Riqueza sob escombros

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

Na passagem dos 90 anos da revolução bolchevique, ocorrida em outubro de 1917, é oportuno lembrar o impacto que esse evento viria a ter, nos setenta anos seguintes, sobre a cultura da Rússia e de todos os demais países que viriam a formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Lembrar, com assombro, não apenas a devastação verificada sobre inumeráveis obras que não se adequaram ao modelo oficial, do Realismo Socialista, imposto a partir dos anos 30, como a capacidade delas sobreviverem a todas as tentativas de suprimi-las.

Ocultada e desconhecida do Ocidente durante grande parte do século 20, a riqueza cultural e artística da extinta URSS só viria à luz, a partir de meados dos anos 80, após a Glasnost (transparência) promovida no governo de Mikhail Gorbatchev. No Brasil, o processo desse estado em que tudo é anunciado, em que nada pode ser escondido, foi registrado, detalhadamente, no livro Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética (Companhia das Letras, 2005), de Boris Schnaiderman, que merece ser revisitado.

Schnaiderman coloca em xeque, nesse livro, uma idéia há muito estabelecida: a de que a literatura russa, no século 19, é incomparavelmente mais rica do que a que foi produzida, no século 20, após a revolução bolchevique. Ao se lançar à exaustiva tarefa de contar “uma história que não foi totalmente narrada”, ele mostra como, apesar de não ter surgido, desde a revolução de 1917, nenhum nome da estatura de um Tolstói ou de um Dostoiévski, não há como negar o vigor extraordinário de escritores e artistas cujas obras, apesar das mais severas restrições, subsistiram e vieram à luz.

Nas 306 páginas de Os escombros e o mito, o leitor vê renascer, através de arquivos do KGB e da burocracia russa, uma infindável seqüência de obras e nomes de poetas, romancistas, contistas, dramaturgos, filósofos, historiadores, cineastas, teólogos, artistas plásticos e fotógrafos, cujas vidas foram aniquiladas, seja pela morte física (na prisão, no degredo, nas execuções sumárias), seja na “morte civil”, quando “um artista criador era eliminado da vida cultural, suas obras cessavam de circular, seu nome desaparecia de dicionários biográficos e enciclopédias, tornava-se perigoso proferi-lo”.

Primeiros sinais
Inicialmente cético em relação à Glasnost, Schnaiderman percebeu, por volta de 1987-88, em viagens à URSS e à Alemanha, que estava se criando uma nova atmosfera naquele país. E que “o colosso, aparentemente imobilizado, estava de fato se mexendo”. A Glasnost, diz ele, “foi acompanhada de um abrir de gavetas que trouxe à luz numerosos materiais, e estes obrigam a uma revisão de todas as nossas noções sobre a cultura russa a partir de 1917”.

E prossegue:

Muitas obras importantes se perderam, pois, quando se abriram os arquivos do KGB, verificou-se que muitos manuscritos confiscados com a prisão de seus autores parecem ter sido simplesmente eliminados. (…) Além disso, nas reminiscências dos contemporâneos, surge com freqüência a lembrança da queima de papéis pelos que estavam aguardando na prisão. Mas, assim mesmo, parece prodigioso que tenha sobrado tanta coisa. Muita gente arriscou a vida guardando escritos dos que eram perseguidos, e deste modo podemos dispor de materiais de cuja existência nem suspeitávamos.

Grande parte do trabalho de apresentação desses arquivos foi realizada por jornais e revistas de tendência “liberal”, a exemplo da Ogoniók e da Litieratúrnaia Gazeta. Mas também pelo rádio, a televisão e até por folhetos xerocados e distribuídos na rua. A imprensa tornou-se, de repente, veículo de recuperação da memória cultural com “lances verdadeiramente patéticos”, como diz Schnaiderman, referindo-se a uma longa carta do jornalista Boris Iefimov, na qual este aborda a revisão do processo e sucessiva reabilitação de N. I. Bukhárin, A. I. Rikov e outros condenados em 1938 do “bloco anti-soviético trotskista de direita”.

