Edivaldo M. Boaventura – Oitenta anos do acadêmico

Discurso em homenagem ao octogésimo aniversário do acadêmico Edivaldo M. Boaventura, proferido em sessão especial da Academia de Letras da Bahia em 25 de março de 2014

Luís Antonio Cajazeira Ramos

 

Meu chanceler.

Estamos diante de um incômodo dilema. O que esperar de um discurso de celebração dos 80 anos de idade de alguém? Creio que todos pediriam ao orador que, de forma criativa e agradável, lembrasse em breves palavras a genealogia da pessoa festejada, suas raízes socioculturais, sua formação escolar, um pouco de sua vida privada e muito de sua vida pública, as escolhas acadêmicas, os caminhos profissionais, a produção intelectual, as inserções institucionais, as intervenções sociais, as realizações. Mas nosso homenageado é Edivaldo M. Boaventura. Eis aí o problema. Se eu for sumariar, apenas sumariar, listar as realizações do bem-venturoso confrade, inescapavelmente eu ocuparei ou mesmo ultrapassarei o tempo razoável pelo qual deve estender-se um discurso de qualquer natureza. Como contornar esse problema? Como vencer a encruzilhada? Sinceramente, não sei. Na dúvida, prefiro afastar-me da via meramente curricular; ignoro o caminho fácil de agradar os ouvintes com eventuais causos pitorescos de sua aventura de vida; preservo-me de seguir a oportunista pista de minha relação pessoal com o dileto amigo; e escolho avançar pela bem sinalizada estrada suavemente retilínea de sua rica, proveitosa e admirável biografia. Resumidamente, é claro, superficialmente, em pequenos saltos, até onde o fôlego nos conduza.

Edivaldo Machado Boaventura nasceu em Feira de Santana, em 10 de dezembro de 1933. Nasceu, portanto, onde nasce o sertão. É o mais velho dos quatro filhos do Sr. Osvaldo Abreu Boaventura e da Sra. Edith Machado Boaventura. Seu Osvaldo foi um bem-sucedido empresário feirense no comércio e na pequena indústria, trazendo no sangue não somente a capacidade empreendedora do pai, o negociante e gestor municipal José Alves Boaventura, entusiasmado presidente da Sociedade Filarmônica 25 de Março, como também a tenacidade da mãe, dona Lídia Abreu de Oliveira Boaventura, a amada e idolatrada avó Dinda, cuja altivez de notável figura feminina, que se destacava na sociedade local, marcou a infância do neto Didi. A mãe de Edivaldo, dona Edith, herdeira de ricas e tradicionais famílias dos municípios de Castro Alves e de São Gonçalo dos Campos, era professora primária e uma dedicada e ilustre colaboradora de instituições religiosas e sociais de cunho caritativo, estendendo para a ação comunitária a piedade e a fé transmitidas pela mãe, a austera dona Amélia Barreiros Machado, viúva de João Sampaio Machado.

De início, Osvaldo e Edith residiram numa casa simples da Praça da Catedral, mudando-se depois para a Praça da República, fixando-se a seguir numa chácara próxima ao estabelecimento comercial do chefe da família. Na amenidade de uma vida familiar sem sobressaltos, honesta, coesa, amorosa, amistosa, participativa, laboriosa e tenaz, formou-se a personalidade de nosso Edivaldo, sob o constante apoio, companheirismo e incentivo do pai e o exemplo especular de uma mãe educadora e amante da leitura, que conciliava a vida familiar e suas ações pedagógicas de cidadania e amor ao próximo.

O universo da primeira metade da infância foi para Didi a casa da Praça da Catedral e suas vizinhanças. No jardim de infância da Escola Normal Rural, esteve sob os cuidados da professora Amelinha Simões, prima de seu pai. Tratando-se de Edivaldo M. Boaventura, o fato mais marcante desses anos não foi outro senão um ato cívico: o plantio de uma muda no dia mundial da árvore, no Horto Froes da Mota, na Rua da Aurora, naquele 21 de setembro que abria a primavera de seus cinco ou seis anos de idade. A alfabetização, iniciada em casa pela mãe, foi retomada e concluída pela persistente madre alagoana Maria Nazaré Andrade na escola primária do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, o antigo orfanato do padre Ovídio Alves de São Boaventura e sua irmã Teolinda, que fora ocupado em 1903 por freiras sacramentinas francesas e era mantido pela irmandade. Madre Nazaré também iniciou o pupilo no ofício de coroinha, para acompanhar a missa do padre Mário Pessoa na capela da instituição.

