Sonata Arbórea Número 2 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 2

Por Ordep Serra

Uma das riquezas da Cidade de Salvador está nas árvores sagradas que ela ainda
tem, preservadas graças ao zelo do povo de santo, como chamamos aqui os adeptos do
candomblé. De acordo com essa gente inspirada, todas as árvores participam do sagrado,
mas algumas estabelecem com o divino uma ligação especial. Não é comum dizê-lo
assim, mas elas dão santo. No dialeto dos terreiros, a expressão “dar santo” indica o
transe entusiástico. Usa-se para falar do arrebato em que homens e mulheres são
possuídos pelos deuses. Ora, segundo a crença de meu povo negro, certos vegetais
podem incorporar o divino. Quem conhece os segredos místicos é capaz de sentir que
uma árvore está entusiasmada.

Ao reconhecer os sinais de uma augusta presença em um espécime privilegiado,
sacerdotes dos terreiros tratam de fazer a iniciação da verde criatura, para que ela
desenvolva sua carreira mística, distribuindo bênçãos à gente humana. Depois dos ritos
de assentamento, o orixá (ou vodum, ou inquice) que se instalou no corpo arbóreo fica
acessível aos fiéis.

O transe do vegetal é permanente, dura por toda a sua vida. Vai além: nos
terreiros, quando uma árvore consagrada tomba, é de praxe o plantio de uma substituta,
que ipso facto se santifica.

O povo de santo baiano liga a estes seres sua própria história. Conta, por exemplo,
que a mais antiga casa de culto dedicada à liturgia ketu na capital da Bahia floresceu no
seio de uma árvore. Ketu é nome de um antigo reino nagô, que integrava o império de
Oió. Segundo a tradição, na Barroquinha (no Centro Histórico soteropolitano), a
prodigiosa planta abrigou no seu tronco o candomblé em que esse império logrou um
renascimento místico, na áspera terra do exílio.

Na cosmologia de importantes civilizações negras, árvores servem de instrumento
conceitual poderoso para pensar o mundo. Com a potência intuitiva de sua imagem, elas
relacionam domínios do cosmo, ligam o visível ao invisível. Constituem um recurso
simbólico poderoso, empregável para indicar — no campo do mito — e recompor — no
drama ritual — o enlace das dimensões do universo, mostrando, a um tempo, sua
separação e sua secreta união. Assim ocorre no pensamento africano de nossos
antepassados e na visão de mundo de quem o preserva na diáspora.

Retorno: de acordo com história sagrada do povo de santo da Bahia, no famoso
Terreiro da Barroquinha, matriz de inúmeros templos, erguia-se um iroco majestoso com
que o fecundo candomblé se identificou. Suas raízes mergulharam na terra e beberam o
alento das cidades sagradas do povo iorubano. Da copa desse templo vivo que os
profanos não enxergavam, estenderam-se muitos ramos místicos a espargir sementes de
Ketu por todo o Brasil.

Na África, em terras de gente iorubana, o nome Iroko (Loko para os povos de
língua fon) designa ao mesmo tempo uma divindade e uma espécie vegetal, a
Chlorophora excelsa. Em nossa terra, o termo Iroco (Loco) continua a ser um teônimo,
mas o deus se transferiu para a etnoespécie das gameleiras (que abrange várias
espécies da botânica “oficial”), com destaque para a Ficus doliaria. Tanto nos países
africanos de onde nos veio esse culto como no Brasil há outras árvores sagradas, mas a
que recebe o referido nome goza de um status soberano: é considerada a mais excelsa
de todas.

Nossas gameleiras, além de substituir a irmã da África Ocidental, aqui se tornaram,
também, assento de uma divindade da África sub-equatoriana, cultuada no candomblé de
rito angola: Tempo (Ndembu). Por bons motivos, como se vê, dedico-lhes a minha
segunda sonata arbórea.

Essas belas criaturas me intrigam. No sertão da Bahia e de Minas Gerais, em
depoimentos de muitas pessoas que nada sabiam de candomblé, de Iroco, ou de
Ndembu, constatei que um certo temor religioso envolve as gameleiras. Acredita-se que
elas abrigam visagens, que sob sua copa se reúnem almas errantes. Explicam os
sertanejos que nem todas as gameleiras têm essa vocação. Mas vá lá saber qual é a
ingênua, qual é a assombrada.

Em meio ao povo de santo, fala-se que a árvore de Iroko acolhe almas de defuntos
e outros espíritos. Perigosas feiticeiras que se transformam em pássaros podem ocultarse
na sua folhagem, nas horas sombrias. Por isso não convém demorar-se nas suas
imediações quando a noite chega. Talvez a relação com almas de falecidos tenha a ver
com a lembrança do costume africano de sepultar mortos no tronco dos irocos ou no seio
de baobás (que, por sinal, têm a mesma fama). Essas árvores por vezes formam ocos, e
são muito envolventes. Iroco sedia de preferência os abicu, os espíritos de crianças que
se recusam a nascer, ou deixam este mundo pouco depois do nascimento.

