A volta de Góes Calmon

ebEdivaldo Boaventura

Passado o Carnaval, quando tudo recomeça em Salvador, reabrem-se as escolas, alunos e alunas povoam as ruas e o mar fica mais alto. É a Quaresma que prepara a Páscoa. Em março, três lideranças baianas são evocadas: Pinto de Aguiar, economista, é biografado por Consuelo Novais Sampaio; Arlindo Fragoso, criador da Escola Politécnica e da Academia de Letras, patrocina a Medalha do Fundador; e Góes Calmon retorna à sua casa, em bronze. Para São Paulo, a imortalidade “é o poder de uma vida que não tem fim.” Góes Calmon de corpo inteiro compõe o conjunto do nosso sculptural garden, juntamente com os bronzes de Jorge Amado, Octávio Mangabeira, Cervantes, Arlindo Fragoso, Pedro Calmon e, mais recentemente, Jorge Calmon. Com a estátua de Góes Calmon, nos jardins da Academia, o governador volta ao seu solar. O trabalho é do escultor Pachoale de Chirico. A transferência e restauração de José Dirson Argolo, que concretizou o desejo da Academia e da família, à frente o seu neto, ministro Ângelo Calmon de Sá. Por proposta do acadêmico Paulo Ormindo Azevedo, postou-se o bronze bem à esquerda de quem entra na Academia.

O governador continuará a receber os que chegam, como recepcionou outrora o presidente Afono Pena, os pioneiros Gago Coutinho e Sacadura Cabral e o príncipe Umberto de Sabóia. É longa a tradição de cultura da casa do Caquende.

Poder contar com a imagem de Góes Calmon torna-se um significativo enriquecimento para a Academia. Aumenta-lhe o patrimônio moral e material com a figura do criador da casa e estimulador do serviço às artes.

Francisco Marques de Góes Calmon, nascido em 6 de novembro de 1874, faleceu em 29 de janeiro de 1931. Advogado comercialista, banqueiro, nunca foi político partidário, porém indicado para o governo por Seabra, a manobra política deu certo. Homem de prestígio, diversas classes aderiram à sua candidatura que o elegeram para o governo da Bahia (1924-1928). Assim, Seabra, com a vitória de Góes Calmon, perdeu o controle político do Estado.

Na geração dos Calmon que fez a independência, destaque-se o marquês de Abrantes, Miguel Calmon Du Pin e Almeida (I). Com a República, outra geração dos Calmon domina a cena baiana. Miguel Calmon Du Pin e Almeida (II ) assumiu o Ministério da Agricultura com 27 anos e elegeu-se senador.

Antônio Calmon, líder popular, dominou Salvador; por fim, o irmão Francisco Marques de Góes Calmon elegeu-se governador.

Este começou como advogado voltado para o direito comercial, incluindo interesse pela administração bancária. Presidiu o Instituto dos Advogados da Bahia.

Depois, dirigiu o Banco Econômico, notabilizando-se como financista. Dentre as várias obras, destacam-se os seus estudos sobre a vida comercial da Bahia.

No governo, saneou as finanças, equilibrou o orçamento, pagou as dívidas, reformulou a economia e estimulou a agricultura. É o primeiro governador a ampliar a rede rodoviária, roteando as estradas. Encarava a capital como entreposto e o sertão, centro produtivo. Visitava constantemente os municípios, sem comitiva e sem aparatos. Convocou Anísio Teixeira para a educação, que procedeu a reforma de ensino com as primeiras escolas normais.

Abriram-se escolas construídas apropriadamente para a aprendizagem. Era Góes Calmon professor de geografia e história do Ginásio da Bahia. Para Anísio Teixeira, Góes Calmon foi sobretudo educador: “O governo da Bahia se tornou uma escola de coragem, de ação e de devotamento às coisas da Bahia.” Além de todos esses postos, Góes Calmon era um apreciador do belo, um esteta, um colecionador das diversas artes, pintura, escultura e decorativas. Construiu uma casa de altíssimo gosto que veio a ser o Museu do Estado da Bahia com a coleção Jonathas Abbott. Hoje, sede da Academia de Letras.

