João Falcão passa à imortalidade aos 92 anos

O fundador do Jornal da Bahia, escritor, jornalista, empresário e acadêmico, João Falcão, de 92 anos, faleceu no início da noite desta quarta-feira (27).

Ao saber da morte do jornalista, o presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e da Tribuna da Bahia, Walter Pinheiro, disse que a “Bahia perdeu um idealista, empreendedor, um guerreiro e intelectual. E eu perdi um amigo”. De acordo com ele, ainda no último dia 15, “o convidávamos para o lançamento da Medalha pelo Bi-Centenário da Imprensa Baiana, quando também seria homenageado, e ele, com a lhaneza de sempre, justificava a ausência, em face do tratamento a que vinha se submetendo”.

“Foi-se a última chance de agraciá-lo – em vida – com uma honraria que, em parte, saldaria o grande débito que a Bahia alimentou perante João Falcão, diante de sua incessante luta pela liberdade de imprensa, por uma sociedade mais justa e pelo desenvolvimento do nosso Estado.”

Sempre lembrado pelo lema “Não deixe esta chama se apagar”, com o que manteve nas ruas o Jornal da Bahia, mesmo ao transferir o seu controle acionário, nunca perdeu a imagem de um destemido escriba, lançando livros que preservaram a memória de um baiano cujos exemplos haverão de ser cultivados pelas gerações que se seguem”, concluiu Walter Pinheiro.

Acesse a biografia completa de João falcão aqui.

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Happy End na Paralela

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Mais que analisar a solução apontada para a ligação Acesso Norte/Lauro de Freitas, quero aqui analisar o processo. A primeira lição do episódio é que Salvador já não é a mesma de 2007, quando a Camara de Vereadores aprovou na calada da noite o PDDU vigente. Apesar de não ter havido audiências publicas, foi intensa a mobilização da sociedade em torno da escolha do sistema de transporte na RMS, através de jornais, blogs, rádios e reuniões promovidas por instituições como o CREA-Ba ou convocadas por vereadores e deputados estaduais. Esta ação cidadã foi decisiva na definição do modal de mobilidade.

Aquilo que parecia impossível, vencer o poderoso consórcio do BRT, acabou acontecendo. Recorde-se que o projeto do SETPS, iniciado em 2003, foi um dos vinte oferecidos por investidores privados e encampados pela Prefeitura no pacote Salvador Capital Mundial. O SETPS e a construtora consorciada realizaram o levantamento topográfico da rota e financiaram os estudos preliminares da TTC- Engenharia de Trafego e Transportes na certeza de ganhar a concessão e impor o BRT como paradigma para a RMS. Para isso publicaram revistas, trouxeram jornalistas, promoveram viagens e investiram em um lobby milionário.

Não se pode ignorar o papel que tiveram movimentos populares como “Salvador sobre Trilhos”, “Eu quero VLT em Salvador”, ”A Cidade Também é Nossa” e “Associação de Ferroviários”. Esta foi uma grande vitória desses movimentos, já que a elite manteve o tradicional silencio obsequioso, mas haverá de gritar quando não puder mais sair da garagem. O povo não está interessado em eventuais jogos que não poderá assistir. Ele quer é passar menos tempo dentro de um ônibus com chassi de caminhão superlotado com curral e torniquete kafkiano. Sua paciência já se esgotou e os protestos, bloqueios de avenidas e estações ameaçam repetir o “quebra bonde” de 1930.

Mas não se pode deixar de reconhecer o papel desempenhado por Zezeu Ribeiro. Político hábil, ele tem sabido utilizar estes movimentos para contrabalançar a pressão de poderosos lobbies, como já havia demonstrado ao mudar a localização do Porto Sul, que ameaçava destruir uma das mais sensíveis APAs do estado. No caso presente, além da fazer ecoar as manifestações contra o péssimo sistema de “buzus” explorou as contradições do capitalismo, ao abrir o PMI a outros grupos e exibir suas propostas no site da SEPLAN. Isto destruiria o mito do BTR como única solução possível.

Zezeu pegou o bonde andando e tenta dar tecnicidade a uma secretaria desaparelhada. Mas uma andorinha só não faz verão. É preciso se criar um processo institucional de gestão planejada e participativa. O atropelo dessa escolha demonstra que não havia no governo nenhum pensamento sobre a RMS e transporte de massa. Não se sabe como descongestionar a capital, nem como infra-estruturar a RMS. Precisamos restaurar a função do planejamento, reduzido pelos políticos a um instrumento, à posteriori, de legitimar decisões autoritárias. Este não é o caso em pauta. De que vale fazer audiências públicas e atualizar pesquisa de origem e destino a esta altura?

A decisão adotada foi acertada, distinguindo vias “troncais”, de transporte de massa sobre trilhos, e vias transversais capilares operadas por BRT e ônibus comuns. No meu entender, o monotrilho está descartado. Seu impacto visual e difícil acessibilidade a uma plataforma de 35 metros de altura o desqualifica. O metrô de superfície com pequenos mergulhos nos cruzamentos é perfeitamente viável no prazo estabelecido e atende à exigência da Presidenta de conclusão do metrô. Ele elimina desapropriações e os 27 viadutos da consorciada do BRT. Os carros do metrô já estão aqui, A grande questão é quem administrará este sistema misto, mas para isto temos tempo.