A infância se completou na residência da Praça da República, a poucos passos da escola. A Segunda Guerra Mundial acontecia bem ali em frente de casa, com soldados recebendo treinamento militar na praça, o armazém de fumo transmudado em quartel, casas ocupadas pelo exército, a cidade alvoroçada pelas fardas e armas e pela excitação de notícias das terras beligerantes e longínquas, no auge ufanista da ditadura Vargas. Enquanto isso, nosso infante seguia o curso primário, tumultuado por problemas hepáticos que o levariam a perder o ano em 1942. Desligou-se da escola sacramentina e passou a estudar na escola da professora Helena de Assis Suzart. Em 1946, no último semestre letivo do curso primário, seu pai matriculou-o como interno do Colégio Antônio Vieira, em Salvador. No final do ano, prestou o concurso de admissão ao ginásio, sendo aprovado, permanecendo na instituição jesuíta.

Desde 1943, no início de sua puberdade, sua família se mudara para a espaçosa, ventilada, arborizada, aprazível e distante chácara. A partir de 1946, a adolescência dividia-se entre os estudos em Salvador e as férias escolares em sua querida Feira de Santana. Se nas férias o rapazote renovava os vínculos da amizade e da vida social no Feira Tênis Clube, então dirigido por seu genitor, no colégio o estudante despertava definitivamente para o cultivo do binômio que até hoje norteia sua vida: o livro e a leitura. É dessa época, por incentivo do padre Campos, o salto do prazer das leituras infantis para a admiração por Humberto de Campos, José de Alencar, Ferreira de Castro e o poeta de sua vida inteira: Castro Alves. Por influência do erudito padre Mariano Pinho, estabeleceu contato com a literatura portuguesa de Camões, Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Guerra Junqueiro e do baiano Rui Barbosa.

As bases intelectuais, morais e religiosas firmadas no ambiente familiar dos Boaventura foram reforçadas no Colégio Antônio Vieira, instituição criada em 1911 por padres jesuítas expulsos de Portugal durante o período em que reinava um explosivo sentimento anticlerical na nascente república lusitana. O jovem Edivaldo recebeu dos padres portugueses uma sólida formação filosófica e científica de matiz humanista, bem como se deixou impregnar pela doutrina católica dos jesuítas, vindo daí, talvez, sua afinidade com o papel de educador como uma verdadeira catequese pedagógica e uma missão de vida. Também participou ativamente da vida escolar extraclasse. Além de experiências no coral e no teatro, dirigiu o grêmio estudantil, garbosamente denominado Academia Vieirense de Letras, e integrou duas instituições vinculadas à igreja, a Congregação Mariana e a Juventude Estudantil Católica. Desses tempos do Vieira, que vão desde o final do primário à conclusão do curso colegial, de 1946 a 1953, nosso eterno estudante guarda lembranças imantadas na memória e algumas amizades duradouras, como Paulo Ormindo de Azevedo, Ângelo Calmon de Sá e o saudoso compadre Luiz Navarro de Britto. É ainda nessa época que brota o interesse e a admiração pela cultura portuguesa, enraizando fundo e projetando frutos do insuspeito amor a Portugal.

Nosso disciplinado e prestante cidadão aceitou de bom grado cumprir o serviço militar obrigatório, facilitado pela opção de frequentar o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, a elite dos alistados, por estar cursando o ensino médio. Sem dúvida, a conscrição foi um alento a seu espírito cívico e uma experiência intensa de aprendizado de valores e práticas úteis à vida cotidiana. Por outro lado, porém, as obrigações da caserna foram um transtorno em sua formação escolar. Frequentou o quartel por dois anos, o primeiro deles paralelamente ao terceiro ano colegial. Premido pela jornada estafante, não obteve classificação no vestibular para o curso de direito. Incontinenti, prestou novos exames e cursou um ano de ciências sociais na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da jovem Universidade Federal da Bahia, conjuntamente com a conclusão do CPOR. No ano seguinte, ingressou na tão almejada Faculdade de Direito, centro das tradições liberais republicanas e fórum do caloroso embate de pensamentos e correntes ideológicas da juventude baiana.

