Sonata Arbórea Número 7 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 7

Para Niara Jost Sei que eles existem no Brasil.

Por Ordep Serra

Sei que eles existem no Brasil. É possível encontrá-los aqui perto, em Minas Gerais.
Florescem no sudeste e no sul do país, transplantados por mãos saudosas. São poucos, porém ricos
de sereno vigor. Projetam sombras de nostalgia. Saúdo com carinho esses belos migrantes, mas foi
na Europa que conheci a esplêndida raça dos carvalhos. Aprendi logo que este nome se aplica a
mais de uma centena de espécies e que delas outrora havia densas florestas no continente europeu.
Seu número continua grande por lá e sua beleza impõe respeito, garante-lhes proteção. Não são
menos pujantes os seus irmãos norte-americanos.

Ainda me lembro de meu primeiro encontro com um majestoso roble, na França. Era alto
que nem uma torre, com uma bela copa onde tons castanhos e rubros se misturavam ao verde. Três
homens mal poderiam abarcar-lhe o tronco. Um amigo me explicou que aquele príncipe tinha mais
de quinhentos anos. Nada de incomum ou excessivo na sua família: carvalhos há que chegam a um
milênio, ou mais. Não demorei a lembrar-me do nome latino da sua espécie, que os cientistas ainda
chamam de Quercus robur. A imponência do venerável gigante logo me fez recordar que da palavra
robur derivam não só os nomes vernáculos roble, robor, como o adjetivo robusto.

Drys, o nome helênico do carvalho, também me acudiu imediatamente. Veio junto com
lembranças do tempo em que me dediquei à filologia clássica na Universidade de Brasília. Foi lá
que comecei minha carreira de professor, dando aulas de grego antigo. Como todo helenista sabe, a
palavra drys, de raiz indo-europeia, a princípio tinha o amplo significado de árvore. Os helenos só
se familiarizaram com os carvalhos no território a que deram nome. Segundo os especialistas na
língua e na protohistória dos indoeuropeus, não havia carvalhos na região de onde se conjetura que
eles partiram na sua espantosa diáspora. (Em todo o caso, os futuros helenos certamente admiraram
carvalhais na passagem pela centro da Europa, rumo a seu nicho mediterrâneo). À falta de outro
termo, os povos que viríamos a chamar de gregos fizeram do soberbo vegetal a árvore por
excelência. Tiveram logo de recorrer a outro substantivo, déndron, para a designação genérica, mas
por longo tempo usaram drys com os dois significados.

Graças não só a gregos e latinos como a escritores de toda a Europa (antigos, modernos,
contemporâneos), sem esquecer alguns da América, quando me deparei pela primeira vez com um
carvalho, reconheci um velho amigo. Já lhe tinha colhido inúmeras folhas de prosa, de versos, de
música. Frutíferas imagens, verdes melodias de sua beleza vicejavam em minha memória. O sabor
de sua carne eucarística já me havia acariciado a língua (não poucas vezes, confesso), na amável
companhia do uísque, de bons vinhos, até de cachaça. Esse primeiro encontro foi, portanto,
antecipado pela memória, que o encheu de tempo, de modo que até hoje seu dia transborda.
Embora me aparecesse rodeado de lembranças, o belo roble mostrou novidade. Em seu
invisível espelho contemplei multidão de árvores — todas juntas no seu corpo, até mesmo as
desconhecidas. Peço licença à coorte : quero falar agora do carvalho que não vi, que nenhum ser
humano contemplou. Olhos efêmeros jamais o enxergaram. Para aproximar-me dele, sigo os passos
remotos do misterioso pensador a que se manifestou seu ser encoberto.

Quem era mesmo esse homem? Pouco se sabe a seu respeito. Seria um natural da ilha de
Siro, chamado Ferécides, cuja vida vida transcorreu no século sexto antes de nossa era. Trata-se de
um dos patriarcas da filosofia. Autores antigos o diziam mestre de Pitágoras. Seu vulto se confunde
com o do suposto discípulo: às vezes é difícil saber qual dos dois seria o autor de certas proezas
legendárias. Os gregos viram em Ferécides um profeta, um mago, um sábio inovador, um filósofo.
Na Metafísica, Aristóteles o classifica entre os “teólogos”, mas adverte que ele não empregou só a
linguagem mítica: já teorizava. Outra inovação: de acordo com uma glosa do Suda, o sábio de Siro
teria sido o primeiro a escrever em prosa.

Na sua singular Teogonia, Ferécides afirma a existência de uma trindade divina, eterna, a que atribui a criação de todas as coisas: Zas, Ctônia e Khrónos. O nome Zas pode entender-se como “Portador da Vida, Vivificador”. O deus que ele designa assimila-se a Zeus. Uma cita de Laurêncio Lídio o identifica com Hélios, o divino Sol. (Essa teocrasia era comum entre os órficos). Khrónos vem a ser o nome grego para o tempo. (Na obra de Ferécides, a figura do Tempo divino se se funde à pessoa mítica de Krónos. Isso também ocorre nas teogonias órficas). O nome de Ctônia deriva de khthón, termo que em grego designa o solo e as profundezas subterrâneas.

