Sonata Arbórea Número 3 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO TRÊS

Para Paulo Ormindo de Azevedo.

Por Ordep Serra

Com impecável lucidez, meu caro amigo Paulo Ormindo detectou uma lacuna em

minhas sonatas arbóreas: está faltando uma figura indispensável. Reconheço. Acolho a

advertência de seus olhos agudos. Tenho de compensar logo esta falha. Em minha

defesa, só posso dizer que não houve esquecimento, houve só demora. Como esquecer

as palmeiras, as mais elegantes filhas da Terra? Eu seria ingrato se não lhes desse o

Duas me espiam agora mesmo através da janela, numa solene expectativa. São

jovens altivas, de uma beleza desafiadora, a lançar-se para o alto desde um barranco

íngreme, numa atlética ascensão. A terceira, mais longe, tem porte de rainha entronizada

há muito: domina com serenidade o reverente arvoredo a seu redor. As três sorriem,

seguras de si, conscientes de seu poder. Sabem há muito do amor que dedico a sua

imensa, variada estirpe. Feiticeiras suaves, de modo instantâneo elas se multiplicam a

meus olhos e guiam meu coração pelas veredas do tempo.

O aceno mágico da imperial moradora do morro próximo num relance a converte

na primeira dama de sua espécie que marcou minha retina: uma nobre senhora radicada

na cachoeirana Rua da Ponte, onde nasci. Minha saudade contempla a dançarina de

poucos gestos, arrebatadora, por cujo tronco meus sonhos de criança subiam ao céu. Seu

bailado quase imóvel me leva a meandros radiosos do Recôncavo e prossegue através

dos campos gerais. Já alcança a Chapada Diamantina e o grande sertão, onde muitas de

suas irmãs vêm a meu encontro. Me espanta sua variedade, a acentuar-se no devaneio

que as torna ubíquas. Já não sei onde estou: na Bahia, em Minas, em Goiás, em

Sergipe? Contemplo nos Palmares a augusta metamorfose da lança de Zumbi. Outras a

repetem de norte a sul. Sua vibração me embriaga. Tomando para si minha memória, já

em alegre desvario, as magas de verde cocar se espalham pelo vasto mundo. De onde

são estes vales e serras que círios verdes iluminam? Minhas condutoras se divertem

misturando tempos e lugares na viagem extravagante.

A trilha que elas me desenham acompanha agora o colear de grandes rios. Perco-me em seus

espelhos. Desemboco, por fim, numa das sacristias do São Francisco, hoje golpeado de modo cruel

por projetos de gente insana. Assustadas, as belas princesas agitam seu leque,

tomam o pulso enfraquecido da amiga correnteza. Antes que a melancolia me sufoque,

retorno ao pé da minha conterrânea, ribeirinha do Paraguaçu.

Em sua honra recito de novo, desajeitado, versos ingênuos de um poeta quase

esquecido. Ela os acolhe com benévola ironia. Não, sabiás nunca se aninharam no seu

leque, nem usam para concertos o elevado palco de sua estipe. Mas é razoável associar

os dois encantos, ela ensina.

Justificado o poeta, a dama generosa me explica em silêncio porque fez de Paulo

Ormindo o portador de seu recado, seu augusto mensageiro. Sendo um dos nossos

arquitetos mais inspirados, senhor de rica imaginação, tesoureiro de um riquíssimo

patrimônio de artes e paisagens, Paulo sabe como ninguém apreciar a grata imponência

das colunas vivas geradas por nossa terra: elas são capazes de tornar em templo

qualquer espaço onde se ergam. Eu o comprovo caminhando levemente, na minha

memória embriagada de verde, pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre alas

formadas por imperatrizes. Bastariam elas para prover um irresistível encanto ao sítio,

que encerra abundante fortuna vegetal.

Mas volto ao sertão vertiginoso. Através de uma revoada melódica que seu verbo

sopra em minha lembrança, o encantado Guimarães Rosa faz voltar-se meu olhar para a

graça dos buritis e revela a meus ouvidos em transe sua alta filosofia. O vento repete nos

leques verdes o mote sibilino que o “poeta prosa” decifrou: eu sei e não sei. Tomo nota,

lição de aula tão bonita não se pode perder. O impecável tradutor se afasta sob o disfarce

lírico de um manuelzinho da croa e as macaúbas risonhas levam-me ao recreio. Em seu

adorável cortejo encontro belas senhoras grávidas — as meigas barrigudas — ao lado de

lépidas amigas e de matronas suaves com seus frutos no colo. Mais adiante, suas primas

sedutoras me chamam de modo irresistível. Fico a admirar o penteado barroco e a esguia

altivez das carnaúbas, até que outro apelo me alcança. Vem do alto de generosos

coqueiros, de que diviso grandes batalhões conquistando campos sem fim. Mas logo

tenho de fazer uma pausa tristonha: choro os que foram assassinados no Jardim de Alá.

Irado, condeno também a grosseria dos antipaisagistas que insistem em tratar membros

da nobre espécie como recrutas da monotonia, obrigando-os a ficar em fila indiana ao

longo da orla, cercados por cimento.

Agora vai longe meu delírio. Uma palmeira sagrada me atrai, seu vulto inalcançável

me chama em esplêndido silêncio. Um amor impossível prende-me ao centro sagrado de

Delos, entre cujas rochas bem sei que não posso encontrar a divina imagem. Mesmo

desaparecida, porém, ela floresce com tanto vigor que chego a vê-la nas proximidades do

Monte Cinto, num tempo longínquo. Lembra-me um aedo antiquíssimo que abraçada a

seu tronco esguio uma deusa pariu. Ouço com temor reverente o grito agudo em que se

unem à voz da mãe as testemunhas augustas do parto, quando o fruto radioso toca o solo

e a ilha se cobre de ouro vivo.

Não me surpreendo quando a palmeira sagrada alça voo. Na belíssima língua

grega, seu nome, phoînix, tem asas imortais. É um gentílico que se reporta à Fenícia,

terra que enriqueceu o mundo com escritas sutis e mitos pródigos, mas designa também

a púrpura que seus marinheiros arrancavam do mar, do seio de múrices, e, por fim, a

tamareira que encantava os helenos com seus frutos em cachos rubros. O vermelho de

um fogo que podia ser celeste, marítimo e vegetal, fascinou os lúcidos gregos, tanto que

todas as palmeiras ganharam na Hélade o título da ruiva. E o nome phôinix, que também

designou solenes heróis, veio a assinalar uma ave luminosa, inesquecível, presente

sempre em nossos sonhos, por muito que se esconda aos olhos da vigília, à pobre

percepção dos mortais. Quem pode olvidar a fênix, que ao longo de séculos se imola no

fogo e do fogo renasce? A poesia, a arte e o pensamento não deixam que este sonho

Eu travei conhecimento com a ave maravilhosa na sua última epifania: como o

Cristo que arde em nossas igrejas barrocas, vestido de plumagem flamante e enigmática.

Ainda sinto um espanto de criança, um arrepio delicioso na ideia: o assombro que me

tomou quando minha mãe me disse que era Jesus aquele pássaro alucinado, vestido de

um fogo de ouro. Revi depois a fênix em textos de inúmeros poetas e aprendi com alegria,

no tesouro da língua grega, que a palmeira também merece o nome brilhante do eterno.

Sim, com toda a razão: sua beleza se faz amar para sempre.

Anúncios