Ser aluno da UFBA nos cursos de ciências sociais em 1954 e de direito entre 1955 e 1959, durante o inigualável reitorado de Edgard Santos, foi um dos mais expressivos privilégios de sua trajetória. O magnífico professor-gestor não apenas fundou a universidade, como também ampliou seus horizontes acadêmicos com novos cursos e revolucionou a relação da instituição com os alunos, dando primazia aos cuidados com o corpo discente, a tal ponto que, ironia das ironias, terminou sendo destituído do cargo, pressionado pelas organizações estudantis. A Faculdade de Direito era dirigida com não menos brilho pelo professor e vice-reitor Orlando Gomes, que conduziu com firmeza ímpar a federalização da tradicional escola jurídica, a construção da nova sede no bairro do Canela, a organização da biblioteca com ampliação do acervo, a modernização do curso e a criação do doutorado, dentre outras realizações.

Em recente e ainda inédita entrevista ao jornalista Sérgio Mattos, nosso bacharel revela que o curso de direito lhe foi uma incomensurável alegria, um verdadeiro deslumbramento. Esse relato encantado inicia-se pela citação nominal dos mestres. Logo no primeiro ano, Nelson Sampaio, Josaphat Marinho, Adalício Nogueira, Aloysio de Carvalho Filho, Aderbal da Cunha Gonçalves e Augusto Alexandre Machado, aos quais se seguiram, a cada ano, até a formatura, outros venerandos catedráticos, como Pedro Manso Cabral, Carlos Fraga, Antônio Matos, Elson Gottschalk, Lafayette Pondé, Gilberto Valente, Lafayette Spínola, Luiz de Pinho Pedreira da Silva, Albérico Fraga, Adhemar Raimundo da Silva, Auto José de Castro e o médico Estácio de Lima.

O pensamento, o comportamento e a vocação de Edivaldo M. Boaventura ganharam feições definitivas na renovada Faculdade de Direito da Bahia. Não se furtou a participar da União dos Estudantes da Bahia e da União Nacional dos Estudantes, constituindo um grupo de nacionalistas com Nailton Santos, Antônio Cabral de Andrade, Raimundo Bonfim, relacionando-se com as lideranças estudantis de todas as vertentes ideológicas da época, cujo palco era o Centro Acadêmico Rui Barbosa. De um lado, Gabino Kruschewsky, Jorge Medauar, Nemésio Sales e, de outro, Eliel Martins, Mário Albiani, Remy de Souza. Nada, porém, o afastava da independência e da noção da justa medida que até hoje orientam seus passos. Trouxe para o ambiente acadêmico a militância religiosa do movimento Ação Católica, juntamente com os colegas Margarida Silva Costa, Edna Saback Cohim, Carlos Brandão da Silva e estudantes de vários cursos, como Leão Gomes de ciências econômicas, Elza Figueiredo e Moema Parente de filosofia, Haroldo Lima de engenharia, o seminarista José Hamilton Barros e tantos outros, chegando a ser um dos coordenadores da Juventude Universitária Católica até a formatura. Depois de diplomado, afastou-se da Ação Católica, de cujo seio se alimentaria a Ação Popular, movimento político de ativa participação na resistência ao regime militar.

