As Viagens de St. Brendan — A Ilha Brasil (Waldir Freitas Oliveira)

Sabemos muito pouco, no Brasil, sobre a história da Irlanda. E mesmo nos dias atuais, levando-se em conta o progresso das comunicações, reconhecemos continuarem os nossos  conhecimentos sobre aquele país sendo escassos, pelo que, como resultado da precariedade dos registros disponíveis, poder soar aos nossos ouvidos com estranheza a notícia de ali haver vivido um São Brendan, que alguns historiadores insistem em “aportuguesar” para Brandão, tanto quanto a da existência de uma ilha chamada “Brasil”, situada em pleno oceano, a oeste daquele país, que teria sido por esse santo visitada em tempos anteriores aos das viagens de Colombo e Cabral, realizadas em 1492 e 1500.

São Brendan, também conhecido como St. Brendan, the Navigator, existiu de fato, havendo nascido, provavelmente, no último quartel do século V da Era Cristã, 484, na Irlanda, em Tralee, no condado de Kerry.

Tornou-se um clérigo merecedor de alto respeito pelos que com ele conviveram, tendo fundado em seu país vários mosteiros e viajado muito pelas terras e mares da Inglaterra, Irlanda, Escócia e País de Gales, havendo chegado às costas da Bretanha, no continente, onde passou a contar, para sua ação missionária, com um discípulo, de longa tradição até hoje na França — Saint Malo (Mac Law, em gaélico). Teria sido ainda abade no mosteiro de Clonfort, no País de Gales, localizado em Galway, situado, como tantos outros, à margem dos mares orientais irlandeses.Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014

Tendo um dia tomado a decisão de navegar na direção do oeste em busca da Terra Prometida dos Santos (Terra Repromissionis Sanctorum), da qual lhe teriam falado, preparou uma viagem, em companhia de catorze outros monges, para ir visitá-la. E navegou, então, realizando-a durante quarenta dias sobre o oceano.

Deixou-nos, felizmente, a descrição de uma das suas viagens, em um precioso documento, mais tarde intitulado Navigatio sancti Brendani abbatis, no qual mencionou, uma por uma, as ilhas por ele visitadas, entre as quais estaria, provavelmente, a de “Hy-Brasil” (devendo esclarecer-se que esse nome já era dado, havia muito, a uma ilha que nada tinha a ver com o Brasil “descoberto” em 1500 pelos portugueses, que desse modo passaram a denominar aquela “nova” terra, em razão de nela terem encontrado árvores das cascas das quais poderiam obter uma tintura vermelha, com cor semelhante a uma brasa de fogo), ainda que representasse a expressão Hy-Brasil, na narrativa de São Brendan, somente uma corruptela de O’Brasil, Isle of the Blest (Ilha da Bem-Aventurança), expressa em língua gaélica.1

Segundo nos informa Samuel Eliot Morison, ninguém cuidara, até quando escreveu ele a sua obra, de reconstituir-lhe a história. Mas acentua que a presença dessa ilha é constante na tradição oral dos irlandeses, herdada, por certo, dos celtas, sendo por eles considerada uma espécie de “campos elísios”, onde ficam as almas à espera do momento em que irão ingressar no reino dos céus, imaginando-a, pois, como uma ilha encantada, onde reinam a paz e a tranquilidade.

Acreditam, no entanto, que nenhum ser humano jamais haja posto nela os pés, existindo, porém, a tradição de que, se alguém chegar a dela aproximar-se a ponto de poder avistar as fogueiras acesas em suas praias, não será hostilizado. E um poeta irlandês, Gerald Griffin (1803 – 1840), escreveu sobre ela um poema que começa com os seguintes versos:

On the ocean that hollows the rocks where ye dwell,
A shadowy land has appeared, as they tell;
Men thought it a region of sunshine and rest,
And they called it Hy-Brasail, the isle of the blest.

E mesmo sendo essa ilha considerada um lugar sagrado, foram muitos os homens de altos negócios instalados em Bristol que se dispuseram a financiar viagens buscando encontrá-la, havendo figurado entre os navegadores que partiram à sua procura o famoso João Caboto, em viagem empreendida em direção ao oeste, realizada em 1497. Nunca, porém, a ilha de Hy-Brasil foi encontrada, sendo grande, no entanto, a literatura que a ela se refere, surgida no decurso dos séculos XIX e XX.