Diz Iefimov:

(…) Minha geração conhece e lembra bem os pecados voluntários e involuntários. Eu apresento aqui, pessoalmente, aos próximos de Nicolai Ivânovitch Bukhárin os meus pêsames mais sinceros e profundos. Como eu não entenderia o seu sofrimento? Não carreguei eu acaso, por muitos anos, o estigma de “irmão de um inimigo do povo”?

Eu sei: o que acabo de escrever será interpretado por diferentes pessoas de diferentes maneiras. Uns vão compreender, outros vão recebê-lo de ânimo sombrio ou com maldade. Mas, qualquer que seja a leitura que se faça, penso que o mais importante, apesar de tudo, está em que foi restabelecida finalmente a justiça, que triunfou a verdade e que a todos os caluniados e supliciados foi devolvido um nome honesto. Sim, isto provavelmente é o mais importante.

Grande parte das prisões e mortes de intelectuais na URSS se deu nos anos seguintes a 1934, quando ocorreu o I Congresso dos Escritores Soviéticos e se colocou o Realismo Socialista como modelo na literatura e nas artes, propugnando um positivismo heróico e triunfalista, perante o qual toda forma de expressão que não se enquadrasse nele, a exemplo do experimentalismo e das vanguardas, era colocada imediatamente sob suspeita e duramente reprimida.

“Em agosto de 1946”, diz Schnaiderman, “as revistas de Leningrado Zviezdá (A Estrela) e Leningrad foram censuradas publicamente pelo Comitê Central do Partido, divulgando-se ao mesmo tempo um informe de A. Jdanov que se tornaria famoso, no qual há formulações brutais contra toda obra de arte que se afastasse das normas de um otimismo patrioteiro e simplificador”.

E prossegue, mais adiante:

Mas o jdanovismo não se limitou à campanha de imprensa. Seguiram-se expurgos nas universidades e em todas as instituições ligadas à cultura, sessões públicas de críticas aos acusados de desvios, com a presença obrigatória destes, e, também, processos e mais processos, que resultavam em fuzilamentos e trabalhos forçados. Foram sendo suprimidas as pouquíssimas liberdades conseguidas graças à união de forças contra o nazismo, e o número de presos em campos de trabalho chegou às mesmas proporções da época dos famosos Processos de Moscou.

Prisões e mortes
São muitas as histórias trágicas de autores que não se adequaram à estética oficial imposta pelo Partido Comunista. Nomes como os do poeta Óssip Mandelstam (1891-1938), condenado a trabalhos forçados na Sibéria, onde viria a morrer, por ter escrito um poema satírico em que Stálin aparece com enormes bigodes de barata; ou do romancista e dramaturgo Mikhail Bulgakov (1891-1940), autor de O mestre e Margarida, cujos livros foram tirados de circulação e suas peças recusadas, ao ponto de ter dito, em uma de suas cartas: “Tudo me foi proibido, estou na miséria, acossado, em completa solidão”. E, em outra missiva: “Nos últimos sete anos, concluí dezessete obras de diferentes gêneros, e todas elas se perderam. Semelhante situação é impossível, e em nossa casa há trevas e uma completa falta de perspectiva”.

Merecem capítulos especiais o ficcionista Isaac Bábel, autor de Cavalaria vermelha, fuzilado em 1941; o diretor de teatro V. Meyerhold, preso e morto a tiros em 1940; D. Mirsky, Daniil Kharms, curiosíssima figura da literatura e do teatro do absurdo, que prenuncia Beckett e Ionesco; Ana Akhmátova, Vielimir Khlébnikov, sem falar nos nomes mais consagrados tais como o do poeta e romancista Boris Pasternak, Prêmio Nobel de 1958, e de Maiakovski, cujo suicídio tem a ver também com seu desencantamento em relação ao rumo tomado pelo comunismo na Rússia. Outras personalidades, a exemplo do lingüista Roman Jakobson e dos pintores Chagall e Kandinsky, cujas obras foram boicotadas nas grandes galerias de arte da Rússia e só mais recentemente vêm sendo revalorizadas, optaram por viver no Ocidente por não encontrarem um ambiente cultural e político favorável à sua atuação intelectual.

