Sonata Arbórea Número 5 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 5

Por Ordep Serra 

Anunciaram-se, algumas, pela graça de uma dádiva. De outras tomei

conhecimento no bosque dos signos, bem antes de um encontro direto, no mundo natural.

Inúmeras habitam meus sonhos e só neles florescem.

O perfume da canela tocou-me bem antes que eu deparasse a planta de pele

sedutora. A mesma coisa se passou com o cravo. Os dois tomaram forma de mulher,

graças a um escritor amado.

Tal como cravo e canela, foi também nos pratos que descobri outra criatura viçosa.

Seu sinal de beleza me deslumbrou, brotando luz, graças à lírica.

Demorou um pouco esta revelação. No princípio, era mesmo um sinal que flutuava.

Em minha experiência de menino do Recôncavo, só as folhas discretas, submersas em

deliciosa escuridão, sugeriam a planta nunca vista nos quintais, nas hortas, no mato de

meu conhecimento. O ser dos prados que eu lhe presumia era puro broto de dedução.

Confesso que achava inatingível sua promessa de sabor. Me intrigava também seu nome:

tal e qual os papagaios (que a gente também chamava assim), eram verdes as folhas de

Para complicar, ainda havia “o verde louro desta flâmula”, na selva barroca do hino

nacional. Para meu juízo de criança, tratava-se mesmo de um papagaio: o hino lhe pede

que diga coisas bonitas. Estranho jogo de signos enleava assim as palavras e as coisas,

dourando as folhas da planta longínqua.

Explico: a referência básica que eu tinha para a compreensão do termo “louro”

eram cabelos de pouca gente. Na minha negra cidade natal, pessoas com esta dourada

característica compunham exígua minoria. Eram chamadas de alemãs. Em Cachoeira e

Salvador, conheci alemães paulistas, espanhóis e até mesmo baianos — além de alguns

germânicos de verdade, muito simpáticos. Mas na Bahia da minha infância até os

oriundos da Alemanha tinham de passar por um crivo semântico: se tivessem cabelos

negros, eram apenas gringos.

Aos poucos, isso mudou. O cinema consagrou o feitiço das louras, ao tempo em

que arrasava os alemães: este nome gentílico passou a sinônimo de “inimigo”, aliás

sempre derrotado pelos artistas de Hollywood. Complicação: uns e outros podiam ter

cabelos de milho.

E havia os anjos dourando a igreja.

Na escola, vi desenhos que festejavam um ilustre caolho enfeitando-lhe a cabeça

com as folhas da feijoada. Achei graça.

Antes ainda de me aparecer em pessoa (digo, em planta completa), o loureiro se

fez anunciar por uma rica folhagem de versos. Brotava de um mito. Tinha nome de moça

fugitiva. Por arte de um amigo de metamorfoses cujas poemas se multiplicaram, variando

ao sabor de muitas plumas, a fuga de Dafne fez-se ubíqua: Ovídio teve milhares de

repetidores e inúmeros ventríloquos. Alguns deles falavam com os dedos.

Há muitos exemplos, fico com o mais próximo. Em azulejos do único palácio que

frequento — a reitoria de minha universidade —, pode-se contemplar a bela ninfa

perseguida pelo deus e já quase virando árvore. Diante da cena, saboreio um delírio

infantil que inverte o drama de jeito baiano e pós-moderno: imagino uma loura

entusiasmada perseguindo o glorioso Apolo. O deus se assusta, foge e se transforma em

papagaio. Lembro-me, então, de que louras em transe são um grande perigo,

principalmente na Bahia. Interrompo meu delírio antes que o Soberano de Delfos seja

depenado. Mudo logo de rumo, tocado por outra recordação de tempos inalcançáveis.

Na véspera do parto, Mágia Pola sonhou que dava à luz um loureiro. No dia feliz, a

bela matrona interrompeu a caminhada nos campos mantuanos do Míncio e se plantou

numa vala oportuna, onde pariu. Nessa cova, pouco depois, nasceu um choupo que

rapidamente cresceu, a ponto de superar os maiores da localidade.

Donatus dixit.

Assisto com reverência a ciranda de mulheres grávidas ao redor da árvore de

Virgílio. Bem sei que há séculos isto não se faz, mas sempre revejo a cena. Já pensei em

escrever às autoridades mantuanas sugerindo o replantio do choupo sagrado. Seria um

estímulo, a Itália precisa de bebês.

Sim, meus amigos, é forte a miragem: demoro a crer que nunca estive em terra

etrusca. No eixo da antiga dança, interminável para o desejo de meus olhos, reconheço

logo a criatura que os latinos chamavam de populus, embora não recorde onde nos

conhecemos: talvez em São Paulo, talvez na França. Estranho o seu apelido português.

Creio que o nome de álamo lhe cai melhor. Dedico a Virgílio e Donato os álamos

tremulantes, um arbóreo rebanho americano que vi dançar no cinema.