Em resumo, o episódio da escolha do modal da ligação Acesso Norte/Lauro de Freitas mostrou a força dos movimentos populares e que o planejamento da RMS e da Bahia não pode ficar a mercê da eventual titularidade da SEPLAN por um técnico competente e integro. Deve ser uma politica de estado com quadros idôneos dispostos a ouvir a comunidade, que deveria ser o principal objetivo da politica.

Publicado no Jornal A Tarde

Salvemos Salvador, enquanto é tempo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

O 460º aniversario de Salvador passou quase despercebido. Realmente não há muito a comemorar. Em 60 anos de “laissez-faire” a cidade acumulou índices assustadores de compactação demográfica e veicular, concentração de pobreza, insegurança e destruição do meio ambiente, que apontam para seu colapso em curto prazo. A cidade possui hoje 4.172 hab por km2, densidade superior a de Bombain, 2ª colocada. Para piorar, a urbe se transformou, por falta de política metropolitana, no dormitório e provedor das necessidades de 3,76 milhões de moradores da Grande Salvador. Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Fo e Candeias juntos faturam receita igual à de Salvador transferindo para esta o passivo de serviços e infra-estrutura.

Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, dos quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário. Para satisfazer aos 10% dos candidatos com renda superior a 5 SM o novo PDDU consentiu que o setor imobiliário devorasse as entranhas verdes da cidade, a orla e os bairros consolidados. Cerda de 35.000 novos automóveis e o dobro de motos são licenciados a cada ano. O metrô de Salvador, cuja construção dura 6 anos, é dos mais caros do mundo. Terá 6 kms, 6 trens, e custará R$ 1,16 bilhões, se inaugurado em 2010. No Recife, o metrô foi construído em dois anos, tem 34,7 km, 25 trens, transporta 180 mil por dia e custou R$ 750 milhões, segundo H. Carballal (A Tarde, 23/03/09). Isto para não falar no seu impacto ambiental e déficit operacional.

As duas saídas rodoviárias da cidade, a Paralela e a BR-324, estão no seu limite e ainda se fala em construir uma ponte para Itaparica para trazer os caminhões da BR 101 para o nó do Iguatemi, ao invés de construir um arco rodoviário. Isto quando Manhattan e cidades européias cobram pedágios e proíbem a construção de novas garagens para evitar a entrada de mais carros. Em Salvador alguns apartamentos centrais têm até seis vagas. Não há planejamento nem qualificação dos projetos públicos, que são oferecidos pelas empreiteiras interessadas, vide a ponte de Itaparica e o parque da Vila Brandão. A Sedham funciona como uma Defesa Civil, mais que um órgão de planejamento. As licitações são feitas em função do menor preço, ou seja, do pior projeto e menor tempo. O desperdiço é grande, viadutos são construídos e não servem para nada, as ruas são refeitas a cada inverno. O Pelourinho é recuperado todo o ano. Os conjuntos habitacionais, sem serviços, são novas favelas, estão se desfazendo. E vai-se implodir o parque olímpico da Fonte Nova, cujo laudo da Politécnica diz ser recuperável, para construir uma nova arena menor e um shopping, para dois dias de festa. O que acontecerá com a Copa, se chover, com a cidade alagada e parada como se viu há pouco.

As questões ambientais têm o mérito de nivelarem todos. Os condomínios fechados da Paralela foram invadidos por barbeiros, dengue, sapos, lagartos e cobras. O Sr. Prefeito teve que mudar de casa e gabinete, mas prefere trocar postes cinzas por azuis, que rever um PDDU aprovado com 180 emendas de ultima hora. A classe media já não suporta os engarrafamentos e se tranca em torres e condomínios mistos de vida monástica, com celas, refeitório, oficinas, botica e orações televisivas no mesmo lugar. Considerada Patrimônio da Humanidade, Salvador mergulha hoje na mediocridade imobiliária. Fernando Peixoto lamentou a “paulistização” da cidade, Arilda Cardoso denunciam a perda de patrimônio histórico e verde. Neilton Dórea constata: “hoje há uma arquitetura dependente… A maioria (dos arquitetos) é desenhador de uma vontade empresarial” (Muito, de 29/03/09).

Mas não devemos ser pessimistas. A sociedade civil se organiza em movimentos como “A Cidade também é Nossa” e “Vozes da Cidade”, os ministérios públicos, federal e estadual, assumem o papel que lhes cabe. Não é desmatando, segregando e verticalizando que se vai resolver os problemas de Salvador, senão pensando grande e democraticamente, compreendendo que Salvador só tem saída na Região Metropolitana. São estas questões que cidadãos, ricos e pobres, de Salvador querem discutir, antes que a cidade entre em colapso completo.

Publicado no Jornal A Tarde em 23/07/2009