Vale acrescentar que a desgraça perante o partido atingia também a família do “traidor”. É o caso da mulher de Meyerhold, Zinaída Reich, que, após sua prisão, “apareceu morta e barbaramente mutilada em seu apartamento”. Diz Schnaiderman:

Realmente pavoroso, o destino dos parentes das vítimas, que em princípio partilhavam a “culpa” de seus familiares. Irina Ovtchínikova conta que havia no interior estabelecimentos especiais para os filhos menores, que eram submetidos a um tratamento desumano. Têm-se notícias da transferência de crianças de uma cidade a outra, conduzidas sob a guarda de cães policiais. Nas regiões ocupadas pelos alemães, estes separavam, crianças judias e as fuzilavam, e as outras eram simplesmente soltas em meio à população faminta.

E havia casos como do ficcionista russo Iúri Olecha, que renegariam todas as suas idéias “contra-revolucionárias” para não cair em desgraça perante o Partido e o Camarada Stalin. Autor de uma novela (Inveja, 1927) em que retratava, “numa prosa rica de metáforas, estranha, sutil”, “um intelectual desajustado no mundo tecnocrático e estranho dos planos qüinqüenais”, e depois de ter, no início dos anos 30, manifestado apreço pela obra de James Joyce, Olecha se veria, anos depois, compelido a penitenciar-se daquele “velho pecado”.

Disse ele:

O artista deve dizer ao homem: “Sim, sim, sim”, mas Joyce diz: “Não, não, não”. Tudo é ruim sobre a terra, diz Joyce. E, por isso, toda a sua genialidade me é desnecessária […] Vou citar um trecho de Joyce. Este escritor afirmou: “O queijo é o cadáver do leite”. Vejam, camaradas, como é terrível. O escritor ocidental viu a morte do leite. Ele disse que o leite poderia estar morto. É boa esta formulação? Sim, é boa. Isto foi dito corretamente, mas nós não queremos esta correção. Nós queremos […] a verdade artística dialética. E segundo esta verdade, o leite nunca pode ser um cadáver, ele escorre do peito materno para a boca da criança, e por isso é imortal.

E, para se entender bem a utilização do adjetivo “kafkiano” para definir o que se passava naqueles anos, veja-se o seguinte diálogo entre os poetas Maiakovski e Nicolai Assiéiev, contado por este último, em 15 de novembro de 1939:
[…] estávamos caminhando pela Pietrovka em 1927, quando Maiakovski de repente me disse: “Kólia, e que tal se, de repente, o Comitê Central baixar a seguinte ordem: escreva-se em versos iâmbicos?”. Eu lhe disse: “Volóditchka, que fantasia absurda! O Comitê central vai decretar a forma do verso?”.

“Mas imagine que você de repente…”

“Não consigo imaginar isso.”

“Ora, será que te falta imaginação? Então, imagine o inconcebível”.

“Bem, não sei. Eu certamente não saberia, seria o meu fim”.

Calamo-nos e continuamos a caminhar. Não dei importância a isso, achei que era uma fantasia louca. Percorremos uns quarenta passos. Ele agitava a bengala, fumava e de repente disse: “Pois eu vou escrever em verso iâmbico”.

Este diálogo, diz Boris Schnaiderman, “lança uma luz terrível sobre aqueles anos”. Maiakovski estava, evidentemente, bem cônscio da ameaça que pesava sobre a arte e a poesia modernas. Ele escreveria em 1928:
A república das artes
                        está em perigo mortal;
perigam a cor,
             a palavra,
                        o som.

