Carlos Ribeiro na Metrópole TV

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Eleições na Academia

Em 25/11/2010 foi realizada eleição para a nova administração referente ao biênio 2011/2012. A saber:

Diretoria

Presidente – Aramis Ribeiro Costa
Vice-presidente – Waldir Freitas Oliveira
1o. Secretário – Cid Teixeira
2o. Secretário – Gláucia Lemos
1o. Tesoureiro – Consuelo Pondé de Sena
2o. Tesoureiro – Paulo Ormindo David de Azevedo
Diretor da Biblioteca – Dom Emanuel d’Able do Amaral
Diretor dos Arquivos – Joaci Góes
Diretor da Revista – Myriam Fraga
Diretor de Informática – Carlos Ribeiro

Conselho Editorial

Ruy Espinheira Filho
Evelina Hoisel
Aleilton Fonseca

Conselho de Contas e Patrimônio

João Falcão
Paulo Costa Lima
Geraldo Machado

Eleições na Academia

Em 25/11/2010 foi realizada eleição para a nova administração referente ao biênio 2011/2012. A saber:

Diretoria

Presidente – Aramis Ribeiro Costa
Vice-presidente – Waldir Freitas Oliveira
1o. Secretário – Cid Teixeira
2o. Secretário – Gláucia Lemos
1o. Tesoureiro – Consuelo Pondé de Sena
2o. Tesoureiro – Paulo Ormindo David de Azevedo
Diretor da Biblioteca – Dom Emanuel d’Able do Amaral
Diretor dos Arquivos – Joaci Góes
Diretor da Revista – Myriam Fraga
Diretor de Informática – Carlos Ribeiro

Conselho Editorial

Ruy Espinheira Filho
Evelina Hoisel
Aleilton Fonseca

Conselho de Contas e Patrimônio

João Falcão
Paulo Costa Lima
Geraldo Machado

Entre o Rio e lugar nenhum

poatualPaulo Ormindo de Azevedo
Para Marcelo e Flávia

Tenho um filho morando no Rio. Estive muitas vezes nessa cidade de passagem. Mas na ultima vez, com menos pressa, ajudei-o a encontrar um apartamento e me deixei seduzir pela cidade. Involuntariamente fiz paralelos com outras cidades em que vivi. Os monumentos do Rio não são as cúpulas das igrejas ou os torreões dos palácios de Roma, senão suas grandes rocas, o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Gávea. Nem a especulação imobiliária conseguiu modificar sua silhueta. Não perdeu também sua centralidade, como Salvador, ou foi transformada em um pacote turístico, como Cuzco.

As calçadas do seu centro estão cheias de funcionários, comerciários e transeuntes, que olham vitrines, entram em galerias e no final da tarde enchem as mesas dos calçadões e becos centrais curtindo a boemia dos encontros casuais, dos flerts e namoricos. Um modo de ser carioca que inspira cronistas e músicos há mais de um século, como Machado, João do Rio, Noel Rosa, Sergio Porto, Antonio Maria, Dolores…

Mas o Rio tem outros meandros e remansos. Como a sofisticada Ipanema e a Copacabana art-déco, onde desfila muita gente na praia durante o dia e no carpete de Burle Marx, á noite, bebericando e jantando em seus restaurantes ou simplesmente apascentando seus cães. Seus poetas são outros: Caymmi, João de Barros, Dick Farney, Lucio Alves, Drummond, Vinicius, Carlinhos Lyra, Menescal e Caetano que cantaram as garotas e meninos do Rio que gingam nas calçadas onduladas ou sobre o mar com a mesma graça.

Há também os morros romanceados por Orestes Barbosa, Herivelto Martins, Zé Keti e Agostinho dos Santos, onde se vivia pertinho do céu, antes que eles se transformassem na ante-sala do inferno de hoje. Não podemos negar a violência do Rio, que não é de hoje, a miséria das favelas e das periferias. Mas apesar disto, a cada ano seus passistas descem do morro e revivem por alguns minutos o esplendor da chegada da corte de Dom João VI ao Rio, para tudo acabar em cinzas na quarta feira.

Há ainda outro Rio que não foi cantado por ninguém, o da Urca, de Santa Tereza e do Jardim Botânico, quase provinciano, onde me projeto morando ali, talvez como fuga ao trabalho, aos encargos de família e à rotina em Salvador. Vi-me, de imediato, reformando algumas dessas casas para ele, já que não posso cortar amaras e ficar à deriva nesse Rio de tanta correnteza.