O poeta mantuano me apresentou em versos outra árvore, que por sua causa

tenho por mal assombrada. Admito que são simpáticos os olmos, muita gente os ama,

parecem até carinhosos, mas que fazer? Todos me lembram o que Virgílio plantou em

sinistro espaço, no meio de horrores, com sonhos enganosos escondidos entre suas

folhas. Confiram no Canto VI da Eneida.

Torno ao loureiro. Outro poeta lhe transmitiu um encanto novo, associando sua

folhagem mística com a beleza da namorada inalcançável. Por causa dele, a planta de

olhos verdes ainda nos deixa tontos. Laura e il lauro, depois da Canzone VI, nunca mais

separo. Mas confesso: fiquei estarrecido quando soube que a amada do poeta, Laura de

Noves, teve onze filhos de um homem chamado Sade. Declaro meu assombro. As Lauras

que conheço (por acaso, todas morenas) são muito mais comedidas. As louras talvez

sofram do pleonasmo.

Pobre Petrarca.

Resolvi dedicar esta quinta sonata a árvores exóticas, mas a que agora me

aparece, embora eu nunca a tenha visto, mostra-se estranhamente familiar. Confesso que

até hoje só mesmo em fotografias vi o copado ébano. Mas já o encontrei em móveis e

estátuas que o tornaram querido. De resto, ele me lembra a magnífica gente negra de

minha terra. Além disso, eu o ouço muito. Admiro sua voz de óboe, de clarineta, de flauta.

Sinto o deleite de seus dentes negros no piano.

Rezo também ao sândalo. Segundo li em algum lugar (ou talvez imaginei) seu

perfume protege contra a inveja. Me alegra saber que o governo indiano hoje dispensa

proteção a essa árvore sagrada. Sou seu devoto. Na minha rápida estadia na Índia, não

pude ver o santo vegetal. Consola-me um pouco imaginá-lo envolto pela densa floresta

que vislumbrei de passagem. Espero que lá perdure por séculos e séculos, abençoando

pássaros e tigres.

Edivaldo M. Boaventura lança Viagens a Caminho do Saber

Convite - 28.06.2016

O professor emérito da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e membro benfeitor da Academia de Letras da Bahia, Edivaldo M.Boaventura, lança, nesta terça-feira (28.06), na reitoria da Ufba, o livro Viagens a Caminho do Saber, da Quarteto Editora. A obra retrata os costumes e culturas de países visitados pelo educador, a exemplo dos Estados Unidos, França, Itália, Alemanha, El Salvador, Uruguai, Israel, entre outros. A noite de autógrafos terá início às 18 horas, no bairro do Canela.

Sonata Arbórea Número 4 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 4

Por Ordep Serra

Um velho sacerdote do candomblé — o venerado Ogã Agnelo, amigo de quem

tenho muita saudade — certa vez me falou de um rito outrora celebrado aqui pelos “tios

africanos”, no tempo remoto da adolescência dele, ou seja, nas primeiras décadas do

século passado.

Começo por uma explicação: era costume nos terreiros chamar de “tios”, com

reverência carinhosa, os adivinhos ricos em mistérios, sacerdotes muito respeitados por

sua mágica sabedoria. Na época, ainda havia nesta cidade da Bahia remanescentes do

“povo da Costa” (nagôs, na maioria). Os tios gozavam de grande prestígio no meio do

candomblé. Eram muito ativos e cheios de segredos. Instituíram aqui liturgias diversas, de

que nem todas sobrevivem.

Reporto-me nesta sonata a um vago conhecimento. O Mestre Agnelo nunca

chegou a testemunhar o rito que evocava. Quando este se achava em prática, ele era

ainda muito moço, “quase um menino”, com pouco tempo de iniciado. Não era admitido

naquele círculo — a que, de resto, raros crioulos tinham acesso. Teve notícia de sua

realização através de um parente, um venerável ogã do Terreiro do Engenho Velho, onde

o próprio Agnelo mais tarde assumiria o elevado posto de Elemaxó (sacerdote de Oxalá).

De acordo com o precioso relato que o amigo escutou e me transmitiu, os “tios”

costumavam reunir-se nos primeiros dias do ano para uma liturgia oracular. Depois de

uma longa vigília, marcada por preparativos e purificações especiais, esses religiosos se

dirigiam com suas oferendas a uma grande árvore existente numa clareira da mata que

era ainda pujante em muitos trechos desta cidade. (Segundo o Mestre Agnelo supunha —

pois nunca a visitou —, a árvore bendita ficaria entre as atuais avenidas Vasco da Gama e

Ogunjá). Assim que chegavam a seu destino — ainda à luz da aurora —, os velhos

sacerdotes faziam suas preces, depositavam as oferendas e quedavam por um bom

tempo em silêncio, ouvindo a árvore. Escutavam atentamente o murmúrio das folhas

tocadas pela brisa matutina. Prestavam ouvidos, também, ao canto de pássaros por

acaso pousados na copa sagrada. Valorizavam o comentário melódico das aves

oportunas, mas era das folhas que esperavam o “recado” principal. Após um tempo de

cuidadosa escuta, eles agradeciam com palmas ritimadas a mensagem acolhida. Feito

isso, confabulavam: expunham uns aos outros suas interpretações, que discutiam e

procuravam harmonizar.

