Sonata Arbórea Número 1 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 1
Para Emerson Sales e Débora Nunes

Por Ordep Serra

Sempre gostei de contemplar as grandes árvores. Tenho passado bons momentos
sob sua sombra. Criei amizade com várias delas. Já dediquei um poema a uma paineira,
que chamei de Maria Clara. Ela tem uma personalidade luminosa. Era bem jovem quando
a conheci, há umas quatro ou cinco décadas. Ainda tem jeito de menina-moça, que há de
ostentar por longos anos. Sua juventude resiste ao tempo, faz-se inesgotável. A mais
antiga paineira que conheço, viçosa há mais de um século, nada tem de velha. Brinca
feito menina de espalhar sua paina, como se fossem os cabelos brancos a que renunciou
para sempre. Já fazia isso na primeira adolescência. Maria Clara confirma, a brincadeira
infantil dura séculos.

Mangueiras me encantam desde a infância. Em seus palácios barrocos vive a
graça maternal, forte e acolhedora. A sombra que dão já é nutritiva. As de Salvador são
mães de santo poderosas, de seios fartos. Seus frutos instruem o coração. (A manga
espada corta os dissabores. A manga rosa ensina o rumo dos jardins, esconde na sua
polpa uma leira de delícias. A bela carlota provoca doces arrepios, convida aos beijos).
Muitas árvores se enraizaram profundamente na minha memória graças ao
esplendor da revelação com que sua beleza me abençoou em diferentes momentos da
vida. No horto de minhas lembranças, algumas se destacam por sua atitude impecável.
De muitas recordo o gesto solene, glorioso, capaz de dar sentido a uma paisagem, que
sem sua dança divina, quase imóvel, simplesmente desaparece.

Conheço árvores com vários temperamentos: carinhosas, enérgicas, sisudas,
joviais. Não poucas me conquistaram por seu jeito cordial, sua natureza amável. Outras
me seduzem por seu estilo caprichoso, ou me conquistam por seus modos sérios de
matrona, sua perfeita dignidade. Algumas combinam modos graves e sentimento jocoso.
Guardo a emoção que senti, ainda criança, ao ver pela primeira vez um bode
trepado num umbuzeiro, saboreando as frutas verdes. Me fez a impressão de um
sacerdote num rito solene, mas engraçado. Não esqueço a beleza da cena bizarra.
Umbuzeiros são muito espirituosos. Venero esses risonhos anjos do sertão, que
brindam com humor seus frutos ácidos. No mundo árido, eles fazem par com os juazeiros,
que têm a mesma alegria impossível, desafiadora. (As cabras também os adoram).
Respeito muito as gameleiras, com seu ar solene, de profundo mistério, e as graciosas
baraúnas. A sabedoria das jaqueiras me impressiona profundamente. As árvores de fruta-
pão têm um jeito carinhoso de babás, prontas a nutrir. Os sapotizeiros também, só que
acordam mais cedo.

O cajueiro é de circo. Pode embriagar muito mais que a cachaça das batidas.
Inúmeros bêbados já tentaram explicar-se, depois de estranhos desvarios, balbuciando
inutilmente: “Foi o caju”.

Nada mais bonito que os ipês com suas roupas de baile. Gosto das buganvílias
coquetes, das acácias sedutoras, do jacarandá luminoso com seu roxo amor ao
espetáculo e sua mística. A quaresmeira, apesar do nome, está sempre disposta a um
carnaval. Lembra a esquisita alegria da semana santa baiana. As sucupiras são atrizes,
sempre dignas de aplausos. Aprecio muito seu penteado.
A caviúna do cerrado tem jeito de mulher rendeira. Quando se enflora, dana-se a
cantar. Nem todos a ouvem, mas sua cantiga é muito bonita. A bela ingarana é uma
soprano lírica, mestra de muitos pássaros.

Todos se alegram quando a cajazeira acende suas lâmpadas. Ela adora festas.
Árvore perdulária, joga com alegria seus frutos luminosos ao chão, com a graça
incontrolável de quem dissipa fortunas.

A imponência do jequitibá e das grandes castanheiras, a serena força do mogno e
a majestade do pau ferro me impressionam profundamente. Esses gigantes da floresta se
acham entre os mais belos dos arcanjos pousados na Mãe Terra. Já o cedro, seja do
Líbano ou do Brasil, é com certeza um serafim.

