As crianças da legião

glGláucia Lemos

Ler Clarice Lispector é um contínuo exercício de interpretação. Clarice  reinventa significados, recria palavras com liberdade que induz o leitor a intrigantes reflexões. Estas  a que  nos acostumamos desde A paixão segundo GH, Perto do coração selvagem, A hora da estrela, e sobretudo Água viva, que nos parece tudo o que se possa criar como uma prosa poética  inflamada,  destinada a ferir macia e inevitável, a sensibilidade do leitor.

Neste A Legião estrangeira, – Rocco, ed. 1978 – o editor reuniu treze contos cuja unidade está contida na poética voltada principalmente para a domesticidade.

Detenho-me – por me chamar a atenção e causar perplexidade – na natureza das crianças desses contos, protagonistas ou não. Não são crianças inocentes. Não têm alma branca nem candura de anjos. Ao contrário. As crianças da Legião, a Sofia, a Ofélia Maria, o menino de óculos, o menino menor, todos revelam sagacidade malicia e até maldade, não obstante nem sempre se ter que esperar angelitude nos pequeninos.

Essas crianças são ora calculistas, ora capazes de imaginar estratégias de comportamento, ora levadas a atitudes ofensivas inflamadas ou carregadas de frieza.

Uma revisitação à infância nas suas personagens, mas da criancice contemplada pelo lado malicioso e impertinente. Até mesmo na assunção de hipóteses como a do menino menor que, desejando a permanência do macaco do qual a narradora pretendia livrar-se, admite a possibilidade não de  que a mãe também viesse a se afeiçoar ao animal, mas a de que o macaquinho viesse a “cair da janela e morrer lá embaixo’, ou ainda : “ E se eu prometer que um dia ele vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar?”

        A Sofia, uma garota que sente atração pelo professor gordo, de ombros contraídos, deselegante no seu paletó curto e desagradável na contensão da sua impaciência. Ela o vê como alguém difícil de se amar, mas o quer, e até divaga com ele todas as noites. No entanto, para atraí-lo, sabendo  também não ser  flor que se cheire, e igualmente ser difícil de se amar,  vai à luta pelo lado avesso, tumultuando as aulas, atrevida, indisciplinada e contestadora, enraivecendo-o, somando à desagradabilidade do mestre, sua própria desagradabilidade. Querendo amor pelo caminho esconso da impertinência.

A Ofélia Maria sabe tudo, torna-se antipática por estar sempre pronta a um comentário ou colocação mais sábios que os dos presentes. Aconselha à narradora, sem ser consultada, sobre qualquer assunto, até que, de tanto entender de tudo e de tanto saber cuidar com sua pretensiosa superioridade, acaba por destruir aquilo que todos mais parecem amar no momento que vivenciam. E, irresponsável, não assume.

O menino de óculos atormenta-se por não ter consciência da própria inteligência. Vive vacilando ante a instabilidade de humores da família que ora o reconhece, ora se mostra indiferente. Confuso, arma estratégias, resolve agir sem naturalildade, sabe que pode fingir o que desejar, então se demora construindo a imagem que pretende aparentar em determinado dia que lhe está programado. Em um precoce maquiavelismo, vive um processo existencial que acimenta as bases de um caráter carregado de torpeza.

A menina ruiva é a única a escapar do elenco de pequenos anjos decaídos, e também a protagonista do conto mais encantador e lírico da seleção de contos poderosos e encantadores na construção singular de Clarice Lispector.

Sem me preocupar com os temas evocados, tenho me detido na particularidade das personagens mirins e sua característica especial. No entanto A Legião Estrangeira é muito mais que crianças difíceis. É a angústia dessa busca incompreendida que se padece na adolescência; é a inexplicabilidade da amizade que se merece pelo mero fato de existir; é o tédio de obedecer ao cotidiano insosso e sem perspectiva, tal se fosse dogma; é a humilhante carência afetiva em confronto com a sordidez da vaidosa prepotência; é a velha Mocinha carregando todo o abandono e miserabilidade da condição humana; é a Quinta história que após oferecer quatro formas de contar como livrar-se das baratas, sintetiza a quinta história em duas linhas sob um título pelo qual só um autor corajoso arriscaria ferir a imaginação do leitor estupefato. Finalmente, é O Ovo que se enfiou entre as páginas do livro para que a autora se estendesse de premissa em premissa, desenvolvendo sua capacidade de filosofar profunda e demoradamente sobre a própria condição humana, e a condição da própria narradora, enquanto ser situado na heterogeneidade do universo. Até que, despertando para o quão longe se permitira, perguntar: Mas, e o ovo? E confessar: enquanto eu falava do ovo, eu tinha esquecido do ovo.

         Isso é Clarice, um pouco do muito de Clarice Lispector em a Legião Estrangeira, do qual outros já tenham falado mais e melhor. Dela que, dominando a palavra em exercício pessoal, a ela se entrega, permitindo que se espalhe, se construa e desconstrua, na simbiose em que se alimentam, palavra e autor que se confundem e se realizam, pois assim se faz preciso.

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