A crônica de Luís Henrique

arcAramis Ribeiro Costa

Surgida nas páginas dos jornais como um leve e despretensioso comentário do cotidiano, a crônica, no Brasil, adquiriu categoria de gênero literário por dois motivos fundamentais. O primeiro deles, o indiscutível talento dos seus principais cultores, a começar dos pioneiros José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio, seguindo por diante numa trajetória luminosa de nomes nacionais como Humberto de Campos, Antônio Maria, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros, vários outros, sem contar os cronistas diários de vasto público cativo em seus estados, como, na Bahia, Adroaldo Ribeiro Costa e Giovanni Guimarães. Os autores das crônicas que apareciam ocupando os espaços ociosos das nossas folhas diárias eram também, muitas vezes, respeitados ficcionistas, ou poetas, ou ambos, embora houvesse, aqui e ali, como no caso de Rubem Braga, os apenas cronistas, mas cujo estilo seguro, onde não faltavam correção gramatical, clareza e fluência, bem como o valor intelectual e a respeitabilidade do nome, tornavam-nos merecedores do crédito do imenso público para o qual a crônica habitualmente é dirigida.

 

O outro motivo foi a própria circunstância da crônica diária, um espaço que o cronista era obrigado a ocupar com o seu texto, tivesse ou não assunto, quisesse ou não tratar das sugestões que lhe apresentava o cotidiano. Não tendo outro compromisso além do preenchimento daquele espaço e o entretenimento dos leitores, era natural que usasse e abusasse de talento e imaginação, para ampliar ou dar colorido a episódios ou circunstâncias da realidade, ainda que insignificantes ou não merecedores de um registro. Daí para os textos de cunho ficcional ou poético, de memória ou de registro de costumes, com todos os ademanes de estilo a que a melhor literatura tem direito, foi um passo. Verdade que, escrevendo diariamente, o mais comum era a crônica malcuidada e descartável, que morria ao cair da noite, com o próprio jornal onde se estampava. Mas, lá um dia, com maior ou menor frequência, a depender dos pendores e da capacidade do cronista, surgia a página merecedora do recorte e da releitura. A página que transcendia o cotidiano, ganhando estofo de perenidade. É natural que os cronistas não quisessem que produções como estas, não raras vezes pequenas obras-primas, ficassem para sempre esparsas e perdidas no jornal. E passaram a selecioná-las, publicando-as em livros. Já o primeiro dos nossos cronistas, José de Alencar, assim procedeu, reunindo seus melhores folhetins, que desta forma eram chamadas as primitivas crônicas, no volume Ao Correr da Pena. Assim terá nascido o gênero literário, genuinamente brasileiro, porque sem similar no mundo, e tão do agrado do público do Brasil: a crônica brasileira. Um gênero que, a despeito do seu evidente declínio, decorrente da diminuição dos espaços nos jornais impressos e da extinção do cronista diário, ainda respira na imprensa, agora semanalmente, na habilidade de malabaristas do assunto, alguns reproduzidos por diversos jornais impressos em vários estados brasileiros, o que leva a crer numa permanência de um público leitor fiel a esses escritos. Por outro lado, não se pode esquecer que a mídia eletrônica, em especial os blogs, possibilitou o surgimento de uma infinidade de cronistas, amadores ou não, diários ou não, talentosos ou não, que têm no velho gênero do jornal impresso a forma preferida de expressão no movimentado e rapidamente renovado mundo digital.

 

Com tal liberdade de ação, com tão diversificada roupagem, era natural que a crônica se confundisse com a memória, a anedota e o artigo, mas, sobretudo, com os gêneros literários que, didaticamente, passaram a lhe fazer fronteira: de um lado a poesia, do outro o conto. A semelhança com a poesia deu-se por meio dos textos poéticos e das crônicas em versos. Já a semelhança com o conto deveu-se ao limitado, porém evidente núcleo ficcional de grande parte delas, um enredo onde pode haver de tudo, a pura narrativa, a narrativa entremeada com o diálogo, ou o puro diálogo, ser linear ou remissivo, narrado na primeira ou na terceira pessoa, enfim, utilizando-se de todos os recursos técnicos e narrativos do conto, em espaço reduzido.

