Bráulio Xavier Filho

arcAramis Ribeiro Costa

Quando nasci tive um problema de saúde e fui levado às pressas ao Dr. Bráulio Xavier. O prognóstico era dos mais sombrios — ele foi muito franco a esse respeito —, mas conseguiu infundir, logo de saída, nos meus pais, uma confiança ilimitada. Formulou e, graças a essa fórmula — guardada durante muito tempo com muito carinho por meu pai —, eu me saí bem desse que poderia ter sido o primeiro e o último entrave da minha vida.

Depois disto, tornou-se o pediatra da família, meu e das minhas duas irmãs, procurado sempre com ansiedade todas as vezes que havia desde a menor suspeita de doença até os nossos mais graves problemas de saúde. Curioso que foi ele quem, sem querer, deu o nome à minha irmã mais moça. Na hora de escrever uma receita para Araíma, ainda de meses, por engano escreveu Arimaia. Cientificado do erro, ia corrigi-lo, quando meu pai teve a ideia:

— Deixe, Dr. Bráulio. Será o nome da próxima.

Dessa forma — coisa inédita —, a futura cliente teve o nome escrito numa receita pelo pediatra, antes mesmo de existir.

Para meus pais não havia nem podia haver outro médico para os filhos. A sua palavra era a definitiva e, fosse o que fosse que ele dissesse, era sagrado. O nome de Bráulio Xavier era pronunciado na minha casa, principalmente por meu pai, com um respeito, um carinho, uma admiração e uma gratidão que chegavam a ser comoventes.

Ele foi a primeira imagem de médico que tive diante de mim, curvado sobre o meu corpo a auscultar-me o coração e os pulmões, a percutir-me o tórax e o abdome, a me mandar abrir a boca bem grande com a língua para fora, para que ele pudesse ver lá dentro com a luzinha, a desvendar-me os segredos da saúde e da doença, procedimentos que, milhares e milhares de vezes na vida tive — e ainda tenho — de fazer, eu próprio, com outras crianças, ao me tornar também um pediatra.

Seu consultório era no Edifício Piedade, numa época em que, ao longo da comprida Avenida Sete, notadamente na Rua Chile, se concentravam os consultórios elegantes da cidade, e não apenas os consultórios médicos, também os odontológicos e os escritórios de advocacia. O dele, no mesmo andar do consultório de outro famoso pediatra, o Dr. Fernando Chagas, possuía três salas e era muito bem montado. Da janela da sala de espera, guardada por sua fiel atendente Lúcia, verdadeiro cão de guarda que não deixava passar um único paciente sem pagar a consulta, nem mesmo para entregar resultado de exame, eu me divertia em ver, lá embaixo, o bem cuidado jardim do Largo da Piedade, com suas estátuas e sua fonte, os prédios do Instituto Geográfico e Histórico, do antigo Senado, do Gabinete Português, da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, da Secretaria de Segurança Pública, da Escola de Música dos irmãos Jatobá, da Faculdade de Ciências Econômicas, da Igreja de São Pedro; e ver principalmente os carros e as pessoas que passavam, como se fossem carros e pessoas de brinquedo, de tão pequenos que me pareciam de lá do alto.

Um dia um amigo muito querido, que morreu prematuramente aos quarenta e sete anos de idade, e que também era cliente do Dr. Bráulio, jogou por brincadeira um pedaço pontiagudo de louça de vaso sanitário em minha direção e o objeto veio com sua ponta perigosa diretamente ao meu joelho esquerdo, fazendo uma ferida lácero-contusa profunda sob a rótula, que imediatamente me levou ao chão, banhado de sangue, transido de dor, sem poder movimentar a perna. Foi uma das maiores dores físicas que já senti. Parecia que a ponta da louça havia penetrado até o osso e afetado as estruturas ósseas. Não havia, naquele tempo, além do hospital público de emergência geral, o extinto Hospital Getúlio Vargas, sempre sobrecarregado, serviços de emergência pediátrica na Cidade do Salvador. Levado na mesma hora às pressas para o consultório do Dr. Bráulio Xavier, ele colocou sobre a minha perna atingida um radioscópio. Com aquele seu aparelho, o pediatra pôde, naquele momento, garantir aos meus pais pela integridade das estruturas ósseas do meu joelho, passando a cuidar unicamente da ferida. Isso, que aconteceu nos anos cinquenta do século passado, é algo notável, porque ainda hoje, com a enorme evolução técnica alcançada pela medicina, não sei de nenhum consultório pediátrico que possua um radioscópio, e possa fazer um diagnóstico tão imediato e tão preciso sobre uma contusão seguida de ferimento com a possibilidade de dano de estrutura óssea.

