Bandeira da vida inteira

hpHélio Pólvora
Os quase 45 anos de morte de Manuel Bandeira (1896-1968) distanciam o Poeta, cada vez mais, dos preceitos e vezos do Modernismo e o aproximam mais da Poesia pura e livre – aquela Poesia que, fugindo a escolas, se põe à margem de datas, épocas, maneirismos, circunstâncias. Dito assim, parece que ele, passando incólume pelo vendaval modernista, se teria afirmado como um poeta de tradição renovada.

No entanto, Manuel não precisaria mesmo filiar-se expressamente ao grupo modernista de São Paulo, pois a este se antecipou na proposição de uma nova estética. Com a sua intuição crítica, Mário de Andrade reconhece isso, quando escreve, numa de suas cartas a Manuel, a propósito de Carnaval, livro de 1919: “Saí da leitura com a convicção profunda que o teu livro foi um clarim de era nova, cantando já sem incertezas nem rouquidões.”

Modernista, decerto. Uma voz poética alinhada com os preceitos da Semana de Arte Moderna, da qual não quis participar, da mesma forma que sempre fez questão de manter em relação aos modernistas o papel do amigo, do confidente — e, principalmente, do moderador. Moderno, melhor dizendo, um poeta moderno da tristeza e solidão num Brasil que tentava se modernizar. E, sem dúvida, o consolidador das rupturas em relação ao verso parnasiano-simbolista, especialmente o parnasiano. Suas inovações dotam o poema de simplicidade, naturalidade, comunicação instantânea, emotividade, música interior e criatividade em doses necessárias à preservação do que a poética tradicional tem de perenemente assentado. Sob este aspecto, um clássico recente.

Semelhante conquista não se faria sem a peculiaridade de um temperamento que pode praticar excessos, mas com disciplinado bom gosto e equilíbrio. Em outra carta que lhe dirigiu Mário de Andrade, o autor de Pauliceia Desvairada queixava-se do seu (de Mário) “excessivo barulho e excessiva liberdade construtiva”. Manuel deu contribuições incisivas, porém serenas ao movimento, como o poema “Os Sapos”, que está em Carnaval. Tinha como suporte todo um longo aprendizado poético, no Rio de Janeiro, em contato com João Ribeiro, em Petrópolis e Teresópolis e no sanatório de Clavadel, Suíça, onde privou com Paul Éluard, que lhe apresentou poetas e emprestou livros, incluindo obras de Paul Claudel.

Num poeta de formação clássica, que estudou a fundo a estrutura do verso em português, admite-se fraturas, mas vê-se que o próprio demolidor se dará pressa em juntá-las para que se ajustem ao anterior padrão de expressividade intemporal.

A evolução estética de Bandeira, a elipse de sua estrela da vida inteira, se faria de qualquer maneira, à margem do modernismo. Se os modernistas destruíram o verso tradicional para recriar o verso de um Brasil novo, o Brasil da máquina, da contemporaneidade, do inchaço das áreas urbanas, das comunicações, é certo que tiveram em Manuel um aliado natural, o combatente já de armas ensarilhadas por iniciativa própria. Mas o combatente que guarda de um passado próximo valores a defender, além de uma sutil nostalgia.

Fácil será acompanhar, ao longo dos seus três primeiros volumes de versos, o rumo desse raciocínio. Veja-se Cinza das Horas, com que debuta em 1917, em edição por ele financiada e em fase difícil de sua vida, porque recém-chegado do sanatório europeu, para tuberculosos, e atingido em cheio, entre 1916 e 1922, pelas mortes, primeiro da mãe, depois da irmã. que dele cuidava, logo mais do pai e do irmão. Cinza das Horas já é um ofício de agonia, o primeiro enfoque literário com o tema da morte, que lhe percorrerá toda a obra e a biografia. O tema se impõe pela doença que torna a vida precária, e também pelas tonalidades elegíacas, quando não francamente prazerosas, deleitosas, que vêm do simbolismo e tanto ecoam em Manuel.