Buscando identificar os mapas e as cartas geográficas onde ela então apareceu, seguimos o texto de Samuel Eliot Morison e nele a encontramos, registrada essa sua presença em sequência cronológica, inicialmente na carta de Bartolomeo Pareto, desenhada em 1455 e reproduzida no Atlas de Kretschmer (1892), onde surge uma insula de Brazil, situada a oeste da península ibérica, em pleno Oceano Atlântico, localizada entre as ilhas de San Zorzo (São George), a de Ventura e a de Colombi (pombos), ao norte, e as de Capraria (bodes) e do Louo (lobo), ao sul, todas elas ali denominadas insulle fortunate sãct Brandawy.2

Essas ilhas de São Brendan figuraram também no primeiro globo terrestre, construído em 1492 pelo alemão Martin Behaim, nele aparecendo com o nome de Sand Branden, o que nos faz constatar o fato de haverem estado elas presentes nos mapas e cartas existentes antes da descoberta da América, ainda que hajam, a partir de então, neles aparecido cada vez com menor frequência, embora tenham ainda figurado no célebre mapa de Ortelius, desenhado no século XV.

Quanto à ilha Hy-Brasil, que, por sinal, nunca foi encontrada, começou a partir do século XVI a ser mencionada como situada cada vez mais a oeste, em relação ao ponto onde antes comumente figurara, e foi com a denominação de Brasil Rock que apareceu no Jeffrey´s American Atlas, editado em Londres, em 1776, nele localizada a 51º de latitude norte e 17º14´ de longitude oeste, acompanhada, porém, da advertência de ser uma ilha “imaginária”; e também na Memorie descriptive and explanatory of the North Atlantic Ocean, obra organizada por A. G. Findlay, publicada em 1853, nela tendo figurado como situada a 51º10´ de latitude norte e 16º de longitude oeste, afirmando, contudo, esse autor não haver sido ainda comprovada a sua existência e esclarecendo haver ali incluído a Brasil Rock tomando por base informações colhidas entre os integrantes da tripulação do navio Bristowe, que afirmaram havê-la avistado em viagem realizada no ano de 1791. Foram, porém, tão numerosas as dúvidas surgidas sobre existir ou não a referida ilha, que o próprio A. G. Findlay decidiu não mais apresentá-la na edição de 1865 do seu trabalho.3

Retornemos, então, à fonte de onde manaram as primeiras informações sobre essas misteriosas ilhas — o texto da Navigatio sancti Brendani abbatis —, dele constando haver o abade Brendan recebido, certo dia, a visita de outro abade, chamado Barynth, que lhe contou como o seu filho, de nome Mermoc, viajando na direção do oeste, descobrira uma “deliciosa ilha”, habitada por monges, a que chamou de Terra Promissiones Sanctorum, havendo a seguir o levado até lá para que a conhecesse, tendo afinal convencido Brendan a também ir até aquela ilha em companhia de outros monges.

Tratou então Brendan de escolher quatorze ou quinze companheiros para acompanhá-lo nessa viagem. Eles começaram a construir o barco que até lá os levaria, estando pronta a embarcação ao fim de quarenta dias, com o seu casco feito com varas de vime unidas umas às outras de forma muito justa e revestido, a seguir, “com couro de vaca curtido com óleo vegetal e com suas frestas tomadas com alcatrão”, nele tendo sido colocadas “provisões para quarenta dias de viagem e gordura suficiente tanto para untar o couro do casco, como para a proteção, contra o sol, dos monges e dos objetos que iriam ser por eles utilizados durante a viagem”.4

Samuel Eliot Morison afirma ser muito boa a descrição,               feita nesse texto, de um determinado tipo de barco de pequeno      tamanho, usado ainda em nossos dias pelos pescadores irlandeses,     por eles chamado curragh, havendo sido essa embarcação,  provavelmente, uma invenção dos celtas, assinalando ser o seu             casco coberto por couro e não sendo, portanto, inteiramente construído em madeira, em razão de não ser abundante a madeira      na Irlanda e de ali existirem, à epoca da referida viagem, rebanhos numerosos de bovinos. Informa, concluindo o seu comentário, ser o curragh uma embarcação segura, mesmo tendo de enfrentar mares bravios.