Para o historiador das bandeiras, Afonso de Taunay: “E, como raros entre nós, Góes Calmon tinha a intuição dos valores estéticos, em considerável número de ramos da ciência do conhecedor.” Inauguração da estátua de Góes Calmon, em 22 mar. 2011, às 17h30, na Academia de Letras da Bahia. Av. Joana Angélica, 198, Nazaré. Salvador.

Curso Manuel Querino – Personalidades Negras / Ano III

Alunos certificados e alunos sorteados

NOVAS DATAS DO CURSO MANUEL QUERINO

05 À 07 DE ABRIL DE 2011

Manuel Querino

Confira a íntegra da programação AQUI.

O Curso Manuel Querino – Personalidades Negras, será realizado, em sua terceira edição, entre os dias 29 e 31 de março de 2011, pela Academia de Letras da Bahia (ALB), e tem por uma de suas metas marcar de forma significativa o transcurso dos 88 anos da morte de Manuel Raimundo Querino, além de homenagear as personalidades de Olga de Alaketo, Iya Nassô, maestro Manoel Tranquilino Bastos, Cruz e Souza, Milton Santos, Nelson Carneiro, mestre Pastinha, babalawo Felisberto Sowzer, Nelson Maleiro e a Sociedade Monte-Pio dos Artistas da Bahia.

O Curso Manuel Querino – Personalidades Negras, promovido anualmente pela Academia de Letras da Bahia, no mês de março, tem como fulcro o estudo, a difusão, a rememoração da vida e obra de personalidades negras baianas e brasileiras que se destacaram nos mais diversos setores da atividade humana. Além de prestar justa homenagem, o Curso pretende analisar criticamente o transcurso dos vultos negros, observando cada personalidade dentro de seu contexto histórico e avaliando seu legado na sociedade baiana e brasileira.

Quando: 29 a 31 de março de 2011 das 14 às 19h
Onde: Academia de Letras da Bahia – Avenida Joana Angélica, 198 Nazaré – Salvador – Bahia – Brasil CEP: 40050-000
Quanto: R$5,00 – Telefax: (71) 3321-4308 http://www.academiadeletrasdabahia.org.br e-mail: contato@academiadeletrasdabahia.org.br

Confira a programação:

Programação

Curso Manuel Querino – Personalidades Negras / Ano III

Alunos certificados e alunos sorteados

NOVAS DATAS DO CURSO MANUEL QUERINO

05 À 07 DE ABRIL DE 2011

Manuel Querino

Confira a íntegra da programação AQUI.

O Curso Manuel Querino – Personalidades Negras, será realizado, em sua terceira edição, entre os dias 29 e 31 de março de 2011, pela Academia de Letras da Bahia (ALB), e tem por uma de suas metas marcar de forma significativa o transcurso dos 88 anos da morte de Manuel Raimundo Querino, além de homenagear as personalidades de Olga de Alaketo, Iya Nassô, maestro Manoel Tranquilino Bastos, Cruz e Souza, Milton Santos, Nelson Carneiro, mestre Pastinha, babalawo Felisberto Sowzer, Nelson Maleiro e a Sociedade Monte-Pio dos Artistas da Bahia.

O Curso Manuel Querino – Personalidades Negras, promovido anualmente pela Academia de Letras da Bahia, no mês de março, tem como fulcro o estudo, a difusão, a rememoração da vida e obra de personalidades negras baianas e brasileiras que se destacaram nos mais diversos setores da atividade humana. Além de prestar justa homenagem, o Curso pretende analisar criticamente o transcurso dos vultos negros, observando cada personalidade dentro de seu contexto histórico e avaliando seu legado na sociedade baiana e brasileira.

Quando: 29 a 31 de março de 2011 das 14 às 19h
Onde: Academia de Letras da Bahia – Avenida Joana Angélica, 198 Nazaré – Salvador – Bahia – Brasil CEP: 40050-000
Quanto: R$5,00 – Telefax: (71) 3321-4308 http://www.academiadeletrasdabahia.org.br e-mail: contato@academiadeletrasdabahia.org.br

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Programação

O romance de Herberto

hpHélio Pólvora

Na obra de Herberto Sales as extremidades se tocam: o começo, em Cascalho, de 1944 (reescrito por sugestão de Sérgio Milliet), e o fim, em um de seus últimos títulos, Rio dos Morcegos, de 1993. Poucos ficcionistas terão a bibliografia tão atrelada a circunstâncias de vida. Para mim, apesar de ciente que ele passou por Salvador, Rio de Janeiro (onde o conheci na revista O Cruzeiro), Brasília, Japão e Paris, Andaraí é seu endereço único, graças à carga emotiva.