Além do tom de comiseração para consigo mesmo, tão natural na escola agonizante dos simbolistas, que o faz confessar, já em início de jornada, e mais exatamente no seu primeiro poema posto em livro, que escrevia versos “como quem morre”, Manuel deixara na Europa uma de suas influências: Paul Éluard, com quem convivera em 1913. Já antes, porém, fazia versos livres, à feição de ninguém menos que Guillaume Apollinaire.

É sintomático que alguns dos fundadores da Semana em 1922 tenham aplaudido Carnaval, de 1919, o segundo poemário de Manuel custeado, desta vez, pelo pai. Já aqui os resíduos simbolistas, notórios em Cinza das Horas, aparecem mais diluídos. De fato, se no volume de estreia Manuel confessa à entrada “Eu faço versos como quem morre”, e se despede exclamando “Ah, como dói viver quando falta a esperança!” (dois instantes de depressão em Teresópolis, 1912), no volume seguinte, da embriaguez dos sentidos e da desordem dos sentimentos, Manuel troca a tirania da solidão, do desamparo e da saudade por apelos dionisíacos:

Quero beber! cantar asneiras

No esto brutal das bebedeiras

Que tudo emborca e faz em caco…

Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada

No torvelim da mascarada,

A gargalhar em doudo assomo…

Evoé Momo! (…)

Há uma alegria arrebatada nesta declaração. Algo parecido levou o poeta Castro Alves a confessar: “Oh! Eu quero viver, beber perfumes!” Mas ainda não ocorre a ruptura plena. Seguramente os versos denotam ânsia de viver com plenitude — ainda mais sendo de um poeta tísico e recluso. E denotam igualmente um espírito de desobediência, de pirraça, de arrelia. Mas serão as estrofes do poema seguinte, “Os Sapos”, em que o sapo-tanoeiro é chamado de “parnasiano aguado”, que antecipam passagens da catilinária modernista. A quarta e a quinta estrofes, por exemplo, em que Manuel se alista voluntariamente no pelotão dos iracundos rapazes de 22 para desfechar ironias e sarcasmos:

Vede como primo

Em rimar os hiatos!
Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

Meu verso é bom

Fragmento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.(…)

Mais à frente, o tema de “Vulgívaga” tem um toque de naturalismo que decerto enojaria o mais esteta dos parnasianos. “Arlequinada”, “Rimancete” e “Baladilha Arcaica” são poemas quase cantigas, melodiosos, de severo metro. Vem de longe, dos ecos da infância no Recife, aquele pendor de Manuel pela modinha, que o levou a ser, dos poetas brasileiros contemporâneos o mais musicado pelos compositores, e a quem se encomendavam letras, como fez Villa-Lobos. Persistem, no entanto, ainda neste livro, as ressonâncias parnasiano-simbolistas, que levam Manuel à rima preciosa de âmbula com noctâmbula. O seu Carnaval se encerra com um sentimento de tristeza — “o meu Carnaval sem nenhuma alegria!”

A partir de O Ritmo Dissoluto, reunindo poemas escritos na Rua do Curvelo, Rio de Janeiro, e incluído no volume Poesias, de 1924, Manuel deixa de se policiar. Sua liberdade de expressão se exerce sem peias, o Poeta navega sem lançar amarras. A ruptura com o verso antigo fica mais patenteada, e nesta sua expressão nova os rapazes da Semana encontram suporte para a continuidade do seu manifesto. Começam os grandes poemas: “Balada de Santa Maria Egipcíaca”, “Os Sinos”, “Madrigal Melancólico”, “Meninos Carvoeiros”, “Na Rua do Sabão” — poemas estes em que a realidade prosaica, o dia-a-dia do Poeta, tudo que lhe fere a sensibilidade e lhe instiga o imaginário, é transposto a um segundo plano, a uma dimensão transfiguradora, em processo de sublimação idêntico ao da pintura “criada” sobre uma realidade fotográfica. O poema é feito de palavras, mas transcende, nas alegorias e mitologias do Poeta, o seu significado elementar. O poema de Manuel espelha um ponto de vista crítico, o do Poeta malferido, seja por suas dores pessoais, seja pela precariedade de tudo o que lhe acicata a inteligência e os sentidos. O processo recriador verticaliza-se ainda mais em Libertinagem, de 1930, um conjunto de poemas que retrocede a 1924 — e novamente uma edição custeada por Manuel. Em Libertinagem está o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, emblemático do seu desamparo, do seu desejo de adoção e fuga, e  também “Irene no Céu” e “Teresa” e “Pneumotórax” e “Não sei dançar” e “Poema de Finados” e outros mais. Libertinagem: um estado de liberdade vigiada, a dissolução do verso reprimido no aparato verbal dos parnasianos e nas algemas das rimas.