Da narrativa de St. Brendan consta, ainda, que dezoito monges (três ou quatro além dos inicialmente previstos) nele partiram na direção do poente e que, após quarenta dias de viagem, quando as provisões já estavam a findar-se, avistaram uma ilha rochosa, com montes cujas encostas mergulhavam, abruptamente, no mar em torno, onde não encontraram lugar seguro para ancorar seu barco; e que, enquanto os monges entravam, por isso, em desespero, Brendan lhes assegurou que o Senhor Deus Todo Poderoso lhes mostraria, em três dias, o ponto onde poderiam aportar, o que, de fato, veio a acontecer. E quando afinal o encontraram, logo depois de ali terem chegado e desembarcado, lhes apareceu um cão que se pôs a festejá-los. Pelo que os monges decidiram segui-lo, agradecendo ao Senhor Deus Todo Poderoso por havê-lo enviado.

O cão então os conduziu para uma cidade (town), onde o principal edifício era um grande castelo, tendo as paredes dos seus salões cobertas por objetos fabricados com metais variados, entre eles aparecendo arreios e trompas com engastes de prata, ali havendo sido preparada e servida aos monges uma farta refeição, com pães e peixes para todos eles.

Um dos monges, contudo, um dos que haviam pedido a Brendan, na hora da partida, que os levasse em sua viagem, roubou um dos arreios de prata presos às paredes. E Brendan viu surgir à sua frente, quando todos dormiam, um demônio, que assumiu a forma de um anão negro, mostrando nas mãos os arreios roubados e apontando na direção de quem os furtara, havendo, a seguir, Brendan os retirado do capuz onde o monge ladrão os escondera. Mas, tendo o monge, na manhã seguinte, ao ver que seu roubo havia sido descoberto, lhe implorado perdão, Brendan absolveu-o. Então o demônio voltou a aparecer-lhe, dirigindo-lhe ásperas palavras e demonstrando sua insatisfação pela absolvição que ele concedera, o que o impedia de levar a alma do monge ladrão para o inferno. E aconteceu que, naquela mesma noite, morreu o monge que furtara os arreios de prata, havendo a sua alma sido conduzida por anjos para o paraíso.

Continuaram os monges visitantes a explorar a ilha, havendo nela encontrado um jovem que carregava grandes cestos com pães e uma ânfora com água para servir os viajantes, que ali permaneceram por vários dias, sendo sempre bem tratados pelo responsável pelos negócios do mosteiro, que passou a lhes fornecer os alimentos necessários à sobrevivência.

Dessa primeira ilha seguiram dois dias depois para outra, que denominaram “Ilha dos Carneiros”, onde comemoraram a Páscoa, dela havendo passado para outra, que chamaram de “Paraíso dos Pássaros”, onde as aves por eles encontradas falavam e cantavam em latim, dela tendo eles partido em uma nova viagem, que durou três meses, durante a qual somente viram céu e mar, chegando então à “Ilha dos Frutos”, que era povoada por grifos e gigantes, donde seguiram para a “Ilha da Abadia da Eterna Juventude e do Silêncio”, onde se demoraram por alguns dias.

Foram muitas, portanto, as ilhas por eles visitadas. E numa delas Brendan e seus companheiros encontraram um homem fortememente amarrado a um rochedo, com o seu corpo a ser atingido de modo incessante pelas ondas do mar em fúria. E, quando os monges lhe perguntaram quem ele era, ele lhes respondeu ser Judas, “o mais depravado de todos os criminosos”, e reconheceu merecer o castigo que lhe estava sendo aplicado. Mas Brendan pediu, então, ao Senhor Deus Todo Poderoso que libertasse aquele homem durante um único dia, sendo por Ele atendido, suscitando essa curta suspensão da pena que fora imposta ao homem a fúria dos demônios que o guardavam.

