Barcelon de pai castelhano e mãe colombiana,  residiu na Colômbia durante3 quase toda a sua vida, ali tendo lecionado    na Universidad de Los Andes e na Universidad Nacional de Colômbia. Foi a editora da 6,ª edição de La Vorágine,de José Eustasio Rivera,  lançada,  em 2006, pelas Ediciones Cátedra Fernandez Ciudad, S.L., Espana.

2 MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “El narrador: uma voz rota” in RIVERA, José Eustasio. La Vorágine.

Fernandez Ciudad  S.L.: Cátedra. Letras Hispânicas, 2006. p. 21.

3 Idem, pp. 24/25.

4 Essa região foi mencionada pelo geógrafo francês Jean Gottmann em 1949, 25 anos depois da publicação de La vorágine, como ainda  sendo   – un pays vide d´hommes, onde viviam tribos indígenas  afastadas da civilização; estando, segundo ele,  a sua exploração e cartografia ainda a serem efetuadas. Cf. GOTTMANN, Jean. L´Amérique. Paris:Hachettre, 1949, p. 369); esclarecendo o autor deste trabalho  haver sido por ele i consultada a terceira edição dessa obra, a que foi   lançada em 1960.

5 MONTSERRAT Ordóñez.  Opus cit., pp. 250/251.

6 Idem, p. 297.

7 Idem, ´p.276.

8 Idem, p. 277.

9 MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “Los indígenas: brasas entre las espumas” e “En las caucherias: llamaradas crepitantes” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp. 38 e 48.

10 RIVERA, José Eustasio. Opus cit., p. 385.

11 RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp. 189/190.

12 Idem, pp. 288/289.

12  ROBLES, Federico Carlos Sainz de. Ensayo de un Diccionario de la Literatura. Tomo II.  Escritores españoles e hispanoamericanos”. Madrid: Bolaños y Aguilar  S.L.,1949, pp. 1398/1399.

13 Idem, pp. 288/289.

14 Apud ROBLES, Federico Carlos Sainz de. Opus cit., pp, 1398/1399 Informamos  não haver conseguido localizar  a Historia de la literatura hispanoamericana,  de autoria de Julio A. Leguizamón, citada no referido verbete,  nem a obra citada,  sem referência ao seu título, de José Maria Salaverria,  nelas encontrando-se -se  as menções  feitas por esses autores,  a La vorágine, registradas  por Federico Carlos  Sainz de Robles.

14 Cf. “Traducciones de ´La Vorágine`” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit., pp  67/68. Consta desse texto, referência a uma tradução brasileira, que teria sido feita por José César Borba, no Rio de Janeiro, em 1945, que não conseguimos localizar.  Logramos, contudo, encontrar uma  tradução da novela, se autoria de Reinaldo Guarany, editada no Rio de Janeiro,  em 1982, pela Ediora Francisco Alves, da qual não consta, no entanto, qualquer  indicação sobre a edição em espanhol, que lhe serviu de base.

15 Cf. “Historia editorial de La Vorágine” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit, ´pp. 14/16.

16   RIVERA, José Eustasio.. “Historia de la critica de ´La Vorágine` in Opus cit., pp. 16

 

17  Peregrino Junior. “Ciclo nortista” in “O regionalismo na ficção”. In COUTINHO, Afrânio (Diretor) A Literatura no Brasil.. Era realista. Era de transição. Vol 4. Rio de Janeiro: José Olympio Editora/Universidade Federal Fluminense. UFF-EDUFF, 1986, p. 246. E quanto à expressão sádica y virgen, por ele referida, ela aparece no texto La vorágine, na edição por nós utilizada, à página 297, no parágrafo que se inicia desse modo – Esta selva sádica y virgen procura al ánimo la alucinacón del peligro

18 Cf. CASTRO, Ferreira de. Opus cit., pp.114/115, 117/119, 101.  Cabendo notar que, em 1995, o antropólogo John Hemming, em seu livro Amazon Frontier: Defeat of the Brazilian Indians (Edição brasileira: HEMMING, John. Fronteira Amazônica: A derrota dos índios brasileiros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, pp. 372/373) confirmou que os índios parintintins, no curso do ciclo de exploração da borracha, foram temidos e que, portanto, “despertaram o medo e a fúria dos seringueiros”.

