Em recente livro, Edivaldo Boaventura aborda a viagem do conhecimento

Um encontro realizado na Academia de Letras da Bahia (ALB), no último dia 28 de julho, reuniu os acadêmicos em torno do mais recente livro do escritor Edvaldo Boaventura, Viagens a Caminho do Saber, que retrata os costumes e culturas de países visitados pelo educador, que é professor emérito da Universidade Federal da Bahia. Os comentários sobre a obra foram feitos pelas escritoras convidadas Bohumila Araújo e a italiana Antonella Rita Roscill, membro correspondente da Academia, além do próprio autor, que é ex-presidente da ALB e foi recentemente eleito para a Academia de Ciências de Lisboa.

Ler esse livro é acompanhar o autor, estar ao lado dele durante a viagem. É um verdadeiro aprendizado”, afirmou Antonella Roscill, destacando que a viagem, desde os séculos antigos, “revela o desejo do ser humano de abrir seus braços para o novo e, graças às trocas culturais, técnicas e comerciais, entre os povos distantes e diferentes, e também através de diásporas, que se chegou ao conhecimento e ao desenvolvimento da cultura”.

Em suas falas, as escritoras destacaram o caráter filosófico da viagem, a visão holística do escritor e seu compromisso em democratizar o conhecimento, por meio da escrita. Conforme o próprio Boaventura defendeu na apresentação da obra, o livro resulta de meio século de crônicas viageiras. “Através da viagem realizei e realizo a minha vocação para a educação”. Este é o quarto livro de Edivaldo Boaventura dedicado à temática das viagens. Os anteriores foram: A segunda casa, Porto de abrigo e Portugal, um denso país.

“São muitas as viagens possíveis a partir do olhar do viajante. É um tema fecundo e o próprio título do livro, arquetipicamente, traz o sentido da viagem, que é de conhecimento. Conhecer a si mesmo e ao outro. O saber é para ser compartilhado. Essa é a generosidade do escritor, como forma de se doar e se educar”, destacou a presidente da ALB, Evelina Hoisel. 

Além da presidente, participaram do encontro, aberto ao público, os imortais Roberto Santos, Aramis Ribeiro Costa, Paulo Ormindo, Aleiton Fonseca, Ordep Serra, Gerana Damulakis, Joaci Goes, Suzana Marcelino Cardoso, Luís Antonio Cajazeira Ramos, entre outros acadêmicos, além de amigos do autor, como Fernando Souza, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. “Trata-se de um livro que revela a densidade de conhecimento, a maturidade intelectual e o sentido das palavras cultura e educação”, elogiou Fernando Souza.

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Aramis Ribeiro Costa lança novo livro de contos

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O ex-presidente e membro benfeitor da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa, lança, no dia 02 de agosto (terça-feira), o seu mais recente livro de contos, Retorno em tarde sem sol. A cerimônia acontece na sede da ALB, no Palacete Góes Calmon, no bairro de Nazaré, às 18 horas.

A obra reúne quinze contos curtos, principalmente em relação às narrativas habituais do autor, que classifica como “pequenas aquarelas do cotidiano, carregadas, aqui e ali, nas tintas de algumas circunstâncias inusitadas”. Os textos trazem várias de suas características mais conhecidas, como o cenário, que é invariavelmente a cidade do Salvador, capital da Bahia, e a fluência e sedução do estilo, que fazem com que o leitor, uma vez tendo iniciado o volume, não o abandone antes da última palavra.

Aramis Ribeiro Costa ocupa a Cadeira nº12 da Academia de Letras da Bahia. É um dos principais escritores da literatura baiana contemporânea. Com mais de dez livros em edição nacional, entre conto, novela e romance, tem publicado mais contos que os demais gêneros. A sua obra de contista mereceu da editora da Universidade de Santa Cruz, a Editus, a publicação de um alentado volume de Contos Reunidos, na Coleção Nordestina, que circula nas universidades de todo o Nordeste, sendo objeto de estudos universitários em vários estados.