Ao contar-me essa história, meu amigo me disse que a árvore profética por certo

encarnava o orixá Okô. Em outra ocasião, falou que se tratava do deus Oloroquê, do povo

efan, cultuado num terreiro do Engenho Velho de Brotas.

Por falta de tempo, nunca pesquisei o assunto. Mas não o esqueci. Uma intrigante

coincidência me fez reter na memória o depoimento do excelente ogã. Logo que o

escutei, fui tocado por uma recordação poética: lembrei-me imediatamente de uma

passagem da Odisseia.

No Canto XIV do grande poema, o herói, já em Ítaca, tendo assumido a aparência

de um mendigo, hospeda-se no humilde tugúrio de um servo, o porqueiro Eumeu. O

pobre hospedeiro não o reconhece, pois Atena desfigurou seu protegido a fim de garantir-
lhe a segurança. Apresentando-se com uma identidade inventada ad hoc, o hóspede

afirma ao bom servo que seu amo está vivo. Na atribulada biografia que se atribui, o

mendigo-herói narra peripécias. Destaca sua viagem ao país dos Tesprotes, de cujo rei

teria ouvido notícias do soberano de Ítaca (ou seja, dele mesmo): conta que Odisseu

passou por lá a caminho de Dodona, onde foi consultar “a folhagem divina do grande

carvalho de Zeus” (verso 327), para saber como retornaria a sua terra.

Bem adiante, o falso mendigo repete essa história numa conversa com Penélope

(Canto XIX, versos 296-269).

A referência mais antiga a Dodona e à divindade que lá se cultuava se encontra na

Ilíada, no Canto XIX (versos 233-35). Aquiles reza a Zeus, dando-lhe os epítetos de

Dodoneu e Pelásgico. Faz-lhe um pedido e lembra que o deus já lhe atendera outro rogo.

Essas súplicas ocorrem em momentos decisivos, axiais na trama da Ilíada. O herói

acompanha a súplica de uma libação, em cálice que previamente purifica, reservado de

forma exclusiva ao culto de Zeus. Os três versos que dão início à prece do herói trazem

uma informação preciosa: cercavam o Zeus de Dodona sacerdotes chamados Selloí que

dormiam no chão e nunca lavavam os pés. Os tabus evocados parecem evidenciar que o

contato direto com a terra era indispensável a esses homens consagrados.

Aquiles não menciona a grande árvore, mas não há dúvida de que as dicas dos

dois poemas homéricos podem ser combinadas. Cabe presumir que desde época remota

sacerdotes atuavam como intérpretes do divino carvalho. Notícias posteriores o

Um fragmento de Hesíodo (Hes. fr. 240) e uma antiga moeda são os primeiros

testemunhos a trazer mais um elemento de informação acerca do oráculo de Dodona. O

fragmento é lacunar, mas parece fazer referência a pássaros (pombas) que tinham sede

no carvalho sagrado. A moeda, que mostra três pombas pousadas numa grande árvore,

foi relacionada pelos helenistas com o culto de Zeus Dodoneu. Bem mais tarde, Heródoto,

Estrabão e Plínio falaram de sacerdotizas consagradas a essa divindade e cognominadas

pombas. Seriam as novas intérpretes do carvalho.

Em outra sonata eu tocarei de novo nessa fronde. Por enquanto, destaco apenas

um ponto: aves eram associadas ao “pronunciamento” do oráculo arbóreo de Dodona.

Volto agora ao rito dos tios africanos de que me falou o Ogã Agnelo. Não pretendo

fazer um exercício etnográfico nestas poucas páginas. Vou limitar-me a uma breve

Começo declarando meu encantamento: me comove pensar que nesta cidade

onde vivo havia homens capazes de ouvir árvores e entender-lhes a linguagem. Estou

certo de que eles não eram loucos, nem vítimas da limitação intelectual que atribuíram ao

povo negro do candomblé alguns de seus primeiros etnógrafos, tristemente lombrosianos.

Nos terreiros, tenho encontrado pessoas muito inteligentes, dotadas de uma rica

sensibilidade e de ouvidos musicais invejáveis. Confirma-o meu amigo Xavier Vatin, um

perito etnomusicólogo: ele não esconde sua admiração pelo talento do povo de santo e

por sua riqueza estética, em particular no campo da expressão sonora. Esse talento

supõe uma refinada capacidade de leitura de sons e silêncios. (A propósito, quase não

tem sido observado o papel do silêncio na rica liturgia do candomblé. A maioria dos

estudiosos deste culto é pobre de ouvidos. Ouve só os atabaques, mas realmente não os

escuta. Muitos sofrem de tamanha surdez que classificam de “monótona” uma música de

marcante politonia. E nisso ficam).

