Sonata Arbórea Número 6 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 6

Para o poeta Cajazeira, meu amigo arbóreo e antihegeliano.

Por Ordep Serra

Esta sonata vai desenvolver um tema capturado por minha memória, uma curta melodia teórica nascida no horto de um poeta e colhida por um filósofo em transe dialético. No seu único movimento, comentarei um pequeno trecho de um ensaio de Hegel sobre a Filosofia da Natureza. Declaro logo o que me interessa nessa estranha obra: a fantasia. Dificilmente se achará em suas paginas um esclarecimento efetivo dos domínios científicos que o pensador pretendeu incorporar a seu sistema. Aí a pura especulação cavalga à rédea solta esquemas e noções da ciência da época, injetando no mundo físico uma torrente de conceitos com que o filósofo busca descrever a viagem do Espírito rumo a si mesmo, com o ponto de partida nessa travessia. O resultado me parece

Sei que isto soa irreverente. Explico que não menosprezo a poderosa imaginação teórica do pensador de Jena. Aprecio sua verve fantástica. E confesso que leio sua Naturphilosophie com interesse poético. Como bárbaro que sou, nas criações da dialética hegeliana saboreio um romance,uma espécie de novela metafísica, por vezes marcada por deliciosa extravagância. O texto a que me reporto integra a Filosofia Real e deriva de um manuscrito com os apontamentos do pensador para um curso oferecido em Jena, em 1806. O texto é esquemático, sumário, com jeito de anotação para desenvolvimento ulterior. Tem lacunas e pontos obscuros. As sentenças rápidas, ansiosas por alçar voo, não raro estacam antes do termo, como que preparando o pulo. Muitas incorporam secretas reticências. Por vezes, palavras importantes precisam de ser conjeturadas, adivinhadas. Os editores se esforçam por preencher os vazios e dirimir dúvidas com recurso a glosas filológicas. No pé de página alinham comentários breves, envolvendo, aqui e ali, notas do próprio Hegel ou de seus alunos.

Dica para meus leitores eruditos: os ensaios da Filosofia Real se incluem no oitavo tomo da edição crítica das obras completas de Hegel (G. W. F. Hegel. Gesammelte Werke, 1968), geralmente indicada pela sigla HGW e dada a lume em Hamburgo pela Rheinische-Westfallische Akademie der Wissenschaften. Há pouco revisitei esse estudo na celebrada tradução espanhola de José Maria Ripalda (México, Fondo de Cultura Económica, 1984). Ripalda, na atualidade um dos mais destacados especialistas em Hegel, além da tradução brilhante fez verdadeiro trabalho de editor, A Filosofia Real encerra duas partes: I. Filosofia da Natureza e II. Filosofia do Espírito. No terceiro capítulo (dedicado ao Orgânico) do ensaio intitulado Naturphilosophie, depois de ter discorrido sobre o que chamou de “organismo mineralógico”, Hegel aborda o vegetal. Caracteriza- o como “individualidade orgânica imediata” em que prevalece a espécie (pois nele “o individual não volve a seu próprio ser, não se sente a si mesmo”). Dito isso, inicia pela semente o exame do processo de constituição da planta. Pensa a raiz, segue pelo tronco, considera a folhagem e os brotos, até que chega a flor e fruto. Veja-se a partida (HGW 8.131): “A semente, dada a imediatez de sua individualidade, é uma coisa neutra; cai na terra; a terra em si nada mais é para ela que a força em geral; a semente não extrai alimento da terra enquanto terra, nutre-se apenas de ar e água”.

