Yêda Schmaltz: Cor e sabor na poesia brasileira

alefAleilton Fonseca

Então, aqui estou: herdeira.
O meu poeta
me legou tesouros,
Estes que nasceram
das minhas mãos
vazias – versos, linhas
de pétalas de ouros.

(Yêda Schmaltz, “Chuva de ouro”, 2000)

 

Há oito anos, em 10 de maio de 2003, perdemos uma das vozes líricas mais expressivas da poesia brasileira. Yêda Schmaltz (1941-2003) foi poeta e artista plástica de grande destaque na vida cultural goiana, deixando uma obra consistente e bastante premiada. Formada em Letras e Direito, foi professora do Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás. Entre seus prêmios, destacam-se o da Associação Paulista de Críticos de Arte, para melhor livro de poesia, de 1985, com a obra Baco e Anas brasileiras; e o Prêmio Cora Coralina (de Goiás), recebido em1996.  A poeta estreou em 1964, e deixou publicados 21 livros, sendo 19 de poesia, um de contos e um de ensaios sobre arte. São estes os seus títulos:

Caminhos de mim (poesia), Goiânia, Escola Técnica Federal de Goiás, 1964;

Tempo de Semear (poesia), Goiânia, Cerne, 1969;

Secreta ária (poesia), Goiânia, Cultura Goiana, 1973;

Poesias e contos bacharéis II (antologia, c/ Teles, J. Mendonça e Jorge, Miguel) Goiânia, Oriente, 1976;

O peixenauta (poesia), 1ª edição, Goiânia, Oriente, 1975; 2ª edição, Goiânia,

Anima, 1983;

A alquimia dos nós (poesia), Goiânia, Secretaria da Educação e Cultura, 1979;

Miserere (contos), Rio de Janeiro, Antares,1980;

Os procedimentos da arte (ensaio), Goiânia, UFG, 1983;

Anima mea (seleção de poemas), Goiânia, Anima, 1984;

Baco e Anas brasileiras (poesia), Rio de Janeiro, Achiamé, 1985;

Atalanta (contos), Rio de Janeiro, José Olympio, 1987;

A ti Áthis (poesia), Goiânia, Secretaria da Cultura e Prefeitura, 1988;

A forma do coração (poesia), Goiânia, Cerne, 1990;

Poesia(antologia poética), Oficina Literária da Funpel,(Xerox), Goiânia,1993;

Prometeu americano (poesia), Goiânia, Kelps, l966;

Ecos (poesia), Goiânia, Kelps, l966;

Rayon (poesia), Goiânia, Cerne / Funpel, 1997;

Vrum (poesia), Goiânia, Edição da autora, 1999;

Chuva de ouro (poesia), Goiânia, Cegraf/UFG, 2000;

Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz, Goiânia, Cegraf/UFG,2002

De fato, Yêda Schmaltz deu uma relevante contribuição à poesia goiana e brasileira, pela síntese de sua obra e pelos enfoques temáticos. Sua última obra foi a antologia Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz, livro que se divide em 13 seções, enfeixando 70 poemas, versando sobre aspectos como cultura, vocabulário, costumes, cidades, gente, paisagens e rios do estado goiano, como uma reiterada declaração de amor a seu universo. A autora trabalha bem o conteúdo, distribuindo-o organicamente nos poemas com riqueza de detalhes, colorido, leveza e lirismo, possibilitando uma leitura proveitosa e agradável, tanto pelos assuntos como pela forma poética da abordagem.

A linguagem de Urucum e Alfenins é eficientemente construída de figuras, metáforas, jogos semânticos, comparações, alusões, neologismos, com imagens que fluem da observação lírica do espaço natural e social de Goiás. O próprio título é muito expressivo ao juntar, numa mistura de tradição, cor e gosto, os sentidos do urucum (do tupi urucu, que significa “vermelho”, nome da substância corante produzida pelo fruto do urucuzeiro) com os sentidos de alfenim (do árabe, que significa massa de açúcar branca, em ponto especial, delicado). Esse feixe de sentidos metaforiza-se como amálgama cultural que se exprime na mistura dos dois componentes, no preparo do poema como um prato especial: com sabor, gosto, cor, doçura, consistência poética – no ponto – e prazer estético.

