Um novo polo turístico na Bahia

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

O projeto de transformar Salvador em um pólo turístico-cultural com a recuperação de seu centro histórico, proposto em 1967 por Michel Parent, técnico da Unesco, perdeu força e se transformou em um projeto sem sustentabilidade por uma serie de erros, que não cabe aqui rediscutir. Mas o Recôncavo, pano de fundo de Salvador, que estagnou há cem anos com a crise da agro-indústria açucareira e evolução das redes de transportes, oferece um enorme potencial inexplorado. Turismo de natureza cultural com suas cidades históricas, tradições e rituais, praias insulares, gastronomia e esportes náuticos.

A deflagração desse processo resultaria na criação de milhares de empregos, reativando a pesca, a agricultura e pecuária familiar, a construção de barcos e lanchas, o artesanato e os serviços. Para isto basta a realização de uma infra-estrutura viária capaz de reintegrar as antigas cidades-portos marginalizadas, como São Francisco do Conde, Santo Amaro, Cachoeira, São Feliz, Maragogipe, Jaguaripe e Nazaré, num sistema multimodal da Baía de Todos os Santos. Isto daria inclusive um novo alento ao nosso centro histórico, na medida em que ele voltaria a ser a cabeça de uma constelação de cidades históricas. Esta infraestrutura viária é o que chamei de Envolvente da Baía em artigo neste jornal de 09/03/10. Ela daria acesso também a vilas e praias como Itapema, Saubara, Cabuçu, Bom Jesus, Monte Cristo, Barra do Paraguaçu, Salinas da Margarida, Encarnação, Mutá, Cações e um sem número de ilhas, através de pequenos barcos.

A primeira proposta de criação do anel viário em volta da Baia de Todos os Santos é de 1966 e autoria do Arq. Sergio Bernardes, no âmbito dos estudos sobre o Centro Industrial de Aratu, mas não vingou. O que se está propondo agora não é a mesma coisa, seria um sistema binário de vias. Uma turística, marginal á baía, e outra, mais recuada, de transporte de carga capaz de integrar pólos industriais como o COPEC, a Ford, o CIA, a RELAN, o Temadre e o estaleiro de São Roque e trazer a soja e os minérios do oeste diretamente ao Porto de Aratu, sem cruzar Salvador. Na faixa de domínio desta via poderá ser instalada, no futuro, uma linha férrea que irá se articular com a ferrovia Centro-Atlântica, antiga Leste Brasileiro, e Oeste/Leste, e o Porto Sul. Na foz do Subaé e do Paraguaçu as duas vias de uniriam em uma só ponte. Sua licitação e construção poderá ser feita por lotes, agilizando a execução e favorecendo as medias construtoras baianas ao invés de licitar o pacote fechado e ficar refém das grandes construtoras oligopolizadas.

Um ramal da via turística poderá ligar a Ponta do Dendê, em Salinas da Margarida, à Estação Experimental de Mucambo, em Itaparica, cruzando um canal relativamente estreito e de pouca profundidade e pondo a ilha a igual distância de Salvador que Sauipe, ou seja, a uma hora e um quarto, em carro. Toda a região deve ser objeto de um planejamento territorial e urbano capaz de evitar uma ocupação desordenada. A Envolvente da Baía é uma alternativa social, econômica e cultural mais interessante e sustentável que a ponte Salvador/Itaparica que inevitavelmente promoverá enormes impactos ambientais, sociais e viários na ilha, na Baía de Todos os Santos, em Salvador e na Estrada do Coco, pois se transformará em uma ligação Sudeste/ Nordeste atropelando Itaparica e Salvador e marginalizando Feira de Santana.

Um anel viário envolvendo a Baía de Todos os Santos custaria menos de um quinto da referida ponte, orçada preliminarmente em 15 bilhões (A Tarde, 19/12/10), ou seja, o equivalente a 300 mil casas populares, 150 Km de metrô ou três usinas nucleares do porte de Angra 3. Com duração prevista de cinco ou seis anos corre-se ainda o risco de ter mais uma obra inconcluída, como o metrô, enfeando a nossa paisagem. O dilema de nosso Governador é inaugurar um novo pólo turístico, que poderá ser a redenção do Recôncavo e de seu segundo mandato, ou investir em uma quimera que não se sabe como, nem quando acabará. Já coloquei minhas fichas.

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