A vida de estudante de direito foi pontuada por diversos envolvimentos acadêmicos. Frequentador assíduo da biblioteca, tornou-se amigo da bibliotecária Esmeralda Maria de Aragão, a quem credita os fundamentos de seus conhecimentos no campo da pesquisa e das referências bibliográficas. No penúltimo ano do curso inscreveu-se como solicitador acadêmico da Ordem dos Advogados do Brasil. Nesse mesmo ano de 1958, foi o orador da entrega da beca de desembargador ao professor Aderbal da Cunha Gonçalves, ofertada pelos estudantes, inaugurando assim sua festejada verve de orador oficial de tantas e quantas instituições às quais cumulativamente se vincula. No ano da formatura, estagiou na Procuradoria Regional do Trabalho, o que já sinalizava sua futura atividade profissional como juiz do trabalho concursado desde o ano seguinte. Fez um segundo estágio na Comissão de Planejamento Econômico, criada por Rômulo Almeida, e o curso de Introdução aos Problemas do Brasil, coordenado por Machado Neto para o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, diversificando assim seus interesses acadêmicos e profissionais.

Seu primeiro artigo publicado foi “Cidade e habitação: aspectos teóricos e verificação da problemática habitacional da cidade do Salvador”, incluído na 14ª edição da revista Ângulos, em 1959, ao qual se seguiram colaborações relacionadas ao enquadramento sindical e outros tópicos de direito do trabalho. A revista Ângulos foi e ainda é uma publicação dos acadêmicos de direito da UFBA. Foi criada para fomentar e divulgar a produção científica, opinativa e literária dos estudantes, revelando nomes como Florisvaldo Mattos, João Ubaldo Ribeiro, Glauber Rocha, David Salles, Jair Gramacho, Fred Souza Castro, Jomard de Britto, Geraldo Fidelis Sarno, Navarro de Britto, João Eurico Matta e outros mais que viriam a ser expressivos autores das letras baianas.

A formatura da Turma Clóvis Beviláqua foi em 10 de outubro de 1959, na semana seguinte ao centenário do jurista e filósofo positivista cearense, filho de padre como o conterrâneo José de Alencar e autor do projeto do antigo e longevo Código Civil Brasileiro. Edivaldo Machado Boaventura foi o orador ao paraninfo Aderbal da Cunha Gonçalves. Naquela cerimônia inesquecível, em que o orador honrava a escolha da turma pelo querido e admirado professor de direito civil, seus olhos marejados de emoção buscavam apoio na incontida felicidade dos colegas Gabino Kruschewsky, Eliel Martins, Sônia de Aguiar Nunes, João Américo Bulcão Fróes, Remy de Souza, Maria José de Oliveira, Lúcia Oliveira Angeiras, Wenceslau Unapetinga, Nemésio Sales, Thomas Bacelar, Rômulo Galvão, José Osório Reis, Ademar Martins Bento Gomes, Frederico Augusto Lassère, Rogério Rego, Joaquim Artur Pedreira Franco, Raimundo Medrado Primo, Eurípedes Brito Cunha, Juracy Magalhães Júnior.

Em 1960, imediatamente após o encerramento da graduação, começou a advogar, abraçou a docência na Escola de Serviço Social da Bahia, que logo seria incorporada à Universidade Católica de Salvador, iniciou o doutorado pela livre-docência da UFBA, foi aprovado no concurso para juiz do trabalho, passou a escrever com frequência no Jornal da Bahia, associou-se ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, e chegamos, meu chanceler, às inúmeras bifurcações da estrada biográfica que escolhi sobrevoar com este monomotor de limitada autonomia de voo que conduz minha pena. Resta-me pousar no meio da encruzilhada e externar minha perplexidade. Ecce homo. Por onde vou? Que senda trilhar? Como tecer num único cordel tamanha vida?

Minha primeira e óbvia escolha é pôr os pés no chão, pegar um veículo terrestre qualquer e dirigir-me à continuação de seus estudos, ora vertidos à pesquisa e à publicação de textos e livros. A confreira Edith Mendes da Gama e Abreu, no discurso de saudação quando da posse de Edivaldo M. Boaventura na Cadeira 39 deste sodalício, não conteve a admiração pelo precoce talento culto e pela gloriosa exceção de seus inacreditáveis mais de cinquenta trabalhos e títulos já publicados nos escassos 37 anos de idade. Hoje sua obra são volumes e volumes de uma enciclopédia de humanidades, com estudos das ciências do direito, da economia, da filosofia, da política, da sociologia, da administração, da pedagogia, da educação, da literatura, da memória, dos relatos de viagens, do universo da cultura de um entusiástico cosmopolita.