De outra feita, fui atingido por uma pedra na cabeça. Também levado ao consultório do Dr. Bráulio, lá mesmo ele fez o curativo necessário e deu um “ponto falso”, como se dizia na época, com esparadrapo, resolvendo a dramática situação sem necessidade de sutura. Estes exemplos, que talvez surpreendam os pediatras de hoje, que não costumam fazer tais procedimentos em seus consultórios, encaminhando essas ocorrências para os inúmeros serviços de emergência de pediatria da cidade, demonstram como era bem equipado o consultório do Dr. Bráulio Xavier, naqueles distantes anos cinquenta do século do século XX. Na terceira sala, que era a da enfermagem, ele fazia, com a ajuda de uma enfermeira de nome Mariá, alguns procedimentos que também hoje poucos pediatras realizam em seus consultórios, como nebulizações, aplicações de injeção, curativos e aplicações de infravermelho, esta última uma terapia que, naqueles tempos ainda muito empíricos e de menos recursos farmacológicos, era largamente empregada. Era, sem dúvida, um dos mais bem equipados senão o mais bem equipado consultório de pediatria da Cidade do Salvador. Não era à toa, portanto, que para ali acorresse grande parte da clientela rica da cidade, num tempo em que não havia planos de saúde, e todas as consultas eram particulares. Um dia, muito tempo depois, ele me disse:

— Eu posso não ter tido a maior clientela da Bahia. Mas tive, com certeza, a maior clientela pagante.

E me afirmou ter tido, no seu consultório, mais de cinquenta mil clientes, ainda hoje uma marca significativa para qualquer pediatra.

Tento vê-lo neste momento como eu o via quando menino. Guardo, por exemplo, a imagem das suas chegadas ao consultório, impecavelmente vestido em traje completo, em geral azul-marinho, logo cercado pelos representantes de laboratório, que um dia iriam lhe conferir uma placa em reconhecimento ao atendimento sempre cortês e amigo que ele lhes dispensava. Entrava com eles por uma porta do seu conjunto de salas sem passar pela sala de espera. Mas lembro principalmente dele dentro do consultório, de gravata e comprido jaleco branco, exercendo com atenção, competência e zelo as suas funções de pediatra.

Vou descrevê-lo como eu o via naquela época. Era alvo, um pouco avermelhado, de baixa estatura, atarracado, os ombros muito largos, os cabelos lisos alourados, os olhos muito vivos e penetrantes e a voz pausada, um pouco anasalada e forte, uma voz que, apesar de me parecer vir muito do nariz, me parecia também vir de longe, muito longe. Examinava com atenção e cuidado, sem nenhuma pressa, obedecendo rigorosamente a um método de exame que avaliava, parte por parte, a criança inteira. Depois, quando voltava para a sua mesa-secretária, dava as explicações necessárias sobre a doença com clareza e segurança e, antes mesmo de prescrever a receita, destrancava e abria as gavetas da mesa, onde guardava as amostras-grátis dos remédios, em busca do que pudesse oferecer ao cliente.

Era sempre muito educado e risonho. Gostava de rir e fazer rir. Contava casos. Ria inclusive do pai que, tendo sido rico, tinha sido também muito sovina, a ponto de mandar o empregado colher cajás assoviando, para, desta forma, ter certeza de que o molecote não o estava roubando, chupando as frutas às escondidas. Recordo que Dr. Bráulio contou isto ao meu pai no final de uma consulta e soltou a sua gargalhada sonora, de quem se divertia à larga com o episódio. Uma vez, também muito tempo depois, ele me disse, após um de seus ditos de espírito que, na verdade, não magoavam ninguém:

— Perco um amigo, mas não perco uma piada.

Lembro-me também que, certa vez, ele disse ao meu pai que praticara boxe quando jovem, daí a força dos seus músculos. Em seguida, após a declaração, arregaçou as mangas do jaleco e da camisa e exibiu o bíceps direito contraído, um braço efetivamente muito forte. Aliás, fazia questão de mostrar sua força nos apertos de mão, e divertia-se quando o cumprimentado — ou torturado — não suportava o aperto. Então vinha aquela gargalhada tão simpática e que era também um modo de ser diante da vida e das pessoas. Mas tinha um vício, do qual não conseguia se livrar: entre um cliente e outro, refugiava-se numa salinha secreta do consultório — seria uma quarta sala no complexo que ocupava — para fumar.