O Poeta está feito. O Poeta se definiu esteticamente, e doravante aprofundará o sentimento trágico que o habita, a presença inseparável da morte, a fealdade do Beco (o edifício São Miguel, na Esplanada do Castelo, Rio d Janeiro, com apartamentos de fundos que abriam para um imundo pátio interno). O “Poema do Beco” figura em Estrela da Manhã, coletânea de 1936:

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

—O que eu vejo é o beco.

Nestas duas linhas divisa-se o outro lado do poema, a sua face oculta. Mas Manuel não viu apenas o beco em toda a sua fealdade: viu o que acontece nos becos e pátios. No poema “O Bicho” ele comunica, com pesar, que avistou na imundície do pátio um bicho fuçando no lixo. Fuçava, pegava algo e o engolia com voracidade. O Poeta nem sempre divisa Pasárgada, pois, da sua janela, e desapartado que está da presença constante e quase balsâmica da morte, tem olhos também para uma realidade brutal. E manifesta então a sua surpresa, o seu espanto, a sua indignação, ao identificar quem comia na lixeira do pátio:

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

A metalinguagem predomina nessa fase de maturação plena de Manuel. O poema que não sai do papel, que não voa, que não insinua significações além das impressões de leituras superficiais, a ninguém recomenda. O triunfo da boa poesia é mais difícil que o triunfo da boa prosa, porque esta se alimenta da poesia (e de recursos de outros gêneros literários) com que atingir o seu estado de graça. “Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá”, “Marinheiro triste”, “Trem-de-Ferro”, “Tragédia brasileira”, “Rondó dos cavalinhos”, os momentos mais altos se repetem com maior frequência.

Lira dos Cinquent´Anos, Belo Belo, Poemas Traduzidos, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira, mais as antologias pessoais e de poesia brasileira, mais os poemas de circunstância e as contribuições à literatura didática. É a obra que, tomando corpo, assume suas feições essenciais, feições despidas de acréscimos, porque, como bem disse Anton Tchékhov, a propósito da contenção no conto, esculpir um rosto será retirar da pedra tudo o que não seja o rosto. Vibram, então, os poemas manuelinos, depois de acionados — uma vibração ora melodiosa, de saudoso cunho popular, ora atormentada, de uma alegria entristecida, que nos segue pela vida, como, de resto, embalou Manuel que os concebeu. E por que essa identificação com o leitor sem rosto? Por que esses poemas de Manuel parecem tirados de dentro de nós? Ora, porque eles se referem em geral ao homem simples, aos incidentes mais ou menos banais da vida de todo mundo, aos desejos e ânsias e frustrações, aos amores buscados e desencontrados ou que se revelam de repente sob forma de epifanias. Com o passar do tempo os poemas se engrandecem e em decorrência também de sua espontaneidade. Parece que nasceram nus e sábios — e, no entanto, é de imaginar-se a sofrida jornada que imprime naturalidade aos objetos e seres. A naturalidade negaceia sempre: há que buscá-la, há que libertá-la das sobrecargas que a dissimulam, há que merecê-la. Estrada longa com muitas peripécias, a da naturalidade e da simplicidade, e quem a palmilha em arte no intento de desnudar-se sabe dos seus desconfortos.

Manuel disse em Libertinagem como queria “o seu último poema”:

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se  consomem
Os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação

A isso só nos resta dizer que continuamos a perscrutar a sua estrela matutina e vespertina, a sua estrela inteira, com os nossos precários óculos de alcance. Afinal, estamos em face de um Poeta que atravessou,  assustado, mas com galhardia, a ponte entre as toadas amenas das agridoces canções de Debussy e a tragicidade beethoveniana, conforme anotou a seu respeito o lúcido Otto Maria Carpeaux.