Volto ao entroncamento para pegar a bifurcação da via dos estudos, que avançaram em novas titulações acadêmicas. O doutorado na UFBA com a tese “Incentivos ao desenvolvimento regional”, os cursos na Universidade de Paris e no Instituto da América Latina, a participação na Escola de Verão de Harvard, iniciando o relacionamento com universidades dos Estados Unidos e do Canadá, o estágio no Instituto Internacional de Planejamento da Educação, vinculado à Unesco, a realização do mestrado e do doutorado em educação pela Universidade Estadual da Pensilvânia, respectivamente com a dissertação “A estrutura legal da educação brasileira” e a tese de PhD “Um estudo das funções e das responsabilidades do Conselho Estadual de Educação da Bahia, Brasil, de 1963 a 1975”, e o pós-doutorado na Universidade de Quebec.

Um desvio paralelo à pista principal revela outras titulações de natureza associativa e honorífica. É membro de quase todas as academias e agremiações culturais do estado, como a Academia de Letras, a Academia de Letras Jurídicas, a Academia de Educação, a Academia de Ciências, o Instituto Genealógico e o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. É membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Brasileira de Educação, da Academia Portuguesa da História, da Ordem do Santo Sepulcro e da Confraria da Barraida de Portugal. É doutor honoris causa da Universidade Estadual da Bahia e foi distinguido com incontáveis prêmios, troféus, comendas e medalhas, como a Machado de Assis, a Maria Quitéria, a do Patriarca e a da Cruz de Malta, além de títulos de cidadão honorário de vários municípios da Bahia.

Inevitavelmente, perco-me no intricado de suas atividades profissionais. Desisto de entender o fluxo desse trânsito e enfrento resignado o congestionamento de trabalhos sucessivos, superpostos, aparentemente díspares, porém integrados, com resultados eficazes e duradouros. Acho uma brecha, disparo em velocidade e avanço todos os sinais: foi advogado, juiz do trabalho, técnico de desenvolvimento econômico da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, professor de direito administrativo, de direito constitucional, de ciência política, de ciência das finanças, de economia política, de direito social, de estrutura e funcionamento do ensino, de metodologia da pesquisa, na Escola de Serviço Social da Bahia, na Escola de Administração, na Faculdade de Direito, na Faculdade de Educação, implantou a assessoria de planejamento da reforma universitária no reitorado de Roberto Santos, ajudou a fundar a Faculdade de Educação, foi membro e presidente do Conselho Estadual de Educação, foi secretário de educação e cultura no governo de Luiz Viana Filho, iniciou as escolas polivalentes, implantou as faculdades de formação de professores, concluiu os centros integrados de educação, participou da criação da Universidade Estadual de Feira de Santana, criou o Parque Histórico Castro Alves, integrou e coordenou o programa de mestrado em educação da UFBA, participou da criação da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação, trabalhou com sistemas e estruturas de ensino, planejamento, metodologia da pesquisa e história da educação, foi membro do Conselho de Coordenação da UFBA, compôs e presidiu a Câmara de Ensino de Pós-Graduação e Pesquisa, voltou a dirigir a Secretaria de Educação no governo de João Durval Carneiro, promoveu a interiorização da educação superior estadual, criou e dirigiu a Universidade do Estado da Bahia, impulsionou a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, apoiou a criação da Universidade Estadual de Santa Cruz, aumentou consideravelmente o número de escolas e expandiu a educação básica, implantou os estudos africanos na escola baiana, criou o Parque Estadual de Canudos, coordenou a criação do doutorado em educação da UFBA, foi diretor-geral do jornal A Tarde, onde assinou por muitos anos a coluna Educação, ensina e orienta pesquisa no programa de mestrado e doutorado em desenvolvimento regional e urbano da Universidade Salvador e no mestrado interdisciplinar da Fundação Visconde de Cairu. Com mais de 50 anos de magistério, continua ensinando e orientando teses e dissertações.

