Regresso da mulher perdida

Jornal A Tarde 31/03/2012

Jornal A Tarde 31/03/2012

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Africanos – muito além da escravidão

ypcYeda Pessoa de Castro

Em Revista de HISTÓRIA da Biblioteca Nacional

Rio de Janeiro. Ano 7 / nº 78 / Março 2012

CAMÕES COM  DENDÊ

Se as vozes dos quatro milhões de negroafricanos que foram trasladados para o Brasil ao longo de mais de três séculos consecutivos não tivessem sido abafadas em nossa História, por descaso ou preconceito acadêmico, hoje saberíamos que eles, apesar de escravizados, não quedaram mudos. Participaram da configuração do português brasileiro e são responsáveis pelas diferenças que afastaram o português do Brasil do de Portugal.

 

Aquelas vozes são perceptíveis na pronúncia rica em vogais da nossa fala (ri.ti.mo, a.di.vo.ga.do), na nossa sintaxe – tendência a não marcar o plural do substantivo (os menino(s), as casa(s)), na dupla negação (não quero não),no emprego preferencial pela próclise (eu lhe disse, me dê), mas se revelam de maneira inequívoca nas centenas de palavras que enriquecem o patrimônio linguístico do português brasileiro.

 

São palavras portadoras de elementos culturais compartilhados por toda a sociedade brasileira, no âmbito da recreação (samba, capoeira), dos instrumentos musicais (berimbau, cuíca, agogô), da culinária (mocotó, moqueca), da religiosidade (candomblé, umbanda), das poéticas orais (os tutus dos acalantos, o tindolelê das cantigas de roda), das doenças (caxumba), da flora (dendê, maxixe, jiló), da fauna (camundongo, minhoca), dos usos e costumes (cochilo, muamba), dos ornamentos (miçanga, balangandã), das vestes (tanga, sunga), da habitação (cafofo, moquiço), da família (caçula, babá), do corpo humano (bunda, corcunda, banguela, capenga),  das relações pessoais de carinho (xodó, dengo, cafuné), dos insultos (sacana, lelé), do mando (bamba, capanga), do comércio (quitanda, muamba, maracutaia).

 

Nesse vocabulário, há os aportes antigos, na sua maioria de línguas angolanas, que entraram no idioma na época colonial e já estão  completamente integrados ao seu sistema linguístico, com seus derivados (esmolambado de molambo, sambista de samba, encalombado de calombo, maconheiro de maconha).  Na mesma categoria encontram-se os termos associados à escravidão (senzala, quilombo, mocambo), alguns já obsoletos (banzo, mucama) e poucos também correntes em Portugal (moleque, carimbo), em meio a centena  de outros  para designar elementos então introduzidos no  trato diário com os escravos domésticos – os escravos de jó ( do quimbundo njo, casa) que jogavam caxangá ( jogo de tabuleiro) da conhecida  brincadeira infantil brasileira.

 

O desempenho da mulher negra, ama-de-leite e criadeira, foi tão marcante no seio da casa senhorial que até hoje chamamos o filho mais jovem pelo termo angolano caçula em lugar de “benjamin”, como se diz em Portugal. Foi ainda nesse momento que outros termos angolanos deixaram fora de uso no Brasil os seus equivalentes em português, moringa em lugar de bilha, corcunda por giba, capenga por coxo, cachaça por aguardente, cochilar por dormitar, xingar por insultar, dendê por óleo de palma, molambo por trapo, marimbondo por vespa, dengo por mimo, caxumba por trasorelho.

Mas onde ficou a memória recordação dessas vozes, uma vez que nenhuma língua africana é mais falada como idioma pleno no Brasil?  Nos falares especiais de comunidades negras rurais, com um vocabulário reduzido de base umbundo, como as que vivem no Cafundó, São Paulo, em Tabatinga, Minas Gerais, ou as que dizem falar a “língua de banguela” no cântico dos vissungos, também em Minas Gerais, e na linguagem litúrgica dos terreiros onde elas ressoam com maior intensidade através de um repertório lingüístico diferenciado como fator de identidade sociorreligiosa do grupo, seja ele de tradição mina-jeje dos voduns daomeanos, nagô-queto dos orixás iorubanos ou congo-angola dos inquices do mundo banto. Esse repertório litúrgico, transmitido por tradição oral e que faz parte do falar cotidiano da gente do terreiro, foi popularizado através da mídia por compositores da MPB, de blocos afros e afoxés, de sambas-enredo e pelas telenovelas.

Esses terreiros têm atraído, além de pesquisadores e intelectuais de fama internacional, compositores brasileiros que terminaram por tornar conhecidos no país os orixás Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxóssi, Ogum, Iansã, Oxalá, bem como termos tirados do contexto sagrado e que têm o seu sentido estendido. A palavra axé, o fundamento sagrado desses terreiros, foi popularizada como saudação de boa-sorte, amém, e também denomina um estilo de música criado na Bahia na década de 80, a axé-music, com milhares de axezeiros, seus admiradores.