Da leitura de sons e silêncios a imaginação tira músicas. A meu ver, está fora de

dúvida que a música não só pode expandir a compreensão como tem o dom de suscitá-la.

Em muitas culturas, valoriza-se muito mais que na nossa a música existente na

natureza. Xamãs xinguanos me falaram do que chamamos de composição descrevendo

este processo como uma descoberta, um achado, realizável quer em sonhos, quer em

momentos de extraordinária lucidez, quando eles ouvem os temas que mais tarde

executam com apoio de suas flautas, cabaças e percussores. Segundo dizem esses

viajantes de entre-mundos, a voz de seus instrumentos vegetais é especialmente apta a

capturar músicas encontradas por eles a sua volta, entre bichos e plantas, águas e céus.

Eles a recebem de vivos e mortos, tanto do fogo como do fumo. Fazem assim a colheita

de conhecimentos que permitem a cura, o encontro, a orientação.

Gosto da sua teoria, que é fruto de virtuoses: como se sabe, o xamanismo

amazônico tem na música um fundamento. Dela lhes nasce rica poesia.

Não sou autoridade no assunto, mas sempre considerei as árvores seres musicais.

Elas vêm a ser seus próprios instrumentos de sopro, por vezes de percussão — quando

nada nas tempestades, nas belas ventanias. São também salas de concerto para muitos

pássaros, além de insetos (como esquecer as divinas cigarras?)

Sim, gosto de ouvir árvores. Matas são, para mim, orquestras esplêndidas.

Não tenho o saber mágico dos velhos tios africanos, não sou capaz de traduzir o

que me dizem as plantas. Mesmo assim, gosto de seus cantares e acredito que podem

ser reveladores. Já me aconteceu passar da perplexidade à compreensão de assuntos

difíceis, de problemas graves que me atormentavam a inteligência, simplesmente

caminhando entre árvores, ouvindo seu murmúrio. Descansando sob copas canoras, já

senti retirar-se de meu coração a treva da angústia. Caminhando pela cidade, entre

grosseiros ruídos, por vezes ergo os olhos e vejo uma árvore distante que me comunica

seu silêncio. Eu o acolho e me pacifico. Sei que ele pode transformar-se em ideia, vestir –

me de um novo sentimento do mundo.

O carvalho de Zeus recebia o rogo de homens aflitos. Os velhos sacerdotes negros

que aqui demandavam um oráculo arbóreo eram expoentes de um povo perseguido,

explorado, ameaçado. Celebravam o rito divinatório no começo do ano, em busca de

conselhos com que guiar sua gente, segundo me disse o Elemaxó. Procediam com

solene, profunda seriedade. A música das copas os advertia e iluminava. Eram poetas

que procuravam comunicação com as raízes do mundo, a fim de olhar para além do

momento. Sua lembrança me inspira. Estou com eles. Alegra-me compartilhar o delírio de

nagôs e pelasgos: sim, acredito em árvores proféticas.

“Artesanatos do passado estão sendo extintos”, aponta Guilherme Radel

Uma verdadeira aula sobre a história do artesanato no Brasil. Assim, foi classificada pelos imortais da Academia de Letras da Bahia a palestra realizada pelo acadêmico Guilherme Radel, ocupante da Cadeira nº 3, na última quinta-feira (17), na sede da ALB, no bairro de Nazaré. Radel, que é engenheiro sanitarista de carreira, lembrou, de modo detalhado, a importância do artefato para a história do país.

“No século XVIII, quase tudo que chegava de artesanal no Brasil vinha de Portugal. A funilaria, serralharia, cerâmica, além da confecção de bordados, dos mais variados tipos”, destacou. Em outro momento da sua fala, ele reforçou o significado do artesanato, definindo-o como um conjunto de objetos que busca a simplicidade sem esquecer o belo. “São feitos manualmente com o auxilio de ferramentas rudimentares, dentro de características locais ou regionais, transmitidas de geração em geração”, explicou.

Guilherme Radel lamentou o destrato que o ofício vem sofrendo ao longo dos anos, inclusive na Bahia. “O artesanato somente existe quando atende as necessidades humanas. Por falta de demanda, os artesãos estão ficando sem condições de dar continuidade ao trabalho. O Instituto de Artesanato Visconde de Mauá, que era responsável pela preservação e incentivo da arte no Estado, foi fechado. Artesanatos do passado estão sendo extintos. Essa palestra é para nos conscientizamos e protegê-los “, disse.

Os acadêmicos presentes também reconheceram a necessidade de conservar o antigo ofício. “Artesanato é a transformação delicada da natureza, em contraste com a agressividade individual mecanizada”, exprimiu um deles, durante a sessão.

Sonata Arbórea Número 3 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO TRÊS

Para Paulo Ormindo de Azevedo.