A construção do Brasil

ebEdivaldo Boaventura

          A Bahia é sumamente grata e mais ainda reconhecida pelo muito que o professor Jorge Couto tem realizado pelo Brasil. Professor e intérprete de História do Brasil, na Universidade de Lisboa, tanto a  sua dissertação de mestrado como a  tese de doutorado versam sobre o Colégio dos jesuítas do Recife. Publicações em congressos e em revistas internacionais incidem em temas e problemas brasileiros. Empossa-se, hoje, como sócio  correspondente  do Instituto Geográfico e Histórico da. Bahia Couto trabalhou como assistente do professor Joaquim Veríssimo Serrão, sócio honorário  do Instituto, notável historiador português, mestre de gerações, que o orientou no mestrado e  o convidou para colaborar no ensino da História do Brasil.

            Um dos temas que  Couto tem pesquisado é a obra dos jesuítas.Sobressaem, no Brasil colonial, as estratégias de implantação da Companhia de Jesus, os conflitos entre os inacianos e a coroa  por causa dos índios, as relações com a escravatura, as estratégias e os métodos de missionação no Brasil, a fundação das missões jesuítas no  Maranhão e no Grão-Pará e a participação do padre Antônio Vieira. As abordagens acerca dos inacianos são importantes na história européia moderna.

            No que tange a Vieira, imperador da língua portuguesa ( Fernando Pessoa), o professor Couto coordenou  a  bibliografia de 1998-2008. Entre os seus trabalhos, “Vieira e o domínio neerlandês da cidade do Salvador” deve ser  uma leitura dos sermões referentes  à tentativa dos flamengos em apossar-se da Bahia, principalmente o sermão de Santo Antônio de 1658.

            Com referência ainda aos jesuítas, a tomada de posse  do professor Couto coincide com o momento em que nos preparamos para assinalar  a segunda vinda dos inacianos à Bahia. Vejamos. Os jesuítas estiveram na Bahia  de 1549 a 1758, quando montaram um coerente sistema de ensino,  chegando até a ensinar Filosofia e Teologia. Sistema de ensino que foi desmantelado pela expulsão da ordem pelo marquês de Pombal. Em 1834, os jesuítas sofreram uma segunda extinção quando foram novamente expulsos de Portugal..Mais uma vez, a terceira,  com a República Portuguesa proclamada em 1910,  as ordens religiosas, incluindo a Companhia de Jesus, foram extintas e os jesuítas expulsos do território português.Pois bem, foram esses padres desterrados que, em 1911,  fundaram o Colégio Antônio Vieira, em 1911, em Salvador. Voltaram, assim, os inacianos à Bahia, de onde estiveram ausentes por mais de século e meio.

            Um destaque especial merece o livro de Couto “ A construção do Brasil: amerídios, portugueses e  africanos, do início do povoamento a finais de quinhentos.” Realmente, como mostra  o autor, tudo concorreu  para criarmos uma cultura portadora de uma profunda originalidade, tipificando um país  mestiço e tropical.

            Há de se destacar a vinda do professor Couto por mais de  mais de 30 vezes ao Brasil, inclusive para  pesquisas de Belém do  Pará até Santo Ângelo, em busca de documentos e bibliografia. Tem presença marcante em congressos e simpósios luso-brasileiros, reuniões  internacionais e colóquios  como o de historiografia luso-brasileira revisitada, promoção do Instituto de Estudos  Avançados da Universidade de São Paulo.

            Recentemente,  o professor Couto coordenou o Colóquio Internacional dos 200 anos da chegada  da família real ao Brasil, no centro Cultural da Fundação Calouste Gubenkian, em Paris. Deste colóquio saiu a publicação  “ Rio de Janeiro, capital do império português ( 1808-1821)”,com participação de Sylvia Athayde e minha,  a ser lançada  hoje, no Museu de Arte da Bahia, juntamente  com uma  outra obra importante  da Fundação Gubenkian:  “ Patrimônio de origem portuguesa no mundo: arquitetura e urbanismo- América do Sul.“

            Além de mestre  do ensino  da História do Brasil, o professor Couto participa de obras coletivas, enciclopédias e representações  junto aos Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Presidiu o Instituto Camões..Atualmente,dirige a Biblioteca Nacional de Portugal. Distinções e condecorações recebidas atestam os méritos do professor e de servidor da cultura.