A Andaraí voltava sempre. Deixou curso em Salvador para ser comerciante e garimpeiro no berço da Chapada Diamantina — e em contato com protagonistas típicos, do potentado ao faiscador de diamantes, escreveu o livro de estréia. Começava bem, pelo que via, sentia, guardava na memória. Era curador de um ciclo regionalista que esmaecia com o declínio das lavras e a migração da prosa, do neo-realismo rural a um plano psicossocial desrotulado.

Escrito por um moço solitário “num sobradão de vinte janelas”, Cascalho surpreende  pela captação de atmosferas de decadência regional e familiar. Presa ainda ao antigo fausto, Andaraí tem os seus tipos carismáticos; as paixões se reacendem nas lutas políticas, nos assomos de um orgulho que poderia estar amarelecido em álbuns de família.

Mas “a crítica social esmagava a qualidade humana dos personagens”, anotou Milliet. E faltava unidade de encadeamento celular ao romance. Herberto queimou-o, sem saber que, no Rio, o dicionarista Aurélio garimpava brasileirismos na última cópia remetida a um concurso. Reescrito, o romance se impôs pelo vigor dos retratos e cenas.  

Em Além dos Marimbus (1961), a ressonância das lavras é mais vaga. O romance se desdobra em época mais próxima, centrado nos desiludidos das minas, que se apegavam à pecuária e agricultura. Mas faltavam braços para as lavouras. É que o espírito de aventura ainda tangia os agregados para as miragens da bateia aventureira. Sem capital para o cultivo, senhores de latifúndios cedem matas aos madeireiros. Nesse lapso de 17 anos, Herberto diploma-se em romance.

Além dos Marimbus ainda veicula denúncias, embora o romancista, por seus predicados de estilo e análise psicológica, se distancie do mero  documentário. É o instante em que devastam braços da mata atlântica. Acampamentos e carreiros se multiplicam. Toros lançados ao Paraguaçu ou transportados por ferrovia vão alimentar as serrarias nas grandes cidades. Mas há um João Camilo que reza à mesa nas refeições e vive frugalmente. É um pastor bíblico. Recusa-se a cortar árvores, vende só as que tombaram naturalmente. É um visionário.  

Em Além dos Marimbus e certas páginas de Cascalho a ficção realista ressalta uma verdade sobreposta, graças ao agregado verbal e ao imaginário, e assim fica mais pungente, mais verossímil. Na descrição — primeiro. dos brejos, depois, das matas — o romancista alcança grandes efeitos. Prosa disciplinada, correta, na boa herança dos clássicos, com notas originais, de legítima criação literária, responsáveis pelo sortilégio do tecido romanesco.

 

Retrato fragmentado

 

Por enquanto, Herberto Sales ainda preserva a cor local. A passagem dos ciclos ficcionais geográficos para os ciclos ou círculos da personalidade se acentua a partir do terceiro romance, Dados Biográficos do Finado Marcelino (1965), em que retoma a saga da decadência. Das lavras extintas, da garimpagem nostálgica da região de Andaraí ele passa à Salvador de uns setenta anos atrás. Romance de estudo de personalidade e ao mesmo tempo crônica urbana saborosa, nele Andaraí é parâmetro afetivo. De lá sai para fazer fortuna o prodigioso tio Marcelino, que um sobrinho vai encontrar, já vergado pelos anos e desgostoso, em palacete na Calçada. Cavalheiro da belle époque, esmerado no trajar e na degustação de vinhos franceses, vive então da memória de viagens, do culto de amigos abastados e trêfegos, do tempo da casa importadora de vitrolas e discos. É uma sombra, uma lenda familiar. Para o sobrinho, que o vê com olhos benevolentes, Marcelino será um achado — como os diamantes que afloravam nas lavras.