Edivaldo Boaventura abordará na ALB aspectos do seu mais recente livro

“Em busca do Saber”. Esse é o título da palestra do educador e membro benfeitor da Academia de Letras da Bahia, Edivaldo M. Boaventura, no dia 28 de julho (quinta-feira), às 17 horas. Na ocasião, o intelectual, que é professor emérito da Universidade Federal da Bahia (Ufba), fará uma reflexão sobre o seu mais recente livro Viagens a Caminho do Saber, que retrata os costumes e culturas de países visitados pelo educador, a exemplo dos Estados Unidos, França, Itália, Alemanha, El Salvador, Uruguai, Israel, entre outros.

O evento será realizado na sede da ALB, no bairro de Nazaré, e contará com a presença das escritoras Bohumila Araújo e a italiana Antonella Rita Roscill, membro correspondente da Academia.

Academia de Letras da Bahia promove interação com jovens estudantes

A Academia de Letras da Bahia promoveu, na última terça-feira (26.07), no Palacete Góes Calmon, uma visita guiada à instituição para mais de 60 alunos da Escola Educandário Pinto de Souza, localizada no bairro do Cabula. Com faixa etária dos 11 aos 17 anos, os estudantes puderam ver de perto as instalações da ALB e simularam consultas ao acervo histórico da biblioteca, tendo acesso também às atas do arquivo da instituição literária. Além disso, houve sorteios de livros e doação de exemplares para a unidade escolar.

A iniciativa integra o projeto Ponto de Cultura Espaço das Letras, que objetiva promover atividades de incentivo à leitura e a reflexão, através de um programa que possibilite também a democratização do acesso às obras literárias, a preservação da memória e da cultura e a capacitação de jovens e adultos.

Sonata Arbórea Número 9 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 9

Por Ordep Serra

A baraúna surpreende que nem um beijo inesperado, com um belo verdor que rasga a secura. Impõe profundo respeito no campo raso da caatinga. Tem o jeito de uma capela erguida no ermo. Sente-se à vontade no tabuleiro de escasso tapete. No centro de uma clareira, faz que pareça recém-chegado o mato humilde do qual se rodeia. Arbustos reverentes então se inclinam para a saudar. Mas ela gosta de solidão. Prefere o descampado. Embora nem sempre abrigue a ave sábia, tem com sua raça um parentesco secreto: de espírito glauco, sem garras nem olhos forma sua própria coruja, toda grave, meditativa. E plácida.

A ataraxia da baraúna contrasta fortemente com a paixão da umburana, que quando moça insinua danças caprichosas com os galhos esguios, usa de modo sedutor o véu da folhagem, mas toda se despe e retorce em sua velhice trágica. É uma atriz inspirada. Os escultores do sertão tiram de sua carne imagens estranhamente serenas, ex-votos impassíveis.

Sim, ela também amamenta implacáveis marimbondos.

É benévola com todos.

Sertanejo sabe: Umburana de Cheiro, bela dama perfumada, acode com sua farmácia os pobres das terras secas. Suas sementes caridosas prodigam xarope santo, oferecem chá milagroso, tiram febre, aquietam dores humanas, curam moléstias de muitos bichos. Destaca-se a vermelha, com o rubor discreto de sua pele e os frutos sanguíneos que comunicam energia, irrigam as veias dos enfermos.

Também médica é a aroeira de flamantes frutos, sagrada casca de jacaré.

A catingueira, em geral loura de flores, mas às vezes roxa, fornece o feijão das cabras. Guarda-o com carinho em suas vagens pastoris.

Me inclino diante do soberano jatobá. Eu o conheci no sertão baiano, onde sua altura me espantou. Depois o vi em terras amazônicas, três vezes maior, um soberbo rompe-nuvens. Mas como o sertanejo marcou minha primeira admiração, ficou sendo, para mim, o pai de todos, o máximo. É que ainda o vejo com os olhos da infância. Doulhe o título merecido: Doutor Jatobá. Aprendi com os cientistas matutos que ele dá remédio à anemia, tal como a benta aroeira. Os marceneiros o veneram, dele retiram farta mobília.