Não por acaso, a frase de uma antiga canção patriótica, que dizia: “Nascemos para tornar o fantástico realidade”, seria modificada para “Nascemos para tornar Kafka realidade”. Isto num país em que foi editado até um Guia para a eliminação das bibliotecas que atendem ao leitor de massa de obras antiliterárias e contrárias à revolução, publicado por N. Spierânski e Nadiedja Krúpskaia, a mulher de Lênin. E que incluía, em sua lista, obras de autores como Platão, Kant, Schopenhauer, Taine, Nietzsche e Tolstoi, além de todas as obras da rica teologia russa e até de um clássico sobre a própria Revolução de Outubro, a reportagem Os dez dias que abalaram o mundo, de John Reed.

Na conclusão de Os escombros e o mito, Boris Schnaiderman declara seu espanto quanto aos extremos do sublime e do repulsivo aos quais o povo russo passava com tanta rapidez. E referia-se a um episódio relatado por Iúri Borev, autor do livro Breve história do stalinismo. Em lendas e anedotas.

Durante a coletivização forçada, as camponesas enviadas para a Sibéria muitas vezes levavam seus bebês para o soviete local, pois compreendiam que eles não poderiam sobreviver à penosa viagem e esperavam que os conterrâneos se encarregassem deles. Mas os conterrâneos não se atreviam a nada, sem uma ordem superior. Consultadas as “autoridades competentes”, estas concluíram que, em primeiro lugar, os bebês pertenciam a uma classe hostil e, em segundo, era preciso cortar pela raiz a prática dos kulaques de deixar para o Estado ou para os camponeses pobres a tarefa de alimentar os seus filhos. Em conseqüência disso, os sovietes locais encaminhavam os pequenos para um soviete mais central, onde eles ficavam no chão, berrando enquanto podiam. E aos poucos os gritos iam rareando, até cessar por completo.

Chegava-se, assim, à trágica situação prevista pelo romancista Eugeni Zamiatin, autor da novela Nós!, que inspiraria, anos mais tarde, o escritor inglês George Orwell em sua distopia, 1984. Para Zamiatin a “verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos”. O que não poderia se esperar de um país cujos “heréticos” (e seus descendentes) eram simplesmente eliminados, era que seu vigor subsistisse – e que, ao fim de tudo, aparecesse o que não se esperava: uma arte e literatura dignas do que melhor se produziu no século 20.

70 anos de Capinan

70 anos de Capinan

Poetas são criaturas que conhecem, como ninguém, o endereço do nada. E, quando se lhes dá na telha (ou na pele), vão lá e retiram palavras, imagens e metáforas para falar de mundos que a nossa impotência verbal não traduz. E é dos poetas que tomamos as palavras emprestadas quando sentimos que as nossas não conseguem chegar às estrelas.

Pois bem, neste sábado, dia 19 de fevereiro, estará completando inacreditáveis 70 anos um dos maiores e mais importantes poetas da cultura brasileira contemporânea: José Carlos Capinan.

Foi de Capinan que você, leitor(a), tomou as palavras precisas para expressar aquela alegria indizível de se descobrir vivo e feliz. Ali, você cantou: “cores do mar, festa do sol/ vida é fazer todo sonho brilhar, ser feliz/ em seu colo dormir e depois acordar/ sendo o seu colorido brinquedo de papel machê…” Lembra?

Ou, no caso de você já ter passado dos trinta (rsrsrs!) e ter vivido com ardor juvenil o sonho de alguma revolução igualitária em que os países não tivessem fronteiras, nem divisões sociais, o seu coração “guevariano” certamente deve ter cantado “Soy loco por ti, América/ Tenga como dolores a espuma blanca de Latinoamerica/ Y el cielo como bandera”.

