José Calasans, conselheiro intelectual

cnsConsuelo Novais Sampaio

Ó tu que vens de longe/ Ó tu que vens cansado/ Entra e sob o meu teto encontrarás abrigo…  Ao ouvir os versos proferidos pelo  professor Aloysio de Carvalho Filho, os olhos de José Calasans arregalaram-se, adensando o azul da iris. Era o seu primeiro dia na Faculdade de Direito e chegara atrasado para a aula de literatura. Entrou de mansinho, pé ante pé, cabeça baixa, para não ser visto. Por isso espantou-se. Ao invés de ser censurado, recebia vibrante saudação!? Sentou-se agradecido; mas logo ficou sabendo que o poeta Walmosi era tema daquela aula…
Contudo, a Bahia deu-lhe bom abrigo, ainda que o seu processo de baianização houvesse sido por vezes penoso, como quando, já dominado pela musa Clio, foi barrado no Arquivo Público da Bahia pelo diretor Borges de Barros: sergipano só pode pesquisar aqui com autorização especial…. Excesso de zelo? Talvez. Ainda corria a velha questão de fronteiras entre Bahia e Sergipe.
Consolava as mágoas nos braços da sua bela Lucia Maciel, que desde 1935 havia sucumbido ao magnetismo do seu olhar, à mansidão e calor da sua fala sergipana. Mulher fidalga, companheira e apoio constante na sua caminhada de desbravador da História. Construiu no seu lar um pequeno memorial para homenagear o mestre que partia. Como explicar que o sobrenome da esposa de Calasans coincida com o de Antonio Maciel, o Conselheiro de Canudos? E o seu sogro, Afonso Maciel Filho, houvesse sido Conselheiro, ainda que do Tribunal de Contas?
Bacharel em Direito, o interesse de Calasans não estava nos tribunais, mas na História. Quando o professor Conceição Meneses abriu-lhe os arquivos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, confirmou o seu destino. Ali ele encontrou uma das raras cartas escritas por Antonio Conselheiro. Entendeu que a sua missão era remover a cortina de ignorância e medo que ocultava a comunidade sertaneja de Canudos, dizimada por tropas federais, num dos mais sangrentos e sinistros episódios da história deste País.
Só então percebeu que, desde menino, Antonio Conselheiro habitava a sua mente. Por não entender a historia ensinada na escola, foi procurar o major Marcelino, famoso pelo seu conhecimento. Passaram a conversar horas a fio. O menino Zé Calá–assim o chamava o velho major– percebeu que o major contava histórias que não estavam nos livros. Porém, não percebeu que ele estava amarrando a sua vida às vidas do arraial de Canudos. Só muito depois constatou que aquele conversador fora chefe do Estado Maior do Gal. Savaget que,  ao socorrer o Gal. Artur Oscar, decretou  a destruição de Canudos.
Coincidência ou predestinação? Naqueles papos prolongados não se falava em Canudos, mas a chacina ali perpetrada estava presente no pensamento do velho major. Depois de tanto horror, o medo tomara conta da sociedade brasileira. Com aqueles encontros, quase diários, a mente do jovem adolescente foi sendo dominada pela certeza de que, através de conversas, grandes lacunas desapareceriam da História do Brasil.
Calasans foi o precursor da história oral no Brasil, muito antes do mundo acadêmico dela fazer uso. Antes dele, só o jornalista Odorico Tavares havia conversado com gente de Canudos, 50 anos após a sua destruição em 1897. Até então, Canudos jazia aprisionado na gaiola de ouro de Os Sertões.
Com O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro (1950) e as Quase biografias de Jagunços (1986) o mestre Calasans abriu a portinhola dessa gaiola, que o poeta-jornalista apenas destravara. Graças às suas conversas, deu vida ao comandante da rua João Abade; às bravatas do negro Pajeú; à voz melodiosa de José Beatinho, à velha Benta, parteira e negociante; ao próprio Antonio Conselheiro; enfim, varreu o sertão e introduziu na história pátria mais de 25 heróicos atores.  Formou ao seu redor um grupo de estudiosos de Canudos. Todos nós fomos estimulados por suas conversas, fala mansa, penetrante. Carinhosamente nos chamava de meus  jaguncinhos.

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