 

No abrir das comportas do movimento modernista, evidenciou-se, com maior, menor ou nenhum talento, na literatura brasileira, um tipo de conto sem enredo algum, que apenas exibe linguagem e estilo, com leves tinturas poéticas e pálidas incursões filosóficas, quando não extensos diálogos de circunstância que não levam nem personagens nem leitor a parte alguma, ou ainda meras descrições de paisagens, ambientes ou estados de espírito, formas literárias que, se dentro de certos limites de espaço, bem poderiam, do ponto de vista estrito do tratamento e do tema, ser enquadradas no gênero crônica. Mais tarde ganha inesperado relevo um conto pequeníssimo que os autores passaram a denominar de miniconto, mas que igualmente poderia ser chamado de crônica. A partir dessas formas, as semelhanças entre conto e crônica ficcional demolem as tênues fronteiras que os separam, a ponto de, em certas circunstâncias, não ser possível uma classificação.

 

É preciso salientar ainda que a crônica semanal do jornal impresso, possibilitando ao cronista um texto melhor cuidado, e a escolha de temas menos inspirados nas notícias e circunstâncias do dia, o que vale dizer, teoricamente mais perenes, fez com que a crônica perdesse um pouco aquela sugestão de conversa íntima com o leitor, ou aquela outra de estar o cronista numa roda de amigos a contar descontraidamente os seus casos. Isso favoreceu ainda mais a prática da crônica literária, a que até já nasce com a intenção de um futuro livro. A crônica formalizou-se.

 

No tipo específico da crônica que se confunde com o chamado miniconto, coloca-se Luís Henrique, nome com o qual assina as suas ficções o conceituado historiador Luís Henrique Dias Tavares. Luís Henrique, a despeito das longas interrupções nessa atividade, tornou-se um dos principais cronistas baianos no século XX. Podemos acompanhar a sua trajetória no gênero por meio das coletâneas publicadas em livro, em número de cinco.

 

A primeira delas foi intitulada Moça Sozinha na Sala, (São Paulo, Martins,1961), setenta e seis crônicas publicadas no Jornal da Bahia de setembro de 1958 a janeiro de 1961. São páginas curtas, algumas, como “Despedida”, extraordinariamente curtas, como se o cronista apenas precisasse de alguns poucos parágrafos para pintar o seu cromo. Ali estão, nas páginas de Moça Sozinha, as características que iriam acompanhá-lo ao longo da sua atividade no gênero: a contenção, o olhar atento às pessoas e às circunstâncias, a capacidade de fazer uma ótima crônica a partir de quase nada, como em “Composição em Inglês”, e, sobretudo, a forte inclinação para a crônica ficcional. Há páginas, como a primeira da coletânea, “Um Homem no Mar”, e “A Professora, o Médico e o Padre”, que bem poderiam tornar-se embriões ficcionais de futuros contos, ou futuras novelas. Isso, aliás, ocorreu à crônica “O Senhor Capitão”, núcleo inspirador da sua admirável novela de mesmo nome, uma das obras-primas da novelística baiana. Viajante contumaz, a primeira seleta revela, igualmente, outra vertente do gênero que acompanharia esse cronista em toda a sua trajetória: a crônica de viagem. Moça Sozinha na Sala mereceu o prêmio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras.

 

A essa coletânea segue Menino Pegando Passarinho, (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1964), dessa feita reunindo oitenta e cinco crônicas, também originalmente publicadas no Jornal da Bahia. Nessa seleta vê-se um Luís Henrique mais cronista que ficcionista, na acepção da crônica como registro do cotidiano. Naturalmente que as páginas de nítido colorido ficcional lá estão, como “Uma Caçada”, com linguagem, tratamento e estrutura de conto, porém há um número maior de crônicas que não sugerem ficção nem com ela se confundem. Como, por exemplo, “A Gata e os Gatos”, motivada por uma gata persa premiada em Paris; ou “A Mulher”, um puro devaneio que, embora sugerindo a fala de um personagem não identificado, apenas divaga sobre a mulher, suas qualidades e defeitos; ou “Dou o Rio ao Meu Bem”, um texto poético, quase lírico. É igualmente marcante a presença do eu-narrador, onde o cronista se põe, participativo e íntimo. Exemplo, a divertida “A Vez que Pousei na Casa do Burza”. Por fim registram-se, nessa seleta, diálogos, uma crônica epistolar e outra em versos. Ou seja: uma variedade maior de tipos de crônica, como se essa fosse uma fase de deliberada experimentação e utilização dos recursos do gênero.

