A crônica de Luís Henrique

arcAramis Ribeiro Costa

Surgida nas páginas dos jornais como um leve e despretensioso comentário do cotidiano, a crônica, no Brasil, adquiriu categoria de gênero literário por dois motivos fundamentais. O primeiro deles, o indiscutível talento dos seus principais cultores, a começar dos pioneiros José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio, seguindo por diante numa trajetória luminosa de nomes nacionais como Humberto de Campos, Antônio Maria, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros, vários outros, sem contar os cronistas diários de vasto público cativo em seus estados, como, na Bahia, Adroaldo Ribeiro Costa e Giovanni Guimarães. Os autores das crônicas que apareciam ocupando os espaços ociosos das nossas folhas diárias eram também, muitas vezes, respeitados ficcionistas, ou poetas, ou ambos, embora houvesse, aqui e ali, como no caso de Rubem Braga, os apenas cronistas, mas cujo estilo seguro, onde não faltavam correção gramatical, clareza e fluência, bem como o valor intelectual e a respeitabilidade do nome, tornavam-nos merecedores do crédito do imenso público para o qual a crônica habitualmente é dirigida.

 

O outro motivo foi a própria circunstância da crônica diária, um espaço que o cronista era obrigado a ocupar com o seu texto, tivesse ou não assunto, quisesse ou não tratar das sugestões que lhe apresentava o cotidiano. Não tendo outro compromisso além do preenchimento daquele espaço e o entretenimento dos leitores, era natural que usasse e abusasse de talento e imaginação, para ampliar ou dar colorido a episódios ou circunstâncias da realidade, ainda que insignificantes ou não merecedores de um registro. Daí para os textos de cunho ficcional ou poético, de memória ou de registro de costumes, com todos os ademanes de estilo a que a melhor literatura tem direito, foi um passo. Verdade que, escrevendo diariamente, o mais comum era a crônica malcuidada e descartável, que morria ao cair da noite, com o próprio jornal onde se estampava. Mas, lá um dia, com maior ou menor frequência, a depender dos pendores e da capacidade do cronista, surgia a página merecedora do recorte e da releitura. A página que transcendia o cotidiano, ganhando estofo de perenidade. É natural que os cronistas não quisessem que produções como estas, não raras vezes pequenas obras-primas, ficassem para sempre esparsas e perdidas no jornal. E passaram a selecioná-las, publicando-as em livros. Já o primeiro dos nossos cronistas, José de Alencar, assim procedeu, reunindo seus melhores folhetins, que desta forma eram chamadas as primitivas crônicas, no volume Ao Correr da Pena. Assim terá nascido o gênero literário, genuinamente brasileiro, porque sem similar no mundo, e tão do agrado do público do Brasil: a crônica brasileira. Um gênero que, a despeito do seu evidente declínio, decorrente da diminuição dos espaços nos jornais impressos e da extinção do cronista diário, ainda respira na imprensa, agora semanalmente, na habilidade de malabaristas do assunto, alguns reproduzidos por diversos jornais impressos em vários estados brasileiros, o que leva a crer numa permanência de um público leitor fiel a esses escritos. Por outro lado, não se pode esquecer que a mídia eletrônica, em especial os blogs, possibilitou o surgimento de uma infinidade de cronistas, amadores ou não, diários ou não, talentosos ou não, que têm no velho gênero do jornal impresso a forma preferida de expressão no movimentado e rapidamente renovado mundo digital.

 

Com tal liberdade de ação, com tão diversificada roupagem, era natural que a crônica se confundisse com a memória, a anedota e o artigo, mas, sobretudo, com os gêneros literários que, didaticamente, passaram a lhe fazer fronteira: de um lado a poesia, do outro o conto. A semelhança com a poesia deu-se por meio dos textos poéticos e das crônicas em versos. Já a semelhança com o conto deveu-se ao limitado, porém evidente núcleo ficcional de grande parte delas, um enredo onde pode haver de tudo, a pura narrativa, a narrativa entremeada com o diálogo, ou o puro diálogo, ser linear ou remissivo, narrado na primeira ou na terceira pessoa, enfim, utilizando-se de todos os recursos técnicos e narrativos do conto, em espaço reduzido.