Mesmo não havendo emergências pediátricas disponíveis na cidade, não se costumava, naquele tempo, incomodar o pediatra em casa por qualquer motivo, nem mesmo havia o hábito de se telefonar — ah, os celulares! — com a frequência e a naturalidade dos dias atuais para o médico dos filhos. Pelo menos não se fazia isto na minha casa. Abaixava-se a temperatura, se fosse o caso, dava-se um analgésico, um antiespasmódico, um antiemético ou o que se julgasse necessário, medicações que eram do conhecimento de todos, e aguardava-se o horário do consultório. Gripe e diarréia, por exemplo, tratavam-se em casa. A gripe com aspirina e chá de eucalipto, a diarréia com chá de erva cidreira, torrada e canja de galinha. Hoje, ao primeiro espirro e ao primeiro cocô mole, corre-se à emergência. Mas, uma noite, já não me recordo o motivo, fui levado por meus pais à casa do Dr. Bráulio, um pequeno edifício de três ou quatro andares no meio de um enorme terreno no Politeama, todo ele ocupado pela família Xavier. Não foi fácil conseguir que alguém nos viesse atender ao portão de ferro, que ficava tão distante do pequeno edifício. Porém, vencida essa dificuldade, o Dr. Bráulio nos recebeu com a mesma simpatia, com a mesma atenção, com o mesmo riso simpático do consultório. Foi nesse dia, no apartamento dele, que eu vi pela primeira vez um televisor ligado e fiquei deslumbrado ao assistir, na telinha, as imagens em preto, branco e borrado do único canal de televisão que havia na Bahia. O que significa que isto deve ter ocorrido no final de 1960, quando eu tinha dez anos de idade e a TV Itapoá acabara de inaugurar o Canal 5, pois, logo depois, para enorme alegria da família e também dos televizinhos que abarrotavam as janelas da nossa casa, meu pai comprou o nosso televisor.

Verifico hoje, fazendo as contas, que o Dr. Bráulio Xavier ainda não havia completado quarenta e cinco anos de idade, quando fui levado a ele pela primeira vez. Mas era um experimentado profissional de vinte e três anos de formado, com vasta e fiel clientela, e um bom conceito entre os seus próprios colegas.

Seu nome completo era Bráulio Xavier da Silva Pereira Filho. O pai, o conselheiro e desembargador Bráulio Xavier da Silva Pereira, foi presidente do Tribunal de Apelação e Revista e assumiu o governo da Bahia em substituição a Aurélio Viana após o nefasto bombardeio da Cidade do Salvador, no início do século passado. Um homem famoso, poderoso e rico. Por isso mesmo, para diferenciar um do outro, enquanto o pai existiu, ele foi conhecido como Bráulio Xavier Filho ou simplesmente Braulito. Mas, foi como Dr. Bráulio Xavier que se tornou conhecido e respeitado na Bahia a partir da década de trinta, exercendo a sua especialidade, a pediatria, tornando-se um dos três ou quatro pediatras baianos de maior conceito da sua geração, uma geração de pediatras notáveis.

Bráulio Xavier Filho nasceu em 27 de outubro de 1905. Seguindo a própria vocação, sem se deixar influenciar pela atuação do pai na magistratura e na política, decidiu ser médico, entrando para a tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, já com a atenção direcionada para a pediatria que, naquele tempo, tinha, no professor Martagão Gesteira o nome baiano mais respeitado nessa especialidade. Formou-se em 1927 numa famosa turma de futuros médicos baianos célebres, como José Silveira, Hosannah de Oliveira, Alício Peltier de Queiroz, Thales de Azevedo, Jorge Valente e vários outros. Logo no ano seguinte, valendo-se da boa situação financeira do pai, partiu para estudar em Paris no Hospital des Enfants Malades com o professor Antoine Bernard-Jean Marfan, considerado à época a maior autoridade mundial em pediatria.

Era o tempo das primeiras experiências com a amidalectomia, e um caso de morte do paciente em pleno ato cirúrgico presenciado pelo jovem médico logo ao chegar, fizeram-no, para o resto da vida, extremamente cauteloso no recomendar a retirada das amídalas dos seus pequenos pacientes, fazendo tudo para tratá-las antes da condenação à cirurgia, exatamente como hoje, tanto tempo depois e passado o modismo da intervenção cirúrgica nas amídalas, costumam agir os pediatras.

