Alô, Solidão

glGláucia Lemos

No edifício em frente havia um senhor que cuidava dos passarinhos. Suponho que era aposentado. Tinha cabelos brancos e compleição franzina. Caminhava devagar, mas seus gestos eram precisos e cuidadosos. A julgar pelo que eu observava, ele criava os passarinhos.
Todas as manhãs, enquanto eu estava regando a jardineira da minha varanda, via-o no seu quinto andar, à altura do meu, alimentando-os. Só que os passarinhos viviam soltos, não havia gaiolas nem telas limitando a liberdade dos bichinhos. O homem espalhava a ração sobre o parapeito da varanda, e uma infinidade de aves pequeninas vinha não sei de onde e pousava diante dele, inquietamente bicando os grãos de alpiste. Eram rolinhas ou outras de porte semelhante. Todas as manhãs.
Havia alguma coisa poética naquela cena, que se completava com a presença de piotas pendentes do teto, em volta das quais, agitando vertiginosamente as asas, esvoaçavam beija-flores.
Nunca vi outras pessoas habitando aquele apartamento. Sequer transitando pela varanda. Ele movimentava-se rodeado de pássaros, enquanto eu regava minhas plantas no meu espaço.
Contemplava-o por longos minutos, gozando o direito da invasão sem culpa, e me recolhia a meus afazeres que eram muitos, na minha responsabilidade de mãe de três filhos em idade escolar, dona de casa sem empregada, mulher casada com piloto em intermináveis vôos pelos céus do mundo, e tão poucas vezes voando em direção a casa. Aquele velhinho, ao longe, começou a fazer parte da minha vida. Poderia ser meu pai. Se um dia não o encontrava alimentando os pássaros, ficava preocupada. Estaria doente? Teria mudado de endereço? Quem alimentaria os passarinhos na sua ausência? Naqueles dias, a cada intervalo entre o tempero do arroz e o alarme do forno, corria à varanda a ver se estaria de volta. Até que, mais tarde, ou no dia seguinte, ele lá aparecesse, para minha tranqüilidade.
Nisso passaram-se meses sem conta, talvez um ano ou mais, não posso precisar, vivendo a mesma rotina.
Uma tarde, concluída a jornada diária, enquanto descansava a esperar a hora para apanhar as crianças no judô, eu cochilava em cima das páginas de Hemingway, que estava sendo a minha companhia do momento, na absoluta falta de alguém com quem conversar. Com Hemingway eu andava freqüentando, bares e estações ferroviárias, sem o menor preconceito, entre bêbedos, marinheiros e prostitutas.
Então, soou a campainha da porta. Que visita estaria chegando sem prévio aviso, quem sabe seria o zelador para medir o gás.
Com má vontade, espiei pelo olho mágico da porta de serviço. Não era o zelador, não reconheci a pessoa, o hall não estava bastante iluminado. Deixei a área de serviço, encaminhando-me à porta da sala, recriminando intimamente a portaria, por não ter avisado a chegada de alguém.
Torci o trinco. Um senhor de cabelos inteiramente brancos, brancos como talco, estava de pé me olhando, com olhos miúdos e brilhantes, olhos de uma cor quase doirada, e um sorriso que não se completava, apenas se desenhava quase imperceptível na boca pequenina. Um sorriso que quase pedia licença para sorrir.
– Boa tarde – cumprimentei e sorri também.
Tenho medo de desconhecidos, mas vendo-o tão frágil, pequeno, parecendo indefeso, não senti receio, o sentimento era de quase proteção.
– Quem o senhor procura?
Ele desvelou o sorriso retido, com dentes pequenos e brancos, dentes infantis.
– A senhora mesma. Sou seu vizinho, do edifício em frente.
Então o reconheci. Meu Deus, é o velhinho dos pássaros.
– Pois não? Sei. Pode entrar, faça favor.
Ele entrou, seus passos eram suaves. Sentou-se no sofá em frente a mim, discreto, parecendo tímido.
– Esteja à vontade – animei-o.
Então começou
– É porquê… Vejo sempre a senhora regando as plantas pela manhã. Fico observando o empenho com que cuida delas. São tão bonitas. Fiquei curioso.
– É verdade. Eu gosto de plantas, cultivo flores.
– Eu também gosto. Mas não tenho jardineira. Cultivaria crisântemos. Se pudesse.
– Pode vir vê-las. É só um canteiro. Gostaria de ter maior espaço.
Levei-o até a varanda.
– Aqui são begônias. Begônias vermelhas. Quando abrem as corolas demoram muito para secar, às vezes aturam abertas até dois meses, a depender do cuidado.
– Demoram tanto assim? Por isso que estão sempre floridas. Parecem rosas, lá da minha varanda pensei que eram rosas.
– É verdade. Parecem um buquê de rosas pequenas. Mas para mantê-las assim é preciso cuidado, nunca molhar os caules. São frágeis. Já os hibiscos só duram vinte e quatro horas. Murcham em um dia. Não me animo a cultivá-los.
– As plantas são como as pessoas, cada uma com seus caprichos.
– Ou seus problemas – completei.
Ele concordou confirmando com a cabeça.
Voltamos para a sala, ele se sentou no mesmo lugar. Nunca notara que ele me observava, eu era quem o contemplava com seus passarinhos. Procurei ser gentil.