Logo a seguir, o filósofo oferece um primeiro vislumbre do ente vegetal como um todo: “A planta é, pois, processo dúplice: transforma o ar em água. Aqui, de nada servem as opiniões químicas para a explicação da passagem do nitrogênio ao hidrogênio, pois para a planta ambos são matérias insuscetíveis de transformação; a mediação se dá pela negativa ipseidade que é o gás oxigênio. Mas com isso não finda o processo, que volve ao carbono, ao subjetivo, real, químico”. Dado esse fantástico esclarecimento, ele prossegue a análise por partes. Na raiz, vê “… a força hermética, a pura ipseidade, que justamente por sua imediata simplicidade recai no inorgânico, é a fibra em geral. Quimicamente considerada, [a raiz] é carbono, sujeito abstrato; mas segundo seu conceito é a mera força, enquanto tal; é semente que permance na terra, sua simples treva, pura madeira sem casca nem medula.” Já a folhagem se mostra a seus olhos “processo vivo da luz, que vem a ser processo do fogo, dissolve a figura e a produz como ser-para-outro”. Nas folhas — diz ainda Hegel — a planta realiza seu desdobramento, que vem a ser “o extremo da externalidade, da dissolução, da singularidade superada, processo enquanto tal”. O filósofo destaca logo o que nisso considera “essencialmente notável”: “a [circunscrição à] esfera do genérico, de que a planta não sai”. Afinal, “[a planta] é o simples, que em sua articulação da singularidade não vai além de sua substância geral.” Essas breves citações bastam, creio eu, para que o leitor perceba o tom de devaneio especulativo do texto. Espero que não me condene por achar bizarro o famoso tratado. Em todo o caso, repito que o leio com interesse lírico.

Agora chego ao ponto que desejo comentar. Numa parágrafo sucinto (HGW 8.137), Hegel afirma que “cada parte é a força de toda a planta e pode representá-la”. Dá como prova dessa tese o seguinte: “caso se revire uma árvore, plantando seus ramos na terra, brotos despontam e as raízes se transformam em ramos perfeitos; da casca também rompem rebentos e os ramos volvem à raiz”. Intrigado com esse trecho que verti com dificuldade (Ripalda tampouco o tornou claro em sua ótima tradução), cheguei a supor que tinha fundo mítico. De certo modo, mantenho essa ideia, mesmo depois de ter encontrado melhor explicação. Justifico: tenho para mim que a mítica continua a ser o incontrolável substrato da filosofia e de vez em quando irrompe dessa profunda camada subterrânea um jorro vulcânico originador de novas formações de relevo no espaço teorético.

No embate com o trecho evocado, primeiro me veio à mente a Asvartha, a árvore cósmica que tem suas raízes no céu, de acordo com o Bhagavad Gita. Não presumo que Hegel tenha pensado nela, na poética figura do pensamento hindu. (De resto, etnólogos têm mostrado a recorrência desse Weltbild em inúmeras culturas, pelo mundo afora). Outra lembrança, mais razoável, me dirigiu a uma das fontes que alimentaram o pensamento de Hegel: lembrei-me de uma curiosa metáfora de Platão, empregada no Timeu (90a-b) para caracterizar o homem, figurado à imagem de uma árvore, de origem não terrena, mas celeste, cuja raiz corresponde, no corpo humano, à cabeça, por onde a divindade nos comunica o intelecto, a alma. Achei que esta imagem platônica (de inspiração talvez órfica) poderia ter influenciado a reflexão hegeliana sobre a planta, emergindo das profundezas do inconsciente do criador da nova dialética.

A melhor explicação do trecho encontrei depois de lembrar-me de que a Naturphilosophie teve outra redação, muito mais clara e sólida, com argumentação já apurada e maior apoio na ciência da época (o próprio Hegel admitiu que o texto de Jena era um esboço de principiante). No segundo volume da Enciclopédia das Ciências Filosóficas (ECC), que data de 1830, recapitula-se a Naturphilosophie. Antes de recorrer a esse texto maduro, peço vênia para uma digressão. Minha primeira leitura da Filosofia Real hegeliana se concentrou na última parte. Suspeito que a maioria dos cientistas sociais procede assim: é a Filosofia do Espirito que mais nos interessa, pois encerra uma poderosa reflexão sobre a sociedade, o direito, os mores, o estado e temas conexos. Passei quase por alto a Naturphilosphie, que, como já confessei, me pareceu um ensaio curioso, bizarro. Isso não me impediu de admirar o ambicioso projeto de Hegel, fruto de uma potente fé filosófica (para falar como Jaspers). O symbolon, o credo que lhe corresponde pode talvez exprimir-se numa bela sentença, a saber, no lema heracliteano que o jovem Hegel e seu amigo Hölderlin usavam como epígrafe em seus cadernos escolares, quando ambos eram estudantes no Seminário de Tübingen: hén pánta (“tudo (é) um”). Na chamada Filosofia Real, Hegel empenha-
se em considerar a passagem do inorgânico ao orgânico a fim de re-unir essas dimensões e, progredindo, ligar o mundo físico ao espaço da vida inteligente descortinada no horizonte da sociedade, da cultura, do estado: um enlace visto por ele como indispensável, desde quando tudo é história a seus olhos sequiosos de Espírito.

