O romance de Herberto

hpHélio Pólvora

Na obra de Herberto Sales as extremidades se tocam: o começo, em Cascalho, de 1944 (reescrito por sugestão de Sérgio Milliet), e o fim, em um de seus últimos títulos, Rio dos Morcegos, de 1993. Poucos ficcionistas terão a bibliografia tão atrelada a circunstâncias de vida. Para mim, apesar de ciente que ele passou por Salvador, Rio de Janeiro (onde o conheci na revista O Cruzeiro), Brasília, Japão e Paris, Andaraí é seu endereço único, graças à carga emotiva.

A Andaraí voltava sempre. Deixou curso em Salvador para ser comerciante e garimpeiro no berço da Chapada Diamantina — e em contato com protagonistas típicos, do potentado ao faiscador de diamantes, escreveu o livro de estréia. Começava bem, pelo que via, sentia, guardava na memória. Era curador de um ciclo regionalista que esmaecia com o declínio das lavras e a migração da prosa, do neo-realismo rural a um plano psicossocial desrotulado.

Escrito por um moço solitário “num sobradão de vinte janelas”, Cascalho surpreende  pela captação de atmosferas de decadência regional e familiar. Presa ainda ao antigo fausto, Andaraí tem os seus tipos carismáticos; as paixões se reacendem nas lutas políticas, nos assomos de um orgulho que poderia estar amarelecido em álbuns de família.

Mas “a crítica social esmagava a qualidade humana dos personagens”, anotou Milliet. E faltava unidade de encadeamento celular ao romance. Herberto queimou-o, sem saber que, no Rio, o dicionarista Aurélio garimpava brasileirismos na última cópia remetida a um concurso. Reescrito, o romance se impôs pelo vigor dos retratos e cenas.  

Em Além dos Marimbus (1961), a ressonância das lavras é mais vaga. O romance se desdobra em época mais próxima, centrado nos desiludidos das minas, que se apegavam à pecuária e agricultura. Mas faltavam braços para as lavouras. É que o espírito de aventura ainda tangia os agregados para as miragens da bateia aventureira. Sem capital para o cultivo, senhores de latifúndios cedem matas aos madeireiros. Nesse lapso de 17 anos, Herberto diploma-se em romance.

Além dos Marimbus ainda veicula denúncias, embora o romancista, por seus predicados de estilo e análise psicológica, se distancie do mero  documentário. É o instante em que devastam braços da mata atlântica. Acampamentos e carreiros se multiplicam. Toros lançados ao Paraguaçu ou transportados por ferrovia vão alimentar as serrarias nas grandes cidades. Mas há um João Camilo que reza à mesa nas refeições e vive frugalmente. É um pastor bíblico. Recusa-se a cortar árvores, vende só as que tombaram naturalmente. É um visionário.  

Em Além dos Marimbus e certas páginas de Cascalho a ficção realista ressalta uma verdade sobreposta, graças ao agregado verbal e ao imaginário, e assim fica mais pungente, mais verossímil. Na descrição — primeiro. dos brejos, depois, das matas — o romancista alcança grandes efeitos. Prosa disciplinada, correta, na boa herança dos clássicos, com notas originais, de legítima criação literária, responsáveis pelo sortilégio do tecido romanesco.

 

Retrato fragmentado

 

Por enquanto, Herberto Sales ainda preserva a cor local. A passagem dos ciclos ficcionais geográficos para os ciclos ou círculos da personalidade se acentua a partir do terceiro romance, Dados Biográficos do Finado Marcelino (1965), em que retoma a saga da decadência. Das lavras extintas, da garimpagem nostálgica da região de Andaraí ele passa à Salvador de uns setenta anos atrás. Romance de estudo de personalidade e ao mesmo tempo crônica urbana saborosa, nele Andaraí é parâmetro afetivo. De lá sai para fazer fortuna o prodigioso tio Marcelino, que um sobrinho vai encontrar, já vergado pelos anos e desgostoso, em palacete na Calçada. Cavalheiro da belle époque, esmerado no trajar e na degustação de vinhos franceses, vive então da memória de viagens, do culto de amigos abastados e trêfegos, do tempo da casa importadora de vitrolas e discos. É uma sombra, uma lenda familiar. Para o sobrinho, que o vê com olhos benevolentes, Marcelino será um achado — como os diamantes que afloravam nas lavras.