Um contraste se impõe. Os jatobás e as baraúnas são parmenídeos, assim como a linda mangueira que conheci em menino e a cada encontro me afirmava estar ali desde o princípio do mundo. Já o luminoso canjoão que eu gostava de ver no mato do Jequi sempre me parecia recente, surgido de novo, nascido para ilustrar o dia, o puro momento em que eu o contemplava: declarava-se, a cada manhã, recém-surgido da noite feito uma aurora vegetal, de louras tranças. Com artes secretas, tomava o lugar do irmão gêmeo que a sombra escondera.

É feiticeiro, o canjoão. Por mais que o juízo nos aguilhoe, a gente acaba acreditando no seu discurso. Por isso torno ao jatobá. A imagem de firmeza essencial que ele comunica hoje me traz à lembrança — não sei por que estranhas veredas — versos de um poeta de muito longe. À luz das palavras de que me aproprio, mostro o firme tronco e a mim mesmo dou certeza:

— Veja, as árvores são.

Na língua do poeta, a frase tem um áureo zunido: — Sie, die Bäume sind — e por conta do belo zunir já a imagino pronunciada por uma abelha experta em zês. Mas cismo: troco o som de ouro besouro por um cicio, na nova tradução que me ocorre. Ela distorce um pouco o sentido literal da sentença, mas lhe acrescenta o vento na folhagem:

— Sim, as árvores são.

Daí volto à fonte alemã e no som que o trema impõe a Bäume enxergo um galho recurvo.

Bendito seja Rilke por sua Segunda Elegia, em que plantei um jatobá. (Às margens do Duíno, vejam que loucura! Mas creio que ele gostaria do intruso).

Torno ao sertão, recorro a letras brasileiras. Euclides da Cunha prestou grande atenção às árvores da caatinga. Fez uma espécie de ode em prosa aos juazeiros, assim no plural. Celebrou o esplendor que ostentam em meio ao “depauperamento geral da vida”, na dura agrura das terras áridas. É que eles ignoram a canícula, desafiam a seca com suas ramagens virentes em plena soalheira, “salpintando o deserto com as flores cor de ouro, álacres, esbatidas no pardo dos restolhos”. Na caatinga, diz Euclides, juazeiros figuram “oásis verdejantes e festivos”.

O grande escritor não foi menos justo com o umbuzeiro, “a árvore sagrada do sertão”: evocou suas dádivas generosas, os ricos momentos de alegria que dispensa ao sertanejo preso à labuta em meio a terrível secura. O cronista de Canudos retratou ainda outras belas plantas do deserto e descreveu com maestria o milagre da caatinga, sua espantosa ressurreição à primeira chuva. Confirmo: quem já contemplou essa primavera instantânea nunca mais a pode esquecer. Vai apaixonar-se para sempre por uma flora rude e fantástica.

Enquanto me disponho a acompanhar o mestre Euclides na reverência ao mandacaru, me assalta uma lembrança irresistível: vejo o cacto de Manuel Bandeira, “belo, áspero, intratável”. Citadino embora, ele me lembra magníficos guerreiros de sua espécie que encontrei no sertão calcinado, desafiando o sol com seus verdes candelabros, ferozmente ouriçados.

Grandes e pequenos, todos os cactos me encantam. Guardo na memória o sabor do cortado de palmas, a graça dos quipás de coroa festiva, a religiosa admiração que sempre me comunica o rubro fervor das cabeças-de-frade, capazes de aninhar-se angelicamente até em côncavos de lajedo.