Ou, ainda no seu caso, caro leitor, ao despir a mulher amada com olhos de poesia e desejo, e não encontrando palavras à altura para o seu plano de sedução, deve, sim, ter pedido ajuda a Capinan e cantado no ouvido da musa: ”Moça bonita, o seu corpo cheira ao botão de laranjeira/ Eu também não sei se é/ Imagina a minha sina é um cheiro de café/ Ou é só cheiro feminino/ É só cheiro de mulher”.

E assim, dessa maneira, Capinan foi tomando conta de nossas vidas, convidando-nos a “penetrar surdamente” no reino de suas palavras e nos entregando a chave de belas e invulgares emoções. Por isso, onde você estiver neste sábado, agradeça ao deus da poesia por ter nos dado esse “caboco do mato” que vem enchendo nossa vida de palavras, sonhos e luz.

*Jorge Portugal – Educador e compositor (publicado em Opinião de A Tarde, 15.2.2011)

Abaixo trecho da participação de José Carlos Capinan no projeto Com a Palavra o Escritor, na Fundação Casa de Jorge Amado, em 11/04/1997:

Editores e Escritores

refRuy Espinheira Filho

Certa vez foi feita uma experiência: solicitaram a alguns escritores famosos que permitissem que obras suas, inéditas, fossem enviadas a editoras sem suas célebres assinaturas. Foram 20 editoras – e todas recusaram as obras. Inclusive um livro de V.S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura. O que revelou o despreparo dos leitores das tais editoras, todas importantes, para julgar textos.

 

Trata-se, na verdade, de um despreparo universal. É claro que há exceções, editoras com leitores capazes, até mesmo escritores, mas no geral a tarefa é entregue a pessoas viciadas em modismos, sem real cultura literária, críticos de pequeno porte ou apenas gente saída de cursos de Letras. Aliás, o que menos há nos cursos de Letras é literatura, passa-se quase todo o tempo discutindo teorias e crítica, lendo-se apenas o que é chamado de “cânone”, ou seja, alguns autores consagrados, não se chegando quase nunca à literatura contemporânea. Ora, emitir opinião sobre os consagrados é fácil, qualquer idiota sabe que Machado e Drummond são grandes autores, mesmo jamais os tendo lido.

 

No caso de editores, há ainda uma grave inversão de valores: acham-se mais importantes do que os autores. Quase não há mais editores como o alemão Peter Suhrcamp. Dele, conta um dos seus auxiliares, Siegfried Unseld, que, estando em apreciação o texto de um novo autor, cuja aceitação ainda continuava pendente, alguém se ofereceu para conversar com ele, ao que Suhrcamp respondeu que não: ele mesmo falaria com o autor, com todo o cuidado e respeito, pois, acrescentou, todo autor, por mais jovem que fosse, superava em muito a eles, editores, por ser uma “personalidade criadora”.

 

Humildade, sensibilidade, lucidez: quanto destas virtudes ainda pode ser encontrado hoje em nosso meio editorial? E nas universidades? E no jornalismo dito cultural? Pelo que conheço, pouco, bem pouco. A falta de respeito chega ao ponto de um editor publicar um volume com “cem maneiras de se recusar um original”. Deve ter se divertido muito ao lançar tal livro. A estupidez também se diverte.

Sim senhora

glGláucia Lemos

Olhou para dentro do quarto, durante alguns segundos. Depois foi até lá fora, abriu o portão de ferro e retornou.

 

Deitou na mesma cama ao lado do morto, ficou até o amanhecer. Mas não dormiu, permaneceu olhando o telhado, como estava acostumada a ficar todas as noites, enquanto ele roncava a seu lado. Tinha sido sempre assim, havia longos anos. Ele roncava, cheirando a pinga, a barba emaranhada rescendendo a charuto barato, enquanto ela velava, de olhos para o teto. Velava a própria solidão, tomando conta dela como se fosse uma filha. E era uma filha daquela união, a solidão alimentada com a amargura silenciosa dos dias e com a sacrificada secura das noites.