É preciso ter coração muito duro para não se comover com as lágrimas douradas
de um salgueiro em flor. Seu pranto verde também contempla as dores do mundo, vale
por muitas elegias. Quando encontro um desses beatos no meu caminho, rezo logo: ora
pro nobis.

Os ciprestres italianos me encantam por sua graça esguia, tão elegante que até
nos cemitérios fazem pensar em Vênus e seus caprichos. Gostei de vê-los em Roma,
onde não tinham cara de enterro. Em pleno dia, apontavam às estrelas. Mas nos jardins
de gente esnobe eles me parecem constrangidos, assumem um jeito realmente fúnebre.
Sinto que não gostam de ser tratados como lacaios.

Seria longa a ladainha se eu fosse falar das belas senhoras verdes que conheci
nos remanescentes da nossa mata atlântica (hoje brutalmente mutilada), paraíso de uma
incurável saudade. Quanto às soberanas amazônicas, tenho sua imagem comigo, mas de
quase todas ignoro os nomes: minhas poucas incursões na grande hiléia e meu
despreparo botânico me condenaram a amar deusas anônimas. Em todo o caso, boas
lembranças me ficaram. Guardo com fervor, entre outros encantos, o que aprendi no
Xingu sobre o mistério dos pequizeiros eróticos, com sua deliciosa armadilha. Hoje
associo o fruto malicioso às coisas boas da vida, ao perigo sempre desejado, ao
insuspeito charme do Deus Jacaré. Graças aos sábios xinguanos, ainda sonho, também,
com a grande árvore que guardava no seu tronco todas as águas do mundo. Acho difícil
me convencer de que ela não existe.

Admiro as árvores do mangue, que debruçam com doce volúpia sobre águas
fecundas. São muito generosas essas pastoras de caranguejos.
Me detenho aqui, a muito custo, porque são muitos os meus amores vegetais: não
cabem numa crônica. Justifico meu desvario: ele vem de longos tempos e deriva de
graças inesquecíveis.

Quem nunca se apaixonou por uma árvore não conhece ainda o amor. Homem
sem essa experiência não está preparado para o encanto das belas mulheres. Não
desfrutará como se deve o corpo subitamente selvagem que lhe pede para enraizar-se;
não sentirá o frêmito de invisíveis folhas num vendaval delicioso, nem sentirá em lábios
sequiosos o sabor de inúmeras frutas. Não está pronto para as melhores dádivas.
Se você acha que sou maluco, está quase certo. Esclareço: minha loucura nada
tem de perverso, é alegre e pacífica. Repudio solenemente a má louquice, avara e
destrutiva, que mata e desmata. Logo, sou bomluco. Descendo de bugres místicos e de
portugueses sonhadores, porém os antepassados mais próximos de meu coração,
confesso logo: são negros da Costa, adoradores de árvores, com quem ainda falo em
meus delírios. São eles que me me fazem compor sonatas arbóreas.

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Guilherme Radel fala sobre artesanato na ALB

O imortal Guilherme Radel, que ocupa a Cadeira número 3 da Academia de Letras da Bahia, fará uma palestra, no dia 16 de junho, na sede da entidade literária, sobre o artesanato na Bahia. Radel, que é engenheiro sanitarista de carreira, recentemente lançou um livro, também na ALB, onde ele faz uma reflexão gastronômica sobre as bebidas e tira-gostos do Estado.

O acadêmico já realizou ao longo da sua trajetória profissional diversos trabalhos pelo Brasil e mundo, a exemplo da Costa Rica, Austrália, Iraque, além de países da América Latina e da África. O encontro terá início às 17 horas.

Sessões marcam o mês de junho na ALB

Duas importantes sessões estão agendadas para acontecer no início do mês de junho na Academia de Letras da Bahia. Na quinta-feira, dia 02, haverá uma palestra do acadêmico Fernando da Rocha Peres com o tema Uma viagem cultural. Já no dia 09, a instituição fará uma homenagem “da saudade” a poeta e imortal Myriam Fraga, falecida em fevereiro deste ano. O acadêmico benfeitor da ALB, Aramis Ribeiro Costa, será o orador da cerimônia. A sessão do dia 2/6 terá início às 17 horas, e a sessão da saudade, às 18 horas e será aberta ao público.