Voltando ao Brasil, passou a trabalhar no Asilo dos Expostos, na Pupileira, sob o comando do professor Martagão Gesteira, tomando conta de uma enfermaria. Daí passou para o Hospital Santa Isabel e, nessa fase, dedicou-se mais à radiologia. Mas continuava tomando parte de congressos e simpósios médicos de pediatria, fazendo palestras e apresentando trabalhos na especialidade. Foi um dos fundadores da Sociedade de Pediatria da Bahia. Em 1934 fez concurso de docência em pediatria, pela Faculdade de Medicina da Bahia, sendo aprovado em primeiro lugar. Com a fundação da Escola Baiana de Medicina, tornou-se o seu titular de pediatria.

Tendo sido seu cliente, voltei a encontrar o Dr. Bráulio muitos anos depois, agora como estudante de medicina, participando do seu serviço de pediatria no Hospital Santa Isabel já a partir do terceiro ano, e sendo seu aluno de pediatria no quinto ano do curso médico da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública. Nessa fase, convivemos quase diariamente durante quatro anos, de 1971 a 1974, quando me formei. A idade e os percalços da vida haviam-no alquebrado bastante, mas era ainda o mesmo profissional dedicado e competente, o mesmo homem bem vestido, educado, cordial e, acima de tudo, bem-humorado, que continuava preferindo perder um amigo a perder uma piada. Sei que gostava de mim, tratava-me muito bem, com uma deferência muito especial, embora, uma certa feita, tivesse dado ouvidos à intriga de uma de suas assistentes, e me repreendido dura e injustamente. Embora eu estivesse coberto de razão, e nada houvesse, na realidade, que me recriminasse, o que tornava aquela reprimenda inaceitável, em respeito a ele, a tudo que representou na minha vida, e também em respeito à memória de meu pai, que tinha por ele uma verdadeira veneração, não revidei com o ímpeto que pedia a minha indignação pela injustiça, porém com comedimento, procurando mostrar a impropriedade da acusação que me fazia. Graças à minha atitude o episódio não foi adiante, e não interrompemos o nosso bom relacionamento.

Para ser fiel à verdade, não posso dizer que Bráulio Xavier fosse um professor brilhante, no sentido que se dava ainda no meu tempo de estudante a um determinado tipo de professor, aquele que conseguia arrancar aplausos dos alunos após suas aulas. Falava baixo, não explanava com grande fluência, não prendia a atenção da turma, na verdade não possuía nem o dom da oratória nem da didática de auditório. Mas sua atuação como professor de pediatria da Escola Baiana foi longa e eficiente. Cercou-se de auxiliares valiosos, como Antônio Carlos Barbosa, meu mestre e meu amigo — este sim, um didata e um orador brilhante —, Maria Alice Firpo, Maria Piedade e, mais adiante, seu próprio filho, no qual manteve a tradição do seu nome, Bráulio Xavier da Silva Pereira Júnior — conhecido por todos como Braulinho, também um pediatra de ampla clientela e uma extraordinária figura humana —, e a equipe era uma das mais atuantes e mais organizadas da escola de Nazaré, trabalhando principalmente nas enfermarias e nos ambulatórios do velho Hospital Santa Isabel. Longe das salas de aula, nas enfermarias, lidando diretamente com o paciente, é que o Dr. Bráulio mostrava o seu vasto conhecimento de pediatria e o muito que acumulara de experiência na prática diária na profissão. À cabeceira dos enfermos discorria com amplitude e profundidade sobre a doença do pequeno paciente, ensinando sem reservas a quem quisesse aprender, alertando para as situações equívocas e, sobretudo, chamando a atenção para o perigo da vaidade no exercício da medicina. Costumava dizer que um paciente pediátrico deve sempre ser examinado da cabeça aos pés, independentemente da queixa ou da doença, e que a experiência de um médico se avalia como a experiência de um piloto de avião. A do piloto pelas horas de vôo, a do médico pelas horas passadas diante dos leitos dos pacientes.

Possuidor de uma sólida cultura geral, de certa forma o Dr. Bráulio seguiu a tradição dos médicos baianos até a primeira metade do século XX, ao se dedicar também à literatura. Lia muito, gostava de conversar sobre literatura. O seu alentado romance Vidas em Tumulto, de quatrocentas e nove páginas, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro, em 1941, surpreende pelo estilo, pela fluência da narrativa, pela estrutura e pelo desenvolvimento, como se o seu autor fosse um escritor experimentado, e não alguém que estava realizando a sua única experiência de ficcionista.

O Dr. Bráulio Xavier da Silva Pereira Filho morreu em 1976, um ano após ser aposentado compulsoriamente da Escola Baiana de Medicina. Como se a vida tivesse perdido o sentido ao lhe tirar esse último vínculo com a pediatria. Foi, sem nenhuma dúvida, um dos grandes vultos da medicina baiana.

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