 

Pois, ali estava ela, velando a mesma solidão, ao lado dele. Só que, daquela vez, ele não roncava, não podia mais. Nem podia mais atravessar o braço por cima do seu tronco, com o poder e a força do domínio, para se esparramar com o que restava das noitadas entre as quengas do cabaré de Diodete.

 

A madrugada não tardou. Ela a viu chegar convidando-a pelas frestas do telhado, em pequenos pontos que se infiltravam. Depois, o galo do quintal acordou o silêncio com o ruído abafado das asas, e cantou três vezes, e os outros galos responderam, lá  nos quintais da vizinhança. E antes que o bem-te-vi “bem a visse”, no beiral da casa, como todas as manhãs, levantou-se e não olhou mais para o que restava dele.

 

Da janela da cozinha, chamou o negro.

 

– Altino! Tá dormindo, Altino?

– Senhora!

– Vem cá.

– Senhora?

– Tem um homem morto em minha cama.

– Tem?

– Tá vendo o portão aberto?

– Tô sim senhora

– Foi por ali que o assassino fugiu. Você viu quando ele fugiu, não viu, Altino?

– Sim, senhora!

– Leve o finado  nas costas antes que o dia clareie, e dê sumiço.

– Sim, senhora.

– Enrole bem enrolado em duas esteiras, e dê sumiço.

O negro não saiu de perto dela.

– Que foi, Altino?

– Né mió butá dento de um porrão?

– Tá bem. Bote dentro de um porrão e tampe a boca bem tampada

– Sim, senhora.

– O maior porrão que encontrar na olaria da fazenda.

– Sim, senhora.

 

O negro saiu. Voltou carregando um porrão enorme. Era um negro pequeno e largo. Tinha as pernas entroncadas como toros de coqueiro. Os pés cascudos, de calcanhar rachado, as mãos grandes, onde dedos grossos e nodosos pareciam feitos de barro cozido. Ela não entendeu como ele agüentava o peso daquele porrão, quase maior que ele.

Entrou no quarto, demorou-se.

 

– Anda com isso Altino, antes que o dia clareie.

– Sim senhora.

 

Saiu logo depois. Equilibrava o porrão  sobre as espáduas, o pescoço grosso encurvado, como costumava carregar os caçuás de manga-rosa. Parou na porta da cozinha, antes de sair.

 

– Senhora?

– Que é. Altino?

– Né bom levá os pano da cama? Tá tudo lá daquele memo jeito

– Pode deixar que eu cuido.

– Sim senhora.

O negro saiu. Atravessou o portão de ferro que ela deixara aberto. Depois desceu os degraus, venceu a área frente à casa, até alcançar a  porteira da fazenda que abriu sem dificuldade, e se foi com o porrão sustentado em cima das espáduas. Os braços curtos, estufados de músculos, sustentando o peso pelas laterais. O dia nem tinha clareado de todo.

 

A mulher voltou para o quarto e apanhou os panos amarfanhados que estavam na cama. Exalavam cheiro acre de suor e aguardente. Fez uma grande trouxa. Em seguida saiu a caminho do quintal e se embrenhou entre as árvores e os arbustos que se cruzavam na farta vegetação.  Pegou a enxada que estava encostada ao cajueiro e começou a escavar um fosso. Com esforço, a enxada feria a terra preta umedecida de orvalho, e voltava carregada, como se a terra vomitasse a sua própria substância.

 

Abriu a trouxa e, na cova, sepultou um a um, os lençóis que trouxera. Olhou-os longamente. Era como se deles viesse ainda o cheiro ardiloso do suor do homem e do seu próprio suor. A morrinha das secreções do macho bruto e infiel. Sensação de náusea. Nojo misturado a rancor.

 

Então, voltou-se. No quartinho próximo havia querosene e fósforos.