Freio bruscamente para não cair no imponderável abismo do futuro. Olho para trás e vejo um país de realizações. Invade-me um misto de tristeza e saudade, alegria e júbilo, conforto e gratidão. Neste momento, rememoro passagens do discurso de posse de nosso camarada na cátedra de Francisco de Castro e de Clementino Fraga neste silogeu, ao dirigir a juventude de sua palavra ao presidente José Calasans. Logo na abertura, revela os dois primeiros impulsos fortes, ardentes e irresistíveis experimentados pela consciência: ser universitário e tornar-se acadêmico. Tomo a liberdade de afirmar inarredavelmente que a Academia de Letras da Bahia é o segundo lar de Edivaldo M. Boaventura. Membro efetivo, atual vice-decano, membro benfeitor, ex-presidente, ele é a expressão viva e mais evidente do binômio de valores que devem orientar o mandato vitalício de um membro desta casa: memória e convivência.

Livro e leitura, universidade e academia, memória e convivência fazem dele um ícone do binômio que melhor se lhe ajusta: educador e cidadão do mundo. A Bahia e o mundo, terras lusófonas e culturas estrangeiras. Edivaldo M. Boaventura traz a cidade dos homens no espírito e o sertão no coração.

Num último apelo, tentando fazer-me levitar na invisibilidade, pisando em pétalas de rosas sem feri-las, invado timidamente, respeitosamente, a trilha conjugal de nosso amoroso confrade. Testemunho a beleza da jovem estudante de letras Solange sendo cortejada pelo fascinado acadêmico de direito, ouço o pedido oficial de noivado dirigido ao Sr. Pedro Tenório de Albuquerque, sento-me ao lado do casal no sofá do futuro sogro, faço coro aos hinos litúrgicos e aos cantos corais na missa matrimonial celebrada por Dom Jerônimo de Sá Cavalcante no Mosteiro de São Bento, brindo aos recém-casados e… paro por aqui. Mais de 50 anos depois, o amor se reafirma diuturnamente e renasce a cada manhã. Minha chanceler Solange do Rego Boaventura é a companheira que confirma a máxima do grande homem. Da filha mais velha, a administradora e educadora Lídia, assim batizada pela saudade da avó Dinda, sou amigo há pouco tempo. Do filho do meio, o publicitário, ator e cantor Daniel, sou um de seus inumeráveis fãs. Não conheci o mais novo, o veterinário Pedro, filho amado, brutalmente apartado desta vida, uma chaga aberta no coração dos pais e dos irmãos. E por enquanto são quatro netas, que lhe garantem a mais nobre das virtudes ensinadas pelo mestre dos mestres: a esperança.

Só eu me vejo desesperançado e prostro-me impotente diante da impossível tarefa a que me propus. A vaidade e a estultice fizeram-me acreditar que em rápidas palavras eu seria capaz de esboçar a vida assombrosamente plena dos oitenta anos vertiginosos de nosso homenageado. Meu consolo é que falhei onde qualquer um falharia. Num ímpeto, eu ensaio um acanhado pedido de desculpas a meu chanceler, aos doutos ouvintes, a tantos amigos aqui presentes, mas as palavras morrem sem coragem antes de ser pronunciadas. Volto-me suplicante para o improvável outro e peço ajuda. Logo eu, um impenitente ateu. Finjo-me de místico e aposto na cordial tolerância do bonachão Edivaldo, para com minha imaginação despachar um ebó no olho dessa engrisilha, que abrisse os caminhos e revelasse o mistério de sua interdisciplinaridade. Um galo velho que ainda canta, uma farofa de maturi, uma garrafa do melhor tinto. Mas a verdade é que eu me sinto pobre no uso do artifício retórico de divisar um caminho cheio de bifurcações, numa desajeitada alegoria por sobre a tão batida metáfora da estrada da vida e que tão, tão somente disfarça minhas limitações e a claudicante didática de minha explanação.

E logo ali, diante de nós, serenamente, sabiamente, permanece Edivaldo M. Boaventura, com o olhar modulador com que se doa, desvendando o sorriso da vida, na integridade una e indivisível de seu caminho, seu único caminho, desde cedo iluminado pelo Espírito Santo.

O que haveria de mais brilhante?

Muito obrigado.

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