Dados Biográficos do Finado Marcelino é uma peregrinação sentimental, ao contrário da peregrinação comercial de Jenner em Além dos Marimbus. O passado é reconstituído, enquanto o narrador vive a rotina de pessoa comum. O romance se abre com a chegada do moço a Salvador e salta, já no segundo capítulo, para trinta anos depois. A partir daí começa a incursão em busca da imagem verdadeira de Marcelino. Ingênuo, o narrador toma o depoimento de quantos conviveram com o tio, visita lugares. — do que se vale o romancista para reviver Salvador do tempo em que imperava na Rua Chile o Palace Hotel, e os sobradões burgueses pontuavam a Ladeira das Galés e a Calçada.

O inventário do viver baiano ligado à figura mítica de Marcelino rende páginas brilhantes: a descrição do palacete, dos hábitos de seus moradores, da figura avelhantada do tio — corroído por doença misteriosa. Referências a Andaraí acentuam no romance o tom nostálgico de quantos se sentem deslocados, com a personalidade dividida ou extraviada nas reviravoltas da vida.

A linguagem assegura dimensão de texto fluente, correto, imagístico. Herberto herdou dos clássicos a frase bem modulada e modelada, ondulante, graciosa, direta ou negaceante, e com um ritmo que encadeia parágrafos. Sua prosa é um legado clássico que ele recolheu e reproduz. É a tradição, a soma das possibilidades de expressão do idioma cultivado por mestres. Escreve bem, projetando um brilho que vem de longe, passa pela sensibilidade do captador, que se deixa afetar, e recria-se.

O título é perfeito. O romance cresce, a justificá-lo, na medida em que o narrador estreita a pesquisa em torno da imagem fugidia do tio — e a vê esgarçar-se, qual neblina. Surge, então, um elemento de maior poder ficcional: o acidente por fogo que vitima Marcelino no seu jardim. Impõe-se, então, o que nos capítulos anteriores não passava de mera sugestão: o enigma da personalidade de Marcelino. Quem foi, na verdade, aquele homem que fez dinheiro, gozou a vida, cultivou os livros e morreu solitário, ensimesmado, com a certeza de uma progressiva e inexorável desesperança, em tudo parecido com uma personagem de Machado de Assis?  O retrato interior de Marcelino continua a desafiar a argúcia dos amigos.  

Após esta que é uma de suas obras-primas, advém um interregno em que o autor chapadense envereda pela sátira. O Fruto do Vosso Ventre, de 1976, vergasta a burocracia. Coletâneas de contos fustigam hábitos e condutas da juventude hedonista.  

 

“Dramático, erótico, terrível”

 

A essa altura, Herberto abre as comportas. O seu açude interior sangra. Ele já não guarda reservas. Abandona a serenidade clássica; a expressão se eriça, pronta a ferir onde ainda latejam desesperos. Andaraí, que na língua dos índios cariris significa “rio dos morcegos”, é transposta no pesadelo do autor aos círculos do inferno e do purgatório — e neste romance tecido com elementos autobiográficos “incidentais”, conforme confessou em bilhete ao seu editor Ênio Silveira, toda a tragicidade antes insinuada impera e subjuga. Rio dos Morcegos (1993) é um enredo de incesto, farto em lances dostoievskianos — “dramático erótico, terrível”.  segundo o próprio romancista. Será a última visita a Andaraí, a despedida, o acerto final de amor e ódio. A ruptura de tom, de atitude, de linguagem neste romance, antecedido por Os Pareceres do Tempo (1991) e Rebanho do Ódio (1995), e seguido por A Prostituta (1996), mostram que a região era mesmo apenas leve moldura na obra herbertiana.

Dele guardo na memória imagem preciosa: enfermo e desenganado, mas simples, modesto, bebeu com estoicismo sertanejo quase um litro de uísque, em conversa amena em meu apartamento na Ladeira da Barra — enquanto, naturalmente, o íntimo lhe fervia. Grande escritor, bela pessoa, um paredão chapadense de granito, carregou com altivez o fardo que lhe coube.