 

O livro a seguir intitulou-se Homem Deitado na Rede, (Rio de Janeiro, Organização Simões, 1969), reunião de quarenta crônicas publicadas em A Tarde. Talvez esse seja, como conjunto, o mais encantador dos seus livros de crônicas. Como no anterior, aqui elas também são, em sua maioria, verdadeiramente crônicas, naquele sentido do registro do cotidiano acima referido. Mas igualmente não falta a crônica ficcional, a confundir-se com o atual miniconto. Encontramos, por exemplo, outra “História de Caçada”, essa melhor que a do livro anterior, e “Homem Bêbado de Amor” que, com um pouco mais de enredo, deixaria de ser uma bela crônica para transformar-se num ótimo conto. Sem dúvida o ficcionista está presente nesse livro, como nos demais, evidenciando-se até mesmo no simples esboço de um personagem, como “O Poeta Mastiga o Luar”, personagem tão interessante e tão rico que bem merecia a sua retomada, no contexto de uma ficção mais longa. Mas, na sua maioria, nessa coletânea como na outra, são crônicas que se esgotam e se completam como crônicas: saborosas e bem humoradas, como “A Mulher Parada”; poéticas, como “Conversa no Vento e na Areia”; intrigantes, como “O Rapaz que Olhava o Relógio”; ou descritivas com acento de melancolia, como “Mistério da Moça na Madrugada”. E, claro, a presença — quase indispensável nesse cronista —, das crônicas de viagem, marcadas, como também do seu feitio, pela valorização do pitoresco dos episódios e das circunstâncias, em detrimento da paisagem.

 

A coletânea seguinte, Almoço Posto na Mesa, (Salvador, Empresa Gráfica da Bahia, 1990), veio não apenas confirmar como definir a tendência forte do cronista para a crônica ficcional, a começar pela conjugação, num mesmo livro, de contos e crônicas, a saber, dez contos e vinte e quatro crônicas, com algumas páginas que bem poderiam pertencer a um ou outro gênero. O exemplo mais evidente é o texto-título, que abre o volume, uma fábula surrealista e metafórica escrita nos anos mais duros da ditadura militar, quando, na visão do autor, o Brasil almoçava a si próprio, autodestruindo-se. A página, dramática, irônica, terrível, tem a extensão de uma crônica, porém estofo e densidade de conto. Tanto que, entre tantos bons contos do autor, foi escolhida para figurar na antologia baiana de contos, O Conto em Vinte e Cinco Baianos, organizada por Cyro de Mattos, (Ilhéus, Editus, 2000). Mas as crônicas dessa coletânea em geral “contam”, narram algo, mesmo quando fortemente inclinadas para o lirismo, como “Outubro das Acácias”, e “Conversa para Despertar Mulher”.

 

Dessa forma, não surpreendeu o último desses livros, Sete Cães Derrubados, 59 crônicas e o conto O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel, (Salvador, EDUFBA / Casa De Palavras, 2000). É uma seleta da produção do cronista Luís Henrique no jornal A Tarde, às segundas-feiras, de 1985 a 1994. Já o conto teve a sua primeira publicação na Revista da Academia de Letras da Bahia nº 38.

