Sonata Arbórea Número 8 – Por Ordep Serra

SONATA ARBÓREA NÚMERO 8

Por Ordep Serra

Amendoeira na esquina de casa
Dava toda sorte de comida de mentira
Menos o arroz da Maria-fecha-a-porta
Ali defronte minha irmã quebrou o braço

Mangueira no quintal de meu avô
No galho a gente fez um balanço
Ia trocar gamelas e buscar ovos
E no outro canto um cajueiro que não sinto saudades
Mas lembro da fumaça da torra da castanha com Suely, de quem nunca mais tive notícia

A água gelada nas pedras âmbar
Do rio de trás da casa de tio Antônio
Que nem sei se passa lá mesmo Ou só no mapa da saudade A inigualável casa de tio Antônio! Saudade de todas as árvores!

Saudade da goiabeira do Posto Leonardo
Saudade das sete macieiras perNiladas que via certa época da janela de casa
Saudade pré-datada desta bétula contorcida
– tronco acanelado –
Que um vizinho sem coração
Marcou pra ser derrubada
Que ele prefere ver a rua…

O poema em epígrafe não é meu. Foi escrito por Marina Martinelli e publicado em seu blog (literaturista.wordpress.com). Aqui ele não somente introduz a sonata como a faz germinar, cria-lhe o tema, dita a melodia que dá corpo a sua música. Chamase Saudade de Árvores o coração lírico desta Sonata. Marina o pôs a pulsar quando morava na Noruega. Seus versos percorrem diferentes lugares, que terminam entrelaçados numa rede utópica, tecida com folhas.

A amendoeira rica em sabores insuspeitos é baiana, de Salvador, assim como a Maria fecha a porta, que — aprendam os leitores — oferece às meninas o verdadeiro arroz de mentira. A árvore se agita, chora ao lembrar-se da criança com o braço quebrado que ela tentou em vão consolar. Todo os bêbados do bar do Chico, que Oica pertinho, escutaram o gemido de suas folhas, seu apelo aOlito.

O quintal com mangueira Oica em Brumado, a cidade do sudoeste baiano em que o avô dorme para sempre. A mangueira com seu braço vigoroso sustenta ainda, em campo lírico, o ritmo do balanço que atravessa o tempo. O cajueiro à margem da saudade deixa correr uma fonte aromática. Sua lembrança se impõe, revelando a força de um manhoso inesquecível. A fumaça das castanhas desenha-lhe a sombra viva e incensa o lugar com seu enigma. Em seus arabescos tento ler as notícias perdidas de Suely.

Mas rapidamente a cena muda. Estou agora à beira de um rio de águas geladas, que rodeia pedras de âmbar. Eu o reconheço. É o Rio Brumado, que atravessa a cidade de Rio de Contas e passa nos fundos do quintal de Tio Antônio, assim como o Rio do Antônio percorre Brumado. (Já o Rio de Contas passa por vinte municípios, de Abaíra a Itacaré, sem tocar a terra a que dá o nome).

Quem se acostumou a essa geograOia de transferências não se espantará demais ao ser lançado cada vez mais longe atrvés de espelhos corredios onde se reOlete, melodicamente, a dança de árvores longínquas.

Eu me deixo levar.

Com a saudade que me contagia, vejo-me agora no Leonardo, à beira do Twatwari. E sigo pela veia do Kuluene, rumo à corrente mágica do Xingu. Embarco na lembrança de Marina a me contar, já moça, que ainda sonhava com a mata xinguana onde esteve em criança. Recupero seu entusiasmo infantil com a beleza dos jacarés que viu Olutuando no grande rio, sutilmente precedidos por buquês de borboletas. Resgato a cena em minha memória: as pétalas voadoras dançam pouco acima das ventas emersas do bicho, cujas mandíbulas tremendas se escondem discretamente sob o véu deslizante da correnteza.

(Ainda bem que não sou crítico literário, um desvio desse tamanho não se justiOica. Mas foi o poema que me levou para a água por um atalho da memória. Balbucio minha frágil desculpa: quem vê um jacaré nadando em rio ou lago, bem o pode confundir com um tronco deslizante — se ele não estiver, é claro, devidamente borboletizado. E na mitologia xinguana um jacaré sedutor está associado ao pequizeiro, árvore muito prestigiada por Tio Antônio e por todo o povo de Rio de Contas. Por incrível que pareça, trata-se mesmo de um bicho arbóreo).

De volta aos versos de Marina, me intrigo um pouco. Sei que a autora não esquece a visão fantástica da Oloresta de galeria rompendo a savana, mas a goiabeira do Posto Leonardo — de que eu não consigo me lembrar — ganha em seu poema um fantástico privilégio: toma o espaço lírico da poderosa Oloresta, que diante dela se retrai. Trato de plantar em minha imaginação a dama das goiabas. Esta suave canibal me assusta um pouco: só me parece que ela guarda em seu ventre esguio todo o universo xinguano. De longe, eu lhe faço uma reverência.

Mas a viagem Olorescente ainda não se completou. O volátil mapa da saudade, que aproximou do Xingu a casa riocontense de Tio Antônio, põe agora a árvore misteriosa do Leonardo a dialogar com sete macieiras de Oslo. E o tema da conversa é o anunciado sacriOício de uma bétula. Escuto: elas caem de pau no vizinho sem coração. Lembro-me, em seguida, de uma bétula que me hipnotizou com o olho único, irresistível, aberto para sempre em seu tronco, por obra e capricho de deuses vikings. (Lembrou-me logo Odin). Rezo generosamente a todos os bravos da corte de Freya para que sequem o ímpio. Reza forte: garanto que o miserável está lenhado. As amáveis ruas de Oslo não o querem ver.

Volto ao começo do poema pensando nas belas amendoeiras hoje perseguidas em Salvador por gente estúpida com alma de cimento. Logo esta árvore, a mais feminina de todas, a planta que desde a antiguidade é símbolo das mulheres, que o povo da Idade Média europeia associava a Nossa Senhora, querem banir da nossa orla. Malditos sejam os estupradores da cidade, os anti-arbóreos.

Mas a saudade tem força nas suas asas Olorescentes que o poema desvela. Dessa força a esperança ressurge. Celebremos seu manto verde. E com o alento da poesia, esconjuremos a estupidez, rezando por todas as árvores.

Salve Marina, cheia de graça.

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