Esta é uma experiência diferente do projetar, do criar abstrato e asséptico. É o prazer de conversar com construtores e pedreiros que já morreram, reconstruir imagináveis vivencias de antigos moradores e modelar futuros prováveis. Reformar roupas velhas exige mais imaginação que cortar o tecido segundo o figurino de labirínticos debuxos. Mas tudo isto está condenado ao esquecimento.

Nossos filhos vivem hoje outra realidade, a do mundo desterritorializado, virtual e irracional que chamam pós-modernidade. Do estar em todos os lugares e não estar em nenhum. A geração de meu filho não tem garantia de emprego. Ele já foi mandado para Manaus e Fortaleza, hoje mora no Rio e por pouco não foi despachado para o Recife. As empresas para as quais eles trabalham podem despedi-los a qualquer momento e um novo emprego, se surgir, pode estar em Cuiabá ou Luanda. Entre o sonho de romper as amarras e o pesadelo de ter que vagar por dever de oficio, prefiro viajar e vivenciar outras cidades para voltar à minha terra. Mas quantos de nossos filhos podem fazer isto?

Desço do bondinho de Santa Tereza e pego um taxi. Vou conversando com a motorista. Ela me disse que a filha é casada com um belga e vive numa cidadezinha próxima de Londres, mas que fala com ela quando quer. Ela dormia no taxi, há uma semana, em frente a um hotel na Barra da Tijuca para pegar um professor muito cedo levá-lo a uma universidade e trazê-lo de volta à noite. Almoçava em qualquer boteco onde estivesse no meio-dia e afogava suas mágoas com um companheiro, talvez casado, nos motéis de São Conrado. Quando não tomava banho ali o fazia em uma sauna. Só vai para casa no final de semana, para lavar a roupa e molhar seus cacos. Perguntei se ela gostava dessa vida e ela responde: adoro, o que mais posso fazer?

Dom Helder Câmara: Pastor Bondoso e Amigo dos Pobres

dedaD. Emanuel  d´Able do Amaral

Este artigo foi publicado em 2009 no Jornal “A Tarde” de Salvador no Centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara. 

Estamos celebrando no próximo dia 7 de fevereiro o centenário de nascimento de Dom Hélder Pessoa Câmara. Ao lado de alguns dados históricos sobre sua vida quero tecer também algumas observações sobre sua pessoa, sobre a primeira vez que o encontrei e sobre alguns testemunhos de pessoas que conviveram com ele.

Dom Hélder é o “nordestino” por excelência. Nascido na cidade de Fortaleza, no Ceará, em 7 de fevereiro de 1909, foi o décimo primeiro filho de João Eduardo. Foi ordenado sacerdote em 15 de agosto de 1931 com apenas 22 anos, tendo autorização especial da Santa Sé.

Sempre teve uma preocupação com os pobres e nesse mesmo ano de sua ordenação fundou a Legião Cearense do Trabalho e em 1933 a Sindicalização Operária Feminina Católica que congregava as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. O interesse pelos pobres e excluídos da sociedade sempre marcou sua vida.

Dom Hélder foi ainda jovem para o Rio de Janeiro, com 27 anos, em 1936. Continuou no Rio sua atuação na área da educação e no ensino da religião. Sempre muito dinâmico e querido pelos padres e fiéis, foi nomeado bispo em 3 de março de 1952. Foi sagrado no dia 20 de abril do mesmo ano pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara.

Como jovem bispo continuou no Rio seu trabalho com os pobres e  excluídos. Fundou em 1956 a “Cruzada São Sebastião”, cuja finalidade era dar moradia decente aos favelados. Por essa iniciativa surgiram alguns conjuntos habitacionais na cidade. Em 1959 fundou o Banco da Providência, cuja atuação se desenvolveu no atendimento a pessoas que viviam em condições miseráveis.

Sendo um bispo dinâmico e zeloso teve uma profunda experiência da Igreja antes do Concílio Vaticano II. Participou ativamente da pastoral e dos diversos movimentos eclesiais, sendo  muito apreciado e querido por sacerdotes e fiéis.