 

O que vemos em Sete Cães Derrubados é o mesmo cronista das coletâneas anteriores, com a mesma capacidade de construir ótimas crônicas a partir de episódios ou circunstâncias insignificantes, com uma narrativa clara e fluente alicerçada numa linguagem correta, porém de fácil acesso ao grande público, atributos que lhe norteiam o estilo encantador que o gênero exige. Como nas outras coletâneas, representativas de outras fases da sua atividade de cronista, as suas crônicas fixam, descrevem, poetizam, recriam ficcionalmente, mas, sobretudo, contam algo: um caso, como “O Budião Azul”; uma cena cotidianamente repetida, seguida de uma impressão pessoal, como “A Moça das 7:45”; um encontro insólito, como “Uma Senhora Aparentada”; uma contemplação de paisagem, como “Penha”; uma aventura da infância, como “Campeonato de Futebol”. São fragmentos de vida, como a comovente “Pão-de-ló de Sinhá”; são instantâneos humanos em sua humana condição, como em “Procissão”; são registros de momentos pungentes e quase históricos, como “A Morte do Poeta”, onde o poeta Godofredo Filho despede-se da vida. E de repente o texto ficcionalmente melhor trabalhado, a confundir os que anseiam por classificações — crônica ou conto? Difícil dizer: “Miguel” é, acima de tudo, uma bela página.

 

O volume Sete Cães Derrubados apresenta uma produção madura e variada desse cronista que optou pela crônica ficcional, e que, em geral, nos conta algo. Um livro precioso encerrado com um conto que talvez seja o melhor do contista Luís Henrique, “O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel”. E que também demonstra algo curioso: se na crônica o cronista conta, no conto registra a cidade, as pessoas, os tipos, os costumes, como um cronista. O que é mais uma justificativa para andarem assim confundidos, na obra desse escritor maior da Bahia, as crônicas e os contos.

O exemplo de Israel

ebEdivaldo Boaventura

Chegando de um seminário sobre Israel e o Oriente Próximo, na Universidade Hebraica de Jerusalém, desejo compartilhar as impactantes impressões da visita a um país moderno, democrático, com notável desenvolvimento científico e tecnológico e muita determinação política.

Israel afirma-se pelo seu passado bíblico, de Abrahão a Ben Gurion já lá vão alguns séculos de existência como nação. Nação que se formou ao longo do tempo com patriarcas, juízes, reis, destaque-se o rei David, que fixou a capital em Jerusalém. Sofreu o cativeiro de assírios e babilônios e a dominação romana, bizantina, árabe, dos cruzados, dos otomanos, por fim, esteve sob mandato britânico. Com a volta do povo judeu à terra de Israel, foi proclamado o Estado, em 1948. Começaram, então, as lutas pela afirmação da independência com guerras e depois com tratados de paz.

O reconhecimento dos direitos históricos do povo judeu, pela ONU, há 60 anos, confirmou a sua tradição de cultura, máxime da música, a inclinação para a ciência e a tolerância religiosa pela convivência com diferentes crenças e povos, com os drusos, por exemplo.

A bíblica nação retornou ao seu território e tornou-se um Estado soberano e progressista.

País moderno que assegura uma política de bem-estar social, com infraestrutura de serviços básicos e sobretudo com segurança.

Anda-se livremente de dia e de noite sem receio de assalto, tanto na high tech cidade de Tel-Aviv como na antiga, bela e harmônica Jerusalém, especialmente no convidativo bairro árabe e no mercado judeu. Em nenhuma parte me senti temeroso. A modernidade iguala efetivamente os gêneros com as mulheres fazendo o serviço militar e gozando de uma real e visível equiparação.

O país moderno, ladeado por uma sociedade tradicional, encontra-se em uma encruzilhada de três continentes. Vendo-se o mapa, percebe-se logo a confluência da Europa, Ásia e da África, sim, com a turística cidade de Eilat no Mar Vermelho.

Com os palestinos surgem os desafios para a paz. Como resolvê-los? Há possibilidades e oportunidades de encaminhamentos na Cisjordânia (West Bank). Com a Faixa de Gaza a situação continua muito tensa. Não obstante a segurança, os foguetes lançados alcançam a cidade de Sderot. Crianças e adultos foram atingidos e mortos pelos Kassams e por outros mísseis. O governo israelense constrói abrigos nos pontos de ônibus, nos colégios, nos edifícios de apartamentos e nas casas.

O Estado de Israel constituiu-se um praticante da democracia desde a declaração de independência. Uma democracia parlamentar tem à frente o Knesset, o parlamento israelense de uma só câmara, com 120 deputados, que retirou nome e número da assembleia convocada por Esdras e Nehemias, no século V A.C. Orna-lhe o saguão o extraordinário painel do pintor judeu-russo Marc Chagall uma evocação ao profeta Isaías.

