Os prefeituráveis e a cultura

img13Joaci Góes

A Academia de Letras da Bahia receberá na noite do próximo dia 26 os candidatos a prefeito de Salvador, para conhecer o que pensam fazer, se eleitos, em favor da cultura na terceira maior cidade do País, reconhecidamente relegada a plano secundário, como se infere, até, do percentual de 0,2% do orçamento municipal a ela destinado, quando capitais brasileiras há que destinam percentual muitas vezes maior, ao mesmo fim, apesar de, nem de longe, terem as tradições culturais da cidade berço do Brasil.

A iniciativa pioneira da Academia, ao acolher, sob a liderança do presidente Aramis Ribeiro Costa, proposta do mais novo acadêmico, o poeta Cajazeira Ramos, que mediará o encontro, tem tudo para ser exitosa, seja pelo seu caráter apartidário, seja pela qualidade do conjunto das pessoas envolvidas na formatação do conteúdo e da forma do encontro. Nada menos de duzentos respeitados profissionais ligados ao mundo da cultura, divididos em 15 grupos, trabalham para produzir uma proposta de gestão cultural que poderá transportar Salvador ao elevado plano de onde nunca deveria ter sido rebaixado. O novo prefeito de Salvador receberá um programa de ação capaz de restaurar importantes práticas e políticas culturais negligenciadas, para grande prejuízo dos nativos e visitantes no usufruto do incomparável potencial da Soterópolis.

É uma trágica ironia que, enquanto o mundo assiste a um notável crescendo do turismo cultural, tenhamos permitido, por um misto de incompetência e insensibilidade, que essa extraordinária dimensão de nossas possibilidades ficasse à margem do papel gerador de polpudas divisas que respondem pela grandeza de sítios que não podem rivalizar com os marcos históricos que fazem de nossa terra um museu a céu aberto, somando-se às incomparáveis belezas naturais compostas pela amenidade da temperatura, a brisa permanente, a cor do mar e a intensa claridade tropical. Só muita falta de imaginação e preparo para não compreender que o carnaval, por maior que seja o seu peso, é, apenas, um evento sazonal que em nada interfere com uma sólida programação que, bem articulada e difundida, manteria um fluxo regular e expressivo de visitantes ao longo de todas as semanas do ano, além de proporcionar lazer de qualidade aos moradores. É inegável, por outro lado, como já denunciamos em outras ocasiões, que Salvador cedeu ao fácil apelo do turismo sexual, a exemplo de outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, que, segundo Ciro Gomes, se transformou num “puteiro a céu aberto”.

Salta aos olhos que, pela sua intensidade e abrangência, os fastos culturais que fazem de Salvador uma das cidades de maior tradição no Continente Americano não podem ser tratados por uma fundação, apenas, a Gregório de Matos, apêndice de uma secretaria da importância da de Educação, Esporte e Lazer, já absorvida pela enorme responsabilidade de retirar Salvador da rabada em que se encontra, penúltimo lugar, em matéria de qualidade de ensino, entre as vinte e sete capitais brasileiras, ligeiramente acima de Maceió. Quem quer que tenha um mínimo de percepção mercadológica compreende que nada é de retorno pecuniário tão certo como investimento em cultura, fato de que todo o mundo é prova. Isso explica porque as pinturas dos grandes mestres alcançam fortunas colossais, na medida em que sirvam de motivação para manter o visitante por alguma fração média de tempo adicional, expondo-se ao aumento do consumo de bens e serviços, gerador de receita tributária.

O tratamento secundário que a cultura em Salvador vem recebendo decorre, inegavelmente, portanto, de uma perversa associação entre a estreiteza de visão e o aparelhamento da administração pública para atender a compromissos decorrentes da licenciosidade partidária que estimula apoios políticos necessários a assegurar a governabilidade em troca da mais desabrida pilhagem do Erário.

Penso que esta oportuna iniciativa da Academia de Letras da Bahia vai fazer história.

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