Teve singular participação no Concílio Vaticano II e na fundação da CNBB e do CELAM. Foi um grande promotor do colegiado dos bispos e da renovação da Igreja Católica, fortalecendo a dimensão do compromisso social.

Sua atuação como bispo não passou despercebida pelos papas João XXIII e Paulo VI. Dom Hélder era um bispo de pequena estatura física, porém um gigante na fé, na cultura e na pregação da Palavra. Tinha um carisma todo especial. Possuía uma voz agradável e era profundamente expressivo. Quando pregava tinha belos gestos. Como o Papa Pio XII, gesticulava de forma ímpar. Parecia que estava abraçando as pessoas para falar aos seus ouvidos.

Certa vez, quando ainda adolescente, estava conversando com Dom Clemente Maria da Silva Nigra OSB, monge do Mosteiro de São Bento da Bahia e fundador do Museu de Arte Sacra de Salvador. Recordo-me que falávamos sobre Dom Hélder e num determinado momento Dom Clemente me confidenciou que o Papa Paulo VI quis nomear Dom Hélder para arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Tudo se encaminhava para isso. Porém havia um problema: o Cardeal Dom Augusto Álvaro da Silva, não  queria renunciar ao cargo e por isso Dom Hélder foi enviado para Olinda e Recife.

A Bahia perdeu e Pernambuco ganhou muito com a nomeação de Dom Hélder em 12 de março de 1964. Exerceu seu múnus como pastor até o dia 2 de abril de 1985. Na arquidiocese de Olinda e Recife instituiu um governo colegiado, organizou os setores pastorais, criou o Movimento Encontro de Irmãos, fundou o Banco da Providência, a Comissão de Justiça e Paz e fortaleceu as comunidades eclesiais de base. Em 1974 quando eu tinha 16 anos fui do Rio para passar férias com meus tios e primos em Recife e pude perceber como as comunidades católicas eram alegres e dinâmicas. Meus parentes eram católicos e todos o elogiavam e manifestavam grande admiração por seu pastor. Todos o apresentavam como um homem simples e profundamente solidário. Era muito querido não somente pelos católicos, mas também pelos intelectuais. Pude perceber quem era Dom Hélder: homem bom, simples, solidário, corajoso, culto, poeta e  “místico”.

A primeira fez que encontrei com Dom Hélder Câmara foi em janeiro de 1981, durante um encontro de beneditinos em Olinda. Num dos dias do encontro ele apareceu para uma visita e para nos falar como pastor. Realmente era um homem impressionante.  Com sua batina cor de creme  e sua pequena estatura parecia um pároco do interior. Isso por si mesmo já cativava. Em nosso país os mais idosos conhecem os antigos vigários que viviam em paróquias das cidadezinhas e que eram profundamente amados por seus paroquianos. Quando esse homem começou a falar, houve um profundo silencio e para nós ouvintes uma grande admiração. Como falava bem: a voz cativante e simpática, os gestos amplos dos braços, parecia que quisesse abraçar todos e os temas eram atuais naqueles dias: a participação dos afro-descendentes na vida da igreja e na vida monástica e as multinacionais que poderiam gerar pobreza e desigualdades sociais. Lembro-me que naquele dia falou sobre a produção de álcool no nordeste.

Pude perceber que os monges do mosteiro de Olinda também o admiravam e um irmão me havia dito que Dom Hélder era de uma grande solidariedade com o povo. Dizia que se houvesse uma catástrofe num dos bairros da capital, com vítimas, com certeza Dom Hélder estaria lá para consolar a população. Depois dessa minha viagem, como jovem monge, definitivamente passei a admirar Dom Hélder.

Ao longo dos anos fui acompanhando seu ministério e me encantei com seus escritos que constavam de orações e poesias.

Dom Hélder era um homem de profunda vida de oração. Acordava todos os dias às 02.00 e rezava até às 04.00 horas. No silêncio da madrugada rezava por aqueles que havia encontrado no dia anterior e pedia as bênçãos de Deus para o dia seguinte. Morava numa casinha atrás de uma igreja no centro de Recife. O episcopado brasileiro teve homens ilustres e dedicados ao longo de sua história. Dom Hélder foi um digno representante desse colégio episcopal. Termino este artigo com uma frase de Dom Hélder que mostra sua grande humildade: “Só as grandes humilhações nos levem ao recesso último de nós mesmos, lá onde as fontes interiores nos banham de luz, de alegria e de paz”.