Pela democracia israelense se compreende o respeito e o acatamento às diversas culturas e religiões: árabes muçulmanos; beduínos, que constituem aproximadamente 10% da população muçulmana; árabes cristãos; drusos, comunidade muçulmana separada religiosa e culturalmente.

Em Jerusalém, há inúmeras denominações religiosas, como os judeus messiânicos, armênios, primeiro povo que aceitou o cristianismo, cristãos católicos e outros.

Tudo isso conduz, finalmente, ao singular desempenho científico israelense. Desde o começo, houve vontade de transformar a terra árida e infestada de doenças com aplicação da pesquisa científica e tecnológica.

A investigação agrícola, que remonta ao final do século XIX, é um sucesso com o gotejamento e outras técnicas. A pesquisa médica e especificamente em saúde alcançou a mais alta qualificação. As atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) são realizadas pelas sete universidades, por institutos, empresas civis e militares, nos setores prioritários das ciências naturais, engenharia, agricultura e medicina. O primeiro chip para computador foi desenvolvido pelo Dr. Dov Frohman, da equipe da Intel, nos anos 70. Israel é líder mundial em fibras óticas e na energia solar. Os produtos derivados de P&D constituem mais da metade da pauta de exportações industriais.

O instante que permanece

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

A crônica brasileira é um gênero multifacetado e, embora sem o mesmo vigor do século 20, mantém seu espaço nas páginas dos jornais e revistas.

A crônica é um gênero paradoxal. Experimente defini-la, com razões muito bem fundamentadas, que logo ela tortuosamente apresentará uma outra face que o surpreenderá – isto é, se você conseguir flagrá-la além dos estereótipos que lhe foram impostos. Como arte da desconversa, como bem definiu Davi Arrigucci, diz muito como quem não está dizendo nada; como gênero “menor”, contribuiu para descartar, de forma irreversível, antes dos modernistas, a linguagem empolada que vigorava na imprensa e na literatura do século 19, operando uma re-significação de códigos sociais até então inédita numa sociedade extremamente estratificada; como forma despretensiosa de expressão, sem intenções de durar, “filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa”, como disse Antonio Candido (1992), gerou muitas dentre as mais memoráveis páginas da prosa brasileira nos últimos cem anos. Não é curioso, por exemplo, que em sua “fusão admirável do útil e do fútil”, conforme a conhecida definição do folhetim feita por Machado de Assis, tenha dado, pela primeira vez em nossa história, voz aos excluídos; despertado leitores para a manipulação social; ampliado os significados dos fatos sociais para o leitor comum? Não é curioso que na sua condição de “um triste escriba das coisas miúdas”, entregue “a uma metafísica de quinquilharias”, o autor de Relíquias de casa velha, e tantos outros cronistas que o sucederam, tenham, por meio de uma linguagem facilmente compreensível, operado “milagres de simplificação e naturalidade”, como diz Antonio Candido? Não é curioso que os livros publicados em vida por um escritor do quilate de Rubem Braga continuem sendo reeditados ― somando-se a eles outros títulos com seleções de suas crônicas feitas após a sua morte ― enquanto tantos outros escritores (poetas, contistas, romancistas), pretensamente profundos e festejados pela crítica de seu tempo, tenham caído no ostracismo? Sem pretender ser Literatura (com “L” maiúsculo), e a despeito de já se ir distanciando, mais e mais, a “era de outro” da crônica brasileira, dos anos 50/60, ela certamente permanecerá, com seu jeito camaleônico, muito depois dos que a decretam “morta” terem desaparecido sem deixar vestígios da sua insensatez. Da crônica, pode-se continuar enumerando características, todas válidas, mas que logo são (auto)negadas – e não como meras exceções. Quem, por exemplo, lhe identifica as qualidades de “simpática” e “digestiva”, não conheceu o estilo virulento do mineiro Antonio Torres (não confundir com o homônimo baiano), muito popular no início do século 20 e que sempre esteve a anos-luz de qualquer forma de benevolência. Até mesmo o lirismo melancólico de Rubem Braga é apenas uma faceta de sua obra numerosa e multifacetada: o velho urso foi combativo e mordaz em suas diatribes contra o nazismo e o Estado Novo; isto mostram muitas de suas crônicas não publicadas em livro, que compõem o arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa, e as que foram escritas no período em que viveu no Rio Grande do Sul, reunidas por Carlos Reverbel no livro Uma fada no front (Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994).