Por Ordep Serra

Com impecável lucidez, meu caro amigo Paulo Ormindo detectou uma lacuna em

minhas sonatas arbóreas: está faltando uma figura indispensável. Reconheço. Acolho a

advertência de seus olhos agudos. Tenho de compensar logo esta falha. Em minha

defesa, só posso dizer que não houve esquecimento, houve só demora. Como esquecer

as palmeiras, as mais elegantes filhas da Terra? Eu seria ingrato se não lhes desse o

Duas me espiam agora mesmo através da janela, numa solene expectativa. São

jovens altivas, de uma beleza desafiadora, a lançar-se para o alto desde um barranco

íngreme, numa atlética ascensão. A terceira, mais longe, tem porte de rainha entronizada

há muito: domina com serenidade o reverente arvoredo a seu redor. As três sorriem,

seguras de si, conscientes de seu poder. Sabem há muito do amor que dedico a sua

imensa, variada estirpe. Feiticeiras suaves, de modo instantâneo elas se multiplicam a

meus olhos e guiam meu coração pelas veredas do tempo.

O aceno mágico da imperial moradora do morro próximo num relance a converte

na primeira dama de sua espécie que marcou minha retina: uma nobre senhora radicada

na cachoeirana Rua da Ponte, onde nasci. Minha saudade contempla a dançarina de

poucos gestos, arrebatadora, por cujo tronco meus sonhos de criança subiam ao céu. Seu

bailado quase imóvel me leva a meandros radiosos do Recôncavo e prossegue através

dos campos gerais. Já alcança a Chapada Diamantina e o grande sertão, onde muitas de

suas irmãs vêm a meu encontro. Me espanta sua variedade, a acentuar-se no devaneio

que as torna ubíquas. Já não sei onde estou: na Bahia, em Minas, em Goiás, em

Sergipe? Contemplo nos Palmares a augusta metamorfose da lança de Zumbi. Outras a

repetem de norte a sul. Sua vibração me embriaga. Tomando para si minha memória, já

em alegre desvario, as magas de verde cocar se espalham pelo vasto mundo. De onde

são estes vales e serras que círios verdes iluminam? Minhas condutoras se divertem

misturando tempos e lugares na viagem extravagante.

A trilha que elas me desenham acompanha agora o colear de grandes rios. Perco-me em seus

espelhos. Desemboco, por fim, numa das sacristias do São Francisco, hoje golpeado de modo cruel

por projetos de gente insana. Assustadas, as belas princesas agitam seu leque,

tomam o pulso enfraquecido da amiga correnteza. Antes que a melancolia me sufoque,

retorno ao pé da minha conterrânea, ribeirinha do Paraguaçu.

Em sua honra recito de novo, desajeitado, versos ingênuos de um poeta quase

esquecido. Ela os acolhe com benévola ironia. Não, sabiás nunca se aninharam no seu

leque, nem usam para concertos o elevado palco de sua estipe. Mas é razoável associar

os dois encantos, ela ensina.

Justificado o poeta, a dama generosa me explica em silêncio porque fez de Paulo

Ormindo o portador de seu recado, seu augusto mensageiro. Sendo um dos nossos

arquitetos mais inspirados, senhor de rica imaginação, tesoureiro de um riquíssimo

patrimônio de artes e paisagens, Paulo sabe como ninguém apreciar a grata imponência

das colunas vivas geradas por nossa terra: elas são capazes de tornar em templo

qualquer espaço onde se ergam. Eu o comprovo caminhando levemente, na minha

memória embriagada de verde, pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre alas

formadas por imperatrizes. Bastariam elas para prover um irresistível encanto ao sítio,

que encerra abundante fortuna vegetal.

Mas volto ao sertão vertiginoso. Através de uma revoada melódica que seu verbo

sopra em minha lembrança, o encantado Guimarães Rosa faz voltar-se meu olhar para a

graça dos buritis e revela a meus ouvidos em transe sua alta filosofia. O vento repete nos

leques verdes o mote sibilino que o “poeta prosa” decifrou: eu sei e não sei. Tomo nota,

lição de aula tão bonita não se pode perder. O impecável tradutor se afasta sob o disfarce

lírico de um manuelzinho da croa e as macaúbas risonhas levam-me ao recreio. Em seu

adorável cortejo encontro belas senhoras grávidas — as meigas barrigudas — ao lado de

lépidas amigas e de matronas suaves com seus frutos no colo. Mais adiante, suas primas

sedutoras me chamam de modo irresistível. Fico a admirar o penteado barroco e a esguia

altivez das carnaúbas, até que outro apelo me alcança. Vem do alto de generosos

coqueiros, de que diviso grandes batalhões conquistando campos sem fim. Mas logo

tenho de fazer uma pausa tristonha: choro os que foram assassinados no Jardim de Alá.