O livro adota como epígrafe de abertura o grito de guerra dos índios do planalto central. Trata-se de um canto que define a terra e a cultura pelo olhar lírico, com riqueza de detalhes plásticos e afetivos que brotam do sentimento telúrico, comunicando uma sensação agradável de estar e viver em terras goianas. Mas há também vários momentos de meditação existencial, em que a consciência crítica aflora nos versos acerca da cultura e do viver cotidiano, das vicissitudes, das frustrações e dos anseios, o que dá uma aguda marca pessoal aos poemas.

A lira telúrica vibra o seu canto, celebrando Goiás como estado político, com seu território, suas cidades, sua organização, e como estado poético, com suas emanações líricas que brotam da mata, dos rios, das serras, do viver e existir de seres humanos e animais, plasmados nos versos da poeta sensível. Em “Os rios” a paisagem ganha voz e vida, em versos simples, comparativos, que se harmonizam no conjunto mantendo sempre a consistência. Personificam-se os rios, através de seus atos naturais: Tocantins, Araguaia, Formoso como que dialogam e agem na natureza. O eu lírico marca sua proximidade afetiva, envolvendo-se com o corpo líquido dos rios, numa contemplação amorosa:

 

Meu rio,

diga, meu rio, tua palavra,

antes que a água passe.

– O amor é tudo o que nasce.

 

 

Ao se voltar para as paisagens do Planalto Central,  a poeta parte da consciência de um estado-lugar – do viver e transitar – para percorrê-lo como estado-corpo – do contemplar e do sentir. O olhar percorre as trilhas por onde correm as águas da poesia, sobre montanhas, no cerrado, colhendo na paisagem as cores, os sons e os sentidos poéticos. Em “Amar-Go”, o sentido inicial sugerido subverte-se para nomear o amor a Goiás, por adoção e empenho volitivo pessoal.

Em “As cidades”, a poeta faz um percurso afetivo/descritivo por localidades goianas, emprestando-lhes sua voz lírica, para que se afirmem, em seus aspectos humanos. Através desse discurso, a poeta projeta seu sentimento no próprio ser das cidades:

 

Eu sou uma cidade.

Tive templos derrubados

e depois reconstruídos

Tive crianças, tive jovens

e tive mortos e feridos.

 

Mais adiante, o belo e longo poema “Goiânia – convite e roteiro”, com uma suavidade rítmica que encanta:

 

vem a Goiânia em outubro

pois Goiânia é flor cidade

onde existe uma alameda

cujo nome é feito a fogo

mas de fogo não tem nada.

 

Para contrastar com a exuberância cantada nos versos anteriores, o poema “Goiânia descabelada” disseca a situação social e política da cidade, num recorte crítico muito forte. Assim a poeta passeia por paisagens e cidades, situações e circunstâncias, imantando-as em poemas cheios de lirismo e plasticidade, numa viagem poética muito bem sucedida.

Em toda a extensão da obra, a linguagem mantém sua funcionalidade artística, consubstanciando-se no investimento afetivo do eu lírico e na apresentação dos assuntos e situações. O vocabulário é rico em aspectos linguísticos locais, mas sem cair jamais no simples pitoresco. É do lugar cultural goiano que efetivamente fala a poeta, mas numa perspectiva lírica que ultrapassa o lugar. É também notável a presença da dicção e da sensibilidade femininas no trato com o assunto, na maneira como o sujeito do enunciado se coloca diante das situações, revelando sua visão de mundo.

Urucuns e alfenins é uma antologia poética que se sustenta pelo poder de concisão dos versos, pelos efeitos semânticos e sonoros, e pelo ritmo contemporâneo, com consistência lírica e equilíbrio estético.

Aleilton Fonseca

Escritor, doutor em Letras (USP)

e professor da UEFS – Bahia.

Pertence ao PEN Clube do Brasil, à UBE-SP e à Academia de Letras da Bahia.