Muito tempo ainda estiveram os monges a navegar naqueles mares e entre aquelas ilhas, havendo eles chegado finalmente à Terra Repromissionis Sanctorum, à Terra da Promissão dos Santos, repleta de árvores frutíferas, nela havendo permanecido durante três dias, que se sucediam sem que fossem separados por noites. E antes de regressar à Irlanda visitaram, ainda, a “Ilha das Delícias”, onde vivia Mermoc, o filho do abade Barynth.

Não surge contado do mesmo modo, nas várias descrições existentes desssas viagens, no que se refere à sua duração, o tempo que os monges gastaram em cada uma dessas ilhas, variando ele em cada uma das versões consultadas, registrando-se o fato de serem elas numerosas, e ainda o fato de nem sempre surgirem idênticas as narrativas sobre o que nelas viram os viajantes.

A narrativa termina, contudo, em todas elas, de modo repentino, informando o regresso de Brendan e seus companheiros ao seu mosteiro, na Irlanda, havendo então os monges agradecido ao Senhor Deus Todo Poderoso o feliz retorno dessa sua longa viagem. E em certa versão da Navigatio encontra-se a informação de a morte de Brendan haver ocorrido em 577 ou 583 A. D., havendo sido ele, após o seu falecimento, canonizado, passando a figurar entre os santos irlandeses, em quarto lugar quanto à hierarquia, no culto e na aceitação, somente ficando abaixo de St. Patrick, Santa Brígida e São Columba.

Sendo este um rápido resumo de uma das viagens de St. Brendan, contendo a sua narrativa as descrições das numerosas passagens com as cenas de encontro dos monges com animais fantásticos que tentaram devorá-los, de todos eles havendo os monges escapado graças à ajuda que lhes deu, de modo permanente durante a viagem, o Senhor Deus Todo Poderoso.

Perguntamos, então, o que haverá de verdade nesse longo relato de uma viagem fantástica, sem que tenhamos resposta adequada para a nossa pergunta. E aqui realçamos o fato de haver essa narrativa se tornado na Irlanda tão conhecida e relembrada quanto as que contam as aventuras do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda na Inglaterra; e o de essas ilhas, que ficaram ali conhecidas como Insulae Sancti Brendani, possuírem, sem dúvida, na memória popular dos irlandeses, uma existência “real”.

***

Vários autores já comentaram a narrativa dessa viagem mágica, e dentre os que o fizeram, em anos relativamente recentes, deverá destacar-se, pela excelência do seu trabalho, Carl Selmer, que analisou 17 manuscritos distintos, traduziu-os, após longo estudo comparativo, do latim para o inglês e propiciou-nos, em obra hoje rara, o conhecimento de um texto que é por muitos considerado o melhor trabalho já efetuado sobre o tema.5

Sem que tivéssemos, contudo, obtido acesso a tal publicação, limitamo-nos, graças à prodigiosa ajuda da internet, à leitura da tradução do texto da narrativa, efetuada em 1893 por Denis O’Donoghue, em edição patrocinada pelo arcebispo P. F. Moran e divulgada por The Celtic Christianity e-Library; bem como à consulta a uma recente edição crítica de excepcional valor sobre essa narrativa, organizada sob a direção de Glyn Burgess, professor da Universidade de Liverpool6; e, finalmente, à leitura dos comentários feitos por Guillermo Giucci em seu livro Viajantes do maravilhoso acerca do que foi escrito por Carl Selmer, entre os quais realçamos a sua afirmativa de haver Carl Selmer destacado, na introduction por ele escrita para a Navigatio, “a importância de dois tópicos do relato hagiográfico que estruturariam a forma da narrativa, o primeiro tendo a ver com a busca da terra prometida, o segundo, com a visão do paraíso”7. Havendo comentado, logo adiante, e acentuado com propriedade que “revelação, prodígio e experiência pessoal fundem-se na Navigatio”. E mais ainda que

[…] a fusão destes elementos transforma a narração da
viagem num testemunho alegórico da mediação divina, e
esta mediação diminui a problemática do sofrimento dos
santos em seu caminho rumo ao páraíso, pois que a insere
no itinerário da vitória da fé sobre os obstáculos naturais.8

Dessa maneira, segundo afirma, nela torna-se Deus “o leme da nau”. Sendo Ele, portanto, quem “sopra as velas e inevitavelmente guia o peregrino à meta desejada”.