Irado, condeno também a grosseria dos antipaisagistas que insistem em tratar membros

da nobre espécie como recrutas da monotonia, obrigando-os a ficar em fila indiana ao

longo da orla, cercados por cimento.

Agora vai longe meu delírio. Uma palmeira sagrada me atrai, seu vulto inalcançável

me chama em esplêndido silêncio. Um amor impossível prende-me ao centro sagrado de

Delos, entre cujas rochas bem sei que não posso encontrar a divina imagem. Mesmo

desaparecida, porém, ela floresce com tanto vigor que chego a vê-la nas proximidades do

Monte Cinto, num tempo longínquo. Lembra-me um aedo antiquíssimo que abraçada a

seu tronco esguio uma deusa pariu. Ouço com temor reverente o grito agudo em que se

unem à voz da mãe as testemunhas augustas do parto, quando o fruto radioso toca o solo

e a ilha se cobre de ouro vivo.

Não me surpreendo quando a palmeira sagrada alça voo. Na belíssima língua

grega, seu nome, phoînix, tem asas imortais. É um gentílico que se reporta à Fenícia,

terra que enriqueceu o mundo com escritas sutis e mitos pródigos, mas designa também

a púrpura que seus marinheiros arrancavam do mar, do seio de múrices, e, por fim, a

tamareira que encantava os helenos com seus frutos em cachos rubros. O vermelho de

um fogo que podia ser celeste, marítimo e vegetal, fascinou os lúcidos gregos, tanto que

todas as palmeiras ganharam na Hélade o título da ruiva. E o nome phôinix, que também

designou solenes heróis, veio a assinalar uma ave luminosa, inesquecível, presente

sempre em nossos sonhos, por muito que se esconda aos olhos da vigília, à pobre

percepção dos mortais. Quem pode olvidar a fênix, que ao longo de séculos se imola no

fogo e do fogo renasce? A poesia, a arte e o pensamento não deixam que este sonho

Eu travei conhecimento com a ave maravilhosa na sua última epifania: como o

Cristo que arde em nossas igrejas barrocas, vestido de plumagem flamante e enigmática.

Ainda sinto um espanto de criança, um arrepio delicioso na ideia: o assombro que me

tomou quando minha mãe me disse que era Jesus aquele pássaro alucinado, vestido de

um fogo de ouro. Revi depois a fênix em textos de inúmeros poetas e aprendi com alegria,

no tesouro da língua grega, que a palmeira também merece o nome brilhante do eterno.

Sim, com toda a razão: sua beleza se faz amar para sempre.

Myriam Fraga é imortalizada pela Academia de Letras da Bahia

“Ao chegar a esta Casa, em seu discurso de posse, Myriam afirmou trazer apenas o cansaço de uma longa jornada e um punhado de versos”. A frase, dita em 1985 pela poeta Myriam Fraga, ano em que passou a integrar a Academia de Letras da Bahia, foi novamente reproduzida desta vez pelo imortal Aramis Ribeiro Costa que, no último dia 9, fez uma emocionada homenagem ao relembrar fatos da vida profissional e pessoal da escritora, falecida em fevereiro deste ano, aos 78 anos.

“Partiu deixando-nos a recordação de uma infatigável jornada bem sucedida e poesia. A melhor poesia”, destacou ele durante a sessão, ao detalhar os mais de 50 anos de carreira dedicados pela poeta à literatura, sendo 30 deles como titular da Cadeira n°13 da ALB, instituição que ocupava o posto de vice-presidente.

Myriam Fraga estreou no campo literário com o livro de poemas Marinhas, de 1964, tendo participado também de antologias no Brasil e exterior, posteriormente traduzidas para o inglês, francês e alemão. Entre suas publicações estão: Sesmaria e Femina (poesia), Jorge Amado, Castro Alves, Luiz Gama e Carybé (literatura infantil) e Leonídia – a musa infeliz do poeta Castro Alves (biografia) e Poesia Reunida.

A presidente da Academia, Evelina Hoisel, recordou a sua parceria com a amiga, a quem agradeceu o convívio de décadas. “Jamais consegui dizer a Myriam Fraga, com a intensidade que existe no meu sentimento, da alegria que ela me proporcionou, através da sua belíssima poesia, de organizar aquele Seminário Poesia e Memória, realizado nesta Academia, em 2008.”, lembrou. Hoisel ressaltando ainda que, como poeta, Myriam Fraga tinha uma lúcida consciência do seu ofício de criar. “Em seus poemas, o sujeito poético, entre tantas paisagens visitadas e revisitadas, faz uma viagem por geografias desconhecidas, navegando pelos subterrâneos do inconsciente humano. Por outro lado, este mesmo sujeito, assume a consciência de que a atividade do poeta é criar além do que existe”, revelou.