 

No abrir das comportas do movimento modernista, evidenciou-se, com maior, menor ou nenhum talento, na literatura brasileira, um tipo de conto sem enredo algum, que apenas exibe linguagem e estilo, com leves tinturas poéticas e pálidas incursões filosóficas, quando não extensos diálogos de circunstância que não levam nem personagens nem leitor a parte alguma, ou ainda meras descrições de paisagens, ambientes ou estados de espírito, formas literárias que, se dentro de certos limites de espaço, bem poderiam, do ponto de vista estrito do tratamento e do tema, ser enquadradas no gênero crônica. Mais tarde ganha inesperado relevo um conto pequeníssimo que os autores passaram a denominar de miniconto, mas que igualmente poderia ser chamado de crônica. A partir dessas formas, as semelhanças entre conto e crônica ficcional demolem as tênues fronteiras que os separam, a ponto de, em certas circunstâncias, não ser possível uma classificação.

 

É preciso salientar ainda que a crônica semanal do jornal impresso, possibilitando ao cronista um texto melhor cuidado, e a escolha de temas menos inspirados nas notícias e circunstâncias do dia, o que vale dizer, teoricamente mais perenes, fez com que a crônica perdesse um pouco aquela sugestão de conversa íntima com o leitor, ou aquela outra de estar o cronista numa roda de amigos a contar descontraidamente os seus casos. Isso favoreceu ainda mais a prática da crônica literária, a que até já nasce com a intenção de um futuro livro. A crônica formalizou-se.

 

No tipo específico da crônica que se confunde com o chamado miniconto, coloca-se Luís Henrique, nome com o qual assina as suas ficções o conceituado historiador Luís Henrique Dias Tavares. Luís Henrique, a despeito das longas interrupções nessa atividade, tornou-se um dos principais cronistas baianos no século XX. Podemos acompanhar a sua trajetória no gênero por meio das coletâneas publicadas em livro, em número de cinco.

 

A primeira delas foi intitulada Moça Sozinha na Sala, (São Paulo, Martins,1961), setenta e seis crônicas publicadas no Jornal da Bahia de setembro de 1958 a janeiro de 1961. São páginas curtas, algumas, como “Despedida”, extraordinariamente curtas, como se o cronista apenas precisasse de alguns poucos parágrafos para pintar o seu cromo. Ali estão, nas páginas de Moça Sozinha, as características que iriam acompanhá-lo ao longo da sua atividade no gênero: a contenção, o olhar atento às pessoas e às circunstâncias, a capacidade de fazer uma ótima crônica a partir de quase nada, como em “Composição em Inglês”, e, sobretudo, a forte inclinação para a crônica ficcional. Há páginas, como a primeira da coletânea, “Um Homem no Mar”, e “A Professora, o Médico e o Padre”, que bem poderiam tornar-se embriões ficcionais de futuros contos, ou futuras novelas. Isso, aliás, ocorreu à crônica “O Senhor Capitão”, núcleo inspirador da sua admirável novela de mesmo nome, uma das obras-primas da novelística baiana. Viajante contumaz, a primeira seleta revela, igualmente, outra vertente do gênero que acompanharia esse cronista em toda a sua trajetória: a crônica de viagem. Moça Sozinha na Sala mereceu o prêmio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras.

 

A essa coletânea segue Menino Pegando Passarinho, (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1964), dessa feita reunindo oitenta e cinco crônicas, também originalmente publicadas no Jornal da Bahia. Nessa seleta vê-se um Luís Henrique mais cronista que ficcionista, na acepção da crônica como registro do cotidiano. Naturalmente que as páginas de nítido colorido ficcional lá estão, como “Uma Caçada”, com linguagem, tratamento e estrutura de conto, porém há um número maior de crônicas que não sugerem ficção nem com ela se confundem. Como, por exemplo, “A Gata e os Gatos”, motivada por uma gata persa premiada em Paris; ou “A Mulher”, um puro devaneio que, embora sugerindo a fala de um personagem não identificado, apenas divaga sobre a mulher, suas qualidades e defeitos; ou “Dou o Rio ao Meu Bem”, um texto poético, quase lírico. É igualmente marcante a presença do eu-narrador, onde o cronista se põe, participativo e íntimo. Exemplo, a divertida “A Vez que Pousei na Casa do Burza”. Por fim registram-se, nessa seleta, diálogos, uma crônica epistolar e outra em versos. Ou seja: uma variedade maior de tipos de crônica, como se essa fosse uma fase de deliberada experimentação e utilização dos recursos do gênero.