Prossegue, afirmando que “a visão do paraíso que coroa o quadro das maravilhas do recôndito se inscreve no texto como o elemento consolidador, por excelência, do maravilhoso hagiográfico”. E, reforçando essa sua ideia, acrescenta:

Engastadas na enorme muralha que protege o acesso à terra prometida, refulgem pedras preciosas, crisólitos como gotas de ouro, topázios amarelos, jaspes com ametistas, ônix, ágatas e esmeraldas. E se a muralha deslumbra com suas riquezas, dentro do recinto murado as maravilhas são indescritíveis. Bosques floridos, rios de leite, frutas perfumadas, montanhas de ouro, pedras preciosas; a visão paradisíaca recapitula, com suas imagens de abundância, valor, disponibilidade e utilidade, as virtudes de regiões extraordinárias que parecem existir à espera do viajante europeu.9

Conclui, então, que, na narrativa de São Brendan, “o maravilhoso transforma-se em intocável, num artifício dos deuses, numa fabricação lúdica de cuja estrutura não se pode retirar mais que um tijolo minúsculo sem evitar seu desmoronamento completo”.10

Levando-se agora em conta o que escreveram sobre a “ilha Brasil” autores brasileiros, iremos referir-nos, assinalando sua condição de pioneiro, a Capistrano de Abreu, quando informou haver sido de uso comum o nome Brasil em tempos anteriores à viagem do “descobrimento” de Cabral, quando, em 1907, afirmou, em Capítulos de história colonial (1500-1800), que

 […] o nome do Brasil já era bem conhecido e figurado em portulanos anteriores às descobertas dos portugueses; havia um nome à procura de aplicação, exatamente como o de Antilha, e isto explicaria a rapidez com que se introduziu e vulgarizou, suplantando outras denominações, como Terra dos Papagaios, Vera Cruz, ou Santa Cruz, se a abundância de uma apreciada madeira de tinturaria até então recebida por via do Levante, e o comércio sobre ela fundado desde o começo, não colaborassem na propaganda, e talvez com maior eficácia.11

Anos depois, o jornalista e historiador Francisco de Assis Cintra publicou, em 1921, em edição da Companhia Melhoramentos de São Paulo, o livro Nossa primeira história (a de Gandavo) e, no capítulo inicial desse seu trabalho, intitulado “O precursor de Cabral”, buscando identificar a “ilha” descoberta por Pedro Álvares Cabral com a “ilha Brasil” presente na tradição oral irlandesa, criou a figura de Sancho Brandão, que teria integrado a armada do rei de Portugal Afonso IV, que reinou de 1325 a 1357, havendo descoberto o Brasil antes, portanto, de Cabral, tendo, ao regressar a Portugal, oferecido a ilha que “achara” à coroa portuguesa, passando ela a ser conhecida, desde então, como “ilha do Brasil” ou “ilha de Brandão”.

Revelando-se esse autor, com sua afirmativa, bem mais um ficcionista que um historiador, por não haver sido comprovada, em qualquer tempo, a existência desse Sancho Brandão, nem ter sido registrado qualquer descobrimento no Oceano Atlântico durante o reinado de Afonso IV, estando ele a apoiar-se, em defesa de sua afirmativa, em carta enviada ao papa Clemente VI por esse rei português, a 12 de fevereiro de 1343, na qual, em sinal de protesto por haver o pontífice reconhecido as chamadas “Ilhas Afortunadas” (as atuais Ilhas Canárias) como pertencentes ao Reino de Castela, alegava terem sido “os nossos naturais os primeiros que acharam as mencionadas ilhas ocidentais”, ilhas, aliás, onde teriam chegado, em data muito antiga, porém incerta, os cartagineses, mas que somente acabaram sendo efetivamente ocupadas por europeus em 1402, quando da viagem feita pelos normandos Jean de Béthencourt e Gadifer de la Salle, navegando a serviço da Espanha.12