Ao final da “sessão da saudade”, a Cadeira n°13 foi oficialmente declarada vaga pela gestora, que afirmou: “Myriam Fraga é eterna e intemporal. A Academia de Letras da Bahia, mais uma vez, celebra a imortalidade de Myriam Fraga”. Participaram também da homenagem, além dos acadêmicos, filhos e netos de Myriam Fraga, incluindo a filha Ângela Fraga de Sá, que sucedeu a mãe na direção da Fundação Casa de Jorge Amado, e falou em nome da família.

Crédito das imagens: Índio Fotógrafo

Sonata Arbórea Número 2 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 2

Por Ordep Serra

Uma das riquezas da Cidade de Salvador está nas árvores sagradas que ela ainda
tem, preservadas graças ao zelo do povo de santo, como chamamos aqui os adeptos do
candomblé. De acordo com essa gente inspirada, todas as árvores participam do sagrado,
mas algumas estabelecem com o divino uma ligação especial. Não é comum dizê-lo
assim, mas elas dão santo. No dialeto dos terreiros, a expressão “dar santo” indica o
transe entusiástico. Usa-se para falar do arrebato em que homens e mulheres são
possuídos pelos deuses. Ora, segundo a crença de meu povo negro, certos vegetais
podem incorporar o divino. Quem conhece os segredos místicos é capaz de sentir que
uma árvore está entusiasmada.

Ao reconhecer os sinais de uma augusta presença em um espécime privilegiado,
sacerdotes dos terreiros tratam de fazer a iniciação da verde criatura, para que ela
desenvolva sua carreira mística, distribuindo bênçãos à gente humana. Depois dos ritos
de assentamento, o orixá (ou vodum, ou inquice) que se instalou no corpo arbóreo fica
acessível aos fiéis.

O transe do vegetal é permanente, dura por toda a sua vida. Vai além: nos
terreiros, quando uma árvore consagrada tomba, é de praxe o plantio de uma substituta,
que ipso facto se santifica.

O povo de santo baiano liga a estes seres sua própria história. Conta, por exemplo,
que a mais antiga casa de culto dedicada à liturgia ketu na capital da Bahia floresceu no
seio de uma árvore. Ketu é nome de um antigo reino nagô, que integrava o império de
Oió. Segundo a tradição, na Barroquinha (no Centro Histórico soteropolitano), a
prodigiosa planta abrigou no seu tronco o candomblé em que esse império logrou um
renascimento místico, na áspera terra do exílio.

Na cosmologia de importantes civilizações negras, árvores servem de instrumento
conceitual poderoso para pensar o mundo. Com a potência intuitiva de sua imagem, elas
relacionam domínios do cosmo, ligam o visível ao invisível. Constituem um recurso
simbólico poderoso, empregável para indicar — no campo do mito — e recompor — no
drama ritual — o enlace das dimensões do universo, mostrando, a um tempo, sua
separação e sua secreta união. Assim ocorre no pensamento africano de nossos
antepassados e na visão de mundo de quem o preserva na diáspora.

Retorno: de acordo com história sagrada do povo de santo da Bahia, no famoso
Terreiro da Barroquinha, matriz de inúmeros templos, erguia-se um iroco majestoso com
que o fecundo candomblé se identificou. Suas raízes mergulharam na terra e beberam o
alento das cidades sagradas do povo iorubano. Da copa desse templo vivo que os
profanos não enxergavam, estenderam-se muitos ramos místicos a espargir sementes de
Ketu por todo o Brasil.

Na África, em terras de gente iorubana, o nome Iroko (Loko para os povos de
língua fon) designa ao mesmo tempo uma divindade e uma espécie vegetal, a
Chlorophora excelsa. Em nossa terra, o termo Iroco (Loco) continua a ser um teônimo,
mas o deus se transferiu para a etnoespécie das gameleiras (que abrange várias
espécies da botânica “oficial”), com destaque para a Ficus doliaria. Tanto nos países
africanos de onde nos veio esse culto como no Brasil há outras árvores sagradas, mas a
que recebe o referido nome goza de um status soberano: é considerada a mais excelsa
de todas.

Nossas gameleiras, além de substituir a irmã da África Ocidental, aqui se tornaram,
também, assento de uma divindade da África sub-equatoriana, cultuada no candomblé de
rito angola: Tempo (Ndembu). Por bons motivos, como se vê, dedico-lhes a minha
segunda sonata arbórea.

Essas belas criaturas me intrigam. No sertão da Bahia e de Minas Gerais, em
depoimentos de muitas pessoas que nada sabiam de candomblé, de Iroco, ou de
Ndembu, constatei que um certo temor religioso envolve as gameleiras. Acredita-se que
elas abrigam visagens, que sob sua copa se reúnem almas errantes. Explicam os
sertanejos que nem todas as gameleiras têm essa vocação. Mas vá lá saber qual é a
ingênua, qual é a assombrada.