Efemeridade x perenidade

Esta visão real, mas parcial, da crônica, como um texto leve voltado para o entretenimento se deve talvez ao fato de que apenas as crônicas menos coladas aos fatos do cotidiano tenham sido reunidas em livro e ganho maior perenidade. Ou o contrário: por terem maior perenidade, terem sido reunidas em livro. É importante perceber, portanto, que o gênero inclui textos contundentes, às vezes ácidos em suas denúncias de nossas mazelas sociais. Muitos deles compõem os dois primeiros livros de Rubem Braga ― O conde e o passarinho e O morro do isolamento. Mas, consciente ou inconscientemente, logo os cronistas (referimo-nos aos grandes, se é que esta palavra cabe aos que dedicam toda a vida ao tom menor da conversa de pé-de-ouvido) perceberam que os seus textos detêm um valor especial e raro nesses tempos de escriturários ferozes: o da humanização das nossas páginas, em livros ou periódicos. Muito mais do que apenas um gênero “palatável” em descompasso, hoje, com um tempo supostamente mais trágico (mas houve um período mais trágico na história da humanidade do que a primeira metade do século 20, quando ocorreram as duas guerras mundiais, uma delas, inclusive, coberta por Rubem Braga para o Diário Carioca?), a crônica brasileira tem sido uma trincheira contra a mercantilização da nossa cultura e dos seres, reduzidos a meros objetos. Nesse sentido, o cronista é como um homem solitário, talvez um Quixote que combate, não moinhos de vento, mas a reificação da natureza e dos seres.

Lúcidos, em suas condições de escritores-jornalistas, os cronistas levaram para as páginas dos jornais o tom informal, às vezes confessional, da conversa de pé-de-ouvido, temperado pela ironia e pelo humor.

Mas, quais são as características da crônica? Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que se trata não somente de um gênero híbrido, localizado na fronteira da literatura e do jornalismo, já que é publicada originalmente nas páginas de jornais e revistas, mas também múltiplo, que, como assinala Massaud Moisés (1995), “[…] pode assumir a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo, em torno de personagens reais e/ou imaginárias etc.”.

Um gênero que, na sua longa trajetória – desde que era usado para designar um relato de acontecimentos em ordem cronológica, num sentido meramente historiográfico, mas sem aprofundar-lhes as causas ou dar-lhes qualquer interpretação, até o perfil que se consolidou no Brasil, no século 20 –, deu um passo decisivo do registro histórico para o literário quando passou a valorizar mais as qualidades de estilo. Característica, aliás, que parece ter extraído do ensaio, conforme a noção original deste gênero, cunhada por Montaigne, no século 16. Essas mesmas características foram herdadas, nas literaturas de língua inglesa, pelo sketch ― “ensaio pessoal, informal, familiar”, conforme definição de Massaud Moisés e José Paulo Paes.

A crônica tem como elemento preponderante do gênero a adesão ao real. Isto é, àquele conceito de realidade cotidiana com o qual o leitor se depara diariamente e que se enquadra perfeitamente na definição de E. M. Forster, de um retrato da “vida através do tempo”. É quase certo que, ao abrir ao acaso qualquer livro do elenco de cronistas modernos no Brasil, o leitor se depare com esses elementos do cotidiano, ditos prosaicos. Um realismo no qual a vida cotidiana, com seus personagens, reais ou fictícios, é retratada no que tem de mais próximo ao dia-a-dia do homem comum. Ligada ao jornalismo, a crônica está presa, quase sempre, ao circunstancial. Nela, o autor pode carregar o leitor para suas microaventuras diárias, cujas fronteiras com a ficção são muitas vezes nebulosas, como nas crônicas/contos de Fernando Sabino. Ou, como Raquel de Queiroz, desvelar um mundo vasto de episódios, costumes e anedotas do sertão nordestino – e seu flagrante contraste com o mundo cosmopolita. Mas, de um modo ou de outro, lá estão, o homem e o meio, perfeitamente discerníveis em suas peculiaridades, em suas particularidades.