Embora a divindade arbórea chamada Iroco seja considerada masculina, bem se
vê que tem índole maternal. Há mitos em que o deus árvore busca apossar-se de uma
criança que um voto mal proferido lhe dedicou e só a devolve à mãe quando lhe fazem a
oferenda de um substituto, um menino de pau. Por outro lado, esse deus também provê
crianças, se devidamente propiciado. Sua árvore está sempre grávida de nonatos, que
precisam ser seduzidos para a vida. Reza-se a Iroco para fazê-los vir ao mundo. Sua
árvore é, pois, uma estranha espécie de maternidade, um limbo pré-natal. As pessoas que
na África sepultavam seus mortos nos troncos sagrados evidentemente queriam devolvê-
los ao útero misterioso da vida. Eram plantados, esses defuntos. Me agrada pensar que
nossos antepassados ainda florescem na copa do deus.

Iroco / Loco também se encarna em gente humana. Me lembro com saudade de
duas filhas da bela árvore, que nelas dançava: Mãe Nicinha do Bogum e Ebomin Cidália,
do Gantois. Eram negras generosas, meigas, ricas de uma doce majestade, senhoras de
flóreo sorriso e mãos frutíferas. Muita gente se acolheu a sua sombra protetora.
Ndembu, ao chegar a nossa terra, se assenhoreou do tempo: juntou às suas as
folhas do calendário, cingiu a seu tronco dias e noites. Suas gameleiras são grandes
navios que deslizam no rio das horas, embora pareçam imóveis aos olhos desatentos.
O “pé de Loko” não é nossa única árvore sagrada. Há outras. Em solenes jaqueiras
se entroniza a divina Apaoká, misteriosa mãe do Grande Caçador. A bela deusa costuma
receber abraços de seus devotos no último dia do ano. Assim os abençoa, assim os
purifica. O vodun Azonodô é tanto árvore como serpente. Na forma vegetal, assume-se
acácia.

Não vou estender-me na relação da divina flora. Os deuses africanos que a gente
cultua gostam de plantar-se em árvores e cada qual tem sua preferência. Alguns variam,
mudam de sede, têm mais de uma espécie pronta a fazer-se cavalo de santo para sua
manifestação.

O povo do candomblé com frequência foi tachado de bárbaro, ignorante,
supersticioso, por sua dedicação amorosa a árvores, por seu apego a fontes e lagos que
estima sagrados, pela importância que dá a mato — coisa desprezada pela “gente fina”,
“educada”, “progressista”. Em fotos aéreas de Salvador, é fácil identificar terreiros pelo
verde que preservam, pelas árvores que constituem seus monumentos vivos.

Sem o candomblé, nossa cidade estaria muito mais devastada do que se acha. A
ganância das imobiliárias e a irresponsabilidade de gestores parvos têm reduzido
brutalmente as áreas verdes da capital baiana e produzido nela uma intensa, perversa
desarborização. Nossos dirigentes entendem que urbanizar é cimentar. Impermeabilizam
o solo numa escala brutal, sem necessidade. Sepultam rios e aterram lagos, substituem
gramados por sinistras toalhas de concreto. Com frequência, as árvores são aqui tratadas
como obstáculos que é preciso remover. Amendoeiras, por exemplo, sofrem irada
perseguição, tratadas como embaraços inaceitáveis na orla. Árvores copadas são
inimigas do estranho paisagismo municipal. Pelo jeito, os prefeitos que temos tido odeiam
pássaros e preferem o cinza ao verde. Têm cimento no cérebro, no coração e nos
ouvidos. O pior é que o governo do estado também age como vândalo em matéria
ambiental.

Lamentavelmente, na Boa Terra não prevaleceu a sabedoria do povo de santo. Dá-
se que ele é pobre, negro, marginalizado. Vê-se perseguido até hoje. Por isso não levam
a sério seu saber. Mas sua proposta de urbanismo merece atenção. Um terreiro
idealmente deve ter um trecho de mato, uma fonte, grandes árvores sagradas, além das
casas destinadas a homens e deuses. Sucede que a cada dia se torna mais difícil para
seus membros realizar (ou manter) esse arranjo ideal. Comunidades de candomblé
facilmente se vêem erradicadas, expulsas, têm seus terrenos tomados, suas árvores
santas derrubadas. Sofrem esbulhos dos poderosos e ataques dos intolerantes. Com
isso, a bela cidade de Salvador perde muito de sua graça: está a expulsar os encantados.

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