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Lúcia – Um café na tarde fria

 

glGláucia Lemos

Espantou um moleque que, à porta da rua, gritava para dentro: velho maluco!, depois voltou para a sala devagar. Mais uma vez olhou, no canto da mesa, a cafeteira suja.  Depois se sentou no banco a um canto, e acendeu o cigarro. O corpo era pequeno e frágil como o de um adolescente. As mãos  delicadas e leves seguravam o cigarro como se estivessem vazias.

Pelo chão, espalhavam-se os cavacos de cedro.

Fixou os olhos no  piso, em um ponto qualquer. Fora pela porta em frente que ela entrara naquele fim de tarde. Apressada. Quase correndo a abrigar-se da chuva. Como um potro assustado.

– Dá licença?

O homem ergueu a cabeça. Ela  transpunha o batente sacudindo a chuva do vestido branco. Passando as mãos pelos cabelos cacheados.

– A chuva me pegou. – Parecia desculpar-se.

– Pode entrar, fique à vontade.

Ele como que emergiu da sisudez habitual. Sorriu. Só com os olhos. Como só sabia sorrir. A mulher parecia assustada. Olhava em volta com olhos de expressão espantada. A sala pequena, as ferramentas  espalhadas, não sei quantas esculturas   povoando o ambiente, desordenadamente, com a mudez da madeira . Depois, ela ficou olhando o homem. Barbado, o peito nu não muito forte, cabelos crescidos, grisalhos nas têmporas, parecendo velho.

A mão soltou a goiva em cima da mesa, e Samuel aproximou-se dela. A silhueta da mulher de branco na moldura da porta, pareceu-lhe um anjo. Mãos levemente pendidas, o corpo parado, o cabelo curto cacheado. E os olhos muito abertos fixando seu rosto. Parecia um anjo. Ele tentou sorrir com seus dentes grandes. E descobriu que ainda sabia. Repetiu.

– Pode entrar, fique à vontade.

Ela tentou um sorriso tímido. Depois sorriu também um sorriso aberto e livre, como criança.

– Não quero atrapalhar, pode continuar no seu trabalho.

Parecia medrosa. Talvez do escultor excêntrico. Ninguém se aproximava dele. Calado, sombrio, sozinho, um ar de velho no rosto grave. Só eventualmente, pessoas estranhas aos vizinhos apareciam de carro e levavam suas peças. No mais, era  solidão.

Ele retomou as ferramentas e voltou a seu trabalho.  Ela ali ficou, sentada em um banco, até que a chuva passou. Calada. Só olhando os movimentos de Samuel. Os pedaços de madeira caíam ao chão, as formas nasciam dos hábeis movimentos das mãos pequenas, e ela acompanhava  sem desviar os olhos.

Quando a chuva passou a mulher levantou-se e foi embora. Sem dizer nada. Ele apenas viu seu vulto transpondo a porta e continuou no  trabalho, como se nada houvesse acontecido.

Uma tarde, algum tempo depois, alguns meses, ela voltou. Chegou devagar, como quem não quer nada, espiou na porta com a antiga timidez, e perguntou.

– Dá licença?

O homem ergueu a vista para a mulher, que, sem esperar resposta, entrava devagar.  De olhos ausentes, como se a visse pela primeira vez, ele não a reconheceu de pronto. Ela sentou-se no mesmo banco, encolhida e perguntou, como criança

– Posso ficar aqui?

Fez que sim, com a cabeça. Ela sorriu e ficou. Calada. A tarde inteira. No fim da tarde, foi embora.

Depois dessa vez ela voltou. Outras e outras mais. Não todos os dias, mas sempre que as tardes eram frias, ou sempre que chovia.

Uma tarde, Samuel perguntou seu nome.

–  Lúcia.  – Respondeu lacônica.

– Mora onde, Lúcia?

Ela sorriu.

– Aqui perto.

– Que é que você faz?

– Uma porção de coisas… e você?

– Eu?… – Samuel fixou-a admirado – Não está vendo? Eu corto madeira, faço uns troços… Faço árvore virar figura de gente. Isso tudo que está por aqui espalhado, não está vendo? E espanto os pivetes que vêm a minha porta me amolar. Me chamar de velho… e de maluco.

