Ernesto e Osman

refRuy Espinheira Filho

A descoberta de Ernesto Sábato, morto há alguns dias, assim como a de Osman Lins (particularmente seu indispensável “Guerra sem testemunhas”), foi-me de grande ajuda no tão difícil e incompreendido ofício da literatura. Com eles percebi não estar sozinho no combate à fraude que, travestida de vanguardismo, assolou violentamente o país a partir de 1945, produzindo catadupas de neoconservadores e de falsos criadores de estéticas revolucionárias.

Percebi, com eles, que minha intuição, mais que a mera reflexão intelectual, estava no caminho certo, o que hoje está comprovado pelo quase vazio que restou da chamada Geração de 45 e das cinzas frias do que foi o furioso movimento concretista. Falei de intuição porque é ela o que mais de fato orienta o artista e gera sua obra – deixando em estado de perplexidade críticos e professores.

Com Osman aprendi que a literatura é, mesmo, uma profissão, porque profissão não é mera atividade para se ganhar o pão de cada dia. É muito mais: algo que se professa, seja no campo das artes, das ciências, do humanismo, o que for. No caso do escritor, que é o que me interessa aqui, ou ele é um profissional (ou seja: alguém que professa o ofício da literatura), ou não conseguirá realizar nada de importante.

Ambos, Osman e Sábato, são fonte de sabedoria. Na verdade, ambos se encontram e se complementam, com intensidade intelectual e paixão. Segundo Sábato, “a literatura não é um passatempo nem uma evasão, senão uma forma – talvez a mais completa e profunda – de examinar a condição humana.” O que significa ir bem mais alto do que aquilo que chamamos realidade, só tendo olhos para o óbvio, o pobre, pois a grande arte será sempre ligada às essências, ou seja, metafísica.

Enfim, indico aos interessados duas obras: a já citada do Osman e “O escritor e seus fantasmas”, de Sábato. Esta talvez encontrável em algum sebo; a outra, pelo que me dizem, é quase impossível, esgotada e não reeditada há décadas, pois não interessa a críticos, professores, maus autores e editores, que nela são tão questionados.

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Muito mais que mera coincidência

Carlos RibeiroCarlos Ribeiro

As coincidências significativas são objetos de estudo da ciência

– e podem mudar nossa concepção de mundo.

Yo no creo en sincronicidades, pero que las hay, las hay. O famoso dito espanhol relativo às brujas aplica-se perfeitamente ao conceito de “coincidência significativa”, adotado pelos seguidores do pensador Carl Gustav Jung e rejeitado por correntes científicas mais tradicionais. Sincronicidade é o nome que C. G. Jung dá à ocorrência simultânea de acontecimentos que não têm, entre si, uma relação de causa e efeito. Quem já não vivenciou uma dessas coincidências “incríveis” sem aparente explicação lógica? E, no entanto, quem admite que possa haver nelas algo mais do que um simples acaso?

No livro Além das coincidências: uma explicação científica para os acontecimentos atribuídos ao acaso, os jornalistas Martin Plimmer e Brian King catalogam várias histórias inacreditáveis, como a seguinte:

Em 1899, o ator shakespeariano Charles Francis Coghlan, natural da ilha Prince Edward, no Canadá, morreu subitamente quando se apresentava na cidade portuária de Galveston, no Texas, sudoeste dos Estados Unidos. Como a distância era grande demais para transladar o corpo para casa, ele foi colocado em um caixão de chumbo e enterrado num túmulo de granito num cemitério local.
No dia 8 de setembro de 1900, um grande furacão atingiu Galveston – lançando ondas contra o cemitério e arrancando túmulos. O caixão de Coghlan foi arrastado para o mar. Ele flutuou até o Golfo do México e seguiu pela costa da Flórida até o Atlântico, onde a corrente do golfo o apanhou e o levou para o norte.
Em outubro de 1908, pescadores da ilha Prince Edward viram uma grande caixa corroída pelo tempo flutuando na costa. Após nove anos e 5.500 quilômetros, o corpo de Charles Coghlan tinha voltado para casa. Seus concidadãos o enterraram no cemitério da igreja onde ele tinha sido batizado. (PLIMMER; KING, 2005)

Probabilidades

O que torna esta história digna ou não de crédito? Descontando a possibilidade de que as fontes dos autores não sejam confiáveis, a questão básica relativa a tal fato poder ou não ter acontecido diz respeito à probabilidade. “Os matemáticos dizem que se uma coisa pode acontecer, acontecerá – um dia. Apenas coisas impossíveis não acontecem – como descobrir icebergs no Saara ou táxis sob a chuva”, dizem Plimmer e King. Em outras palavras: se alguém disser que a chance de uma coisa acontecer é de uma em cada 73 milhões, não está dizendo que é impossível. “Se uma em cada 73 milhões de pessoas ficar verde, haverá 84 pessoas verdes no mundo”.Veja-se o caso do guarda florestal Roy Cleveland Sullivan, atingido por um raio nada menos que sete vezes. “O que Sullivan tinha feito para merecer tanto azar? Seis anos depois do sétimo raio ele cometeu suicídio. O motivo, como foi dito na época, era que ele tinha azar no amor. Um caso de não ser escolhido”.