 

Os olhos da mulher tinham um brilho de volúpia enquanto esvaziava a garrafa de querosene em cima dos panos, jogando sobre eles o fósforo aceso. O fogaréu subiu de dentro do buraco. A fumaça cheirava a cio e a carne sangrenta. Cheirava a  cuspo e a sangue e a dor. E subia cinzenta, espalhando-se por entre os galhos dos cajueiros e tisnando  os jenipapeiros nas suas folhas largas.

 

Quando o fogo acabou,  retomou a enxada e devolveu toda a terra para cima das cinzas, até encher a cova. Voltou depois para dentro da casa, com passos lentos e seguros. Suava nas faces afogueadas, passando as mãos repetidamente para enxugá-las, pois o sol já queimava a manhã clara.

 

A cozinheira coava o café e amassava o cuscuz de farinha de milho.

–  Josina!

– Senhora?

– Desarme a cama daquele quarto e leve as peças para fazer a fogueira do São João dos peões da fazenda.

– Sim senhora.

– Hoje!  E quando o café estiver pronto me chame.

– Sim senhora.

 

Foi para a varanda  e espichou-se na rede. Com olhos vagos, demorou-se no casal de rolinhas que bicava grãos de areia entre as pedras do chão. Graciosas, doces, um casal.

 

O negro retornou.

– Senhora?

– Pode dizer, Altino.

– Já dei sumiço.

– Onde deixou?

– No rio.

– Retirou a tampa?

– Tirei sim senhora.

– Encontrou alguém?

– Não senhora.

– Então pode ir cuidar do seu serviço.

– Sim senhora.

– Meu café, Josina?

– Tá pronto, senhora.

 

Sentou-se à cabeceira da mesa comprida da sala. O cuscuz fumegava brilhando de manteiga e requeijão derretido. A xícara cheirava a café torrado na hora.

No fogão, o negro esticava o braço com a caneca de alumínio para a cozinheira encher de café.

 

– Altino!

– Que é, Josina?

– Deu sumiço no quê?

– Num porrão grande.

– Tinha o que dento?

– Uma pução de mulambo.

 

– Oxente!!! Pra dizê que a patroa indoidou de onte pra hoje? E foi pela viage do patrão… Vai vê porque ele nunca viajou, só saía pra se fretá mais as quenga de Diodete… Mulé qui só fica com home den’de casa, é assim… No quele viajou ela indoidou. Mais foi dipressa dimais.  Mandou queimá a cama… Já se viu?

 

– Rum…

– Eu nem vi conde ele saiu. Foi de cavalo?   Tu viu?

– Hum-hum…

 

Silêncio demorado caiu na cozinha. Só se escutava o ruído que a colher fazia arranhando o fundo da caneca do negro que mexia o café.

 

– Altino?

– Qui é agora, mulé?

– Donde tu jogou o porrão grande?

Silêncio e

– Bote mais açuca no meu café..

 

 

A mulher chamou o negro.

– Altino?

– Senhora?

– Ferra duas crias gordas com tua marca.

– Sim, senhora. Qual é as cria?

– À tua escolha.

– Sim senhora.

– Tu mereces, negro fiel.

A mulher chegou ao galpão e estranhou o negro preparando o ferro. Ao lado, meia dúzia de crias grandes bem cevadas, estavam à espera, para serem marcadas.

 

– Altino?

– Senhora?

– Quantas crias te mandei ferrar com tua marca?

– Duas cria, senhora.

– Juntaste seis crias. Sabes contar, negro?

– Sei contá, sim senhora.

– E então, Altino?

– O porrão dos mulambo tava muito pesado. Os mulambo pesava o peso de seis cria, senhora. Se a senhora quisé, trago o porrão de vorta, com tudo o qui tá dento.

– Deixa o porrão lá mesmo, Altino. Deixa o rio levar.

– Sim senhora.