Rios: revitalizá-los ou sepultá-los?

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

Um dos valores das cidades européias são os rios que as deram origem e vida. Não apenas os grandes rios, como o Tévere, o Sena, ou o Tejo, mas também os pequenos, como disse Fernando Pessoa, “o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia”. Infelizmente entre nós os rios urbanos se transformaram em cloacas e verdadeiros flagelos pelas inundações e mau cheiro que provocam, não só em Salvador, como em São Paulo ou no trágico vale do Itajai. Se isto não ocorre na Europa é porque a partir do século XVIII aqueles rios foram domados com grandes obras hidráulicas, como diques, eclusas, comportas e aquedutos e a criação de redes independentes de esgotos, o que permitiu perenizá-los, regularizar o seu fluxo e manter a qualidade de suas águas, que jorram em belas fontes como em Roma.

Mas muitos desses rios estavam mortos há 30 anos, devido a um modelo de desenvolvimento predador. A luta das populações locais teve como resposta políticas consistentes que permitiram reverter esta tendência e torná-los novamente balneáveis e povoados de peixes. Ao invés de seguir estes exemplos, nossos administradores caminham na contra mão, querendo que os nossos rios entrem literalmente pelo cano.

Na expansão urbana do além-Camarugipe abandonou-se o modelo bem sucedido das avenidas drenantes de vale, para permitir o espontaneismo demagógico do caminho de rato, transformando o chamado Miolo de Salvador, uma área estratégica da cidade, em um favelão, que chega até o fundo dos vales. Para piorar, se construiu na década de 70 a mole da Paralela, que represou praticamente todos os rios que deságuam na Orla Atlântica. No ultimo inverno, uma das áreas mais inundadas da cidade foi a Av. Jorge Amado.

Para resolver este cenário gótico, a Prefeitura imagina ingenuamente tamponar os nossos rios e jogar o cisco debaixo do tapete com o aval de uma classe média desinformada. Canalizar os rios só irá piorar a situação, pois reduz a seção de sua calha, inviabiliza sua limpeza e a existência de vida, provocando mais inundação e contaminação de nossa baia e praias, além de criar um nicho inexpugnável para roedores, baratas e lacraus. Como interage esta política com o Baía Azul?

Precisamos, ao contrario, perenizar nossos rios com pequenas comportas para podermos repovoá-los de peixes, rebaixar suas margens para aumentar sua vazão durante as cheias e paralelamente cortar todas as ligações de esgoto. Com peixes, nossos rios se auto-regenerarão contribuindo para voltarem a ser balneáveis e livres de mosquitos.  

Nos terraços rebaixados do Sena, em Paris, correm pistas de carros, que no verão se transformam em praias artificiais. Mas nas cheias, esses terraços dão vazão rápida às águas, sem que elas atinjam o nível das avenidas. O mesmo esquema está sendo adotado em Seul e poderá, no nosso caso, acabar com os pernilongos e prevenir inundações.

Recentemente o Instituto de Gestão da Águas e Clima – Ingá, com o apoio das associações profissionais, resistiu valentemente às pressões políticas para entubar o Canal do Imbuí, só permitindo a sua cobertura provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Esta é uma solução provisória, mas um marco definitivo de altivez de um grupo de técnicos de não se dobrar às pressões e cumprir a lei, que deveria estar acima dos interesses circunstanciais.

Não é possível continuarmos a administrar uma cidade de três milhões de habitantes na base do achismo e de interesses míopes de empreiteiras e imobiliárias. Em definitivo nenhuma dessas obras resolverá sem um master-plan de macro-drenagem de toda a cidade. Plano que se ligará, inevitavelmente, a um projeto viário e este a um de uso do solo. Em outras palavras, precisamos urgentemente de um plano diretor urbano inteligente, que tenha um mínimo de transparência e tecnicidade e proporcione melhor qualidade de vida para todos. Por que não fazemos a coisa certa desde o inicio? Por que tanto desperdício? Precisamos dar racionalidade e modernidade a este processo, que no nosso caso é pura improvisação.

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