Ainda na trilha euclidiana, homenajeio tremendos arbustos: unhas-de-gato, favelas, xiquexiques. Saúdo a falange feroz, armada de garras agudas que prendem e laceram. Mas feito o louvor, eu prudentemente me afasto; volto-me para os mulungus generosos, de cujo feijão vermelho também já me alimentei. E por fim me socorro da beleza de touças amáveis a que agora rezo:

Senhora Jurema sábia Cabocla, na forma branca, na forma preta, na forma mimosa, dá-me tua luz.

Teu amor me envolveu com o ritmo forte do toré, com o batuque divino que acompanha teus múltiplos ritos de encantaria. Vinho puro de tuas veias delicadas me trouxe aos lábios a melodia do sagrado, junto com o mel de celestes abelhas, quando te vi dançar em terreiros festivos.

Bela rainha de seios floridos, a caatinga mágica, o mistério dos campos gerais e a selva dos começos se escondem na ondulação do arbusto que guarda teu sangue. A bênção, Mãe Índia, Espírito Santo do sertão, sonhadora amável. Envolve meu coração com tuas folhas de poesia.

Edilene Matos assume Cadeira nº 13 da ALB

A Academia de Letras da Bahia elegeu, nesta segunda-feira (25.07), a imortal que assumirá a Cadeira nº 13, antes de posse da poeta Myriam Fraga, falecida em fevereiro deste ano, aos 78 anos. A professora da Universidade Federal da Bahia Edilene Dias Matos foi a escolhida para assumir o lugar na instituição literária. Ela trabalhou na Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), onde fundou o núcleo de literatura de cordel. Possui um importante e pioneiro trabalho sobre oralidade.
“Insisto que os escritores, poetas, ensaístas, vocês todos, fazem parte daquele grupo de artistas cujo trabalho é incansável com as palavras, gestos, a imagem. Esta casa é o abrigo certo para estes artistas”, disse ela, durante a sessão. No dia 15 de agosto, os imortais da ALB elegem o novo confrade da Cadeira n º 22, que era ocupado pelo escritor Clóvis Lima, que faleceu em março de 2016, aos 102 anos.

Sobre a acadêmica

Edilene Dias Matos concluiu o doutorado em Comunicação e Semiótica/Literaturas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1999. Tem Pós-Doutorado em Literatura/Cultura Brasileira pela USP – Instituto de Estudos Brasileiros (2000-2002). Tem Pós-Doutorado (2012- 2013) pela Université Paris-Ouest Nanterre La Défense (França).

Ordep Serra fala sobre metafísica na ALB

Foi ao som dos acordes do violão do músico Mário Lhoas que o antropólogo da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e imortal da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra, falou, na última quinta-feira (21.07), sobre literatura e filosofia. O objeto de estudo apresentado pelo intelectual baiano foi a metafísica, uma das disciplinas fundamentais da filosofia, que doutrina os princípios da realidade tendo como conhecimento a essência dos seres e as razões de estarmos no mundo.

“Segundo Aristóteles, no que toca a ordem efetiva da realidade, a metafísica é filosofia primeira. Mas, na medida que nos corresponde, ou seja, o nosso ponto de vista, ela vem depois. Quem acredita que a indagação aristotélica sobre o sentido de ser não tem pertinência, tem a obrigação de prová-los. Difícil é achar quem tem o ônus e o bônus desta prova. Aristóteles não obriga que o sigamos, mas apenas que avancemos”, dizia um dos trechos do texto, em alusão ao grande pensador grego.

Outro campo de análise da Metafísica são as relações e interações dos seres humanos com o Universo, a qual Ordep Serra questiona a real sobrevivência. “Por diversas vezes, talvez a metafísica já tenha efetivamente morrido, mas sempre acaba voltando com novos ares. Como se explica esta agonia interminável? Se ela efetivamente morreu, porque não a deixam em paz? Se a recomeçam a toda hora não será para que sobreviva?”, indagou.

O pesquisador, que ocupa a Cadeira nº 27 da ALB, ganhou por duas vezes o Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, em 2008 e 2010, consagrado pelas obras Sete Portas e Ronda: Oratório malungo. Ficções de olufihan.