Agregação ou segregação

A crônica poderia estar ligada, para usar uma expressão de Antonio Candido, a uma “arte de agregação”, inspirada “principalmente na experiência coletiva” e que “visa a meios comunicativos acessíveis”, procurando, “neste sentido, incorporar-se a um sistema simbólico vigente, utilizando o que já está estabelecido como forma de expressão de determinada sociedade”. A ela se oporia uma “arte de segregação”, que “se preocupa em renovar o sistema simbólico, criar novos recursos expressivos e, para isto, dirige-se a um número ao menos inicialmente reduzido de receptores, que se destacam, enquanto tais, da sociedade”.

Daí se vê porque, numa perspectiva crítica em que, sobretudo a partir dos movimentos de vanguarda do início do século 20, privilegia-se a linguagem polissêmica, a crônica passa a ser considerada um gênero menor. O próprio Candido, no entanto, objeta que a agregação e a segregação “são aspectos constantes de toda obra”, e que a distinção pode ser válida observando-se a predominância de um ou outro tipo, no “jogo dialético entre a expressão grupal e as características individuais do artista”.

Tal definição, mesmo com todas as ressalvas, se aplicada à crônica, não daria conta da complexidade do gênero. Na obra de muitos importantes cronistas contemporâneos, a exemplo de Rubem Braga e José Carlos Oliveira, encontram-se exemplos em que o mundo real aparece transfigurado pela subjetividade – marcada, como disse Candido, pela “relação arbitrária e deformante que o trabalho artístico estabelece com a realidade.” É quando, embora sem abdicar de sua transparência e limpidez, o “quinhão da fantasia” se sobrepõe ao prosaico.

Tal prevalência é a marca principal da crônica lírica – e é nela que o gênero alcança, talvez, sua culminância. É quando a noção de realismo, em vez de ser descartada, ganha novos significados e se enriquece. Isso ocorre na obra de diversos cronistas contemporâneos, como Paulo Mendes Campos, como o citado José Carlos Oliveira, ou o baiano Ruy Espinheira Filho de Sob o último sol de fevereiro – mas é no capixaba Rubem Braga que a poiese e a mimese fazem uma aliança singular no sentido de mostrar a realidade que transparece, num determinado tempo e lugar, por trás de suas máscaras.

Máscaras da objetividade

Pode-se observar, portanto, que a abordagem de elementos “comuns” do cotidiano de uma grande cidade – uma das marcas principais da crônica brasileira desde o final do século 19 – não obedece, apesar de sua vinculação ao jornalismo, a uma abordagem meramente referencial. Na crônica, ao contrário da reportagem factual, sua vizinha na coluna ao lado, a realidade chega ao leitor transfigurada pelo olhar do cronista, que, por meio do uso de metáforas e metonímias, muitas vezes negadas aos jornalistas do nosso tempo, procura romper os limites de uma referencialidade meramente circunstancial, para sondar, como poeta, o cerne da realidade multifacetada da cidade desumanizada.

Assim, ao falar, na primeira crônica, que abre seu primeiro livro, do pobre menino que nasceu em São Paulo com o coração fora do peito, “como se fora um coração postiço”, Rubem Braga está falando do processo de desumanização da cidade, onde os corações, ao contrário do coração do menino, escondem-se sob tantos paletós, coletes, camisas, ossos e carnes – e ao fim dos quais, muitas vezes, “não tem coração nenhum”. Diz ele:

Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança […] (BRAGA, 1961, p. 11)

 

A crônica mostra o menino que sofre por ter o coração fora do peito; certo Dr. Mereje, voz autorizada do médico-cientista, que diagnostica o “mal”, no contexto prosaico das ocorrências médicas, e o cronista/poeta, que, diante da realidade crua, da qual toma conhecimento por meio de uma notícia de jornal, busca um sentido, faz uma releitura, opera uma re-significação que re-humaniza o real. Ou, para ser mais preciso, o olhar sobre o real, que, entretanto, permanece enigmático, como a esfinge do Édipo. Mas sem nunca ser decifrado.