ALB elege Edivaldo Boaventura para vice-presidência da instituição

Foi eleito por aclamação, nesta terça-feira (17.05), o educador Edivaldo Machado Boaventura para a vaga de vice-presidente da Academia Letras da Bahia, cargo que estava em vacância desde o falecimento da poeta Myriam Fraga, em fevereiro deste ano. Boaventura, que tomou posse na instituição em 1971, esteve à frente da presidência da casa de 2007 a 2011.

Membros correspondentes

Na ocasião, a ALB elegeu três novos membros correspondentes da entidade, título concedido a quem tem uma posição de destaque em alguma área do conhecimento, entretanto, não reside na cidade onde se localiza a Academia de Letras. São eles: Heleusa Figueira Câmara, doutora em Ciências Políticas e professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); Paulo Roberto Dias Pereira, doutor em Letras Vernáculas e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF); e Jerônimo Pizarro, colombiano naturalizado português, que tem dedicado seus estudos à obra de Fernando Pessoa.

ALB homenageia centenário de Gaspar Sadoc

A Academia de Letras da Bahia prestou homenagem, na última quinta-feira (12.05), ao centenário do Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade, imortal que ocupa a Cadeira nº10 da instituição literária. Na sessão, o acadêmico Edvaldo M. Boaventura fez uma reflexão sobre a trajetória intelectual do sacerdote, que completou 100 anos no dia 20 de março.

“Sadoc é um homem da palavra. A bela palavra do sacerdote, homem de deus, admirado pela Bahia, se junta ao seu belo trabalho como estudioso da arte sacra. Somos realmente privilegiados de poder fruir da palavra de um orador que consegue processar o pensamento com lógica, emitindo a mensagem com destreza, onde ensina e catequiza com naturalidade”, disse o membro benfeitor da ALB, Edvaldo M. Boaventura.

Durante a celebração houve ainda o lançamento do livro biográfico 100 anos de Padre Sadoc, da autora Cristina Ramos. A obra relembra as grandes ações socioeducativas, religiosas e culturais desenvolvidas por Sadoc na Igreja da Vitória, santuário que ingressou em 1968. “É a primeira vez que chego ao um local onde vejo letras, letras e letras. Eu sempre fui muito insistente, impertinente e resistente a correr atrás da informação, de buscar a cultura com fundamento. A convivência com Sadoc me ensinou isso”, disse a escritora.

ALB realiza em agosto debate entre os candidatos a prefeito de Salvador

A Academia de Letras da Bahia realizará, em meados de agosto, o primeiro encontro dos candidatos a prefeito de Salvador em 2016, trazendo a cultura ao centro da discussão. Com isso, a ALB dá sequência à tradição iniciada na eleição municipal de 2012, mantida no pleito eleitoral estadual de 2014.

No encontro, serão abordados os principais temas da política cultural: a estrutura municipal de cultura e seu funcionamento, a questão orçamentária, os mecanismos de promoção das várias linguagens culturais (literatura, teatro, cinema, música, dança, artes visuais etc.), as ações voltadas à preservação e à valorização do patrimônio, além de discussões envolvendo a memória cultura popular e o acesso aos bens e produtos culturais.

Haverá participação do público na formulação das perguntas aos candidatos. Em breve, o site da ALB disponibilizará maiores detalhes  sobre o evento. Confira outras informações no link.

Novo membro correspondente toma posse na ALB

A Academia de Letras da Bahia empossou, na última quinta-feira (05.05), o historiador baiano, Paulo Fernando de Moraes Farias como membro correspondente da instituição. O título é concedido a quem tem uma posição de destaque em alguma área do conhecimento, entretanto, não reside na cidade onde se localiza a Academia de Letras.

Nascido na Bahia, porém radicado na Inglaterra, onde leciona na Universidade de Birmingham, Moraes Farias é um dos mais renomados africanistas da atualidade, sendo responsável por importantes estudos envolvendo a chamada Idade Média, realizando interfaces entre o islã e as tradições africanas, bem como a epigrafia árabe medieval.
“O meu elo com esta douta Academia está relacionado à admiração e gratidão que tenho pelos confrades que hoje a integram ou até mesmo por aqueles que já passaram por essa instituição, em especial a Jorge Calmon e José Calasans, ambos já falecidos”, disse ele, durante a sessão. O intelectual fez também um agradecimento especial a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, ao ex-governador da Bahia, Roberto Santos, e a João Eurico Matta, imortal responsável por saudá-lo na cerimônia de posse.