– Posso servir um café, aceita?
– Aceito. Mas não quero incomodar, é só uma visita.
– A visita me alegra. É uma novidade para mim.
Fui para a cozinha. Rapidamente retornei com a xícara fumegando café solúvel. Ele tomou lentamente enquanto falava. A voz era mansa como um chuvisco.
– A senhora gosta de passarinhos?
– Muito. Sempre fico olhando o senhor cuidando dos seus. São muitos, não é?
– Muitos. Mas não são meus. Sou o copeiro deles – ele riu divertido – não sei de onde vêm. Espalho alpiste e eles aparecem.
– E os beija-flores?
– Os beija-flores são uma estratégia. Ponho mel na água dos caqueiros e eles vem beber. Não sei como é que de longe pressentem a presença do mel.
– Mel?
– Sim, mel de abelhas. Compro especialmente para eles. Eu não como mel, é açúcar, mas eles não têm restrições, acho que é porque ainda não têm a minha idade…
Ria enquanto falava. Rimos juntos.
Então se levantou e me entregou a xícara com um resto de café.
– Obrigado. Vou embora. Venha lá em casa amanhã para ver os passarinhos se alimentando.
– Está bem. Obrigada pela visita. Vou ver os passarinhos amanhã quando deixar as crianças na escola.
Abri a porta, ele saiu como chegara, suavemente. Voltei para dentro com um resto de sorriso. Eu iria ver os passarinhos, iria sim.
Fui.
Entrei para uma sala quase vazia de móveis. Uma arca colonial junto à parede. Acima, em contraste, imensa tela bastante colorida com motivo abstrato. Havia uma cadeira de balanço austríaca, ao lado de um revisteiro abarrotado, em frente à TV de 33 polegadas. Persianas na porta larga envidraçada deixavam penetrar uma claridade frouxa, que não chegava a se espalhar pelo espaço da sala.
O velhinho sorriu ao me ver, e me conduziu à varanda. Rolinhas e outras aves miúdas bicavam o farto alpiste espalhado no mármore do peitoril, indiferentes à minha presença e ao ininterrupto rumor dos carros que transitavam lá embaixo. Permanecemos ali, em silêncio, para não afugentá-las. Ele tinha um olhar carinhoso para as aves, quase paternal. Alguns minutos e voltamos à sala onde tratei de me despedir, sem que ele concordasse.
– Não se apresse. Tenho que lhe servir alguma coisa. A senhora toma chá?
– Não se preocupe, eu tenho que ir.
Ele, porém, já se dirigia à cozinha falando enquanto caminhava.
-. Nunca recebo visitas, por isso não preciso de cadeiras. Só utilizo o sofá. A faxineira quando vem também não precisa de cadeiras. Sente-se aqui mesmo na cozinha. Moro sozinho, sabe? Minha mulher morreu há muitos anos, meu filho pouco me visita, não tem tempo, o trabalho, a família. Só me telefona. Isso quando sobra tempo. – Fez um sorrisinho condescendente.
Havia uma bancada de cozinha americana. Sentei-me em um banco alto, enquanto ele preparava um chá que tinha o cheiro bom de canela, e serviu duas xícaras de friso doirado. Uma colocou em minha frente e começou a tomar da outra. Em silêncio. Os dois. Eu não sabia o que falar. No ar pairava uma cumplicidade. Ele sempre sorria, um sorriso brando, parecendo contente, os olhinhos de ouro brilhando entre as pálpebras rugosas. Quando terminei descansei a xícara em cima da bancada e me levantei.
– Agora preciso ir. O chá está muito gostoso, o senhor sabe preparar um ótimo chá. Obrigada por me convidar. Quando quiser, pode ir ver minhas begônias. Agora, porque o senhor me falou deles, estou pensando em plantar também crisântemos, o senhor gostará de vê-los. Pode ir ver quando quiser, é só avisar. Faz um sinal da varanda.
Fui saindo. Ele me acompanhou até a porta e recomendou:
– Cuidado com a porta do elevador que às vezes fica travada. O perigo do poço!!! Esta semana eu escapei por pouco, quase caí. Volte outro dia, não precisa avisar não, eu só saio para caminhar muito cedo. O resto do dia fico em casa. Vou esperar a senhora.
Acenei e entrei na cabine, para o que tive de desemperrar a porta que não fechava.
– Por que não consertam esta porta? – pensei. Alguém ainda pode cair.
Fiquei com o velhinho na cabeça. Amanhã na varanda vou acenar para ele. Enfim muda alguma coisa, tenho um amigo para me sorrir e apreciar minhas flores. Que velhinho mais simpático!
Dia seguinte fui cumprir minha rotina. Regador na mão rumei para a jardineira. Ele ainda não estava na varanda. Demorei mais tempo cuidando do canteiro, arrumando um espaço para as mudas de crisântemos – que iria buscar naquele fim de semana – enquanto esperava para vê-lo chegar a alimentar os pássaros. Ele não veio. Passei a manhã inquieta, espionando a pequenos intervalos. Não apareceu naquele dia. Nem no outro, nem no outro.
Nunca mais o vi. Todos os dias eu olhava o apartamento vazio onde ninguém transitava. Comecei a ler o segundo volume dos contos de Hemingway ao lado da jardineira.
Pouco a pouco os pássaros abandonaram a varanda.
Eu desisti de cultivar crisântemos.

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