(Texto revisto em outubro de 2011)

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Rios: revitalizá-los ou sepultá-los?

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Um dos valores das cidades européias são os rios que as deram origem e vida. Não apenas os grandes rios, como o Tévere, o Sena, ou o Tejo, mas também os pequenos, como disse Fernando Pessoa, “o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia”. Infelizmente entre nós os rios urbanos se transformaram em cloacas e verdadeiros flagelos pelas inundações e mau cheiro que provocam, não só em Salvador, como em São Paulo ou no trágico vale do Itajai. Se isto não ocorre na Europa é porque a partir do século XVIII aqueles rios foram domados com grandes obras hidráulicas, como diques, eclusas, comportas e aquedutos e a criação de redes independentes de esgotos, o que permitiu perenizá-los, regularizar o seu fluxo e manter a qualidade de suas águas, que jorram em belas fontes como em Roma.

Mas muitos desses rios estavam mortos há 30 anos, devido a um modelo de desenvolvimento predador. A luta das populações locais teve como resposta políticas consistentes que permitiram reverter esta tendência e torná-los novamente balneáveis e povoados de peixes. Ao invés de seguir estes exemplos, nossos administradores caminham na contra mão, querendo que os nossos rios entrem literalmente pelo cano.

Na expansão urbana do além-Camarugipe abandonou-se o modelo bem sucedido das avenidas drenantes de vale, para permitir o espontaneismo demagógico do caminho de rato, transformando o chamado Miolo de Salvador, uma área estratégica da cidade, em um favelão, que chega até o fundo dos vales. Para piorar, se construiu na década de 70 a mole da Paralela, que represou praticamente todos os rios que deságuam na Orla Atlântica. No ultimo inverno, uma das áreas mais inundadas da cidade foi a Av. Jorge Amado.

Para resolver este cenário gótico, a Prefeitura imagina ingenuamente tamponar os nossos rios e jogar o cisco debaixo do tapete com o aval de uma classe média desinformada. Canalizar os rios só irá piorar a situação, pois reduz a seção de sua calha, inviabiliza sua limpeza e a existência de vida, provocando mais inundação e contaminação de nossa baia e praias, além de criar um nicho inexpugnável para roedores, baratas e lacraus. Como interage esta política com o Baía Azul?

Precisamos, ao contrario, perenizar nossos rios com pequenas comportas para podermos repovoá-los de peixes, rebaixar suas margens para aumentar sua vazão durante as cheias e paralelamente cortar todas as ligações de esgoto. Com peixes, nossos rios se auto-regenerarão contribuindo para voltarem a ser balneáveis e livres de mosquitos.  

Nos terraços rebaixados do Sena, em Paris, correm pistas de carros, que no verão se transformam em praias artificiais. Mas nas cheias, esses terraços dão vazão rápida às águas, sem que elas atinjam o nível das avenidas. O mesmo esquema está sendo adotado em Seul e poderá, no nosso caso, acabar com os pernilongos e prevenir inundações.

Recentemente o Instituto de Gestão da Águas e Clima – Ingá, com o apoio das associações profissionais, resistiu valentemente às pressões políticas para entubar o Canal do Imbuí, só permitindo a sua cobertura provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Esta é uma solução provisória, mas um marco definitivo de altivez de um grupo de técnicos de não se dobrar às pressões e cumprir a lei, que deveria estar acima dos interesses circunstanciais.

Não é possível continuarmos a administrar uma cidade de três milhões de habitantes na base do achismo e de interesses míopes de empreiteiras e imobiliárias. Em definitivo nenhuma dessas obras resolverá sem um master-plan de macro-drenagem de toda a cidade. Plano que se ligará, inevitavelmente, a um projeto viário e este a um de uso do solo. Em outras palavras, precisamos urgentemente de um plano diretor urbano inteligente, que tenha um mínimo de transparência e tecnicidade e proporcione melhor qualidade de vida para todos. Por que não fazemos a coisa certa desde o inicio? Por que tanto desperdício? Precisamos dar racionalidade e modernidade a este processo, que no nosso caso é pura improvisação.