“De quem”, Da Holanda

wfoWaldir Freitas Oliveira

Quando o conheci, já era bem velho. A pele avermelhada do seu rosto parecia uma folha de papel amassado, tantas eram as rugas que a sulcavam. Seu nariz adunco aproximava-se dos lábios murchos de sua boca que, dada a  sua aparência, parecia não possuir mais dentes. Eram bem poucos, então, os seus cabelos brancos arrumados de um lado e do outro da cabeça calva.  Seus olhos eram azuis, brilhantes, e se fixavam firmes nos rostos das pessoas com as quais conversava. Sua voz era trôpega e enrolada, não fosse ele um gringo, falando mal o português.

Por todos era chamado de “De quem” ou “De quem, da Holanda”. Somente mais tarde entendi porque lhe deram esse nome. Não era, contudo, holandês. Nascera na Irlanda, de onde viera para o Brasil. Mas como dizia ser da Irlanda, lugar que ninguém sabia onde ficava, do qual não havia ali dele quem houvesse ouvido falar, acharam todos que ele era da Holanda, que, segundo contavam os mais velhos,  andaram, no passado, por aquelas bandas.

Morava numa casa pendurada na encosta de um morro, na entrada da cidade, na companhia de uma cabocla forte de corpo, de pele trigueira, chamada Evangelina, que ele tratava, simplesmente, de Eva. No seu quintal eles criavam galinhas que vendiam, aos sábados, na feira livre que se armava, ao lado do Mercado.

Embarcara, um dia, num tempo distante, em Liverpool, e fora bater os costados no Rio de Janeiro; de onde acabara vindo para a Bahia, Fora soldado e perdera dois dedos da mão esquerda lutando, a serviço dos ingleses, contra rebeldes, nas montanhas da Escócia.

Era muito bom no manejo das armas. Possuía uma pistola e uma espingarda, Nunca usara a pistola desde que aqui chegara; mas com a espingarda andara caçando pelas matas próximas da cidade, matando pacas e cotias, que coelhos, como em sua terra existiam aos montes, caça de maior porte nelas não havia.

Somente uma vez atirou num macaco, que veio a morrer, horas depois, em seus braços, por não ter sido atingido pelo tiro que lhe dera, em  parte vital do seu corpo; e desde então jurara a si mesmo nunca mais atirar num macaco, pois lhe dera pena e chorara, ao vê-lo morrer sofrendo; do mesmo modo como acontecera com o escocês  que lhe decepara dois dedos, a quem   atravessara o peito com sua lança,  havendo,  a seguir, o  sepultado.

Um dia, Evangelina fugiu de casa com um moço que trabalhava numa fazenda das vizinhanças; e desde então “De Quem” ficou esperando, mesmo sem esperança, que ela voltasse, sentado a embalar-se  numa cadeira de balanço que colocava na varanda da casa, de onde se avistava, até muito longe, a estrada de barro que ligava a cidade às praias. Passou a viver sozinho; e  assim o conheci, quando andei por lá; e   falando  um português enrolado ele  me contou, várias vezes,  muitas coisas do seu passado. Da sua terra, muitas estórias, onde sempre apareciam anjos e fadas.

Fumava um cachimbo que enchia com fumo de corda que comprava na venda de Totonho, e ele mesmo picava com uma faca afiada. Tinha o seu  cachimbo, um braço  redondo, e o seu  bocal era revestido com placas de prata. Deveriam ser o cachimbo e a sua pistola, as únicas coisas que sempre o acompanharam, desde que deixou a Irlanda e se mandara, mar a fora, para o Brasil.

Ninguém sabia de onde lhe vinha o dinheiro com que comprava os mantimentos ‒ o café, o pão, o açúcar, a  carne seca e as batatas que faziam parte, invariavelmente,  de suas refeições. A cada ano, na Semana Santa, aparecia, porém, na cidade, um gringo, de rosto avermelhado como o dele, que vinha  visitá-lo. Não falava com ninguém. Chegava e ia direto para sua casa. Ali  passava o dia inteiro.  Depois sumia dali, tão ligeiro como havia surgido. Diziam que era seu irmão ou sobrinho; e parecia ser bem mais moço que ele. Talvez fosse aquele gringo que lhe arranjava o dinheiro para as suas compras; pois sempre depois de sua visita, “De Quem” aparecia com roupa nova

Ele pagava a uma preta velha que morava por perto, para ir limpar a casa, lavar sua roupa e preparar sua comida. Ela, porém, nada mais lhe dava que o seu trabalho.

Quando morreu, “De Quem” foi enterrado como indigente; e ninguém apareceu para cuidar do seu funeral. Foi então que acharam em sua casa uns papéis dizendo que ele se chamava Dee Kenson e nascera em Ringsend, na Irlanda, em 1889, tendo saído do seu país, com 21 anos de idade. E o Dee Kenson acabou virando “De Quem”, por ser assim que as pessoas o chamavam, sem que soubessem  pronunciar,  corretamente,   seu nome verdadeiro..

Passei pela casa onde morara, pouco tempo depois da sua morte.  Estava abandonada. Entrei e procurei ali encontrar alguma coisa que me dissesse mais a seu respeito. Achei a sua pistola, guardada num armário; e o seu cachimbo, numa das duas  gavetas da mesa onde fazia as suas refeições.   Mandei então  refazer o assento e o encosto de palhinha da sua cadeira de balanço e fixá-la ao chão de tábuas da varanda, para que ninguém a levasse  E fiquei espantado, no dia seguinte, quando, numa tarde sem vento, sem mesmo uma leve  brisa a soprar, eu a vi balançando, como se alguém estivesse nela sentado.

Passei na casa,  alguns dias; e de noite ouvia, vindo do alto, acima do telhado, um farfalhar de asas que me acordava e impedia de continuar a dormir. Pensei, então, nos anjos que apareciam nas estórias que “De Quem” contava.  E em certa madrugada, vi brilhar no céu, uma estrela que o enchia de uma luz cintilante e que  me inquietou o pensamento. Perguntei a outras pessoas se elas também tinham visto, em  alguma noite,  aquela  estrela;  e elas me disseram que a viam, vez em quando,  e que “De Quem”  dizia que ela era  uma fada,  chamada Morgana, que vinha, às vezes,  visitá-lo.

Quando fui embora, levei comigo a pistola e o cachimbo. Ofereci a pistola a um museu de armas, no Rio de Janeiro. Quanto ao cachimbo, eu o guardei com cuidado; e se, por acaso, for, algum dia, à Irlanda, irei colocá-lo sobre uma pedra, na praia, à beira do mar que banha a cidade onde ele nasceu e  atravessou quando partiu para o Brasil;  tendo toda a certeza de que a fada Morgana irá  encarregar-se  de ali  apanhá-lo e levá-lo de volta ao seu dono, numa noite encantada, quando for, de novo, visitá-lo.

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