A própria moldura do drama – a cidade – é descrita de uma forma que a expressividade se impõe sobre a referencialidade, e tudo se casa no fim último de revelar o sentido, oculto, sob a aparência dos fatos, do mundo como se apresenta aos sentidos. Diz ele:

Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais da esquina – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos – borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada. (BRAGA, 1961, p. 10)

 

É, portanto, ao tirar a máscara da objetividade que o cronista consegue expressar, da forma mais eficaz, a realidade das coisas – realidade que não se esgota na descrição física de objetos e cenas, nem na ilusória pretensão de mostrar a vida “como ela é”. Neste ponto, precisamente, devemos colocar em cheque a idéia de que o cronista se coloca diante da realidade e a comenta, quase sempre com um tom benevolente. O cronista moderno, tomando aqui como exemplo o velho Braga, traz no bojo de seu tom “ameno” de conversa de pé-de-ouvido uma experiência vital e uma consciência crítica.

Assim, quando diz que “há uma esperança de bonde em todos os postes”, que há “lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou” e que “o olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz”, Braga está identificando uma ausência que só pode ser superada por um olhar que se acende, como diria Exupéry, em Terra dos homens (um dos livros preferidos de Braga, que o traduziu para o português), como luzes perdidas na planície, marcando, “no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência”.

O olhar lírico do cronista é mais eficaz, no desvelamento de “realidades” obscurecidas, quando se associa com a ironia – uma ironia fina que varre da complexa trama de discursos dominantes suas falsas verdades, e meias-verdades, possibilitando-nos divisar, por trás das máscaras, a realidade, ou uma realidade cuja transparência chega a nos surpreender. Desse ponto de vista, a escrita do cronista não se limita ao registro do real, e sim uma modificação da forma como o percebemos.

A crônica brasileira contemporânea é, portanto, um gênero multifacetado, que vai da prosa poética de um Paulo Mendes Campos até o comentário direto de questões políticas e comportamentais da atualidade, como a exerce, por exemplo, João Ubaldo Ribeiro. Em Fernando Sabino aproxima-se, muitas vezes, do conto, com personagens ficcionais, como em O homem nu, e, de forma atípica, em Clarice Lispector, verticaliza-se numa experiência existencial, num experimento de linguagem, ou ainda em entrevistas com personalidades públicas, tratadas literariamente.

Trata-se de um gênero complexo em sua aparente simplicidade – perfeito, portanto, para uma determinada forma de sondagem do real que em nossos autores alcança momentos de alto requinte na exploração das possibilidades criativas do nosso idioma. Em termos de suas possibilidades expressivas, uma boa crônica vale tanto quanto um bom texto em qualquer outro gênero. E, para finalizar, podemos dizer como Clarice Lispector: “Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério”.

 

REFERÊNCIAS
ARRIGUCCI  JR., Davi. Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
BRAGA, Rubem. O conde e o passarinho e morro do isolamento. Rio de Janeiro: Sabiá, 1961.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1973.
______.  A vida ao rés-do-chão. In: A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. São Paulo: Editora da Unicamp / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.
COSTA, Cristiane. Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904 – 2004. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
_____ ; PAES, José Paulo. Pequeno dicionário de literatura brasileira. 2. ed. Ver. e ampl. São Paulo: Cultrix, 1980.

PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil. Salvador: Calandra, 2004.

JULY – Jornal A Tarde de 07/01/2011

Coluna de July

Leonardo Cardoso de Moraes, que trabalha na Academia de Letras da Bahia, é o responsável pela Campanha Nacional Doe Um Livro, para receber doações na sede da Academia, em Nazaré.

A ALB é a única academia de letras no Brasil a apoiar essa ideia que, este ano, tem a cantora Maria Rita como madrinha, pretendendo arrecadar 300 mil livros em todo o Brasil e que serão doados a escolas e bibliotecas carentes. A nossa Academia, presidida pelo professor Edivaldo Boaventura, espera contar com o apoio de todos que queiram doar aquele livro esquecido na estante.