Muitos anos depois, em 1942, após haver publicado, em 1930, Aquém da Atlântida, no qual se referiu a esse assunto, Gustavo Barroso (1888 – 1959) abordou de modo decisivo esse tema em seu livro O Brasil na lenda e na cartografia antiga, livro que contou com uma segunda edição em 2000, sendo essa uma obra na qual demonstrou possuir uma vasta erudição, muito havendo informado sobre as “ilhas de São Brandão”, tomando por base ampla bibliografia, sem cometer os enganos de Assis Cintra, havendo insistido, ao final do seu texto, em relacionar o nome “Brasil” ao termo gaélico brasil, este com a significação de bless (bem-aventurança), afirmando, afinal, que, “em face da documentação apresentada, é impossível deixar de reconhecer que a palavra brasil foi, antes de tudo, aplicada para denominar uma ilha do Oceano Atlântico, tendo sido utilizada, no dizer de Latino Coelho, para designar “regiões geograficamente desconhecidas ou figuradas ao sabor da fantasia dos cartógrafos”13. Havendo acrescentado que “as origens e o processo de formação do nome Brasil não podem ser outros”, indo a seguir comentar, a respeito da expressão,

[…] não haver quem não prefira que o apelido do seu torrão natal signifique “terra abençoada”, “terra dos afortunados”, “terra dos bem-aventurados”, of the blest, do que recorde tão somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta, exercido, nos primeiros tempos da conquista, não por portugueses idealistas que a realizaram, mas pelos cristãos-novos Loronhas e Bixordas, que tiravam real proveito da sua audácia, colhendo tranquilamente os frutos do seu destemor.14

Vale, então, o registro feito aqui, com justiça, da qualidade do verbete constante do Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), editado em 2000, organizado por Ronaldo Vainfas, no qual conseguiu esse historiador resumir, de modo perfeito, tudo o que se conhece a respeito do assunto, relembrando o que antes dissera a respeito Capistrano de Abreu e citando, com propriedade, o historiador português Jaime Cortesão, quando sugeriu haver a ideia de uma “ilha Brasil” ter sido concebida pelos portugueses sob a forma de um “mito geopolítico”.15

Havendo assumido recentemente a mesma posição proposta por Latino Coelho, Capistrano de Abreu e Jaime Cortesão, referendada, como informamos, por Ronaldo Vainfas, a historiadora Laura de Melo Souza, em artigo publicado em Nossa História sob o título “O nome do Brasil”, quando afirmou que, “entre 1351 e 1500, os mapas europeus mostram o nome ‘Brasil’, bem como variantes dele — Bracir, Bracil, Brazille, Bersil, Braxili, Bruxil, Bresilge —, designando, em lugares diferentes, uma ilha ou até três, expressando um horizonte geográfico ainda mítico, como o das Ilhas Afortunadas e tantas outras miragens que a prática navegadora e a experiência acabariam por dissipar”. Donde haver ela concluído que “primeiro houve o nome, depois o lugar que foi nomeado”.16

Naquele mesmo ano de 2004, foi publicado no Rio de Janeiro o livro do jornalista Geraldo Cantarino Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro17, devendo-se a seu respeito registrar haver ele recebido severas críticas de vários historiadores brasileiros, que nele apontaram graves erros de expressão  e interpretação dos fatos narrados, figurando entre os que mais o criticaram a professora doutora Luciana de Campos, da Unesp de São José do Rio Preto, São Paulo, integrante do Grupo de Estudos Celtas e Germânicos daquela universidade, que divulgou sua opinião a respeito desse livro em artigo na internet sob o título “As raízes celtas do Brasil”, nele havendo reprovado o autor não apenas por haver usado impropriamente uma “linguagem extremamente coloquial”, como por não haver dado ao seu texto uma “seriedade documental” e, ainda mais, por ter ele insistido em transformar seu livro em claro “apelo esotérico e fantasioso”. E ela declarou, afinal, de modo impiedoso, “esperar que os estudantes universitários que ora iniciam suas pesquisas nos estudos celtas [que segundo alguns somente poucos escolhidos merecem realizá-los, o que, a nosso ver, é um erro] não se inspirem nessa obra e, muito menos, a tomem como referência”.18