De acordo com os matemáticos, o caso não é assim tão espantoso, já que as chances de uma pessoa ser atingida novamente por um raio são exatamente as mesmas.
Bem mais difícil, no caso, seria a probabilidade de um meteorito cair na cabeça de alguém: de um em um quatrilhão. Mas, contam os autores, uma vaca foi atingida por um meteorito, certa vez. Assim, informa o matemático Ian Stewart, “é provável que nos próximos dez mil anos alguém seja atingido por um meteorito”.

Camadas profundas

Este é o aspecto anedótico da sincronicidade – ótimo para fisgar leitores de jornais dominicais. Mas não é o mais importante. Saber que um balão solto por uma garota de 10 anos, Laura Buxton, no jardim de casa, pousou 220 quilômetros depois, no jardim de uma outra Laura Buxton de 10 anos de idade, pode ser interessante, mas não passa de uma história fantástica que logo será esquecida. Para o físico Paul Kammerer, que estudou exaustivamente, no início do século 20, séries temporais de fenômenos sincrônicos, o mais importante é conhecer o que se passa por baixo da “crista das ondas”, daquilo que nos parecem coincidências isoladas. A essas camadas profundas o psicanalista Carl Gustav Jung deu o nome de inconsciente coletivo.

A sincronicidade, desde a primeira metade do século passado, tem sido objeto de questionamentos científicos que levam tanto ao âmbito da psicanálise como da física quântica, este ramo tão citado das ciências exatas e tão pouco compreendido. E, nele, a percepção cada dia mais consensual de que essas coincidências acontecem, não num cenário de seres e objetos materiais, mas de um complexo campo de consciência, no qual a matéria não passa de uma ilusão.

Nada é por acaso

A grande dificuldade para compreender melhor as coincidências estaria na resistência a fugir à lógica da filosofia grega.

Para entender a sincronicidade é necessário perceber, como diz o físico David Bohm, que a separação entre matéria e espírito é uma abstração. Ou, como afirmou o Prêmio Nobel de Física (1945) Wolfgang Pauli, que espírito e corpo são aspectos complementares de uma mesma realidade. Para o físico Arthur Eddington, a matéria-prima do universo é o espírito – ao qual se pode dar a definição de “um grande pensamento”. As evidências de que a matéria é inexistente levou o filósofo e matemático Bertrand Russel a uma definição genial: “A matéria é uma fórmula cômoda para descrever o que acontece onde ela não está”. O astrônomo V. A. Firsoff acrescenta: “Afirmar que existe só matéria e nenhum espírito é a mais ilógica das propostas. É bem diferente das descobertas da Física moderna. Esta mostra que, no significado tradicional do termo, não existe matéria”.

Tal afirmação se contrapõe ao senso comum. Mas, para se ter uma ideia mais clara disto, basta dizer que, segundo cálculo feito por Einstein, se os espaços entre todos os átomos em todos os seres humanos da Terra fossem eliminados, deixando apenas matéria concentrada, sobraria alguma coisa aproximadamente do tamanho de uma bola de baseball (embora muito mais pesada).

Se todo este vasto conjunto de matéria que forma o planeta é pouco mais do que uma ilusão, o que sobra? Sobra energia – muita energia. Isso é algo que sabemos estar concentrado em abundância dentro de todo o átomo. O físico Max Planck disse: “A energia é a origem de toda a matéria. Realidade, existência verdadeira, isso não é matéria, que é visível e perecível, mas a invisível e imortal energia – isso é verdade. `”

Significado

O que seria a coincidência neste “ambiente” imaterial? Para Jung, “atos da criação no tempo” – atos estes que são, muitas vezes, catalisados por “catarses emocionais”.

A grande dificuldade, segundo eminentes cientistas, para se compreender melhor as sincronicidades está – sobretudo, como diz o escritor húngaro Arthur Koestler, em seu famoso livro As raízes da coincidência (1972) – na dificuldade de se pensar fora das “categorias lógicas da filosofia grega, que impregna nosso vocabulário e conceitos e decide, por nós, o que é concebível e o que é inconcebível”.

