Editores e Escritores

refRuy Espinheira Filho

Certa vez foi feita uma experiência: solicitaram a alguns escritores famosos que permitissem que obras suas, inéditas, fossem enviadas a editoras sem suas célebres assinaturas. Foram 20 editoras – e todas recusaram as obras. Inclusive um livro de V.S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura. O que revelou o despreparo dos leitores das tais editoras, todas importantes, para julgar textos.

 

Trata-se, na verdade, de um despreparo universal. É claro que há exceções, editoras com leitores capazes, até mesmo escritores, mas no geral a tarefa é entregue a pessoas viciadas em modismos, sem real cultura literária, críticos de pequeno porte ou apenas gente saída de cursos de Letras. Aliás, o que menos há nos cursos de Letras é literatura, passa-se quase todo o tempo discutindo teorias e crítica, lendo-se apenas o que é chamado de “cânone”, ou seja, alguns autores consagrados, não se chegando quase nunca à literatura contemporânea. Ora, emitir opinião sobre os consagrados é fácil, qualquer idiota sabe que Machado e Drummond são grandes autores, mesmo jamais os tendo lido.

 

No caso de editores, há ainda uma grave inversão de valores: acham-se mais importantes do que os autores. Quase não há mais editores como o alemão Peter Suhrcamp. Dele, conta um dos seus auxiliares, Siegfried Unseld, que, estando em apreciação o texto de um novo autor, cuja aceitação ainda continuava pendente, alguém se ofereceu para conversar com ele, ao que Suhrcamp respondeu que não: ele mesmo falaria com o autor, com todo o cuidado e respeito, pois, acrescentou, todo autor, por mais jovem que fosse, superava em muito a eles, editores, por ser uma “personalidade criadora”.

 

Humildade, sensibilidade, lucidez: quanto destas virtudes ainda pode ser encontrado hoje em nosso meio editorial? E nas universidades? E no jornalismo dito cultural? Pelo que conheço, pouco, bem pouco. A falta de respeito chega ao ponto de um editor publicar um volume com “cem maneiras de se recusar um original”. Deve ter se divertido muito ao lançar tal livro. A estupidez também se diverte.

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