Quanto a nós, aceitamos o livro de Geraldo Cantarino como sendo uma contribuição válida para a abordagem do seu tema específico: o da origem do nome Brasil. Apesar de reconhecermos terem sido justas as críticas que lhe foram feitas, especialmente quando não evitou deixar-se conduzir por hipóteses fantasiosas, chegando mesmo a admitir uma suposta presença, em tempo ignorado, dos fenícios em terras do Brasil, e por não possuir o autor uma formação de historiador, não havendo apresentado sua argumentação enquadrada nos rigorosos moldes cuja utilização se tornou costume exigir-se desses profissionais, consideramos que Uma ilha chamada Brasil concorreu para que um assunto pouco tratado na área da historiografia brasileira voltasse a ser discutido como antes o fora, nos inícios do século passado, sendo louvável o esforço realizado pelo seu autor para reunir e apresentar aos seus leitores uma vasta e oportuna bibliografia a respeito do assunto por ele tratado. Não havendo, portanto, a nosso ver, as críticas feitas ao seu livro se mostrado capazes de invalidar a importância da sua publicação, tendo ele merecido, pouco depois do seu lançamento, ser citado como referência pela prestigiosa Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano II, n. 15, dezembro 2006), em apoio ao texto nela publicado sob o título “Todos os nomes do Brasil”, de autoria de José Murilo de Carvalho. Merecendo, ainda, Geraldo Cantarino os nossos aplausos por haver tentado retirar do esquecimento a figura do irlandês Roger Casement, cujo nome e atuação em seu tempo a singularizaram, tornando-o, inclusive, em tempos de agora, personagem central de um dos mais recentes romances do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, El sueño del celta (Buenos Aires: Alfaguara, 2010).

E voltando a falar de São Brendan, assinalemos que a maioria dos historiadores modernos admite existir na lenda de sua viagem um fundo de verdade, ainda que não exista a possibilidade de descobrir-se a real identidade dessa “Terra Prometida” ou dessa “Ilha de São Brendan”, como a chamavam os historiadores medievais, alguns aceitando a ideia de a figura de São Brendan haver sido formada com base nas descrições de várias viagens realizadas por pessoas diversas, em épocas várias, desse modo explicando-se a longa duração daquela que foi descrita na Navigatio com tantos preciosos detalhes, enriquecendo, sobremodo, a literatura frequente nos tempos medievais sobre ilhas imaginárias que se achavam perdidas no oceano, impossíveis, dada a sua condição de ideia pura, de vir a ser encontradas.

REFERÊNCIAS E NOTAS

1 MORISON, Samuel Eliot. The european discovery of America: the northern voyages. A. D. 500-1600. New York: Oxford University Press, 1971, p. 103.

2 Idem.

3 Ibidem, p. 104.

4 Navigatio sancti Brendani abbatis. Trad. (para o inglês) de Denis O’Donoghue. In: Brendaniana. Archbishop P. F. Moran, 1893.

5 SELMER, Carl. Navigatio sancti Brendani abbatis from early latin manuscripts. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 1959. (Medieval Studies, XVI).

6 BURGESS, Glyn. The voyage of saint Brendan: representative versions of the legend in english translation, with indexes of themes and motifs from the stories. Exeter: University of Exeter Press, 2005.

7 GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 36.

8 Ibidem, p. 37

9 Ibidem, p. 37-38.

10 Idem.

11 ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 4. ed. Rio de Janeiro: Livraria Briguiet, 1954, p. 78.

12 ASSIS CINTRA. Nossa primeira história. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1922.

13 COELHO, Latino. Vasco da Gama. Porto: 1882.

14 BARROSO, Gustavo. O Brasil na lenda e na cartografia antiga. 2. ed. São Paulo: Edições GRD, 2000, p. 149-153.

15 VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

16 SOUZA, Laura de Melo. “O nome do Brasil”. In: Nossa História. Rio de Janeiro, ano I, n. 6, 2004.

17 CANTARINO, Geraldo. Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

18 CAMPOS, Luciana de. “As raízes celtas do Brasil”. Disponível in: www.brathair.com.*

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Waldir Freitas Oliveira é historiador, ensaísta e conferencista, professor da Universidade Federal da Bahia, com vários artigos e livros publicados. Dirigiu diversas instituições, como o Conselho de Cultura do Estado da Bahia e o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. É sócio remido do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Desde 1987 ocupa a Cadeira nº 18 da ALB. Palestra proferida em sessão extraordinária da Academia de Letras da Bahia, na Sala Pedro Calmon, em cinco de dezembro de 2013.

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