Sonata Arbórea Número 4 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 4

Por Ordep Serra

Um velho sacerdote do candomblé — o venerado Ogã Agnelo, amigo de quem

tenho muita saudade — certa vez me falou de um rito outrora celebrado aqui pelos “tios

africanos”, no tempo remoto da adolescência dele, ou seja, nas primeiras décadas do

século passado.

Começo por uma explicação: era costume nos terreiros chamar de “tios”, com

reverência carinhosa, os adivinhos ricos em mistérios, sacerdotes muito respeitados por

sua mágica sabedoria. Na época, ainda havia nesta cidade da Bahia remanescentes do

“povo da Costa” (nagôs, na maioria). Os tios gozavam de grande prestígio no meio do

candomblé. Eram muito ativos e cheios de segredos. Instituíram aqui liturgias diversas, de

que nem todas sobrevivem.

Reporto-me nesta sonata a um vago conhecimento. O Mestre Agnelo nunca

chegou a testemunhar o rito que evocava. Quando este se achava em prática, ele era

ainda muito moço, “quase um menino”, com pouco tempo de iniciado. Não era admitido

naquele círculo — a que, de resto, raros crioulos tinham acesso. Teve notícia de sua

realização através de um parente, um venerável ogã do Terreiro do Engenho Velho, onde

o próprio Agnelo mais tarde assumiria o elevado posto de Elemaxó (sacerdote de Oxalá).

De acordo com o precioso relato que o amigo escutou e me transmitiu, os “tios”

costumavam reunir-se nos primeiros dias do ano para uma liturgia oracular. Depois de

uma longa vigília, marcada por preparativos e purificações especiais, esses religiosos se

dirigiam com suas oferendas a uma grande árvore existente numa clareira da mata que

era ainda pujante em muitos trechos desta cidade. (Segundo o Mestre Agnelo supunha —

pois nunca a visitou —, a árvore bendita ficaria entre as atuais avenidas Vasco da Gama e

Ogunjá). Assim que chegavam a seu destino — ainda à luz da aurora —, os velhos

sacerdotes faziam suas preces, depositavam as oferendas e quedavam por um bom

tempo em silêncio, ouvindo a árvore. Escutavam atentamente o murmúrio das folhas

tocadas pela brisa matutina. Prestavam ouvidos, também, ao canto de pássaros por

acaso pousados na copa sagrada. Valorizavam o comentário melódico das aves

oportunas, mas era das folhas que esperavam o “recado” principal. Após um tempo de

cuidadosa escuta, eles agradeciam com palmas ritimadas a mensagem acolhida. Feito

isso, confabulavam: expunham uns aos outros suas interpretações, que discutiam e

procuravam harmonizar.

Ao contar-me essa história, meu amigo me disse que a árvore profética por certo

encarnava o orixá Okô. Em outra ocasião, falou que se tratava do deus Oloroquê, do povo

efan, cultuado num terreiro do Engenho Velho de Brotas.

Por falta de tempo, nunca pesquisei o assunto. Mas não o esqueci. Uma intrigante

coincidência me fez reter na memória o depoimento do excelente ogã. Logo que o

escutei, fui tocado por uma recordação poética: lembrei-me imediatamente de uma

passagem da Odisseia.

No Canto XIV do grande poema, o herói, já em Ítaca, tendo assumido a aparência

de um mendigo, hospeda-se no humilde tugúrio de um servo, o porqueiro Eumeu. O

pobre hospedeiro não o reconhece, pois Atena desfigurou seu protegido a fim de garantir-
lhe a segurança. Apresentando-se com uma identidade inventada ad hoc, o hóspede

afirma ao bom servo que seu amo está vivo. Na atribulada biografia que se atribui, o

mendigo-herói narra peripécias. Destaca sua viagem ao país dos Tesprotes, de cujo rei

teria ouvido notícias do soberano de Ítaca (ou seja, dele mesmo): conta que Odisseu

passou por lá a caminho de Dodona, onde foi consultar “a folhagem divina do grande

carvalho de Zeus” (verso 327), para saber como retornaria a sua terra.

Bem adiante, o falso mendigo repete essa história numa conversa com Penélope

(Canto XIX, versos 296-269).

A referência mais antiga a Dodona e à divindade que lá se cultuava se encontra na

Ilíada, no Canto XIX (versos 233-35). Aquiles reza a Zeus, dando-lhe os epítetos de

Dodoneu e Pelásgico. Faz-lhe um pedido e lembra que o deus já lhe atendera outro rogo.

Essas súplicas ocorrem em momentos decisivos, axiais na trama da Ilíada. O herói

acompanha a súplica de uma libação, em cálice que previamente purifica, reservado de

forma exclusiva ao culto de Zeus. Os três versos que dão início à prece do herói trazem

uma informação preciosa: cercavam o Zeus de Dodona sacerdotes chamados Selloí que

dormiam no chão e nunca lavavam os pés. Os tabus evocados parecem evidenciar que o

contato direto com a terra era indispensável a esses homens consagrados.