Não parecia se importar muito com o detalhe.

Uma tarde ela chegou e entrou em silêncio. E, como sempre, sentou-se no mesmo banquinho. E baixou a cabeça entre as mãos, e chorou. Chorou muito, calada. O homem, surpresa no rosto, deixou seu trabalho e ajoelhou-se ao lado dela. Os olhos claros sempre tranqüilos tornaram-se inquietos. E, qual se  estivesse diante de um ser de outro mundo, não atinava com o que fazer para consolá-la. Pôs-se a seu lado calado e ansioso, sofrendo por vê-la sofrer e  vendo-a transformar-se ante seus olhos, em um ser mais real, mais concreto. Por várias vezes tentou passar as mãos pelos  cabelos dela, para consolá-la, e por várias vezes recuou. Por timidez. Não deveria tocar em Lúcia. Mas a dor de Lúcia, por que quer que ela fosse, foi uma revelação para Samuel. Aquele anjo que enchia a sua solidão chorava. Aquele ser  envolto em pureza, tão cheio de doçura e de silencioso mistério, para quem  não lhe seria possível olhar com  malícia, era uma mulher. E tinha mágoas. Aquele anjo era uma mulher, Samuel descobriu com perplexidade. E foi então que se lembrou de olhar um espelho depois de muitos anos sem o fazer. E também descobriu que não era um velho. Era um homem maduro, sensível, que se escondia naquela solidão que o afastava do mundo e vincava-lhe o rosto e o envelhecia. Um homem que perdera o hábito de sorrir e  reaprendera que existia vida  pulsando dentro de si, por causa da  presença de Lúcia.

Depois daquela tarde, ela continuou a vir  como se nada houvesse acontecido. Nunca lhe disse quais eram suas mágoas e Samuel nunca lhe perguntou. Mas agora, ele lhe passava as mãos pelos cabelos com carinho mudo, de quem entende que sendo uma mulher e não um anjo, Lúcia precisava de carinhos. E lhe afagava o rosto e  lhe beijava os olhos porque descobrira que ela era uma mulher. E uma mulher que se abrigava à sua sombra, tão recluso que era, tão solitário que sempre fora, era porque ela também não tinha amigos. E assim, Lúcia descobriu a cafeteira a um canto de uma velha mesa e lhe fazia café todas as tardes. Porque estavam em um  inverno muito chuvoso e frio, e assim sendo, Lúcia vinha a Samuel todas as tardes. E se amavam. Naturalmente. Como um homem e uma mulher se descobrem e se amam, desde que o mundo é mundo.

Ele soltava as ferramentas do trabalho, quando a mulher lhe estendia a xícara de café, com as mãos delicadas, de pele fina. E Samuel  punha-se  a perguntar a si mesmo, que mulher era aquela? Frágil, quase como uma criança, de rosto delicado e mãos bem cuidadas, de modos finos e cabelos encaracolados, que lhe trazia todos os dias um sorriso inocente, nos lábios rosados. De onde teria vindo aquela mulher nem bem madura, nem bem menina, que entrara em sua vida de repente pela porta adentro, numa tarde de chuva? E se tornava indispensável. E mudava toda a sua vida. E o levava a descobrir que ainda era moço e sabia sorrir e sentia vontade de viver. E tornava tudo tão diferente à sua volta que até os pivetes deixaram de vir importuná-lo. Mas suas perguntas ficavam insatisfeitas, porque Lúcia sempre respondia com gracejos, dizendo qualquer coisa, menos o que ele ansiava por ouvir.

– Eu? Eu sou uma princesa encantada.

– Eu sou Cinderela.

– Eu sou Rapunzel de cabelos cortados.

Talvez nem mesmo se chamasse Lúcia. Mas, que importava o nome? Se ela mesma nem se preocupava com o depois? Não lhe fazia perguntas, não lhe dizia respostas.  Apenas existia. Era só uma presença que ele sabia que se repetia todas as tardes, sem compromisso. Sem promessas e sem segurança.  Enquanto chovesse, ele soube depois.

Quando o inverno acabou, na primeira tarde de sol, ela não veio. E não veio nunca mais. Sem adeus, sem despedida. Sem recado e sem explicação.