Dados Biográficos do Finado Marcelino é uma peregrinação sentimental, ao contrário da peregrinação comercial de Jenner em Além dos Marimbus. O passado é reconstituído, enquanto o narrador vive a rotina de pessoa comum. O romance se abre com a chegada do moço a Salvador e salta, já no segundo capítulo, para trinta anos depois. A partir daí começa a incursão em busca da imagem verdadeira de Marcelino. Ingênuo, o narrador toma o depoimento de quantos conviveram com o tio, visita lugares. — do que se vale o romancista para reviver Salvador do tempo em que imperava na Rua Chile o Palace Hotel, e os sobradões burgueses pontuavam a Ladeira das Galés e a Calçada.

O inventário do viver baiano ligado à figura mítica de Marcelino rende páginas brilhantes: a descrição do palacete, dos hábitos de seus moradores, da figura avelhantada do tio — corroído por doença misteriosa. Referências a Andaraí acentuam no romance o tom nostálgico de quantos se sentem deslocados, com a personalidade dividida ou extraviada nas reviravoltas da vida.

A linguagem assegura dimensão de texto fluente, correto, imagístico. Herberto herdou dos clássicos a frase bem modulada e modelada, ondulante, graciosa, direta ou negaceante, e com um ritmo que encadeia parágrafos. Sua prosa é um legado clássico que ele recolheu e reproduz. É a tradição, a soma das possibilidades de expressão do idioma cultivado por mestres. Escreve bem, projetando um brilho que vem de longe, passa pela sensibilidade do captador, que se deixa afetar, e recria-se.

O título é perfeito. O romance cresce, a justificá-lo, na medida em que o narrador estreita a pesquisa em torno da imagem fugidia do tio — e a vê esgarçar-se, qual neblina. Surge, então, um elemento de maior poder ficcional: o acidente por fogo que vitima Marcelino no seu jardim. Impõe-se, então, o que nos capítulos anteriores não passava de mera sugestão: o enigma da personalidade de Marcelino. Quem foi, na verdade, aquele homem que fez dinheiro, gozou a vida, cultivou os livros e morreu solitário, ensimesmado, com a certeza de uma progressiva e inexorável desesperança, em tudo parecido com uma personagem de Machado de Assis?  O retrato interior de Marcelino continua a desafiar a argúcia dos amigos.  

Após esta que é uma de suas obras-primas, advém um interregno em que o autor chapadense envereda pela sátira. O Fruto do Vosso Ventre, de 1976, vergasta a burocracia. Coletâneas de contos fustigam hábitos e condutas da juventude hedonista.  

 

“Dramático, erótico, terrível”

 

A essa altura, Herberto abre as comportas. O seu açude interior sangra. Ele já não guarda reservas. Abandona a serenidade clássica; a expressão se eriça, pronta a ferir onde ainda latejam desesperos. Andaraí, que na língua dos índios cariris significa “rio dos morcegos”, é transposta no pesadelo do autor aos círculos do inferno e do purgatório — e neste romance tecido com elementos autobiográficos “incidentais”, conforme confessou em bilhete ao seu editor Ênio Silveira, toda a tragicidade antes insinuada impera e subjuga. Rio dos Morcegos (1993) é um enredo de incesto, farto em lances dostoievskianos — “dramático erótico, terrível”.  segundo o próprio romancista. Será a última visita a Andaraí, a despedida, o acerto final de amor e ódio. A ruptura de tom, de atitude, de linguagem neste romance, antecedido por Os Pareceres do Tempo (1991) e Rebanho do Ódio (1995), e seguido por A Prostituta (1996), mostram que a região era mesmo apenas leve moldura na obra herbertiana.

Dele guardo na memória imagem preciosa: enfermo e desenganado, mas simples, modesto, bebeu com estoicismo sertanejo quase um litro de uísque, em conversa amena em meu apartamento na Ladeira da Barra — enquanto, naturalmente, o íntimo lhe fervia. Grande escritor, bela pessoa, um paredão chapadense de granito, carregou com altivez o fardo que lhe coube.  

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