Para o baiano Beto Hoisel, autor do ensaio ficcional Anais de um simpósio imaginário – entretenimento para cientistas (1998), a sincronicidade não se esgota na simples enumeração de coincidências. “Mexer com elas implica em mexer com as bases metafísicas da nossa civilização. Implica, sobretudo, em mexer no nosso paradigma que é ainda newtoniano, materialista, causalista, determinista, freudiano. Ou seja: aquele que não admite nada que não esteja além da matéria.”

A surpresa em relação às coincidências, segundo Beto, é consequência da incompreensão em relação ao dado fundamental de que tudo é possível. “As pessoas vivem sobrenadando num oceano de sincronicidades, das quais percebem só uma pequeníssima parte. Tudo acontece, com diferentes probabilidades. Mas quem determina as probabilidades? É aí que se encontram os deuses.”

Para o médico clínico e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Bahia (Sobrames), Márcio Leite, o mais importante é destacar o que há de significativo, num determinado acontecimento, para a pessoa que o vive. É aí que se encontra o aspecto terapêutico da sincronicidade. “É importante perceber algo que se passa do lado de fora que está conectado com o que a pessoa sente, percebe, sonha”. O conceito de sincronicidade implica na ideia de que o universo é indivisível e que há uma relação entre o que está dentro de nós (na psique) com o que está fora (realidade física) – e que essa interação se dá de forma não-causal.

Como diz sabiamente Renée Haynes, no post-scriptum de As razões da coincidência: “é a qualidade, o significado, que cintila como uma estrela cadente através da sincronicidade”.

Superstições

Uma das razões da postura cética de muitos cientistas é, provavelmente, a avalanche de tolices e superstições que está sempre pronta a inundar qualquer espaço aberto pela ciência em suas defesas racionais. Sem falar nas pessoas suscetíveis a verem “estranhas ligações” onde não existem. Se “a ideia de que o mundo é um jogo da consciência, um jogo de Deus”, como disse recentemente o físico indiano Amit Goswami no programa Roda Viva, da TV Cultura, deve ser considerada, por outro lado deve-se ressaltar que este Deus não é o que está sentado num trono com sua trombeta, mandando os inimigos do Povo Eleito para o inferno, nem muito menos o que promete um paraíso repleto de virgens àqueles que morrerem eliminando o maior número de infiéis.

À pergunta sobre se tinha uma religião, Koestler afirmou: “Se religião significa um amontoado de dogmas, então, certamente, não tenho. Tudo o que posso dizer é que há níveis de realidade além dos limites da ciência, e dos quais temos tido rápidas visões”. Talvez seja um avanço a ideia, segundo Goswami, de que, logo no início do terceiro milênio, Deus será objeto de ciência e não mais de religião.

Acreditando ou não em coincidências significativas, ou em bruxas, o fundamental é que não se tenha preconceito, sobretudo na investigação científica. O que pode salvar o mundo do embate entre céticos, fundamentalistas e a física pós-materialista é o bom humor. Como nesta historinha contada por Brian King e Martin Plimmer:

Certa vez perguntaram ao famoso físico Niels Bohr por que ele tinha uma ferradura pendurada sobre a porta do seu escritório. `O senhor certamente não acredita que isso fará qualquer diferença em sua sorte? `, perguntou um colega. ´Não, respondeu ele, ´Mas eu ouvi dizer que funciona mesmo com aqueles que não acreditam. (PLIMMER; KING, 2005)

 

REFERÊNCIAS

PLIMMER, Martin; KLING, Brian. Além das coincidências: uma explicação científica para os acontecimentos atribuídos ao acaso. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005.

Cyro de Mattos em plena produção literária

Aos 72 anos de idade, com a função nada fácil de estar como diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), em razão de muitas demandas, poucos recursos e uma equipe pequena, o escritor e poeta Cyro de Itabuna está em pleno processo de criação literária. Neste ano vai lançar os livrtos “Lorotas, Caretas e Piruetas”, poesia infantil, pela Editora RHJ, de Belo Horizonte, “Vinte e Um Poemas de Amor”, pela Editora Portal, de São Paulo, “Histórias Dispersas de Adonias Filho”, coletânea, pela Editus, e a segunda edição de “Os Brabos”, pela LGE Editora, de Brasília, e “Berro de Fogo e Outras Histórias”, pela Editus. Recentemente a Editora Romar, de Milão, publicou a antologia “Canti dellaterra e dell’acqua”, de Cyro de Mattos, com tradução de Mirella abriani para o italiano. O autor Cyro de Mattos participará como convidado do Projeto O Encontro com o Escritor”, da Fundação Pedro Calmon, quando estará falando sobre seu trajeto literário, processo de criação, motivações de sua arte como poeta, cronista, contista e autor de livros infanto-juvenis, na Biblioteca Pública Estadual dos Barris, em Salvador, no dia 26 deste mês, às 15 horas. O evento faz parte das comemorações do Bicentenário da Biblioteca Pública dos Barris.