O homem pôs-se a esperar. Primeiro com a inquietude e o desespero dos apaixonados. Depois com a saudade e a dor dos abandonados.

Todas as tardes ele ficava contemplando a cafeteira suja a um canto da mesa, como Lúcia a deixara pela última vez. Sem tocá-la. Como um objeto sagrado. E a goiva e o formão descansados sobre a mesa.  O trabalho que iniciara no tempo em que Lúcia lhe vinha, nunca foi concluído.  E no atelier nunca mais foi ouvido o toc, toc, do formão talhando a madeira. Era só o silêncio e o homem esperando, com a fronte escorrendo em suor, e o calor da tarde abrasando tudo com a força do sol que doirava lá fora o céu de verão.

As têmporas grisalhas de Samuel depressa embranqueceram. Seu corpo pequeno e magro tornava-se em um corpo de velho baixinho e mirrado. A barba lhe chegava ao peito como a de um ermitão e os dentes grandes nunca mais sorriram. Agora os pivetes voltavam à sua porta para xingá-lo de velho maluco.

Samuel sentiu o cigarro arder-lhe entre os dedos pendidos. Queimara todo. Sacudiu a mão e a baga caiu entre os restos de cavacos antigos. Uma dor profunda, física, começou a apertar o peito do homem. Levantou-se lentamente. Uma angústia nos olhos. Foi até a porta, por onde ela sempre viera, no tempo em que vinha. Olhou para o céu, azul e brilhante e começou a pensar… Se chovesse. Quem sabe? Quem sabe, se chovesse ela voltaria? Ergueu os braços para o céu e clamou:

– Chova!  Que chova muito! Que chova muito e alague o mundo!

Transpôs a soleira. Olhos para o céu azul e seco. Os braços erguidos em súplica incompreensível para quem  assistia. Que chova muito!  Começou a andar pela rua. Os pivetes juntaram-se em volta acompanhando. Velho maluco! Velho maluco! Gritando, assobiando, dizendo piadas. Samuel indiferente à zombaria,  de olhos agoniados para o céu, prosseguia clamando. Que chova muito!!! As mãos para o alto, a voz em apelo de comover os passantes. Alguns paravam para olhar, alguns riam. Louco, está bêbedo, é o velho que  faz esculturas  Sempre teve um parafuso frouxo.

Repentinamente, escureceu. Grossos pingos começaram a cair. Ribombou o trovão, e o temporal veio abaixo, inundando a rua. A molecada correu a abrigar-se. Os curiosos dispersaram-se. O homem, perplexo, demorou-se parado no meio do asfalto, debaixo do aguaceiro. E sorriu. Primeiro com os olhos,  Depois com os dentes grandes como reaprendera a sorrir no tempo de Lúcia. Em seguida foi caminhando devagar até a casa. A porta estava aberta. A chuva respingava nas figuras de madeira.  Samuel entrou. Olhou em volta, não havia ninguém. permanecia o deserto que  torturava  os dias de Samuel havia tanto tempo. A cafeteira suja lá estava em um canto da mesa,  no fundo da sala, como Lúcia a deixara. E na bancada  do trabalho, em frente, o imenso e pesado bloco de jaqueira, inacabado, de onde começava a emergir, Deus sabe há quanto tempo, um torso de mulher,  para o qual Lúcia posava, quando vinha. No mais, o silêncio e o vazio.

Samuel sentou-se frente à mesa e atirou com violência a cabeça atormentada  por cima  dos braços dobrados. A mesa balançou mal aprumada. O trabalho inacabado, foi lá, veio cá, e despencou-lhe por cima da cabeça pesadamente.

Lá fora, chovia ainda. No fim da tarde o vento estava frio.

Lúcia veio vindo lá do fundo da sala, devagar, e estendeu ao homem  inerte a xícara de café. O vestido branco colado ao corpo, encharcado de chuva. Caracóis molhados nos cabelos curtos. Um sorriso inocente nos lábios pequenos. Como um anjo.

Não sei se Samuel despertou ou se dormira definitivamente. Lúcia nunca me contou.