Sua ousadia me entusiasma. Devo confessar que me encantam as “grandes narrativas” hoje olhadas com suspeita e profundo descrédito. A suspeita pode até justificar-se, mas o desdém que geralmente a acompanha me parece injusto. No ressequido nicho pós-moderno, tem dado pretexto a uma atitude desanimada e ressentida, de auto-limitação, de adesão à miudeza, com tempero de acídia. Mas não escondo que aprecio a “grande narrativa” hegeliana com prazer principalmente estético. Talvez ela seja a última das cosmogonias em linguagem filosófica, um grande mito a que não falta beleza nem, tampouco, força elucidativa.

Torno agora ao trecho que me perturbou. Nas páginas 386-7 da ECC Hegel revela a fonte real de sua tese e torna mais clara a prova que aduziu. A fonte vem a ser a obra de Goethe intitulada Metamorphose der Pflanzen (Metamorfose das plantas). Hegel lamenta que os botânicos não lhe tenham dado atenção e procura fundamentar a intuição do poeta pensador, para quem o crescimento das plantas corresponde a metamorfose de uma só, idêntica formação. Essa totalidade se projeta em muitos indivíduos em que realiza sua ek-stase (seu Aussersichgehen). Digo melhor: em que seu todo se extasia (se transpõe na diversidade). “As partes da planta chegam à existência como iguais, de modo que no vegetal cada membro pode facilmente transformar-se em outro”. Hegel procura fundamentar essa tese evocando uma experiência: lembra que se têm invertido árvores, virando as raízes para o ar de modo que galhos e ramos mergulhem no solo e o resultado é brotarem ramos, folhas, flores e frutos das raízes tornadas aéreas, enquanto os ramos se tornam raízes. Botânicos dirão que essa experiência, possível só com alguns vegetais (Hegel cita exemplos em outro trecho), não justifica a tese goetheana. Pouco me importa.

Na passagem da Filosofia Real que acima citei, me encabulou a descrição esquemática do processo porque Hegel, entusiasmado, sugeriu uma “ramificação” profusa da planta, uma tão intensa e completa irradiação que em minha mente a bendita árvore compôs um grande círculo. A imagem subsiste. Comovido por sua força (mais emocionante que razoável), dou razão aHegel. Em processo desde sempre, a árvore circula. É seu próprio ciclo. As folhas o mostram na sua fexpressão luminosa. Os galhos que deitam flor e fruto assim mesmo carregam as sementes — e quando estas se aninham no solo, pode-se dizer que a renda frutífera donde procedem suscita o vir a ser da raiz, onde sua trama se recapitula. Verifico: a planta inteira está em cada uma de suas partes, agora repostas em um núcleo vivo — e assim se irradia. A escuridão da raiz e a cobertura solar da folhagem se correspondem. A luz que as folhas bebem desce à profundeza da terra, a treva radical ascende à copa que gera sombra. Ao se erguer num jato firme, o tronco liga os extremos que opõe e Penso em Goethe na Sicília, arrebatado por sua visão da Urpflanz. Fascinado pela verde intuição do poeta, contemplo uma árvore através da minha janela. Percebo que ela traz em seu corpo inúmeras outras de que veio, sem as quais não existiria, e muitas ainda que nela se insinuam como virtuais descendentes, enriquecendo-lhe a presença com sua possibilidade. Vejo que há um bando de irmãs à sua volta e todas fazem vir à tona da existência idêntico impulso, repetem de diferentes modos o mesmo gesto existencial, como um canto que juntas entoam, vestidas de suas espécies. Cresce meu delírio dialético: no grande coro assim formado, já não distingo das presentes as árvores que elas convocam e fazem cantar desde a origem, ou desde o futuro. Sua música me toma: sinto-a jorrando na minha cabeça (minha celeste raiz), donde flui por meu corpo todo.

E então floresço.

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