Entre o Rio e lugar nenhum

poatualPaulo Ormindo de Azevedo
Para Marcelo e Flávia

Tenho um filho morando no Rio. Estive muitas vezes nessa cidade de passagem. Mas na ultima vez, com menos pressa, ajudei-o a encontrar um apartamento e me deixei seduzir pela cidade. Involuntariamente fiz paralelos com outras cidades em que vivi. Os monumentos do Rio não são as cúpulas das igrejas ou os torreões dos palácios de Roma, senão suas grandes rocas, o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Gávea. Nem a especulação imobiliária conseguiu modificar sua silhueta. Não perdeu também sua centralidade, como Salvador, ou foi transformada em um pacote turístico, como Cuzco.

As calçadas do seu centro estão cheias de funcionários, comerciários e transeuntes, que olham vitrines, entram em galerias e no final da tarde enchem as mesas dos calçadões e becos centrais curtindo a boemia dos encontros casuais, dos flerts e namoricos. Um modo de ser carioca que inspira cronistas e músicos há mais de um século, como Machado, João do Rio, Noel Rosa, Sergio Porto, Antonio Maria, Dolores…

Mas o Rio tem outros meandros e remansos. Como a sofisticada Ipanema e a Copacabana art-déco, onde desfila muita gente na praia durante o dia e no carpete de Burle Marx, á noite, bebericando e jantando em seus restaurantes ou simplesmente apascentando seus cães. Seus poetas são outros: Caymmi, João de Barros, Dick Farney, Lucio Alves, Drummond, Vinicius, Carlinhos Lyra, Menescal e Caetano que cantaram as garotas e meninos do Rio que gingam nas calçadas onduladas ou sobre o mar com a mesma graça.

Há também os morros romanceados por Orestes Barbosa, Herivelto Martins, Zé Keti e Agostinho dos Santos, onde se vivia pertinho do céu, antes que eles se transformassem na ante-sala do inferno de hoje. Não podemos negar a violência do Rio, que não é de hoje, a miséria das favelas e das periferias. Mas apesar disto, a cada ano seus passistas descem do morro e revivem por alguns minutos o esplendor da chegada da corte de Dom João VI ao Rio, para tudo acabar em cinzas na quarta feira.

Há ainda outro Rio que não foi cantado por ninguém, o da Urca, de Santa Tereza e do Jardim Botânico, quase provinciano, onde me projeto morando ali, talvez como fuga ao trabalho, aos encargos de família e à rotina em Salvador. Vi-me, de imediato, reformando algumas dessas casas para ele, já que não posso cortar amaras e ficar à deriva nesse Rio de tanta correnteza.

Esta é uma experiência diferente do projetar, do criar abstrato e asséptico. É o prazer de conversar com construtores e pedreiros que já morreram, reconstruir imagináveis vivencias de antigos moradores e modelar futuros prováveis. Reformar roupas velhas exige mais imaginação que cortar o tecido segundo o figurino de labirínticos debuxos. Mas tudo isto está condenado ao esquecimento.

Nossos filhos vivem hoje outra realidade, a do mundo desterritorializado, virtual e irracional que chamam pós-modernidade. Do estar em todos os lugares e não estar em nenhum. A geração de meu filho não tem garantia de emprego. Ele já foi mandado para Manaus e Fortaleza, hoje mora no Rio e por pouco não foi despachado para o Recife. As empresas para as quais eles trabalham podem despedi-los a qualquer momento e um novo emprego, se surgir, pode estar em Cuiabá ou Luanda. Entre o sonho de romper as amarras e o pesadelo de ter que vagar por dever de oficio, prefiro viajar e vivenciar outras cidades para voltar à minha terra. Mas quantos de nossos filhos podem fazer isto?

Desço do bondinho de Santa Tereza e pego um taxi. Vou conversando com a motorista. Ela me disse que a filha é casada com um belga e vive numa cidadezinha próxima de Londres, mas que fala com ela quando quer. Ela dormia no taxi, há uma semana, em frente a um hotel na Barra da Tijuca para pegar um professor muito cedo levá-lo a uma universidade e trazê-lo de volta à noite. Almoçava em qualquer boteco onde estivesse no meio-dia e afogava suas mágoas com um companheiro, talvez casado, nos motéis de São Conrado. Quando não tomava banho ali o fazia em uma sauna. Só vai para casa no final de semana, para lavar a roupa e molhar seus cacos. Perguntei se ela gostava dessa vida e ela responde: adoro, o que mais posso fazer?

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