Acadêmico Florisvaldo Matos lança novo livro

Florisvaldo Matos

A obra Poesia Reunida e Inéditos concretiza uma antiga aspiração dos admiradores de Florisvaldo Mattos: ver reunida, no seu conjunto, sua poesia, dos anos 1950 até os nossos dias. O livro, editado pela Escrituras, de São Paulo, foi lançado na Livraria Cultura, do Salvador Shopping, no dia 14/04/2011.

COMPRE AQUI

Como diz Alexei Bueno, no texto das orelhas, o livro representa “meio século de expressão lírica de um grande poeta grapiúna, soteropolitano, baiano brasileiro e universal (…) um dos poetas com mais requintado senso da terra, da coisa rural, dos mais ligados a seu momento histórico”.

Entre os poetas brasileiros surgidos na década de 1960 – fase extremamente criadora, aqui e no mundo — um dos altos postos pertence a Florisvaldo Mattos. Sua obra poética, dominada por uma dicção fortemente pessoal, é, ao mesmo tempo, de uma abrangência e de uma variedade que desconcertam qualquer crítico.

Um dos polos essenciais da criação de Florisvaldo Mattos, como destaca JC Teixeira Gomes no prefácio do livro, “é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras”.

O vasto conjunto lírico que encontramos nesta Poesia reunida e inéditos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.

Sobre o autor

Florisvaldo Moreira de Mattos é natural de Uruçuca, no sul do Estado da Bahia. Fez os estudos primários na cidade natal e os secundários em Itabuna e Ilhéus, completando-os em Salvador, onde se diplomou em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1958); mas optou pelo exercício do jornalismo profissional, ocupando cargos em vários jornais, como repórter, chefe de reportagem, redator, editor e editor-chefe. Integrou o grupo nuclear da Geração Mapa, que atuou na Bahia nos anos 1960 sob a liderança do cineasta Glauber Rocha.

Escritor e poeta, atuou nas revistas Ângulos e Mapa, ambas editadas em Salvador. De 1990 a 2003, foi editor do suplemento Cultural, publicado semanalmente pelo jornal A Tarde, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Desde 1995, ocupa a Cadeira 31 da Academia de Letras da Bahia. Ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, também exerceu, entre 1987-89, a presidência da Fundação Cultural do Estado. Obras publicadas: Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996), pelo qual recebeu o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia, da União Brasileira de Escritores; Mares Anoitecidos (2000) e Galope Amarelo e Outros Poemas (2001) (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates (1998) e Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa (2004), ambos de ensaios. Como poeta e ensaísta, publicou textos em jornais e revistas de literatura e ciências humanas, estaduais e nacionais, e tem poemas publicados em antologias do Brasil, Portugal e Espanha (Galícia).

Acadêmico Florisvaldo Matos lança novo livro

Florisvaldo Matos

A obra Poesia Reunida e Inéditos concretiza uma antiga aspiração dos admiradores de Florisvaldo Mattos: ver reunida, no seu conjunto, sua poesia, dos anos 1950 até os nossos dias. O livro, editado pela Escrituras, de São Paulo, foi lançado na Livraria Cultura, do Salvador Shopping, no dia 14/04/2011.

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Como diz Alexei Bueno, no texto das orelhas, o livro representa “meio século de expressão lírica de um grande poeta grapiúna, soteropolitano, baiano brasileiro e universal (…) um dos poetas com mais requintado senso da terra, da coisa rural, dos mais ligados a seu momento histórico”.

Entre os poetas brasileiros surgidos na década de 1960 – fase extremamente criadora, aqui e no mundo — um dos altos postos pertence a Florisvaldo Mattos. Sua obra poética, dominada por uma dicção fortemente pessoal, é, ao mesmo tempo, de uma abrangência e de uma variedade que desconcertam qualquer crítico.

Um dos polos essenciais da criação de Florisvaldo Mattos, como destaca JC Teixeira Gomes no prefácio do livro, “é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras”.

O vasto conjunto lírico que encontramos nesta Poesia reunida e inéditos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.