EDITORA ITALIANA PUBLICA ANTOLOGIA

“Canti della terra e dell’acqua” é uma antologia do poeta Cyro de Mattos, reunindo 38 poemas, que foi publicada recentemente pela editora Romar, de Milão, com seleção e tradução de Mirella Abriani. A tradutora já traduziu para o italiano Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade Com esta antologia, Cyro de Mattos alcança a marca de cinco livros de poesia publicados no exterior. Os outros livros são os seguintes: “Vinte Poemas do Rio”, edição bilíngüe, com tradução do poeta Manoel Portela para o inglês, e “Ecológico, ambos editados pela Palimage, de Coimbra, Portugal; “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, da Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, com tradução de Curt Meyer Clason, e “Poesie della Bahia”, publicação da Runde Taarn Edizoni, em Gerenzano (Varese), Itália, com tradução de Mirella Abriani.

Canti della terra e dell'acqua

A antologia “Canti della terra e dell’acqua” é constituída de quatro partes: Os Sinais da Terra, Águas do Rio, Alguns Bichos e Águas do Mar. No livro estão presentes poemas inspirados na infância, rio Cachoeira, bichos e meio ambiente. Sobre o autor Cyro de Mattos disse Jorge Amado: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”. Já a escritora e professora Graziella Corsinovi, da Universidade de Genova, presidente do júri do XII Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, assim opinou: “Poesia do mais amplo horizonte histórico e existencial, que evoca mistérios da epopéia brasileira com grande poder de sugestão”.

ENTREVISTA

Fundação Pedro Calmon – Como se sente em participar do Projeto Encontro com o Escritor e qual a sua importância para os escritores?

CM – Contente. Vejo como reconhecimento à minha obra, que a essa altura é constituída de 38 livros, entre volumes de contos, crônicas, poesia, literatura infanto-juvenil e organização de antologias. Tenho livros publicados em Portugal (2), Alemanha (1) e Itália (2). Alguns prêmios literários importantes, no Brasil e exterior. Participar do Projeto Encontro com o Escritor vale também como um prêmio. Aproxima os autores do público leitor, contribui para que a obra seja conhecida na Bahia. O projeto é assim um incentivo importante para que os escritores baianos continuem na jornada.

Fundação Pedro Calmon – Quais são os tópicos da sua carreira literária que vai abordar durante o Encontro?

CM – Meu trajeto literário, por que escrevo, de como se dá meu processo de criação, minhas motivações no conto, crônica, poesia, livros infanto-juvenis e organização de antologias, para que serve a obra literária, entre outros.
Fundação Pedro Calmon – Na sua visão, quais são as principais dificuldades do escritor baiano na atualidade?

CM– Falta espaço na mídia para que sejam divulgados seus textos e atividades. Falta principalmente um contexto editorial suficiente para publicar o autor baiano, fazendo com que o livro dele circule em outras praças. Por que existem boas editoras há anos em Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife? Os catálogos com coleções das editoras LPM, no Rio Grande do Sul, Dimensão, RHJ e Miguelim em Minas Gerais, e Bagaço, em Pernambuco, ampliam-se através da publicação de autores locais. As obras desses autores são distribuídas nas livrarias tradicionais e virtuais brasileiras, e vendem. Dão retorno econômico ao editor. Por que não existe sequer uma editora em Salvador com condições de publicar decentemente o autor baiano? Refiro-me àquela para a qual o autor não precisa nem financiar seu trabalho nem ser seu próprio distribuidor. É caso raro o do autor que reside em Salvador ou no interior baiano quando consegue publicar sua obra em editora de grande porte situada no eixo do Rio e São Paulo, com circulação nacional. Falta uma política institucional pública mais arrojada para através de co-edições, por exemplo, fornecer certa condição para que a editora baiana que está nascendo tenha assim algum suporte para sobreviver e crescer. É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor baiano, no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias. A Bahia tem de sobra bons autores. Falta mesmo é o editor com espírito empresarial para esse tipo de atividade econômica. E uma política pública institucional que o estimule, com mecanismos eficazes para que ele progrida. Desenvolva e fortaleça um complexo editorial abrangente e ideal.

Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior. Atual diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.