 

O livro a seguir intitulou-se Homem Deitado na Rede, (Rio de Janeiro, Organização Simões, 1969), reunião de quarenta crônicas publicadas em A Tarde. Talvez esse seja, como conjunto, o mais encantador dos seus livros de crônicas. Como no anterior, aqui elas também são, em sua maioria, verdadeiramente crônicas, naquele sentido do registro do cotidiano acima referido. Mas igualmente não falta a crônica ficcional, a confundir-se com o atual miniconto. Encontramos, por exemplo, outra “História de Caçada”, essa melhor que a do livro anterior, e “Homem Bêbado de Amor” que, com um pouco mais de enredo, deixaria de ser uma bela crônica para transformar-se num ótimo conto. Sem dúvida o ficcionista está presente nesse livro, como nos demais, evidenciando-se até mesmo no simples esboço de um personagem, como “O Poeta Mastiga o Luar”, personagem tão interessante e tão rico que bem merecia a sua retomada, no contexto de uma ficção mais longa. Mas, na sua maioria, nessa coletânea como na outra, são crônicas que se esgotam e se completam como crônicas: saborosas e bem humoradas, como “A Mulher Parada”; poéticas, como “Conversa no Vento e na Areia”; intrigantes, como “O Rapaz que Olhava o Relógio”; ou descritivas com acento de melancolia, como “Mistério da Moça na Madrugada”. E, claro, a presença — quase indispensável nesse cronista —, das crônicas de viagem, marcadas, como também do seu feitio, pela valorização do pitoresco dos episódios e das circunstâncias, em detrimento da paisagem.

 

A coletânea seguinte, Almoço Posto na Mesa, (Salvador, Empresa Gráfica da Bahia, 1990), veio não apenas confirmar como definir a tendência forte do cronista para a crônica ficcional, a começar pela conjugação, num mesmo livro, de contos e crônicas, a saber, dez contos e vinte e quatro crônicas, com algumas páginas que bem poderiam pertencer a um ou outro gênero. O exemplo mais evidente é o texto-título, que abre o volume, uma fábula surrealista e metafórica escrita nos anos mais duros da ditadura militar, quando, na visão do autor, o Brasil almoçava a si próprio, autodestruindo-se. A página, dramática, irônica, terrível, tem a extensão de uma crônica, porém estofo e densidade de conto. Tanto que, entre tantos bons contos do autor, foi escolhida para figurar na antologia baiana de contos, O Conto em Vinte e Cinco Baianos, organizada por Cyro de Mattos, (Ilhéus, Editus, 2000). Mas as crônicas dessa coletânea em geral “contam”, narram algo, mesmo quando fortemente inclinadas para o lirismo, como “Outubro das Acácias”, e “Conversa para Despertar Mulher”.

 

Dessa forma, não surpreendeu o último desses livros, Sete Cães Derrubados, 59 crônicas e o conto O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel, (Salvador, EDUFBA / Casa De Palavras, 2000). É uma seleta da produção do cronista Luís Henrique no jornal A Tarde, às segundas-feiras, de 1985 a 1994. Já o conto teve a sua primeira publicação na Revista da Academia de Letras da Bahia nº 38.

 

O que vemos em Sete Cães Derrubados é o mesmo cronista das coletâneas anteriores, com a mesma capacidade de construir ótimas crônicas a partir de episódios ou circunstâncias insignificantes, com uma narrativa clara e fluente alicerçada numa linguagem correta, porém de fácil acesso ao grande público, atributos que lhe norteiam o estilo encantador que o gênero exige. Como nas outras coletâneas, representativas de outras fases da sua atividade de cronista, as suas crônicas fixam, descrevem, poetizam, recriam ficcionalmente, mas, sobretudo, contam algo: um caso, como “O Budião Azul”; uma cena cotidianamente repetida, seguida de uma impressão pessoal, como “A Moça das 7:45”; um encontro insólito, como “Uma Senhora Aparentada”; uma contemplação de paisagem, como “Penha”; uma aventura da infância, como “Campeonato de Futebol”. São fragmentos de vida, como a comovente “Pão-de-ló de Sinhá”; são instantâneos humanos em sua humana condição, como em “Procissão”; são registros de momentos pungentes e quase históricos, como “A Morte do Poeta”, onde o poeta Godofredo Filho despede-se da vida. E de repente o texto ficcionalmente melhor trabalhado, a confundir os que anseiam por classificações — crônica ou conto? Difícil dizer: “Miguel” é, acima de tudo, uma bela página.

 

O volume Sete Cães Derrubados apresenta uma produção madura e variada desse cronista que optou pela crônica ficcional, e que, em geral, nos conta algo. Um livro precioso encerrado com um conto que talvez seja o melhor do contista Luís Henrique, “O Misterioso Caso da Vida e da Morte do Comendador Borel”. E que também demonstra algo curioso: se na crônica o cronista conta, no conto registra a cidade, as pessoas, os tipos, os costumes, como um cronista. O que é mais uma justificativa para andarem assim confundidos, na obra desse escritor maior da Bahia, as crônicas e os contos.

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