Sobre o autor

Florisvaldo Moreira de Mattos é natural de Uruçuca, no sul do Estado da Bahia. Fez os estudos primários na cidade natal e os secundários em Itabuna e Ilhéus, completando-os em Salvador, onde se diplomou em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1958); mas optou pelo exercício do jornalismo profissional, ocupando cargos em vários jornais, como repórter, chefe de reportagem, redator, editor e editor-chefe. Integrou o grupo nuclear da Geração Mapa, que atuou na Bahia nos anos 1960 sob a liderança do cineasta Glauber Rocha.

Escritor e poeta, atuou nas revistas Ângulos e Mapa, ambas editadas em Salvador. De 1990 a 2003, foi editor do suplemento Cultural, publicado semanalmente pelo jornal A Tarde, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Desde 1995, ocupa a Cadeira 31 da Academia de Letras da Bahia. Ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, também exerceu, entre 1987-89, a presidência da Fundação Cultural do Estado. Obras publicadas: Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996), pelo qual recebeu o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia, da União Brasileira de Escritores; Mares Anoitecidos (2000) e Galope Amarelo e Outros Poemas (2001) (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates (1998) e Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa (2004), ambos de ensaios. Como poeta e ensaísta, publicou textos em jornais e revistas de literatura e ciências humanas, estaduais e nacionais, e tem poemas publicados em antologias do Brasil, Portugal e Espanha (Galícia).

“De quem”, Da Holanda

wfoWaldir Freitas Oliveira

Quando o conheci, já era bem velho. A pele avermelhada do seu rosto parecia uma folha de papel amassado, tantas eram as rugas que a sulcavam. Seu nariz adunco aproximava-se dos lábios murchos de sua boca que, dada a  sua aparência, parecia não possuir mais dentes. Eram bem poucos, então, os seus cabelos brancos arrumados de um lado e do outro da cabeça calva.  Seus olhos eram azuis, brilhantes, e se fixavam firmes nos rostos das pessoas com as quais conversava. Sua voz era trôpega e enrolada, não fosse ele um gringo, falando mal o português.

Por todos era chamado de “De quem” ou “De quem, da Holanda”. Somente mais tarde entendi porque lhe deram esse nome. Não era, contudo, holandês. Nascera na Irlanda, de onde viera para o Brasil. Mas como dizia ser da Irlanda, lugar que ninguém sabia onde ficava, do qual não havia ali dele quem houvesse ouvido falar, acharam todos que ele era da Holanda, que, segundo contavam os mais velhos,  andaram, no passado, por aquelas bandas.

Morava numa casa pendurada na encosta de um morro, na entrada da cidade, na companhia de uma cabocla forte de corpo, de pele trigueira, chamada Evangelina, que ele tratava, simplesmente, de Eva. No seu quintal eles criavam galinhas que vendiam, aos sábados, na feira livre que se armava, ao lado do Mercado.

Embarcara, um dia, num tempo distante, em Liverpool, e fora bater os costados no Rio de Janeiro; de onde acabara vindo para a Bahia, Fora soldado e perdera dois dedos da mão esquerda lutando, a serviço dos ingleses, contra rebeldes, nas montanhas da Escócia.

Era muito bom no manejo das armas. Possuía uma pistola e uma espingarda, Nunca usara a pistola desde que aqui chegara; mas com a espingarda andara caçando pelas matas próximas da cidade, matando pacas e cotias, que coelhos, como em sua terra existiam aos montes, caça de maior porte nelas não havia.

Somente uma vez atirou num macaco, que veio a morrer, horas depois, em seus braços, por não ter sido atingido pelo tiro que lhe dera, em  parte vital do seu corpo; e desde então jurara a si mesmo nunca mais atirar num macaco, pois lhe dera pena e chorara, ao vê-lo morrer sofrendo; do mesmo modo como acontecera com o escocês  que lhe decepara dois dedos, a quem   atravessara o peito com sua lança,  havendo,  a seguir, o  sepultado.

