Escapando do carnaval

consueloConsuelo Pondé de Sena
Não pensem que sempre fui avessa ao Carnaval da Bahia. Muito ao contrário, era foliã animada. Foliã comedida, porque, pertencendo à Antiguidade Clássica, meu pai e, depois, meu marido, não me permitiam dar vazão ao espírito carnavalesco. Além do mais, fazendo parte de uma geração de mulheres “reprimidas” pela educação, não me ficava bem assumir atitudes incompatíveis com as condutas impostas ao meu gênero. Nem eu mesma me permitiria transgredir, como toda mulher capricorniana que se preze.

Bem, ditas essas palavras introdutórias, não há como evitar o confronto entre o passado e o presente. O Carnaval da Bahia, aquele que frequentei quando criança e nos dias da mocidade, era um Carnaval voltado para a diversão, mas também recomendável às famílias.

Quando menina, ia com meus pais e irmãos para a Rua Chile, de onde assistíamos, das janelas do Edifício Montepio, dos consultórios de meu pai e do seu primo, Osvaldo Mendes, a passagem dos blocos. Dalí também aplaudíamos os carros alegóricos dos Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso. Na calçada do mesmo edifício, hoje sede da Fundação Gregório de Mattos, meu pai providenciava a locação de cadeiras para que admirássemos de perto a folia. Também costumávamos observar a festa das janelas e da varanda do IGHB, espaço disputado pela diretoria e sócios mais assíduos. Já mocinha, daquele lugar “paquerei” ou, melhor, fui “paquerada”, por meu futuro esposo, em determinado Carnaval dos anos 1950. Ele, como os demais colegas (lembro-me bem de Maia Tavares), trajando branco ou ternos claros, posicionavam-se na Av. Sete para “cortejar” as mocinhas, que por ali passavam, durante os intervalos dos desfiles dos blocos dos fantasiados e dos caretas. Em certo Carnaval, Plínio, de luto da avó materna, D. Sinhazinha Garcez, bem em frente do Instituto, conversava com os amigos, indiferente, como sempre, ao festejo. Quando por ele eu passava, tomava de repente emprestado o lança-perfume de Maia Tavares para galantear-me. Achei estranhíssimo o fato de ele estar de “fumo”na lapela, assistindo ao Carnaval, mas ele, muito mais tarde, confessou-me não ter havido mal algum em apreciar a movimentação da rua.

Tempo bom aquele, em que as mulheres se respeitavam e eram respeitadas pelos moços. É verdade que existiam aquelas senhoritas da “pá virada”, pois cada pai de família educava os filhos de acordo com suas regras, ou tinha autoridade para conter–lhes os “desatinos”. Mais reprimidas do que nós eram as filhas de Abelardo Parente, não me constando que Zilma e irmãs jamais houvessem desfrutado das alegrias das “batalhas de confetes”, muito menos dos bailes momescos, realizadas nos tradicionais Clubes de Salvador.

Também testemunhei e aplaudi, freneticamente, o primeiro desfile da “fubica” de Dodô e Osmar, uma inovação sem igual para aqueles tempos, novidade que fez o povo vibrar de animação. Pena que tenha inspirado essa máquina possante, o atual trio elétrico, a divulgar músicas “bobocas” e sons estridentes. Pior de tudo é contemplar, de longe, os que nela podem embarcar, enquanto os “cordeiros” padecem e o folião “pipoca” disputa espaço, no asfalto imundo das avenidas, tendo o máximo cuidado para não ser agredido, esfaqueado ou pisoteado.

Por isso, por ter a festa se tornado mais um espaço de “exclusão” social na minha cidade, além da grande violência que grassa por todo canto, procuro sair dela neste período. Desta vez, viajo para Fortaleza, a fim de descansar de Salvador, com seu intolerável índice de poluição sonora e a sujeira amontoada pelas ruas. Na bela capital cearense, vou ter a alegria de rever queridas amigas, além de curtir as tentadoras “compras” na Monsenhor Tabosa, Aldeota, Mercado Central e outros pontos de comércio.

O Carnaval da Bahia passou a ser o Carnaval dos turistas, dos visitantes que se empolgam diante dos apelos da mídia e vêm gastar seu dinheirinho numa das mais caras capitais brasileiras. São pessoas sedentas de “alegria”, que a compram, a peso de ouro, ao adquirirem indefectíveis abadás e terem acesso aos blocos “empreitados” por quem sabe ganhar dinheiro na Bahia. O mesmo digo em relação aos que se reúnem nos camarotes Vips e desfrutam das requintadas mordomias negociadas pelos empresários “da maior festa do planeta“.

Enfim, há gosto para tudo! Quanto a mim, quando a festa estridente e discricionária estiver rolando em Salvador, estarei bem longe, participando do cotidiano tranqüilo de um dos mais atrativos pontos turísticos do país e da convivência com sua simpática gente.

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