Aquiles não menciona a grande árvore, mas não há dúvida de que as dicas dos

dois poemas homéricos podem ser combinadas. Cabe presumir que desde época remota

sacerdotes atuavam como intérpretes do divino carvalho. Notícias posteriores o

Um fragmento de Hesíodo (Hes. fr. 240) e uma antiga moeda são os primeiros

testemunhos a trazer mais um elemento de informação acerca do oráculo de Dodona. O

fragmento é lacunar, mas parece fazer referência a pássaros (pombas) que tinham sede

no carvalho sagrado. A moeda, que mostra três pombas pousadas numa grande árvore,

foi relacionada pelos helenistas com o culto de Zeus Dodoneu. Bem mais tarde, Heródoto,

Estrabão e Plínio falaram de sacerdotizas consagradas a essa divindade e cognominadas

pombas. Seriam as novas intérpretes do carvalho.

Em outra sonata eu tocarei de novo nessa fronde. Por enquanto, destaco apenas

um ponto: aves eram associadas ao “pronunciamento” do oráculo arbóreo de Dodona.

Volto agora ao rito dos tios africanos de que me falou o Ogã Agnelo. Não pretendo

fazer um exercício etnográfico nestas poucas páginas. Vou limitar-me a uma breve

Começo declarando meu encantamento: me comove pensar que nesta cidade

onde vivo havia homens capazes de ouvir árvores e entender-lhes a linguagem. Estou

certo de que eles não eram loucos, nem vítimas da limitação intelectual que atribuíram ao

povo negro do candomblé alguns de seus primeiros etnógrafos, tristemente lombrosianos.

Nos terreiros, tenho encontrado pessoas muito inteligentes, dotadas de uma rica

sensibilidade e de ouvidos musicais invejáveis. Confirma-o meu amigo Xavier Vatin, um

perito etnomusicólogo: ele não esconde sua admiração pelo talento do povo de santo e

por sua riqueza estética, em particular no campo da expressão sonora. Esse talento

supõe uma refinada capacidade de leitura de sons e silêncios. (A propósito, quase não

tem sido observado o papel do silêncio na rica liturgia do candomblé. A maioria dos

estudiosos deste culto é pobre de ouvidos. Ouve só os atabaques, mas realmente não os

escuta. Muitos sofrem de tamanha surdez que classificam de “monótona” uma música de

marcante politonia. E nisso ficam).

Da leitura de sons e silêncios a imaginação tira músicas. A meu ver, está fora de

dúvida que a música não só pode expandir a compreensão como tem o dom de suscitá-la.

Em muitas culturas, valoriza-se muito mais que na nossa a música existente na

natureza. Xamãs xinguanos me falaram do que chamamos de composição descrevendo

este processo como uma descoberta, um achado, realizável quer em sonhos, quer em

momentos de extraordinária lucidez, quando eles ouvem os temas que mais tarde

executam com apoio de suas flautas, cabaças e percussores. Segundo dizem esses

viajantes de entre-mundos, a voz de seus instrumentos vegetais é especialmente apta a

capturar músicas encontradas por eles a sua volta, entre bichos e plantas, águas e céus.

Eles a recebem de vivos e mortos, tanto do fogo como do fumo. Fazem assim a colheita

de conhecimentos que permitem a cura, o encontro, a orientação.

Gosto da sua teoria, que é fruto de virtuoses: como se sabe, o xamanismo

amazônico tem na música um fundamento. Dela lhes nasce rica poesia.

Não sou autoridade no assunto, mas sempre considerei as árvores seres musicais.

Elas vêm a ser seus próprios instrumentos de sopro, por vezes de percussão — quando

nada nas tempestades, nas belas ventanias. São também salas de concerto para muitos

pássaros, além de insetos (como esquecer as divinas cigarras?)

Sim, gosto de ouvir árvores. Matas são, para mim, orquestras esplêndidas.

Não tenho o saber mágico dos velhos tios africanos, não sou capaz de traduzir o

que me dizem as plantas. Mesmo assim, gosto de seus cantares e acredito que podem

ser reveladores. Já me aconteceu passar da perplexidade à compreensão de assuntos

difíceis, de problemas graves que me atormentavam a inteligência, simplesmente

caminhando entre árvores, ouvindo seu murmúrio. Descansando sob copas canoras, já

senti retirar-se de meu coração a treva da angústia. Caminhando pela cidade, entre

grosseiros ruídos, por vezes ergo os olhos e vejo uma árvore distante que me comunica

seu silêncio. Eu o acolho e me pacifico. Sei que ele pode transformar-se em ideia, vestir –

me de um novo sentimento do mundo.

O carvalho de Zeus recebia o rogo de homens aflitos. Os velhos sacerdotes negros

que aqui demandavam um oráculo arbóreo eram expoentes de um povo perseguido,

explorado, ameaçado. Celebravam o rito divinatório no começo do ano, em busca de

conselhos com que guiar sua gente, segundo me disse o Elemaxó. Procediam com

solene, profunda seriedade. A música das copas os advertia e iluminava. Eram poetas

que procuravam comunicação com as raízes do mundo, a fim de olhar para além do

momento. Sua lembrança me inspira. Estou com eles. Alegra-me compartilhar o delírio de

nagôs e pelasgos: sim, acredito em árvores proféticas.

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