Um dia, Evangelina fugiu de casa com um moço que trabalhava numa fazenda das vizinhanças; e desde então “De Quem” ficou esperando, mesmo sem esperança, que ela voltasse, sentado a embalar-se  numa cadeira de balanço que colocava na varanda da casa, de onde se avistava, até muito longe, a estrada de barro que ligava a cidade às praias. Passou a viver sozinho; e  assim o conheci, quando andei por lá; e   falando  um português enrolado ele  me contou, várias vezes,  muitas coisas do seu passado. Da sua terra, muitas estórias, onde sempre apareciam anjos e fadas.

Fumava um cachimbo que enchia com fumo de corda que comprava na venda de Totonho, e ele mesmo picava com uma faca afiada. Tinha o seu  cachimbo, um braço  redondo, e o seu  bocal era revestido com placas de prata. Deveriam ser o cachimbo e a sua pistola, as únicas coisas que sempre o acompanharam, desde que deixou a Irlanda e se mandara, mar a fora, para o Brasil.

Ninguém sabia de onde lhe vinha o dinheiro com que comprava os mantimentos ‒ o café, o pão, o açúcar, a  carne seca e as batatas que faziam parte, invariavelmente,  de suas refeições. A cada ano, na Semana Santa, aparecia, porém, na cidade, um gringo, de rosto avermelhado como o dele, que vinha  visitá-lo. Não falava com ninguém. Chegava e ia direto para sua casa. Ali  passava o dia inteiro.  Depois sumia dali, tão ligeiro como havia surgido. Diziam que era seu irmão ou sobrinho; e parecia ser bem mais moço que ele. Talvez fosse aquele gringo que lhe arranjava o dinheiro para as suas compras; pois sempre depois de sua visita, “De Quem” aparecia com roupa nova

Ele pagava a uma preta velha que morava por perto, para ir limpar a casa, lavar sua roupa e preparar sua comida. Ela, porém, nada mais lhe dava que o seu trabalho.

Quando morreu, “De Quem” foi enterrado como indigente; e ninguém apareceu para cuidar do seu funeral. Foi então que acharam em sua casa uns papéis dizendo que ele se chamava Dee Kenson e nascera em Ringsend, na Irlanda, em 1889, tendo saído do seu país, com 21 anos de idade. E o Dee Kenson acabou virando “De Quem”, por ser assim que as pessoas o chamavam, sem que soubessem  pronunciar,  corretamente,   seu nome verdadeiro..

Passei pela casa onde morara, pouco tempo depois da sua morte.  Estava abandonada. Entrei e procurei ali encontrar alguma coisa que me dissesse mais a seu respeito. Achei a sua pistola, guardada num armário; e o seu cachimbo, numa das duas  gavetas da mesa onde fazia as suas refeições.   Mandei então  refazer o assento e o encosto de palhinha da sua cadeira de balanço e fixá-la ao chão de tábuas da varanda, para que ninguém a levasse  E fiquei espantado, no dia seguinte, quando, numa tarde sem vento, sem mesmo uma leve  brisa a soprar, eu a vi balançando, como se alguém estivesse nela sentado.

Passei na casa,  alguns dias; e de noite ouvia, vindo do alto, acima do telhado, um farfalhar de asas que me acordava e impedia de continuar a dormir. Pensei, então, nos anjos que apareciam nas estórias que “De Quem” contava.  E em certa madrugada, vi brilhar no céu, uma estrela que o enchia de uma luz cintilante e que  me inquietou o pensamento. Perguntei a outras pessoas se elas também tinham visto, em  alguma noite,  aquela  estrela;  e elas me disseram que a viam, vez em quando,  e que “De Quem”  dizia que ela era  uma fada,  chamada Morgana, que vinha, às vezes,  visitá-lo.

Quando fui embora, levei comigo a pistola e o cachimbo. Ofereci a pistola a um museu de armas, no Rio de Janeiro. Quanto ao cachimbo, eu o guardei com cuidado; e se, por acaso, for, algum dia, à Irlanda, irei colocá-lo sobre uma pedra, na praia, à beira do mar que banha a cidade onde ele nasceu e  atravessou quando partiu para o Brasil;  tendo toda a certeza de que a fada Morgana irá  encarregar-se  de ali  apanhá-lo e levá-lo de volta ao seu dono, numa noite encantada, quando for, de novo, visitá-lo.