Em meio ao povo de santo, fala-se que a árvore de Iroko acolhe almas de defuntos
e outros espíritos. Perigosas feiticeiras que se transformam em pássaros podem ocultarse
na sua folhagem, nas horas sombrias. Por isso não convém demorar-se nas suas
imediações quando a noite chega. Talvez a relação com almas de falecidos tenha a ver
com a lembrança do costume africano de sepultar mortos no tronco dos irocos ou no seio
de baobás (que, por sinal, têm a mesma fama). Essas árvores por vezes formam ocos, e
são muito envolventes. Iroco sedia de preferência os abicu, os espíritos de crianças que
se recusam a nascer, ou deixam este mundo pouco depois do nascimento.

Embora a divindade arbórea chamada Iroco seja considerada masculina, bem se
vê que tem índole maternal. Há mitos em que o deus árvore busca apossar-se de uma
criança que um voto mal proferido lhe dedicou e só a devolve à mãe quando lhe fazem a
oferenda de um substituto, um menino de pau. Por outro lado, esse deus também provê
crianças, se devidamente propiciado. Sua árvore está sempre grávida de nonatos, que
precisam ser seduzidos para a vida. Reza-se a Iroco para fazê-los vir ao mundo. Sua
árvore é, pois, uma estranha espécie de maternidade, um limbo pré-natal. As pessoas que
na África sepultavam seus mortos nos troncos sagrados evidentemente queriam devolvê-
los ao útero misterioso da vida. Eram plantados, esses defuntos. Me agrada pensar que
nossos antepassados ainda florescem na copa do deus.

Iroco / Loco também se encarna em gente humana. Me lembro com saudade de
duas filhas da bela árvore, que nelas dançava: Mãe Nicinha do Bogum e Ebomin Cidália,
do Gantois. Eram negras generosas, meigas, ricas de uma doce majestade, senhoras de
flóreo sorriso e mãos frutíferas. Muita gente se acolheu a sua sombra protetora.
Ndembu, ao chegar a nossa terra, se assenhoreou do tempo: juntou às suas as
folhas do calendário, cingiu a seu tronco dias e noites. Suas gameleiras são grandes
navios que deslizam no rio das horas, embora pareçam imóveis aos olhos desatentos.
O “pé de Loko” não é nossa única árvore sagrada. Há outras. Em solenes jaqueiras
se entroniza a divina Apaoká, misteriosa mãe do Grande Caçador. A bela deusa costuma
receber abraços de seus devotos no último dia do ano. Assim os abençoa, assim os
purifica. O vodun Azonodô é tanto árvore como serpente. Na forma vegetal, assume-se
acácia.

Não vou estender-me na relação da divina flora. Os deuses africanos que a gente
cultua gostam de plantar-se em árvores e cada qual tem sua preferência. Alguns variam,
mudam de sede, têm mais de uma espécie pronta a fazer-se cavalo de santo para sua
manifestação.

O povo do candomblé com frequência foi tachado de bárbaro, ignorante,
supersticioso, por sua dedicação amorosa a árvores, por seu apego a fontes e lagos que
estima sagrados, pela importância que dá a mato — coisa desprezada pela “gente fina”,
“educada”, “progressista”. Em fotos aéreas de Salvador, é fácil identificar terreiros pelo
verde que preservam, pelas árvores que constituem seus monumentos vivos.

Sem o candomblé, nossa cidade estaria muito mais devastada do que se acha. A
ganância das imobiliárias e a irresponsabilidade de gestores parvos têm reduzido
brutalmente as áreas verdes da capital baiana e produzido nela uma intensa, perversa
desarborização. Nossos dirigentes entendem que urbanizar é cimentar. Impermeabilizam
o solo numa escala brutal, sem necessidade. Sepultam rios e aterram lagos, substituem
gramados por sinistras toalhas de concreto. Com frequência, as árvores são aqui tratadas
como obstáculos que é preciso remover. Amendoeiras, por exemplo, sofrem irada
perseguição, tratadas como embaraços inaceitáveis na orla. Árvores copadas são
inimigas do estranho paisagismo municipal. Pelo jeito, os prefeitos que temos tido odeiam
pássaros e preferem o cinza ao verde. Têm cimento no cérebro, no coração e nos
ouvidos. O pior é que o governo do estado também age como vândalo em matéria
ambiental.

Lamentavelmente, na Boa Terra não prevaleceu a sabedoria do povo de santo. Dá-
se que ele é pobre, negro, marginalizado. Vê-se perseguido até hoje. Por isso não levam
a sério seu saber. Mas sua proposta de urbanismo merece atenção. Um terreiro
idealmente deve ter um trecho de mato, uma fonte, grandes árvores sagradas, além das
casas destinadas a homens e deuses. Sucede que a cada dia se torna mais difícil para
seus membros realizar (ou manter) esse arranjo ideal. Comunidades de candomblé
facilmente se vêem erradicadas, expulsas, têm seus terrenos tomados, suas árvores
santas derrubadas. Sofrem esbulhos dos poderosos e ataques dos intolerantes. Com
isso, a bela cidade de Salvador perde muito de sua graça: está a expulsar os encantados.

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