Não cabe numa pequena sonata a discussão dessa complicada teogonia de que só restam
fragmentos. Vou destacar apenas uma passagem.
Reporto-me, primeiro, ao chamado Papiro Grenfell, onde se lê um trecho da narrativa
fantástica das bodas de Zas e Ctônia. Segundo Ferécides, no terceiro dia da festa, ao erguer pela
primeira vez o véu da noiva, Zas lhe deu um presente. Com esse gesto, ele inaugurou o rito das
anacaliptérias, criando um padrão de liturgia nupcial para os helenos. O presente de Zas à noiva foi
um belo manto em que o deus amoroso bordou com capricho, em cores variadas, “Gê e Ogeno e as
moradas de Ogeno…” Ou seja, a Terra e o Oceano, que no imaginário dos gregos a circunda com
seus abismos fecundos. Neste ponto se interrompe o fragmento.

Daqui salto para duas citações de Clemente de Alexandria, salpicadas no tapete de suas
Miscelâneas (Strom. VI, 9 e VI, 53). Na breve referência que faz ao texto de Ferécides de Siro, o
padre apostólico evoca o esplêndido manto confecionado pelo criador e acrescenta que esse phâros
foi deposto sobre um carvalho alado. De modo ainda mais sucinto, Máximo de Tiro (IV, 4) evoca
“árvore e peplo” ao mencionar a obra do misterioso pensador.

A ideia de um carvalho alado tem intrigado, ao longo de séculos, os historiadores da
filosofia. Sugere uma fantasia descontrolada, irracional. Voltarei a isso daqui a pouco. Uma questão
preliminar se coloca: donde vem esse estranho carvalho? No momento da história ferecidiana em
que Zas presenteia a noiva divina, ainda inexiste o mundo que o manto compõe. A árvore sobre qual
o amoroso criador o estende não é, pois, nenhuma das plantas que virão a ser.
Avancemos. Nas bodas misteriosas se unem dois deuses, Zas e Ctônia. Ferécides afirma que
depois das núpcias (por obra do presente recebido) Ctônia se torna Gê, vem a ser a Terra. Seu
primeiro nome faz pensar em profundezas abissais.

Neste ponto, nos acode a lembrança de Hesíodo, que fala das “raízes da Terra” mergulhadas
no Tártaro. Hesíodo por certo se reportava, de modo indireto, à imagem tradicional de uma árvoremundo,
ou seja a uma figura do mundo em feição de árvore, símbolo encontrável em diferentes
mitologias e ainda vivo, por certo, na imaginação mitopoética dos gregos da época. É a esse
Weltbild que remete o carvalho de Ferécides.

O manto sobre a árvore completa a transformação de Ctônia, constitui a superfície onde
virão à existência os seres efêmeros: plantas e bichos, todos os viventes. O que precede essa
aparição só pode ser perene. Logo, o ente misterioso que se vela e revela nas núpcias divinas deve
ser eterno. Concluo: pertence à eterna essência de Ctônia a árvore secreta que Zas reveste. Na
teogonia ferecidiana, informa Diógenes Laércio, Ctônia torna-se Gê (a Mãe Terra que conhecemos)
quando o deus a cobre e fecunda. Ou seja, o carvalho alado é a própria Ctônia, sujeita a erótica
transformação. A bela planta que traz o mundo na sua copa compõe sua imagem nupcial.

Não falo gratuitamente em transformação erótica: Maximo de Tiro resume o lance das
primeiras bodas referindo as divindades que o protagonizam. São três, não duas, embora o ato
consumado seja o enlace de um casal. Formam a trindade nova “Zas e Ctônia, e Eros neles”.
Entendo que a árvore-mundo só se completa, floresce e ganha sua copa, quando o deus nela
estende o manto, vale dizer, quando o Vivificador se estende sobre a deusa amada. Conforme
sempre disseram os gregos, o carvalho pertence ao Pai celeste, ao divino nubente da Terra, a quem
eles rogavam: “Chove, fecunda, querido Zeus!” É que os helenos entendiam a chuva como
fecundação da Terra pelo Céu. O carvalho com seu manto vivo representa a união criadora e, ao
mesmo tempo, o mundo que faz surgir.

Não me desconcerta a imagem de um carvalho alado. Todo o povo vegetal que leva esse
nome comunga pássaros. O mesmo sucede com inúmeras plantas. As folhas do arvoredo são uma
espécie de plumagem. E já muitas vezes senti impressão de voo admirando contra o céu a copa de
uma grande árvore, quando o vento faz deslizar as nuvens no alto. Então é a árvore que parece
mover-se. Sua copa flutua no azul celeste. Gosto muito de contemplar essa aérea navegação, que às
vezes me embriaga.

Confesso também meu doido amor às tempestades que levam os gigantes verdes ao
desvario. Quando a ventania os agita, os ramos são asas frenéticas. Seu inútil apelo traduz a loucura
da existência, mostra-me o véu oscilante da vida.
O carvalho alado, que nunca vejo, é bem real para mim.

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