A cidade como cultura

poatualPaulo Ormindo de Azevedo

A cidade não é apenas o palco das diversas linguagens artísticas: a arquitetura, a musica, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Ela própria é cultura material e imaterial. Material, pelo traçado de suas ruas, praças, fontes e parques, pelo tratamento de suas frentes marítimas e espelhos d´água. Imaterial, por suas relações sociais, tradições cívicas e religiosas, por suas festas e jogos. A cidade é um arquivo histórico, como diz o espanhol Chueca Goitia, porque nela se guardam construções de todas as épocas.  A história das artes se confunde com a história da cidade, segundo o critico de arte e ex-prefeito de Roma, Carlo Argan.

Salvador tem uma cultura urbana riquíssima, pela sua implantação em acrópole, pelo seu acervo arquitetônico e artístico, pela sua história social, pelo seu sincretismo religioso, pela alegria de seu povo, por suas festas ao ar livre, pelo requebrado de suas baianas, por sua música e cozinha típicas. Mas a partir do início da década de 1970 este patrimônio cultural e econômico vêm sendo impiedosamente pilhado e destruído pela especulação travestida de progresso, pela incompetência e conivência de nossos gestores urbanos e pela pusilanimidade de todos nós soteropolitanos, que não soubemos reagir a tempo.

Finalmente, quando quase tocávamos o fundo do poço, a Academia de Letras da Bahia, com o apoio de artistas e produtores culturais soteropolitanos, resolve reagir cobrando dos candidatos a Prefeito um compromisso com a nossa cultura, o dar um basta na destruição de nosso patrimônio cultural e ambiental urbano e incentivar à criação cultural, como ocorreu nos anos 60, quando fomos a vanguarda da arte brasileira.

É preciso que o nosso futuro prefeito compreenda que a par de sua importância identitária a cultura representa 7% do nosso PIB. No contexto urbano este percentual é ainda maior e para que ele cresça é preciso que as prefeituras tenham politicas e invistam na cultura. Em meado da década de 70, Nova York enfrentou uma crise financeira e de gestão semelhante à de Salvador. A companha do novo prefeito para recuperar a cidade foi recriar a autoestima de seus cidadãos com o slogan I love New York.

Enquanto a Prefeitura do Recife aplica quatro por cento do seu orçamento em cultura e transformou o Centro Histórico em um polo de informática, a nossa não chega a investir meio por cento e não tem nenhuma politica para o Pelourinho. Não obstante os esforços dos últimos presidentes da Fundação Gregório de Mattos, não é possível fazer milagres com tal orçamento.

O grupo de artistas não quer congelar a cidade, mas é preciso acabar com a farsa que basta preservar o Centro Histórico para os turistas “e que tudo mais vá para o inferno”. Se fosse assim, não teríamos mais Paris, Barcelona, Florença, San Francisco e as cidades mineiras. É preciso compreender que a recuperação do Pelourinho não pode ser uma operação puramente construtiva, senão essencialmente urbanística e isto e uma competência exclusiva do município.

O que a Prefeitura fez pelo Pelourinho nos últimos vinte anos?  Um dos maiores flagelos dele é a falta de mobilidade e acessibilidade. No entanto o Plano Inclinado Gonçalves está parado há quase um ano e o Elevador Lacerda funcionando precariamente. Precisamos ter um órgão cultural com status de secretaria, um conselho cultural nos moldes do recomendado pelo Estatuto da Cidade e incentivos fiscais para a cultura. Sem isso a Prefeitura não pode exercer as prerrogativas constitucionais de preservar e incentivar a cultura.

O encontro sugerido e coordenado pelo acadêmico Antonio Carlos Cajazeira está marcado para o próximo dia 26, à noite, naquela Academia. Não será um debate nem um embate para não constranger os candidatos, senão ouvi-los sobre o que pensam sobre a cidade. O confronto será subjetivo, na cabeça de cada ouvinte-formador de opinião. No final da sessão será entregue a todos um documento do grupo com sugestões. A recuperação de Salvador passa inevitavelmente pelo resgate da autoestima dos soteropolitanos e isto não se consegue sem reforçar a cultura urbana.

SERVIÇO sobre o evento em: http://www.academiadeletrasdabahia.org.br/Acontece/encontro.htm

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