Calcula-se que, dos quatro milhões de africanos trazidos para o Brasil, a maioria falava  quimbundo e quicongo, e se distribui por todo o território brasileiro. A essa gente juntaram-se, em número menor, mas igualmente importante, os de fala umbundo, dirigidos em grande parte para os garimpos em Minas Gerais. A mais antiga gramática do quimbundo, A arte da língua de Angola, publicada em Lisboa em 1697, foi escrita na Bahia pelo missionário Pedro Dias para uso dos jesuítas, a fim de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros. Segundo o padre Antônio Vieira, os africanos se encontravam em Salvador sem falar português, mas, acredita-se que eles não tinham necessariamente o quimbundo como língua materna, pois, embora embarcados em Luanda, poderiam ser provenientes de outras regiões da atual Angola. Situação semelhante deve ter ocorrido em Palmares, onde teria se desenvolvido de um falar de base quimbundo-quicongo como se  deduz dos títulos de seus líderes – Ganga Zumba, Zumbi, Dandara – e dos seus principais aldeamentos – Osengo, Macaco, Andalaquituxe.

 Ainda no século XVII, o poeta Gregório de Matos satiriza o que chamava mestres do cachimbo liderando cerimônias de calundus e feitiço em quilombos superlativos. Poderiam ser eles os chamados pretos-velhos, os báculos de Angola, que teriam no Brasil, um modo de falar marcado pelo prefixo quimbundo zi- (ziterrero, menino, ziquizila). São muito populares nos candomblés-de-caboclo, nos quais os caboclos, denominação para os índios brasileiros, são reverenciados como os donos da terra – fato que nos leva a admitir que essas celebrações são as mais antigas manifestações de religiosidade afrobrasileira, resultado do encontro e aceitação de crenças ameríndias do tronco tupi e africanas de matriz banto com o cristianismo. Outra evidência desse antigo contato entre índios e africanos está no dialeto caipira falado no interior de São Paulo, e tido como de base quimbundo-tupi. Nesse processo de interpenetrações culturais e linguísticas, apesar da presença dos evés-fons ( ou ewe-fons), cuja língua foi registrada entre os escravos de Vila Rica no século XVIII, e a mais recente influência dos iorubás no campo religioso, as vozes do negro banto ressoaram sobre todas na construção da língua portuguesa do Brasil.

Qualquer falante de uma língua tende a transferir para uma segunda língua hábitos linguísticos de seu primeiro idioma, e no Brasil isso não foi exceção. Por um lado, no confronto do português com as línguas do grupo banto, em vez de surgir um conflito por falta de inteligibiliade entre seus utentes, ocorreu um movimento de africanização do português; por outro, a imantação pelo português das línguas negro-africanas, em razão das semelhanças estruturais entre o português antigo e as línguas do grupo banto que aqui foram as mais faladas, também em seu aspecto arcaizante. Entre essas semelhanças estão o sistema de sete vogais orais (a é ê i ô ó u) e uma estrutura silábica na qual toda consoante é seguida de uma vogal, provocando o surgimento de uma nova sílaba (ri.ti.mo em lugar de rit.mo). Logo, não há sílaba fechada por consoante ( falá por falar, Brasiu por Brasil), fazendo com que se conservasse o centro vocálico de cada sílaba, mesmo átona, o que ocasionou a continuidade da base vocálica do português antigo na modalidade brasileira, afastando-a do português de Portugal de pronúncia muito consonantal. O português europeu atual tende a pronunciar apenas a vogal central (mnin em lugar de me.ni.no), criando grupos consonantais impronunciáveis por um brasileiro.

Diante dessa proximidade relativa e provavelmente de outras ainda encobertas por falta de pesquisas, será possível explicar, de maneira convincente, a importância dos africanos no afastamento do português do Brasil do de Portugal, bem como a ausência de idiomas africanos no país.

Saiba mais:

PESSOA DE CASTRO, Yeda (2002) – A língua mina-jeje no Brasil:um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Coleção Mineiriana)

QUEIROZ, Sônia (1998) – Pé preto no barro branco. A língua dos negros de Tabatinga. Belo Horizonte: EDUFMG.

VOGT, Carlos, FRY, Peter (1996) – Cafundó, a África no Brasil – língua e sociedade. São Paulo: Cia. das Letras; Campinas: Editora Unicamp.

 

YEDA PESSOA DE CASTRO, etnolinguista, doutora em Línguas Africanas, pesquisadora do Núcleo de Estudos Africanos e Afrobrasileiros em Línguas e Culturas da Universidade do Estado da Bahia, Comendadora da Ordem do Rio Branco e autora de Falares Africanos na Bahia (ABL/TOPBOOKS, 2001).

Francisco Sena e os 463 anos de Salvador

Francisco Sena O acadêmico Francisco Sena faz uma análise sobre os 463 anos de Salvador. Além de pertencer a ALB, Francisco Sena é arquiteto, professor de História da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e ex-presidente da Fundação Gregório de Mattos, órgão municipal da Cultura. Profundo conhecedor da trajetória de Salvador e da Bahia, ele é extremamente respeitado por sua habilidade em enforcar e contextualizar fatos dentro de uma perspectiva histórico-cultural, ministrando palestras, aulas e cursos sempre muito concorridos.

[audio:http://www.academiadeletrasdabahia.org.br/blog/audio/niver463ssa.mp3%5D